A que se presta este blog??????????...............a estabelecer notícias, comentar fatos do cotidiano no e do mundo........elaborar alguma crônica de autoria dos blogueiros responsáveis (que, é óbvio, são maiores, responsáveis, éticos, e nada crianças - embora possuir a leveza das crianças "educadas" não seja nada ruim!!!!!).......realizar críticas, como pensamos não existir nas mídias que temos e vemos..........com, cremos, sabedoria e precisão.........com intuito de buscar melhorias em nossas relações com os seres vivos........e com/para o mundo..........se possível!!!!!!................


Críticas por e pela ARTE ( ESTÉTICA COM ÉTICA - como deve ser!!!! - desde a PAIDÉIA - a BILDUNG - .......ATÉ O SEMPRE!!!!!!!)



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"UMA FOTO É UM SEGREDO SOBRE UM SEGREDO.

QUANTO MAIS ELA DIZ, MENOS VOCÊ SABE."
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"A VIDA É UM SONHO.

TORNE-O REAL".
M.T.
"EM TEMPOS DE M E N T I R A UNIVERSAL,

DIZER A V E R D A D E É UM ATO REVOLUCIONÁRIO"

George Orwel

segunda-feira, 30 de maio de 2016

DEUS É IMANENTE E CONHECIDO PELA RAZÃO E PELO CORPO

Guilherme Reolon de Oliveira

Primeiro o homem inventou o mundo, deu nome aos deuses, inquietou-se com os astros, com os anjos e com a divindade. O Renascimento marcou o parto de uma outra cultura, que colocou o homem e suas inquietações – e não mais Deus – de volta ao centro do mundo (embora mesmo entre os gregos, não o homem, mas a polis é que estivera na centralidade de seus pensamentos). Pouco depois, o século 17 marca a vitória da razão e da ciência sobre a religião – movimento batizado de Iluminismo, que dará início à Filosofia Moderna (com Descartes, Espinosa, Locke e Kant) e com o barroco nas artes.
Françoise Dosse (2007), a partir da obra Les mots et les choses, de Michel Foucault, publicada no ápice do estruturalismo francês, em 1966 – mesmo ano de Écrits, de Jacques Lacan –, destaca que a primeira configuração do saber estudado pelo filósofo é a episteme que compreende a Renascença até o século 16, fundamentada no mesmo, na repetição e na representação do representado, e na qual a semelhança desempenha o papel fundador do saber na cultura ocidental.
                       
Esta episteme vai balançar no século 16 a partir de uma ruptura que afetará o velho parentesco entre as palavras e as coisas, lugar a partir do qual o homem vai poder nascer para si mesmo, tornar-se objeto singular do saber. Essa mutação é simbolizada pela busca de Dom Quixote, que tenta ler o mundo para demonstrar a veracidade dos livros. Ele esbarra na não-concordância dos signos e do real, no perfeito desacordo em que sua utopia vai se consumar. (DOSSE, 2007, p.434-435)

            O homem se descobre. Em busca de si (não ainda de sua subjetividade individual, o que só acontecerá com Freud, mas de uma singularidade que o caracterizaria como universal de homem, como espécie), ele se debruça sobre a diferença (em relação aos outros animais), para constituir uma identidade humana. A obra de Shakespeare, nesse sentido, é emblemática, porque traz à tona uma universalidade de sentimentos (amor, inveja, ânsia pelo poder, angústia), ainda que Bloom (2005) destaque que “não temos como saber em que acreditam Dom Quixote e Hamlet, pois tais personagens não compartilham das nossas limitações” (p.116). Jacques Lacan (1989), em sentido oposto, afirmara que a tragédia de Hamlet se distingue por ser a “tragédia do desejo”.

A peça de Hamlet é uma espécie de aparelho, de rede, de armadilha para pássaros na qual se articula o desejo do homem, precisamente nas coordenadas que Freud descobriu, Édipo e castração [...] A estrutura fundamental da eterna Saga que reencontramos desde a origem dos séculos é modificada por Shakespeare de modo a fazer emergir o desejo; o homem não é simplesmente possuído por ele, tem que encontrá-lo, encontrá-lo à sua custa no maior dos sofrimentos. (LACAN, 1989, p.31)

O homem e seu desejo, logo o homem e ele mesmo, começam a se encontrar nesta passagem entre os séculos 16 e 17, período em que emergem escritos de místicos, tais como  João da Cruz e Teresa D’Ávila, que relatam a materialização da espiritualidade, ou melhor, uma corporificação, significada no êxtase. Segundo Quinet (2012), o que os místicos descrevem como êxtase, Lacan identifica-o com um gozo não-fálico, “enigmático”, “louco” e não-sexual propriamente dito.

Eis o gozo Outro. Trata-se de um gozo fora do significante, para o qual não há palavras, nem é possível dele ser efetuada uma doutrina, como notava o abade Rousselat, que considerava o que descreviam os místicos mais como uma efusão lírica do que uma sistematização lógica (QUINET, 2012, p.64).

            Teresa D’Ávila é notável nesse sentido. Para ela, “falar é impossível, pois a alma não atina a formar palavras e, se atinasse, não teria poder para pronunciá-las”. Em Teresa D’Ávila, há uma corporificação do divino. Ele deixa de ser transcendente, imanentizando-se. Não há mediações para se chegar a Deus, ele está acessível, é corpóreo e material. Teresa nos dirige a palavra a partir de um encontro cujo lugar é a carne e cujos efeitos são, na oração, a quietude e o êxtase, isto é, re-pouso e saída de si. Esses efeitos são, para a doutora da Igreja, os mesmos de todo encontro amoroso no qual a “re-posição” de si no outro, fora de toda confusão e de toda sedução, é sentida como o próprio dom da vida.
            Teresa vai contestar a mediação do saber até mesmo pelos livros. Segundo Dosse (1994), o capítulo XXII do Livro da Vida, é, sobre esse ponto central da teologia de Teresa, capital. É através da própria humanidade que o homem se encontra com Deus: “A história de Jesus confirma que o dom de Deus passa pela vida do corpo e não pela idéia que homem teria de Deus [...] Retirar esse apoio da encarnação significa deixar a fé cristã gravitar entre as mitologias”. (p.22-23).
            Colocar Deus como transcendente, fora do corpo, é assimilá-lo como idéia de si, mera projeção e, assim, negação de toda alteridade. Para Dosse (1994), a negação da alteridade separa-nos da realidade. A confusão do Outro com a idéia ou a imagem de mim mesmo é cega, faz enganar-se e leva à idolatria.

O homem não é a idéia que tem de si próprio. E Deus também não é a representação que o homem faz dele. Na exaltação projetiva do que pensamos, não atingimos a verdade que procuramos. Só a apreendemos em relação aos efeitos de vida, repouso e alegria manifestados no corpo, quando é denunciado o orgulho de um pensamento que deseje possuir a verdade antes mesmo que ela se manifeste (DOSSE, 1994, p.20).

É por isso que a obra O êxtase de Santa Teresa (1645-52)[3], de Gian Lorenza Bernini, alguns anos mais velho que Rembrant, Velásquez e van Dick, é tão emblemática. Teresa fecha os olhos, no êxtase, porque não se trata nem de ver, nem de compreender. Diz ela, em Meditação sobre os cantares: “não compreendo como isso ocorre, mas sinto grande prazer por não compreender” (MC, I, 1). Para Teresa, não compreender convida a esperar o que é procurado no dentro do desejo, o que ainda não está ausente e já está ali (DOSSE, 1994, p.39). Deus anima seu corpo, é a vida do seu corpo; ele habita nela como habita ela nele. A humanidade de Deus está no meio dos homens, neles, mas velada (MC, VI, 7).
O êxtase de Teresa, esculpido por Bernini, é descrito pela mística:

Vi em sua mão uma grande lança dourada... ele parecia enterrá-la em meu coração às vezes e perfurar minhas entranhas; quando a retirava, parecia... deixar-me em brasa, repleta do grande amor de Deus.

            Em Quando a arte é genial, Andy Pankhurst e Lucinda Hawksley (2015) afirmam que as feições de santa Teresa exprimem, ao mesmo tempo, um último suspiro antes da morte e a respiração arfante durante o orgasmo, tendo em vista que a expressão facial remete à idéia metafísica de que o orgasmo é um “breve morrer”. Na escultura, repleta de movimento, segundo os autores, “raios dourados parecem conduzir Teresa até o céu, e a postura arqueada de seu corpo mostra que ela está ao mesmo tempo entregando sua alma e divinamente feliz pelo encontro com Jesus” (p.95).
            Gombrich (2012) faz semelhante análise deste arrebatamento de Teresa em êxtase, relacionando a obra com o seu entorno:

Vemos santa Teresa sendo arrebatada para o céu numa nuvem, em direção a caudais de luz que jorram do alto na forma de raios dourados. Vemos o anjo que se aproxima docemente dela, e a santa desfalecida em êxtase. O grupo está disposto de modo que parece pairar sem apoio algum na suntuosa moldura oferecida pelo altar, e receber luz de uma janela invisível, no alto. (GOMBRICH, 2012, p. 438).   

            Se concordarmos com Bloom (2005), que os seres ficcionais surgidos nos últimos quatro séculos ou são cervantescos ou shakespearianos, ou, mais frequentemente, uma mescla de ambos, dado que representam exatamente o homem em sua descoberta de si, imediatamente nos reportamos ao que Lacan destacou nos colocar na via da “ex-sistência”: o gozo[4] experimentado pelos místicos, a partir de um inconsciente obscuro, de um Real impossível de ser conhecido, só acessível por suas manifestações no Simbólico.

Referências
BLOOM, Harold. Onde encontrar a sabedoria? Rio de Janeiro: Objetiva, 2005.
DOSSE, Francçoise. História do estruturalismo. V.1: o campo do signo. Bauru: Edusc, 2007.
FOUCAULT, Michel. Les mots et les chosesParis: Gallimard, 1966.
GOMBRICH, E.H. A história da arte. 16 ed. Rio de Janeiro: LTC, 2012.
LACAN, Jacques. O seminário: livro 20: mais, ainda. 2 ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1985.
_______. Hamlet. In: Shakespeare, Duras, Wedekind, Joyce. Lisboa: Assírio e Alvim, 1989.
PANKHURST, Andy; HAWKSLEY, Lucinda. Quando a arte é genial. São Paulo: Gustavo Geli, 2015.
QUINET, Antônio. Os outros em Lacan. Rio de Janeiro: Zahar, 2012.
VASSE, Denis. Leitura psicanalítica de Teresa D´Ávila. São Paulo: Loyola, 1994.




[3] “O êxtase de Santa Teresa” (1645-52), mármore, 350cm de altura, Santa Maria della Vittoria, Roma, Itália.
[4] “basta que vocês vão olhar em Roma a estátua de Bernini para compreenderem logo que ela está gozando, não há dúvida. E do que é que ela goza? É claro que o testemunho essencial dos místicos é justamente o de dizer que eles o experimentam, mas não sabem nada dele. [...] Esse gozo que se experimenta e do qual não se sabe nada, não é ele o que nos coloca na via da ex-sistência?” (LACAN, 1985, p.103). 

A ARTE E O MUNDO DA VIDA

Vera Marta Reolon

No mundo grego, a archè, a busca pela origem das coisas, para uns a água, para outros o ar, o fogo, etc, se contrapunha com a technè, como arte.  Os gregos não tinham o que chamamos tecnologia, nem como ferramenta, imaginemos o que diriam de nosso mundo onde, de ferramenta idealizada por analistas em desenvolvimento de programas e operadores de máquinas, usamos estas “ferramentas” como objetos, seres até. Nem mesmo tinham o que a Revolução Industrial desenvolveu, antes das tecnologias digitais, como protótipos, matrizes, para fabricação de um mesmo objeto em série – a industrialização, a fabricação.
            Mas o mundo grego já vivia e definia os critérios para a política democrática que até os dias de hoje não conseguimos alcançar, nem em países desenvolvidos. Vivia também a estética como ideal artístico, do belo, mas vinculado ao bem, portanto à ética.
            Ethos, lugar nas casas onde designavam um “altar” com objetos de seus antepassados e, em situação de busca de respostas familiares, pessoais, giravam ao redor deste altar, até que encontrassem uma resposta. Esta deveria honrar a todos que ali estavam representados e não só, mas a todos que viriam. Ethos origina o que chamamos de ética. Honra em todas nossas ações, a todos que vieram antes de nós e a todos que venham/virão depois. Kant depois vai teorizar o que chamou de Imperativo Categórico: “age de tal modo que o outro jamais seja meio, mas sempre fim”. Logo, Hanna Arendt dirá assim em A  Condição Humana, tanto Sócrates em sua dialética consigo mesmo, seu dois em um, quanto Kant no Imperativo, ambos já tinham a ética antes!  
            O que isto quer dizer?
            Diz de um mundo em que a estética não estava desvinculada da ética, desta ética, dos enunciados. A estética, a busca do belo, a arte, se entrelaçam à ética, à busca do bem – belo é bom, é bem!
            Os gregos e os belos corpos, para atingir o bem, bem de si, para si, bem de bom, de belo, de saudável!
            Os romanos meio que seguem esta tradição.
            O tempo medieval e a arte, praticamente encerrada nos castelos, nas igrejas.
            Chega o Renascimento e a arte dispara, em todos os campos, no claro-escuro, jogos de luz e sombra dos pintores, na escultura, na escrita. A arte, a estética, se desvincula da ética e segue caminho solo.
            A arte - estética  - fala-se da mesma coisa?
            O que é arte?
Perguntas que seguem conosco até os dias de hoje e que tentamos teorizar, buscar respostas!
Neste ano de 2016, completam-se 400 anos de morte de Shakespeare, bem como de Cervantes. No dia 23 de abril – dia Internacional do Livro e do Direito Autoral – Miguel de Cervantes (1547-1616) e William Shakespeare (1564-1616) morreram no mesmo dia. Na verdade, Cervantes foi enterrado no dia 23, a morte se deu no dia anterior, em Madrid.
Shakespeare faleceu em sua cidade natal, Stratford-upon-Avon, no dia 23, segundo o calendário Juliano, então vigente na Inglaterra, com onze dias de diferença, em relação ao hoje universal padrão gregoriano (a data corrigida seria 03 de maio).
Ambos autores excepcionais, Shakespeare escreveu inúmeras peças, viveu perto da aristocracia inglesa, escrevia sobre ela, ironias, tragédias, romances. Aí temos, Romeu e Julieta, Hamlet, Ricardo III, Rei Lear, Macbeth.
Cervantes escreveu Dom Quixote - O Cavaleiro da Triste Figura. Lutou na guerra, voltou, foi preso, viajou pela Espanha e escreveu.
Nada desde então representa tanto o homo sapiens como os escritos destes dois grandes autores, exploradores de almas em suas histórias? Certamente!
Shakespeare encena a aristocracia e suas dores, tramóias, traições, amores, desamores.
Cervantes vive entre o ideal e a realidade que sempre irá confundir. Enfim, a realidade para ele não foi tão promissora. Miguel de Cervantes Saavedra tentou a vida como soldado. Foi ferido na Batalha de Leopanto e feito cativo em Argel. Nunca encontrou o reconhecimento que esperava da Espanha, mas dessa desilusão nasceu seu personagem imortal: Dom Quixote.
O crítico Miguel de Unamuno, conterâneo de Cervantes, chamou a obra Dom Quixote de ”Bíblia Espanhola”.
Harold Bloom, crítico americano chama Cervantes, ao lado de Shakespeare, o núcleo duro dos “escritores ocidentais centrais”, acrescentando que “ninguém desde então os igualou, nem Tolstoi, nem Goethe, Dickens, Proust ou Joyce [...] Dom Quixote é um espelho posto não diante da natureza, mas do leitor”.
Compreender o que Quixote significou para a literatura é mais fácil do que dar conta do que, após tudo isso, fica faltando dizer sobre seu milagre: por que o personagem concebido por um homem que dedicou a melhor parte de sua vida à espada e não à pena (e que, como o inglês com quem compartilhou a genialidade e o momento histórico, estava longe de ser um dos grandes eruditos de seu tempo) deixou para trás de forma tão decidida a província das letras onde nasceu e montou acampamento na imaginação coletiva da espécie. Como dar conta do engenho do engenhoso fidalgo?
Numa leitura superficial, Dom Quixote é só a narrativa das aventuras tragicômicas de um cinquentão remediado chamado Alonso Quijano, fidalgo de baixa extração. O juízo de Quijano, informa o narrador logo de saída, foi avariado pela leitura dos romances de cavalaria que tinham sido populares no fim da Idade Média, com seus heróis inverossímeis que dedicavam a vida a corrigir as injustiças do mundo – uma versão de época dos super-heróis contemporâneos.
Jorge Luis Borges, escritor argentino, do século XX, escreveu contos em releituras de Quixote. Escreveu também crítica sobre o texto de Cervantes – Magias Parciais do Quixote. Sua “crítica” é mais do que uma opinião sobre o texto, é uma obra de arte literária, que se utiliza do texto de Cervantes, para fazer arte: “a discussão de sua novidade me interessa menos que a sua possível verdade [..] o Quixote é realista, este realismo difere essencialmente do exercido no século XIX” (BORGES, 1974, p.667).
Dirá Borges que, para Cervantes, são antinomias o real e o poético – mundo imaginário poético versus mundo real prosaico.
O século XVII não era poético na Espanha da época. O sobrenatural se insinua de modo sutil, e por isso mesmo, mais eficaz.
“Cervantes amava o sobrenatural” diz Borges. Mas Borges também amava e com tal intensidade que cria o que literariamente chamaremos de realismo fantástico, com suas leituras de física quântica, de fantástico de uma realidade que fica mais deglutível, mais fácil de ser vivida do que a crueza de uma vida dura e triste.
“Cervantes se compraz em confundir o objetivo e o subjetivo, o mundo do leitor e o mundo dos livros” (p.667).
Borges sabe bem do que diz, pois dirigiu a Biblioteca Nacional da Argentina por 20 anos, mesmo cego. Muito cedo, nascido na Argentina, viajou com os pais para a Inglaterra, vivendo lá muitos anos, retorna à Argentina já escritor e tradutor, homem de cultura, cultura calcada no meio europeu.
Manguel, historiador e atual diretor da Biblioteca Nacional da Argentina, voltando ao país de nascimento (como Borges), leitor de livros na infância para o então já cego Borges, naturalizado francês e canadense, lembra do Borges assíduo leitor de obras, viajante pelo fantástico mundo da imaginação literária.
Os protagonistas do Quixote, na segunda parte da obra, são leitores do Quixote. Borges relaciona então, o texto do Quixote ao de Hamlet, o texto dentro do texto, a encenação da morte do pai dentro da peça, para lançar “culpa” – observar reação de Cláudio, matador do Hamlet pai. Também Borges diz e relaciona o texto no texto em As Mil e Uma Noites, em que Sherazade, adiando a morte com as histórias, engravida do rei e conta-lhe suas próprias histórias como fábulas e o rei, diz Borges, nem consegue aperceber-se disso.
As histórias dentro das histórias (estórias)  circulares: tais inversões sugerem que se os caracteres de uma ficção podem ser leitores ou espectadores, nós, seus leitores ou espectadores podemos ser fictícios => Carlyle (1833) => a história universal é um infinito livro sagrado que  todos os homens escrevem e lêem e tratam e entendem e nele também escrevem. Logo, todos escrevemos a história, dirá Borges - como leitores, como protagonistas, como espectadores, como críticos, como viventes.
Borges sabe bem disso, como o mestre das escritas labirínticas.
A literatura é utilizada não só como fonte de prazer, na leitura, mas também e sempre como meios de interpretação, de entendimento da vida, do homem.
A psicanálise dirá que Édipo e Hamlet são básicos para explicar o homem e suas conexões, marcas familiares.
Na pintura também vemos esse interstício, o “texto” dentro do “texto”.
Velásquez, por exemplo, pintor do século de ouro, com domínio de luz e sombra, da técnica, técnicas vinculadas ao que mais tarde se conhecerá como fotografia, num tempo em que ela ainda não existe, que só chegará no século XIX. A representação da ação dentro da ação. A contraposição entre o público e o privado (que o real jamais retrataria em pintura).
           
Velásquez, autor de As Meninas, não pinta uma representação, mas se serve da pintura para colocar em cena uma ação  Se o analista como Velásquez em As Meninas, ele é aquele que, no ato de oferecer-se à representação, à projeção, ao especular, engendra um movimento no sujeito, o da pulsão que gira em torno do seu objeto, aqui o olhar, percorrendo o ciclo do olhar: ver, ser visto, se fazer ver. O analista é o lugar-tenente desse olhar em que se engancha a pulsão, uma pulsão já lá na história do sujeito, que existe desde a infância, e à qual o analista só faz dar corpo novamente. O analista ocupa esse lugar porque, como o de Velásquez, seu olhar é um olhar que cai. (PORGE, 2006, p.281).

O uso de espelhos para trazer a ideia da luz, claridade, em contraposição ao escuro, à sombra, outro pintor já o havia utilizado, Jan Van Eick, em sua tela Os Esposais dos Arnolfini, de 1434.
Manguel dirá também que Caravaggio, outro pintor do século XVII, de ouro, dá uma reação física forte, em suas telas com luminosidade, cor, representação – telas como teatro dramático – a violência representada.
Pinturas intensas como as danças sevilhanas, a música e a dança Flamenca, esta outra arte tão esquecida.
Força, intensidade, cor, jogos de luz e sombra, aparecer-desaparecer. A intensidade na arte. A vida representada (ou não). A vida vivida.
Voltando ao princípio, como os labirintos de Borges.
Vida como Estética, como Arte – VIDA COM ÉTICA – a VIDA VERDADEIRA!


REFERÊNCIAS
ARENDT, Hanna. A condição humana. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2008.
BLOOM, Harold. Onde encontrar a sabedoria? Rio de Janeiro: Objetiva, 2005.
_______. O cânone ocidental. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.
BORGES, Jorge Luis. Magias parciales del Quijote. In: Obras completas. Buenos Aires: Emece Editores, 1974.
_______. O fazedor. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.
FREUD, Sigmund. A interpretação dos sonhos. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas. Rio de Janeiro: Imago, 1980.
_______. A psicopatologia da vida cotidiana. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas. Rio de Janeiro: Imago, 1980.
GOMBRICH, E.H. A história da arte. Rio de Janeiro: LTC, 2012.
PORGE, Erik. Jacques Lacan, um psicanalista: percurso de um ensino.  Brasília: UnB, 2006.
RODRIGUES, Sérgio. Entre o ideal e a realidade. In: Especial 400 anos – Os inventores do mundo, Cervantes e Shakespeare, Veja, 27 abr 2016, p.84-98.

     



segunda-feira, 16 de maio de 2016

Sobre Cultura!

Primeiro quero me posicionar sobre algo que tenho percebido nos espetáculos que tenho assistido:

- Talvez a falta de dinheiro realmente complique o andamento dos "trabalhos", mas.........

Ñão mais podemos ter cinema, quando é cinema, teatro quando é teatro, dança, quando é dança???????


Por quê sempre temos, nos dias de hoje, os atores, nenhum, ou praticamente nenhum cenário, e um "operador" de computadores  a projetar telas??????


Embora se saiba que.....em falta de dinheiro.......cenário é caro.........encher o palco com muuuuuuitos bailarinos ....além de custar......também tem o problema das "briguinhas" e tais........aí fica mais "fácil" projetar umas coisinhas!!!!!!!!!!! 


Segundo, talvez eu tenha sido a primeira a falar e escrever sobre Ciência e Fé (no sentido de espiritualidade)...............logo, quando vejo falarem de Walter Benjamin, sem contextualizar..............


Kierkegaard diz em seu texto, como Climacus, de um sujeito HISTÓRICO..........para quem o entende.........fala de Benjamin.............

Kandinsky em seus cursos na Bauhaus............falava de "espiritualidade".................quem "USA" SUAS TELAS de forma tão atroz ................NADA ENTENDERÁ JAMAIS DO QUE ELE DIZIA........!!!!!!!!



e...........POR FAVOR..............quando o povo VOTA EM PRESIDENTE E VICE............creio que em TODO  regime DEMOCRÁTICO...................NÃO vota somente em presidente..............MAS TAMBÉM NO VICE...............


é por esta razão............que se dão "conchavos" tão inverossímeis..................para mentes normais!!!!!!!



VERA MARTA REOLON
MTb 16.069