A que se presta este blog??????????...............a estabelecer notícias, comentar fatos do cotidiano no e do mundo........elaborar alguma crônica de autoria dos blogueiros responsáveis (que, é óbvio, são maiores, responsáveis, éticos, e nada crianças - embora possuir a leveza das crianças "educadas" não seja nada ruim!!!!!).......realizar críticas, como pensamos não existir nas mídias que temos e vemos..........com, cremos, sabedoria e precisão.........com intuito de buscar melhorias em nossas relações com os seres vivos........e com/para o mundo..........se possível!!!!!!................


Críticas por e pela ARTE ( ESTÉTICA COM ÉTICA - como deve ser!!!! - desde a PAIDÉIA - a BILDUNG - .......ATÉ O SEMPRE!!!!!!!)



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TORNE-O REAL".
M.T.
"EM TEMPOS DE M E N T I R A UNIVERSAL,

DIZER A V E R D A D E É UM ATO REVOLUCIONÁRIO"

George Orwel

segunda-feira, 30 de maio de 2016

A ARTE E O MUNDO DA VIDA

Vera Marta Reolon

No mundo grego, a archè, a busca pela origem das coisas, para uns a água, para outros o ar, o fogo, etc, se contrapunha com a technè, como arte.  Os gregos não tinham o que chamamos tecnologia, nem como ferramenta, imaginemos o que diriam de nosso mundo onde, de ferramenta idealizada por analistas em desenvolvimento de programas e operadores de máquinas, usamos estas “ferramentas” como objetos, seres até. Nem mesmo tinham o que a Revolução Industrial desenvolveu, antes das tecnologias digitais, como protótipos, matrizes, para fabricação de um mesmo objeto em série – a industrialização, a fabricação.
            Mas o mundo grego já vivia e definia os critérios para a política democrática que até os dias de hoje não conseguimos alcançar, nem em países desenvolvidos. Vivia também a estética como ideal artístico, do belo, mas vinculado ao bem, portanto à ética.
            Ethos, lugar nas casas onde designavam um “altar” com objetos de seus antepassados e, em situação de busca de respostas familiares, pessoais, giravam ao redor deste altar, até que encontrassem uma resposta. Esta deveria honrar a todos que ali estavam representados e não só, mas a todos que viriam. Ethos origina o que chamamos de ética. Honra em todas nossas ações, a todos que vieram antes de nós e a todos que venham/virão depois. Kant depois vai teorizar o que chamou de Imperativo Categórico: “age de tal modo que o outro jamais seja meio, mas sempre fim”. Logo, Hanna Arendt dirá assim em A  Condição Humana, tanto Sócrates em sua dialética consigo mesmo, seu dois em um, quanto Kant no Imperativo, ambos já tinham a ética antes!  
            O que isto quer dizer?
            Diz de um mundo em que a estética não estava desvinculada da ética, desta ética, dos enunciados. A estética, a busca do belo, a arte, se entrelaçam à ética, à busca do bem – belo é bom, é bem!
            Os gregos e os belos corpos, para atingir o bem, bem de si, para si, bem de bom, de belo, de saudável!
            Os romanos meio que seguem esta tradição.
            O tempo medieval e a arte, praticamente encerrada nos castelos, nas igrejas.
            Chega o Renascimento e a arte dispara, em todos os campos, no claro-escuro, jogos de luz e sombra dos pintores, na escultura, na escrita. A arte, a estética, se desvincula da ética e segue caminho solo.
            A arte - estética  - fala-se da mesma coisa?
            O que é arte?
Perguntas que seguem conosco até os dias de hoje e que tentamos teorizar, buscar respostas!
Neste ano de 2016, completam-se 400 anos de morte de Shakespeare, bem como de Cervantes. No dia 23 de abril – dia Internacional do Livro e do Direito Autoral – Miguel de Cervantes (1547-1616) e William Shakespeare (1564-1616) morreram no mesmo dia. Na verdade, Cervantes foi enterrado no dia 23, a morte se deu no dia anterior, em Madrid.
Shakespeare faleceu em sua cidade natal, Stratford-upon-Avon, no dia 23, segundo o calendário Juliano, então vigente na Inglaterra, com onze dias de diferença, em relação ao hoje universal padrão gregoriano (a data corrigida seria 03 de maio).
Ambos autores excepcionais, Shakespeare escreveu inúmeras peças, viveu perto da aristocracia inglesa, escrevia sobre ela, ironias, tragédias, romances. Aí temos, Romeu e Julieta, Hamlet, Ricardo III, Rei Lear, Macbeth.
Cervantes escreveu Dom Quixote - O Cavaleiro da Triste Figura. Lutou na guerra, voltou, foi preso, viajou pela Espanha e escreveu.
Nada desde então representa tanto o homo sapiens como os escritos destes dois grandes autores, exploradores de almas em suas histórias? Certamente!
Shakespeare encena a aristocracia e suas dores, tramóias, traições, amores, desamores.
Cervantes vive entre o ideal e a realidade que sempre irá confundir. Enfim, a realidade para ele não foi tão promissora. Miguel de Cervantes Saavedra tentou a vida como soldado. Foi ferido na Batalha de Leopanto e feito cativo em Argel. Nunca encontrou o reconhecimento que esperava da Espanha, mas dessa desilusão nasceu seu personagem imortal: Dom Quixote.
O crítico Miguel de Unamuno, conterâneo de Cervantes, chamou a obra Dom Quixote de ”Bíblia Espanhola”.
Harold Bloom, crítico americano chama Cervantes, ao lado de Shakespeare, o núcleo duro dos “escritores ocidentais centrais”, acrescentando que “ninguém desde então os igualou, nem Tolstoi, nem Goethe, Dickens, Proust ou Joyce [...] Dom Quixote é um espelho posto não diante da natureza, mas do leitor”.
Compreender o que Quixote significou para a literatura é mais fácil do que dar conta do que, após tudo isso, fica faltando dizer sobre seu milagre: por que o personagem concebido por um homem que dedicou a melhor parte de sua vida à espada e não à pena (e que, como o inglês com quem compartilhou a genialidade e o momento histórico, estava longe de ser um dos grandes eruditos de seu tempo) deixou para trás de forma tão decidida a província das letras onde nasceu e montou acampamento na imaginação coletiva da espécie. Como dar conta do engenho do engenhoso fidalgo?
Numa leitura superficial, Dom Quixote é só a narrativa das aventuras tragicômicas de um cinquentão remediado chamado Alonso Quijano, fidalgo de baixa extração. O juízo de Quijano, informa o narrador logo de saída, foi avariado pela leitura dos romances de cavalaria que tinham sido populares no fim da Idade Média, com seus heróis inverossímeis que dedicavam a vida a corrigir as injustiças do mundo – uma versão de época dos super-heróis contemporâneos.
Jorge Luis Borges, escritor argentino, do século XX, escreveu contos em releituras de Quixote. Escreveu também crítica sobre o texto de Cervantes – Magias Parciais do Quixote. Sua “crítica” é mais do que uma opinião sobre o texto, é uma obra de arte literária, que se utiliza do texto de Cervantes, para fazer arte: “a discussão de sua novidade me interessa menos que a sua possível verdade [..] o Quixote é realista, este realismo difere essencialmente do exercido no século XIX” (BORGES, 1974, p.667).
Dirá Borges que, para Cervantes, são antinomias o real e o poético – mundo imaginário poético versus mundo real prosaico.
O século XVII não era poético na Espanha da época. O sobrenatural se insinua de modo sutil, e por isso mesmo, mais eficaz.
“Cervantes amava o sobrenatural” diz Borges. Mas Borges também amava e com tal intensidade que cria o que literariamente chamaremos de realismo fantástico, com suas leituras de física quântica, de fantástico de uma realidade que fica mais deglutível, mais fácil de ser vivida do que a crueza de uma vida dura e triste.
“Cervantes se compraz em confundir o objetivo e o subjetivo, o mundo do leitor e o mundo dos livros” (p.667).
Borges sabe bem do que diz, pois dirigiu a Biblioteca Nacional da Argentina por 20 anos, mesmo cego. Muito cedo, nascido na Argentina, viajou com os pais para a Inglaterra, vivendo lá muitos anos, retorna à Argentina já escritor e tradutor, homem de cultura, cultura calcada no meio europeu.
Manguel, historiador e atual diretor da Biblioteca Nacional da Argentina, voltando ao país de nascimento (como Borges), leitor de livros na infância para o então já cego Borges, naturalizado francês e canadense, lembra do Borges assíduo leitor de obras, viajante pelo fantástico mundo da imaginação literária.
Os protagonistas do Quixote, na segunda parte da obra, são leitores do Quixote. Borges relaciona então, o texto do Quixote ao de Hamlet, o texto dentro do texto, a encenação da morte do pai dentro da peça, para lançar “culpa” – observar reação de Cláudio, matador do Hamlet pai. Também Borges diz e relaciona o texto no texto em As Mil e Uma Noites, em que Sherazade, adiando a morte com as histórias, engravida do rei e conta-lhe suas próprias histórias como fábulas e o rei, diz Borges, nem consegue aperceber-se disso.
As histórias dentro das histórias (estórias)  circulares: tais inversões sugerem que se os caracteres de uma ficção podem ser leitores ou espectadores, nós, seus leitores ou espectadores podemos ser fictícios => Carlyle (1833) => a história universal é um infinito livro sagrado que  todos os homens escrevem e lêem e tratam e entendem e nele também escrevem. Logo, todos escrevemos a história, dirá Borges - como leitores, como protagonistas, como espectadores, como críticos, como viventes.
Borges sabe bem disso, como o mestre das escritas labirínticas.
A literatura é utilizada não só como fonte de prazer, na leitura, mas também e sempre como meios de interpretação, de entendimento da vida, do homem.
A psicanálise dirá que Édipo e Hamlet são básicos para explicar o homem e suas conexões, marcas familiares.
Na pintura também vemos esse interstício, o “texto” dentro do “texto”.
Velásquez, por exemplo, pintor do século de ouro, com domínio de luz e sombra, da técnica, técnicas vinculadas ao que mais tarde se conhecerá como fotografia, num tempo em que ela ainda não existe, que só chegará no século XIX. A representação da ação dentro da ação. A contraposição entre o público e o privado (que o real jamais retrataria em pintura).
           
Velásquez, autor de As Meninas, não pinta uma representação, mas se serve da pintura para colocar em cena uma ação  Se o analista como Velásquez em As Meninas, ele é aquele que, no ato de oferecer-se à representação, à projeção, ao especular, engendra um movimento no sujeito, o da pulsão que gira em torno do seu objeto, aqui o olhar, percorrendo o ciclo do olhar: ver, ser visto, se fazer ver. O analista é o lugar-tenente desse olhar em que se engancha a pulsão, uma pulsão já lá na história do sujeito, que existe desde a infância, e à qual o analista só faz dar corpo novamente. O analista ocupa esse lugar porque, como o de Velásquez, seu olhar é um olhar que cai. (PORGE, 2006, p.281).

O uso de espelhos para trazer a ideia da luz, claridade, em contraposição ao escuro, à sombra, outro pintor já o havia utilizado, Jan Van Eick, em sua tela Os Esposais dos Arnolfini, de 1434.
Manguel dirá também que Caravaggio, outro pintor do século XVII, de ouro, dá uma reação física forte, em suas telas com luminosidade, cor, representação – telas como teatro dramático – a violência representada.
Pinturas intensas como as danças sevilhanas, a música e a dança Flamenca, esta outra arte tão esquecida.
Força, intensidade, cor, jogos de luz e sombra, aparecer-desaparecer. A intensidade na arte. A vida representada (ou não). A vida vivida.
Voltando ao princípio, como os labirintos de Borges.
Vida como Estética, como Arte – VIDA COM ÉTICA – a VIDA VERDADEIRA!


REFERÊNCIAS
ARENDT, Hanna. A condição humana. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2008.
BLOOM, Harold. Onde encontrar a sabedoria? Rio de Janeiro: Objetiva, 2005.
_______. O cânone ocidental. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.
BORGES, Jorge Luis. Magias parciales del Quijote. In: Obras completas. Buenos Aires: Emece Editores, 1974.
_______. O fazedor. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.
FREUD, Sigmund. A interpretação dos sonhos. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas. Rio de Janeiro: Imago, 1980.
_______. A psicopatologia da vida cotidiana. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas. Rio de Janeiro: Imago, 1980.
GOMBRICH, E.H. A história da arte. Rio de Janeiro: LTC, 2012.
PORGE, Erik. Jacques Lacan, um psicanalista: percurso de um ensino.  Brasília: UnB, 2006.
RODRIGUES, Sérgio. Entre o ideal e a realidade. In: Especial 400 anos – Os inventores do mundo, Cervantes e Shakespeare, Veja, 27 abr 2016, p.84-98.

     



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