ONTOLOGIA
DA ROUPA:
o indivíduo
entre o artifício e a realidade
Guilherme Reolon de Oliveira
MTb 15.241
O
que é uma roupa? Pergunta inocente, afinal vestimo-nos ou desnudamo-nos tão
facilmente com um simples ato de colocar ou retirar uma ou mais peças de
roupas. Segunda pele, sob a pele; máscara, fantasia; cobrir-se ou descobrir-se.
Uma folha a cobrir a genitália, um casaco sem o qual não se pode frequentar
determinado estabelecimento. A roupa poderia ser definida como “tecidos
recortados e costurados”. Mas, como tal, se reduz à coisa. De acordo com a
funcionalidade, talvez, poder-se-ia dizer que a roupa é um utensílio que serve
para vestir. O vestir, entretanto, só acontece como ação se há uma roupa e,
assim, há uma circularidade na conceituação.
Tecidos
recortados e costurados, em si, não constituem uma roupa, pois outros
utensílios são assim produzidos: toalhas de mesa e lençóis, por exemplo. Em um
manequim, a roupa já é roupa? Em um desfile conceitual, a roupa já existe como
acontecimento? Perguntar o que é a roupa é pensar a sua essência, ou, em outras
palavras, seu originário, ou ainda, seu ser. Costuro tecidos, quaisquer
tecidos, e o resultado é uma roupa? Costuro quaisquer tecidos, a partir de
moldes pré-estabelecidos de camisa, por exemplo: eis uma camisa? E se houver
uma escolha deliberada do tecido a ser utilizado? Uma camisa sem mangas e sem
gola ainda é uma camisa? Essa suposta camisa, criada e exposta ao público, por
meio de um desfile, ou em uma vitrine, já é roupa?
Yohji
Yamamoto definiu a roupa feminina com uma pergunta: “Posso ajudar?”. E a roupa
masculina com um convite: “Vem, vamos embora”. Essas “definições”, na forma de
frases, contribuem para uma ontologia da roupa à medida que expandem a
compreensão do ser da coisa. Ajudar e
ir, verbos inscritos nas orações de
Yamamoto, são ações: o criador-estilista-costureiro está na roupa que oferece
ao cliente: ele está ora numa condição subserviente, ora numa relação de
companheirismo. Yamamoto está não só no desenho e no desenvolvimento produtivo
daquilo que cria, mas na relação que estabelece com aquele que o compra.
Yamamoto é na roupa, como etiqueta, como assinatura e como estilo de
criação (a prisão da qual tem a chave). Vestir a roupa de Yamamoto é vestir
Yamamoto, o próprio, é quase sê-lo. Identificando-me com ele, integro-o à minha
identidade.
Karl
Marx, o pensador do capitalismo, crítico do fetichismo da mercadoria, considera
a roupa uma abstração. Abstração de um trabalho, de uma mão-de-obra valorada,
porém alienada. E se enreda no roteiro que ignora, atestando que é, ou melhor,
está capitalista (e não só porque também “escraviza” uma serviçal). Ele só
consegue ser Marx – o sujeito que pesquisa, que escreve, que freqüenta o Museu
Britânico e que se torna mundialmente conhecido com a publicação de O Capital – se portador de um casaco.
Esse casaco, no entanto, é modo de subsistência, quando objeto penhorável. Sem
a penhora, Marx não pode pagar seu aluguel e sequer alimentar a si e a sua
família. O casaco, em si, tem tanto valor, ou mais, que o trabalho do operário
que o produz. Porém não só: Marx é aniquilado como pensador sem a pesquisa que,
por sua vez, só é possível se Marx porta seu casaco. Marx, nesse sentido, está
em seu casaco. Marx é o casaco: nele estão contidos seu passado e seu
futuro.
Retornamos
à pergunta inicial: o que é uma roupa? Depreendemos que uma roupa só o é a
partir de seu uso. O ser da roupa é apreendido em sua realidade mesma a partir
da conjugação de seus registros: real (de que é feito), simbólico (significados
que lhe são atribuídos) e imaginário (forma e conteúdo transformados no
tempo-espaço). Só no corpo, e em movimento, a roupa é: o uso e a conferência de
identidade e de diferença é o que lhe conferem seu estatuto de verdade.
REFERÊNCIAS
- Documentário “A identidade de nós mesmos”, de Wim
Wenders
- STALLYBRASS. O casaco de Marx.
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