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quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

SEMIOTIZAÇÃO: A CONSTRUÇÃO DE UM SABER EDUCACIONAL VOLTADO À INTERPRETAÇÃO DA IMAGEM

 

GUILHERME REOLON DE OLIVEIRA[1]

 

Há consenso que, a partir da segunda metade do século XX, o mundo sofreu mudanças radicais em todos os meandros sociais, especialmente no que concerne à cultura. Uma série de rompimentos paradigmáticos, refletidos no cotidiano e no agir humano, foi provocada por sui generis acontecimentos históricos. Com a inserção da mídia na sociedade, a sociedade passa a se configurar de maneira muito diferente, ora refletindo o veiculado, ora servindo de fonte para aqueles se configurarem.

            Características singulares marcam a atualidade, denominada por alguns de pós-modernidade, sendo o individualismo, a fragmentação, o consumismo e a informação as mais mencionadas. Sob a égide da televisão e da internet, o tempo contemporâneo é um período de simulacros midiáticos que, mais que influenciar comportamentalmente, agem sobre a estruturação do sujeito. Atuam, assim, como grande Outro, conceito introduzido por Jacques Lacan, a partir de Hegel, para explicar o campo de inscrição de significantes aos quais o sujeito está à mercê.

            Para Lacan, assim como para Hegel, em sua Dialética do Senhor e do Escravo, na qual há uma interdependência entre senhor e escravo para ambos existirem, só há sujeito se há Outro: é o Outro quem fornecerá as ferramentas (os signos) essenciais ao sujeito para sua constituição.

            Desde o início do século XX, a cultura é determinada pelos meios de comunicação. A contemporaneidade é produto da indústria cultural, termo empregado por Adorno e Horkheimer para denominar o conjunto de fatores que, de certa forma, massificam e generalizam os modos de vida sociais, que propiciam à mídia um poder de contenção do desenvolvimento da consciência das massas. Desde então, a cultura é uma mercadoria, produzida segundo as regras industriais. A mídia, ocupando o lugar da família, da Igreja e da escola, acaba por recalcar o desejo do sujeito, sua diferença; instaura um não-objeto, objetos simulados, causas de pseudo-desejos.      

            O estruturalismo, neste sentido, especialmente com Foucault, faz uma crítica da atualidade, questionando seus pressupostos e problematizando a ética e a política vigente. Ele aborda nosso tempo a partir do que denomina de “sociedade disciplinar”. Essa sociedade, metáfora da vivência contemporânea, caracterizada por métodos de vigilância e controle, atua a partir de um dispositivo: os micropoderes, que, não percebidos, agem em todos os pontos relacionais.

            Outra metáfora, essa da crise do homem moderno, pode ser encontrada em A Metamorfose, de Kafka. Gregor Samsa, o metamorfoseado em inseto monstruoso, é o homem condenado à rotina, aprisionado no determinado, sujeito pacato, que, através de um sintoma, tenta sair do mundo sufocante, desse mundo apenas de trabalho, imposto pela sociedade (pós-)industrial. É o sujeito contemporâneo: em crise existencial, inserido num contexto disciplinar, que adapta os indivíduos aos seus interesses.

            Isso, pois a pós-modernidade é um período atribulado, cujos valores são voláteis e descartáveis. A sociedade, baseada no consumismo e no espetáculo, exalta a aparência. As relações sociais são medidas pelo capital. As grandes companhias de entretenimento exercem poder de manipulação sobre as massas. O diálogo foi substituído pela linguagem virtual. Os relacionamentos, pela ficção ou pela superficialidade.

            Nosso agir, assim como o conhecimento, está fragmentado, consequências dos movimentos cartesiano e positivista. Simultaneamente ao progresso técnico e cientifico, assistimos ao endeusamento da ciência, fechada em uma visão mecanicista. Com a superespecialização, advinda da separação das ciências em disciplinas, em caixas, cada vez sabemos mais sobre menos. O pensamento, nesse sentido, torna o homem um ser desconectado de seu meio.

            Na sociedade pós-moderna, o sujeito se constitui de maneira diferenciada, cujo Outro, enfraquecido, perde valor ao Outro substituto, campo ocupado pela mídia. É o que se observa, metaforicamente, em O Perfume, obra de Patrick Süskind, que ilustra a trajetória de Jean-Baptiste Grenouille, sujeito nascido na imundície – física e emocional. Não-desejado, sem-nome e descrito como “sem cheiro”, Grenouille não foi inscrito no discurso social, na linguagem. Dessa forma, busca um Outro substituto, uma vez que o Real, não desejando ocupar esse lugar, o deixou em aberto.

            Grenouille adapta o olfato a esta função, a esse campo. Assim, conhece o mundo através do cheiro, recebe seus significantes a partir desse novo referencial. O olfato, logo, é seu Outro, sua base sígnica, simbólica. A estrutura contemporânea é a estrutura psíquica descrita, metaforicamente, em Grenouille, sujeito constituído através de um Outro substituto, a saber a mídia. Com a figura paterna anulada, uma vez que o Outro, que inscreve Nome-do-Pai no sujeito, é substituto, inumano, ficcional, o homem da pós-modernidade não abstrai, não introjeta Lei. O discurso ao qual o contemporâneo está inscrito, então, é o do consumo, do espetáculo, líquido, que privilegia a congregação dos iguais à singularidade.

           O tempo parece modificar com a tecnologia. Há uma aceleração, que remete a uma situação de caos. Como parar o tempo, já que a tecnologia adquire vida própria, impossível de ser detida? Sem agirmos para cessar nosso tempo, adaptarmos nossas necessidades a uma nova rotação, como ficaremos? A falta de tempo para realizar tudo o que nos é incutido fazer, frente ás necessidades que são criadas constantemente pela onda mercantil, nos fere. Com isso, nos sentimos perdidos. Por isso, a busca por respostas imediatas, por medicamentos, por terapias breves, por aparelhos mais velozes. Qual a saída? Eis uma opção à sociedade que prima pelo visual e utiliza da ignorância nesse sentido para manipular e persuadir: uma educação voltada à alfabetização das imagens, uma educação aos signos imagéticos. Pois, como coloca Giovanni Sartori (2001), “é bastante evidente que o mundo em que vivemos já está se apoiando nos ombros da 'geração-televisiva': uma espécie recentíssima de ser humano criado pela tele-visão – diante de um televisor – antes mesmo de saber ler e escrever” (p.8). Ou seja, o sujeito está diante de um espectro imagético, cuja decodificação consciente é, sobremaneira, de maior complexidade que a dos signos linguísticos formais. Se ele não possui as ferramentas essenciais para o entendimento destes últimos, o que dizer em relação àqueles? Sem dúvida, no mundo regido por imagens, o contemporâneo, é mais que necessária uma educação para essa realidade. Não basta decodificar letras, é preciso entender e compreender as imagens. Caso contrário, elas continuarão exercendo papel estruturador, uma vez que não passam pelo nível consciente: introjetam-se diretamente nos registro do Real.

            Tal “semiotização”, um saber educacional voltado à interpretação das imagens, cremos, é fundamentado no que hoje se convenciona como media literacy, ou literacia (alfabetização midiática). A Unesco sugere, nesse sentido, desde 2016, a MILID, uma alfabetização para a mídia, a informação e o diálogo intercultural, estabelecendo diferentes dimensões das competências midiáticas: linguagem, tecnologia, estética, produção e difusão, ideologia e valores, processos de informação. Um desafio e uma urgência, especialmente em tempos cujas fake news se proliferam, bem como os discursos de ódio e os cancelamentos nas redes sociais.  

 

Referências

ADORNO, Theodor W; HORKHEIMER, Max. Dialética do esclarecimento. Rio de Janeiro: Zahar, 1985.

DEBORD, Guy. A sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.

FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. 2 ed. Rio de Janeiro: Graal, 1981.

_______. Vigiar e punir. 21 ed. Petrópolis: Vozes, 1999.

HEGEL, G.W.F. Fenomenologia do espírito. Petrópolis: Vozes, 1992.

KAFKA, Franz. A Metamorfose. São Paulo: Nova Cultural, 2002.

LACAN, Jacques. Escritos. São Paulo: Perspectiva, 1992.

LIPOVETSKY, Gilles. Metamorfoses da cultura liberal: ética, mídia, empresa. São Paulo: Sulina, 2004.

SANTAELLA, Lucia. Culturas e artes do pós-humano: da cultura das mídias à cibercultura. São Paulo: Paulus, 2003.

SARTORI, Giovanni. Homo videns: televisão e pós-pensamento. Bauru: EDUSC, 2001.

SODRÉ, Muniz. A máquina de Narciso: televisão, indivíduo e poder no Brasil. São Paulo: Cortez, 1994.

SÜSKIND, Patrick. O perfume: história de um assassino. São Paulo: Círculo do Livro, 1985.

 

Palavras-chave: Imagem. Literacia. Semiotização. Mídia. Estruturação do sujeito.

 

Grupo de Trabalho: GT Educação Básica 



[1] Crítico cultural, curador de arte, co-editor do site apolineo.net. Doutorando em Filosofia (PUC-RS), Mestre em História, Teoria e Crítica de Arte (PPGAV/UFRGS), Mestre em Psicologia Social e Institucional (UFRGS), Bacharel em Ciências Sociais (UFRGS), Bacharel em Filosofia (UFRGS/UCS) e Bacharel em Comunicação Social – Jornalismo (UCS). Autor de Arte pós-nonsense, ou da dança como gênese do Ser da Arte (EDUCS, 2019). E-mail: guilhermereolon@terra.com.br.

O FUTURO DA ACADEMIA

 

VERA MARTA REOLON[1]

 

 

O que aqui exponho é resultado de meu trabalho como docente em  Educação na UFRGS, especificamente nas disciplinas de Psicologia da Educação I e II  e Intervenção Psicológica e Necessidades Educativas Especiais. Ambas disponibilizadas aos cursos de Licenciatura da Universidade. Tais disciplinas, especialmente Psicologia da Educação I e II, seguiam basicamente como orientação teórica as diferentes teorias e teóricos da aprendizagem. Quanto à disciplina de Intervenção Psicológica e Necessidades Educativas Especiais preparei Plano de Ensino  tendo em vista a disciplina ter iniciado a partir de meu interesse em ministrá-la aos licenciandos (a COMGRAD de Licenciatura em Matemática havia autorizado a incorporação desta como obrigatória para o curso). Assim sendo foquei psicanálise lacaniana.

Se, junto com Derrida, acreditamos que neste mundo às avessas o que pode responder por mudanças (?) é a psicanálise, penso que a psicanálise pode, para começar, fazer uma reversão em sua tão estabelecida ética, partir para uma nova ética, talvez  ética para nosso tempo: desejo de ética. Aí entramos em outro campo de saber, qual será?

O único que pode responder, a uma demanda dessa envergadura é a educação. A educação responde pelo “desejo de ética”, porque desejar a ética, desejar ser ético, antecede a tudo, ao próprio homem.

A educação responde, se o faz, porque, num tempo em que não temos tempo sequer para olhar os seres que geramos , a natureza que destruímos, os bens que precisamos (?), a saúde que ansiamos, não temos esse tempo para “educar” as crianças, para amá-las suficientemente, amá-las tanto para dispendermos o tempo necessário  para educá-las. Sobrará, para quem?. Ora, para a educação formal, para o professor, que também já não consegue educar seus próprios filhos. Como professores podem incutir desejo educativo de ética, se nem eles sabem o que é isso? Conhecimento é a própria episteme grega, a ação sobre o mundo, por excelência. O que é ética? Ética, vem do grego ethos e deriva de um termo grego para um lugar, lugar singular da casa em que as famílias gregas montavam um altar, com objetos de seus antepassados, que os lembrassem. Quando surgia uma questão de difícil solução, reuniam-se os membros da família e giravam ao redor do altar a buscar uma solução que respondesse à questão. Assim a ação que tomariam seria uma resposta que todos os antepassados e todos os que viessem depois seriam honrados por ela. Que resposta seria, hem? Uma ação que honrasse a família, que não desonrasse nenhum membro que faz parte de meu DNA, que porta e portará meu sangue, é muita gente. Bem, a isso os gregos chamavam ética.

Depois dos gregos, vimos alguns falando de ética, mas o mais famoso de nosso tempo, Kant (2013), estabelece que a ética, a moral deveria centrar-se em sua famosa máxima: age de tal forma que tua ação valha como uma lei universal. Benjamim (2009) a explicita assim: age, de tal forma que teu ato sempre vise a um fim, jamais como meio. Distingo ética, do ethos grego, de moral (origem latina, numa tentativa talvez, dos romanos em estabelecer uma palavra sua que traduzisse o ethos grego, nos costumes), moral que diz do meu fazer, do meu agir, a partir do estabelecimento de meus atos no mundo, da minha ação.

Segundo Hannah Arendt (2008), Kant, assim como Sócrates, em seu dois em um, já tinham a ética presente em si antes de estabelecerem qualquer pensamento, qualquer saber, qualquer dado, então antes da ação kantiana, o ser transcendental já é, já porta a ética, Ele já porta em si o fazer ético, o sujeito da ação carregará a ética em seu fazer, sua ação será honrada, porque o homem que a pratica é ético por excelência. Rawls (1997) estabelece em sua teoria geral da justiça cinco estágios para a constituição de um sistema justo: inicialmente devemos ter um grupo de pessoas isentas de qualquer vinculação partidária, num segundo estágio teríamos a constituição federal, o código de leis, o deliberativo e a lei na prática. Também aqui, na justiça, no estabelecimento da justiça, temos antes de qualquer coisa, de qualquer ação, o ser honrado. Sempre, qualquer evento humano, para ser correto, para ser justo, para ser ético, parte de um ser que já porta a diferença: a ética.

 

Professor para ensinar ética, para ensinar qualquer coisa, precisa ter essa diferença, portar essa diferença. Ser professor é portar essa diferença, para poder transmití-la em todo seu fazer, em todo agir, em toda palavra proferida, mediada, o que quisermos instituir como sendo o fazer em sala de aula deve portar essa premissa primeira, partir de um ser com ética, um ser diferente

 

Qual o futuro da Academia? A Academia de Platão estruturava-se no pilar da discussão sobre o conhecimento. O conhecimento era discussão! Como as aulas à distância podem (se podem) realizar as trocas para que o conhecimento se dê.  A origem do termo epistemologia (episteme)  remete a troca, o conhecimento em movimento, em ação, ciência é troca, conhecimento não é algo estanque, parado, é movimento, movimento de saber, as discussões em sala de aula, em diversos ambientes implicam a troca de saber. .

A Academia, o que é uma faculdade, uma universidade, para quê ela serve? Nela se dá a formação de seres para todos os campos da vida, desde os doutores de pesquisas, até os professores para a educação infantil, não necessariamente nesta ordem. Os recursos não deveriam ser destinados à Academia para melhor formação de profissionais? Quando dizemos recursos, citamos todos, inclusive ter melhores professores na Academia.

A Academia tem-se voltado na direção contrária de sua missão, que é a troca de saber, preparação dos profissionais para a sociedade. No entanto, suas energias têm-se voltado para a formação de doutores para a pesquisa. Os órgãos que administram, exigem e admitem nos quadros acadêmicos pesquisadores. Mas o que se precisa não são professores?  Claro, professores que se reciclem, que estudem, mas professores!

 

Como preparar profissionais para processos inclusivos?

Que tipo de profissionais e saberes devem ser privilegiados?

O que é inclusão?

 

Incluir implica receber alunos que estejam fora do espectro  considerado normal! Ou seja, do espectro da maioria. Isso inclui desde os superdotados, geniais, até os subdotados. As deficiências de toda ordem também estão aqui. Então o que precisamos realmente para fazer frente a processos inclusivos?

E, especialmente na formação de licenciandos, as discussões em aula sempre serão mais ricas se montarmos turmas de diferentes cursos, com diferentes origens de saber para que as trocas sejam e se tornem mais amplas, mais profícuas, mais interessantes.

 

REFERÊNCIAS

ARENDT, Hanna. A condição humana. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2008.

BERNJAMIN, Walter. Estética y política. Buenos Aires: Las Cuarenta, 2009.

KANT, Immanuel. Crítica da razão prática. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013.

RAWLS, John. Uma teoria da justiça. São Paulo: Martins Fontes: 1997.

 

Palavras-chave: Educação. Academia. Ética. Inclusão. Professores.

 

G07: Educação Superior



[1] Professora na UFRGS, psicóloga (CRP 07/7654), psicanalista, jornalista (MTb 16.069), co-editora do site apolIneo.net. Doutora em Educação (UFRGS), Doutora em Filosofia (PUC-RS), Mestre em Letras e Cultura Regional (UCS), Graduada em Psicologia – Formação de Psicólogo (UCS), Bacharel em Ciências Contábeis (UCS). Autora de mulheres para um homem... para O Homem, A Mulher (EDIPUCRS, 2008). E-mail: verareolon@terra.com.br.