GUILHERME REOLON DE OLIVEIRA[1]
Há consenso que, a partir
da segunda metade do século XX, o mundo sofreu mudanças radicais em todos os
meandros sociais, especialmente no que concerne à cultura. Uma série de
rompimentos paradigmáticos, refletidos no cotidiano e no agir humano, foi provocada
por sui generis acontecimentos históricos. Com a inserção da mídia na
sociedade, a sociedade passa a se configurar de maneira muito diferente, ora
refletindo o veiculado, ora servindo de fonte para aqueles se configurarem.
Características singulares marcam a
atualidade, denominada por alguns de pós-modernidade, sendo o individualismo, a
fragmentação, o consumismo e a informação as mais mencionadas. Sob a égide da
televisão e da internet, o tempo contemporâneo é um período de simulacros
midiáticos que, mais que influenciar comportamentalmente, agem sobre a
estruturação do sujeito. Atuam, assim, como grande Outro, conceito introduzido
por Jacques Lacan, a partir de Hegel, para explicar o campo de inscrição de
significantes aos quais o sujeito está à mercê.
Para Lacan, assim como para Hegel,
em sua Dialética do Senhor e do Escravo,
na qual há uma interdependência entre senhor e escravo para ambos existirem, só
há sujeito se há Outro: é o Outro quem fornecerá as ferramentas (os signos)
essenciais ao sujeito para sua constituição.
Desde o início do século XX, a
cultura é determinada pelos meios de comunicação. A contemporaneidade é produto
da indústria cultural, termo empregado por Adorno e Horkheimer para
denominar o conjunto de fatores que, de certa forma, massificam e generalizam
os modos de vida sociais, que propiciam à mídia um poder de contenção do
desenvolvimento da consciência das massas. Desde então, a cultura é uma
mercadoria, produzida segundo as regras industriais. A mídia, ocupando o lugar
da família, da Igreja e da escola, acaba por recalcar o desejo do sujeito, sua
diferença; instaura um não-objeto, objetos simulados, causas de pseudo-desejos.
O estruturalismo, neste sentido,
especialmente com Foucault, faz uma crítica da atualidade, questionando seus
pressupostos e problematizando a ética e a política vigente. Ele aborda nosso
tempo a partir do que denomina de “sociedade disciplinar”. Essa sociedade,
metáfora da vivência contemporânea, caracterizada por métodos de vigilância e
controle, atua a partir de um dispositivo: os micropoderes, que, não
percebidos, agem em todos os pontos relacionais.
Outra metáfora, essa da crise do
homem moderno, pode ser encontrada em A Metamorfose, de Kafka. Gregor
Samsa, o metamorfoseado em inseto monstruoso, é o homem condenado à rotina,
aprisionado no determinado, sujeito pacato, que, através de um sintoma, tenta
sair do mundo sufocante, desse mundo apenas de trabalho, imposto pela sociedade
(pós-)industrial. É o sujeito contemporâneo: em crise existencial, inserido num
contexto disciplinar, que adapta os indivíduos aos seus interesses.
Isso, pois a pós-modernidade é um
período atribulado, cujos valores são voláteis e descartáveis. A sociedade,
baseada no consumismo e no espetáculo, exalta a aparência. As relações sociais
são medidas pelo capital. As grandes companhias de entretenimento exercem poder
de manipulação sobre as massas. O diálogo foi substituído pela linguagem
virtual. Os relacionamentos, pela ficção ou pela superficialidade.
Nosso agir, assim como o
conhecimento, está fragmentado, consequências dos movimentos cartesiano e
positivista. Simultaneamente ao progresso técnico e cientifico, assistimos ao
endeusamento da ciência, fechada em uma visão mecanicista. Com a
superespecialização, advinda da separação das ciências em disciplinas, em
caixas, cada vez sabemos mais sobre menos. O pensamento, nesse sentido, torna o
homem um ser desconectado de seu meio.
Na sociedade pós-moderna, o sujeito se
constitui de maneira diferenciada, cujo Outro, enfraquecido, perde valor ao
Outro substituto, campo ocupado pela mídia. É o que se observa,
metaforicamente, em O Perfume, obra de Patrick Süskind, que ilustra a
trajetória de Jean-Baptiste Grenouille, sujeito nascido na imundície – física e
emocional. Não-desejado, sem-nome e descrito como “sem cheiro”, Grenouille não
foi inscrito no discurso social, na linguagem. Dessa forma, busca um Outro
substituto, uma vez que o Real, não desejando ocupar esse lugar, o deixou em
aberto.
Grenouille adapta o olfato a esta
função, a esse campo. Assim, conhece o mundo através do cheiro, recebe seus
significantes a partir desse novo referencial. O olfato, logo, é seu Outro, sua
base sígnica, simbólica. A estrutura contemporânea é a estrutura psíquica
descrita, metaforicamente, em Grenouille, sujeito constituído através de um
Outro substituto, a saber a mídia. Com a figura paterna anulada, uma vez que o
Outro, que inscreve Nome-do-Pai no sujeito, é substituto, inumano, ficcional, o
homem da pós-modernidade não abstrai, não introjeta Lei. O discurso ao qual o
contemporâneo está inscrito, então, é o do consumo, do espetáculo, líquido, que
privilegia a congregação dos iguais à singularidade.
O
tempo parece modificar com a tecnologia. Há uma aceleração, que remete a uma
situação de caos. Como parar o tempo, já que a tecnologia adquire vida própria,
impossível de ser detida? Sem agirmos para cessar nosso tempo, adaptarmos
nossas necessidades a uma nova rotação, como ficaremos? A falta de tempo para
realizar tudo o que nos é incutido fazer, frente ás necessidades que são
criadas constantemente pela onda mercantil, nos fere. Com isso, nos sentimos
perdidos. Por isso, a busca por respostas imediatas, por medicamentos, por
terapias breves, por aparelhos mais velozes. Qual a saída? Eis uma opção à
sociedade que prima pelo visual e utiliza da ignorância nesse sentido para
manipular e persuadir: uma educação voltada à alfabetização das imagens, uma
educação aos signos imagéticos. Pois, como coloca Giovanni Sartori (2001), “é
bastante evidente que o mundo em que vivemos já está se apoiando nos ombros da
'geração-televisiva': uma espécie recentíssima de ser humano criado pela
tele-visão – diante de um televisor – antes mesmo de saber ler e escrever”
(p.8). Ou seja, o sujeito está diante de um espectro imagético, cuja
decodificação consciente é, sobremaneira, de maior complexidade que a dos
signos linguísticos formais. Se ele não possui as ferramentas essenciais para o
entendimento destes últimos, o que dizer em relação àqueles? Sem dúvida, no
mundo regido por imagens, o contemporâneo, é mais que necessária uma educação
para essa realidade. Não basta decodificar letras, é preciso entender e
compreender as imagens. Caso contrário, elas continuarão exercendo papel
estruturador, uma vez que não passam pelo nível consciente: introjetam-se
diretamente nos registro do Real.
Tal “semiotização”, um saber
educacional voltado à interpretação das imagens, cremos, é fundamentado no que
hoje se convenciona como media literacy,
ou literacia (alfabetização midiática). A Unesco sugere, nesse sentido, desde
2016, a MILID, uma alfabetização para a mídia, a informação e o diálogo
intercultural, estabelecendo diferentes dimensões das competências midiáticas:
linguagem, tecnologia, estética, produção e difusão, ideologia e valores,
processos de informação. Um desafio e uma urgência, especialmente em tempos
cujas fake news se proliferam, bem
como os discursos de ódio e os cancelamentos nas redes sociais.
Referências
ADORNO, Theodor W; HORKHEIMER, Max. Dialética do esclarecimento. Rio de
Janeiro: Zahar, 1985.
DEBORD, Guy. A sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.
FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. 2 ed. Rio de Janeiro: Graal, 1981.
_______. Vigiar e punir. 21 ed. Petrópolis: Vozes, 1999.
HEGEL, G.W.F. Fenomenologia do espírito. Petrópolis: Vozes, 1992.
KAFKA, Franz. A Metamorfose. São Paulo: Nova Cultural, 2002.
LACAN, Jacques. Escritos. São Paulo: Perspectiva, 1992.
LIPOVETSKY, Gilles. Metamorfoses da cultura liberal:
ética, mídia, empresa. São Paulo: Sulina, 2004.
SANTAELLA, Lucia. Culturas e artes do pós-humano: da
cultura das mídias à cibercultura. São Paulo: Paulus, 2003.
SARTORI, Giovanni. Homo videns: televisão e pós-pensamento. Bauru: EDUSC, 2001.
SODRÉ, Muniz. A máquina de Narciso: televisão,
indivíduo e poder no Brasil. São Paulo: Cortez, 1994.
SÜSKIND, Patrick. O perfume: história de um assassino. São Paulo: Círculo do Livro,
1985.
Palavras-chave:
Imagem. Literacia. Semiotização. Mídia. Estruturação do sujeito.
Grupo de Trabalho: GT Educação Básica
[1] Crítico cultural, curador de
arte, co-editor do site apolineo.net. Doutorando em Filosofia (PUC-RS), Mestre
em História, Teoria e Crítica de Arte (PPGAV/UFRGS), Mestre em Psicologia
Social e Institucional (UFRGS), Bacharel em Ciências Sociais (UFRGS), Bacharel
em Filosofia (UFRGS/UCS) e Bacharel em Comunicação Social – Jornalismo (UCS). Autor
de Arte pós-nonsense, ou da dança como gênese do Ser da Arte
(EDUCS, 2019). E-mail: guilhermereolon@terra.com.br.
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