Vera Marta Reolon[1]
Sentir-se vivo,
manancial humano
ao toque de outro ser humano
que não teme
explorar a áspera profundeza
J.S.Martins
Espero o dia em que serei juiz de mim mesmo e saberei se tenho a virtude sobre os lábios e no coração (SÊNECA, carta 26, apud FOUCAULT, 1997, p.134).
Sua descrição é modulada e equilibrada artisticamente. Isso se chama ESTILO. Isso é ARTE. Isso é a única coisa que interessa nos livros. (NABOKOV sobre FLAUBERT).
A essência da dança não é o movimento, mas o TEMPO. “Fantasmas” vigem
entre o movimento e o seu cessar. Este não-movimento que é movimento é que é
essencial à dança. Aquilo que a torna intocável, o que ela é e não é (sendo!),
o pleno do ser e o vazio do ser, potência e impotência, ato e não ato.
O que é isso? Que tipo de vazio é? É vazio? De que tempo se fala? O tempo
relógio? O tempo marcado, o tempo medido? Se não, que tipo de tempo é?
Qual a essência da música? Música é essencial à Dança?
Dança é arte? – Parece não haver dúvidas com relação a esta premissa
básica, mas porque razão as escolas não consideram a dança como parte de um
grande processo educativo, que vise a uma educação ampla?
Como implementar uma nova formulação em dança na Academia (a de Platão –
sinônimo de Universidade, nos dias de hoje) que vise profissionais professores,
licenciandos marcados com a arte da dança, mas a arte de ENSINAR DANÇA?
Como seria ensinar dança e aprender mais sobre a ARTE da dança?
Como ver a dança – arte e aprofundar seus conceitos e elementos?
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A partir da LDB 9694/96, as aulas de Educação Artística deveriam trazer a
arte-linguagem-dança para seus currículos, alunos e professores como agentes de
suas próprias práticas, através de Projetos Interdisciplinares via Tema
Gerador.
Isto basta para ver a dança como uma arte importante nos processos de
aprendizagem? Digo que ela, a dança, seja “inserida” nas escolas via tema
gerador e, especificamente, como LEI, para que ela seja absorvida pela
população escolar como ARTE? Como arte necessária?
A dança como um tema transversal e não como um campo de importância
fundamental no desenvolvimento de processos cognitivos superiores de movimento,
equilíbrio, técnica, desenvoltura, postura, trabalho do corpo – não apenas nos
movimentos contemporâneos de uma busca de corpos perfeitos, mas em uma busca de
saúde global, à semelhança do mundo grego em que a ética no viver não se
desvinculava da estética, dos cuidados da saúde corporal, do bem viver, da arte
no e do viver.
Ter um professor em Dança, em Licenciatura em Dança (que é muito
diferente, ser um professor de dança e um professor de licenciandos em dança!)
que tenha conhecimentos interdisciplinares, das diversas subjetividades e
necessidades de estudo de abordagens dessas subjetividades é primordial para
atingir objetivos que todos nós criticamos quando falamos da arte da dança, da
arte da dança como necessidade de conhecimento em arte, em estética, desde a
escola, não apenas como mero auxiliar nas diferentes educações artísticas, mas
como desenvolvimento de habilidades superiores, inclusive de avaliações
culturais e sobre a cultura, de desenvolvimento de uma cultura dita ampla, que
não se detenha em fragmentos, mas vá em direção de uma EDUCAÇÃO, em seu mais
amplo sentido.
Abordar e ampliar as noções do CUIDADO DE SI, como conhecimento de si,
como busca de uma cultura ampla, de educação, de saúde, de arte de si, parece
ser primordial para atingir o que os gregos acreditavam ser a ÉTICA, centro de ethos existencial.
Implementar estas ideias nos aprendizados em dança, na formação de
licenciandos engajados em um novo olhar sobre a vida, sobre a arte, sobre o
viver com arte, me parece fundamental para que a relevância da dança na escola
ganhe ares de uma verdadeira interdisciplinaridade, quiçá transdisciplinaridade.
Discorrer sobre a diferença de ambos os conceitos também parece importante para
a Academia do hoje!.
Os estudos do movimento, o mover-se e o seu cessar (que também é
movimento) estão intimamente ligados a todo um fazer em dança, quando não são o
próprio dançar. Que o digam todos os grandes coreógrafos em dança moderna e
contemporânea, Isadora Duncan, Marta Graham, Merce Cunninghan, Pina Bausch,
entre outros. Mas não só os de Dança Moderna e Contemporânea, mas todos os
bailarinos.
Os estudos do movimento requerem um “observador” atrelado a saberes
múltiplos, que implicam conhecimentos em física, matemática, corpo, biologia,
inconsciente, história, sociologia, filosofia, psicanálise, saberes que nem
sempre estão envolvidos em um mesmo fragmento de escola, em um mesmo fragmento
e segmento dentro da academia. Inclui passagens, caminhos que já foram e devem
ser traçados por observador interessado em movimentos inter e
transdisciplinares.
É relevante e justificado que se avance em direção a novos estudos em
dança, uma arte milenar, mas ainda envolvida em véus de ignorância quanto a
seus pressupostos.
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A psicanálise, como teoria
interpretativa da realidade, serve para analisar os fenômenos, no campo
individual, através das manifestações do inconsciente, presentes na linguagem
dos diversos sujeitos, nos chistes, na interpretação dos sonhos, etc. Pode,
entretanto, interpretar os fenômenos sociais, através da análise das
manifestações da sociedade, das organizações e instituições, dos grupos sociais.
Aliando-se a filosofia, essencial para seu desenvolvimento deste o início, a
psicanálise, além de realizar interpretações, reflete sobre os fatos,
utilizando-se das teorias dos grandes pensadores.
Partindo-se, assim, da escrita desconstrutiva de Derrida, o discurso
psicanalítico é o que pode dar conta das questões contemporâneas: “Se há um
discurso que poderia, hoje em dia, reinvindicar a causa da crueldade psíquica
como assunto próprio, este é o que se chama, de mais ou menos um século para
cá, psicanálise” (DERRIDA, 2001, p.8-9).
Lanço uma hipótese de que os
processos educativos é que podem propiciar uma resposta às grandes questões
contemporâneas. Pode a educação fazer frente a essas questões? Pode ela
isentar-se disso? Como educar sem fazer essa passagem?
Nunca, em nenhuma outra época de nossa história, esteve o homem tão só em
meio à multidão. Os ideais que o sustentavam caíram, a felicidade não depende
mais da harmonia de vínculos sociais, mas de objetos adquiridos e ofertados
incessantemente pela mídia e os instrumentos gerais do marketing. Há uma oferta
de gozo total. A foraclusão da Lei da vida é paga com dízimos. O sujeito é
transformado, através do seu assassinato, em objeto submisso do gozo do Outro.
Não há nada mais psicotizante do que isso. Nas doenças da modernidade,
anorexia, bulimia, toxicomanias, o que se tem são sombras que o mundo das luzes
não ilumina. A modernidade nos oferece um mundo iluminado pelos outdoors plenos de ofertas, luzes de
néon, que não chegam a iluminar a necessária busca do homem e de si mesmo.
Nosso eu, quem sou, para onde vou, o que desejo (?), não há resposta. A oferta
que temos é de pulsão de morte em todo tempo. O mercado demanda ofertas onde o
consumidor precisa e não vive sem a mercadoria. Este é o modelo de paradigma
que abarca as toxicomanias, é causa e consequência delas. O que vem antes, um
mundo que facilita as toxicomanias, ou elas originam o mundo? Não sabemos,
devemos pensar sobre isso. As doenças modernas remetem à morte do sujeito, uma
segunda morte que vem antes da primeira (interrupção da vida), pois esta
segunda é a morte do sujeito no Simbólico.
Michel Foucault em seus seminários sobre o Governo de Si e dos Outros e sobre a Hermenêutica do Sujeito aborda e discorre sobre o cuidado de si,
como uma questão ampla de uma busca de saúde que vai de encontro com o
conhecimento de si, com o saber de seu corpo, com o saber de suas necessidades,
de seus desejos, com vistas a uma ampla busca de felicidade, não mais como uma
busca utópica, subjetiva, inalcançável (talvez como ideal demais!) mas, através
desse conhecimento de si, uma felicidade possível, palpável, vivenciável: “A
filosofia está assimilada ao cuidado com a alma (o termo é precisamente médico:
hugiainein), e esse cuidado é uma
tarefa que deve ser seguida ao longo de toda a vida”. (FOUCAULT, 1997, p.120).
Hermenêutica de si => epimeléia heautou (grego) – cura sui (latim) – princípio
de ocupar-se de si => cuidar de si mesmo => conhecer a si mesmo =>
obscurecido pelo brilho do Gnôthi
seauton. (FOUCAULT, 1997,p.119)
A psicanálise, especialmente a lacaneana, quando aborda a Lógica do
Fantasma, conceito importante que estabelece a diferença entre fantasia – de
cunho vinculado à neurose, estruturalmente falando – como sintoma, ou melhor
apresentação, forma de manifestação do sintoma da neurose, diferente da forma
de manifestação da perversão, inclusive presente na máxima “lá onde o neurótico
fantasia, o perverso faz”; e fantasma (“fantôme”),
marca, identificação na subjetividade de cada sujeito, ao imaginário do Outro
(“sua” Mãe!), que de imaginário do Outro fica como marca Real na estrutura
subjetiva do ser falante.
Como, depois disso, definiremos realidade ao que
chamei a pouco o pronto para carregar o fantasma, isto é, o que faz
seu quadro e veremos então que a realidade, toda a realidade humana, não é nada
mais que montagem do Simbólico e do Imaginário – que o desejo, no centro desse
aparelho, desse quadro que chamamos realidade, é também, para falar propriamente, o que ocorre, como eu o articulei
desde sempre, o que importa distinguir da realidade humana e que é para falar
propriamente o Real, que não é nunca
senão entrevisto; entrevisto quando a máscara, que é aquela do fantasma,
vacila. A saber, a mesma coisa que o que Spinoza apreendeu, quando ele disse:
“o desejo é a essência do homem” (LACAN,
2008, p.19)
Porquê a obra de arte tem a ver com elementos socio-culturais?: “A obra
de arte encerra elementos históricos e sociais que a estética tem a tarefa de
explicitar. A obra não somente “julga” a sua maneira a história e a sociedade,
mas ela própria é candidata, à apreciação e à avaliação do público”. (JIMENEZ,
1999, p.374).
Segundo Walter Benjamim, a aura é um veículo de desaceleração que parece
diluir-se ou ser incompatível com as experiências de “choque da modernidade” e
com os sonhos de consumo imediato do capitalismo. A arte, para Benjamim, ela o
é através de sua “Aura”, do que a define como arte, daquilo que faz a diferença
entre um objeto comum e o que o institui como obra de arte.
Segundo Deleuze, o acontecimento não é o que acontece (acidente), ele é
NO que acontece, o puro expresso que nos dá sinal e nos espera. O acontecimento
não mostra como se forma o sentido, mas como ele deriva de um estado de coisas.
O acontecimento é o próprio sentido, sentido produzido. O acontecimento
instala-se diretamente no tempo. Para Deleuze o nonsense não é o sem sentido, mas onde está o total do ser, sua
potência, ou seja, onde o SENTIDO é MÀXIMO.
Parar => possibilidade de ato que critica a ação. Ato parado, ato de
resistência.
Agambem faz relações entre tempo e imagem. Agambem discorre em seu texto
sobre a questão do tempo e do fantasmata em dança.
Aristóteles afirma sobre a dignidade da dança => Dança é tanto
intelectual, quanto prática. Arte composta de seis elementos: medida, memória,
agilidade, maneira, medida do terreno e “fantasmata”.
“Somente os seres que percebem o tempo recordam, e com a mesma faculdade
da imaginação...” Domenico De Piacenza retoma de Aristóteles o conceito do
movimento em dança:
“danzare per fantasmata”
=> muitas coisas que não se podem
dizer.
Fantasmata
=> presteza corporal – impedimento improvisado – demora entre dois
movimentos. Dele surge a imagem como um cabelo de Medusa, que se move e que não
podemos olhar.
↓
Daí surgiria a tensão interna
entre a medida e memória na série completa da coreografia.
Este não movimento que é o movimento é o que me parece ser essencial à
dança. Aquilo que a torna intocável.
É ao fantasma que se chega ao tocar essências: “A dança é esta arte que,
ao tocar na essência do movimento cessa de ter sentido e só se recupera no ato
parado, na PARAGEM” (TIBURI; ROCHA, 2012, p.96-97).
Relações espaço-temporais contidas nas danças tradicionais e nas produções
artísticas estão diretamente relacionadas à pluralidade cultural, pois
expressam e comunicam conceitos e vivências de diferentes épocas e espaços
geográficos.
Quem pode dançar? Quem pode dançar o quê? Quais os diferentes conceitos
de corpo?
Um professor pode enfatizar os corpos que dançam e os corpos NA dança.
Aprender dança significa incorporar valores e atitudes. Como a dança
pode, e pode!, alterar todo um
estado de violência que vige no social, através de vivências e aprendizados de
e na arte.
SER UM PROFESSOR
DE DANÇA É MAIS DO QUE SER UM BAILARINO, É SER ALGUÉM QUE COMPREENDE O
MOVIMENTO EM DANÇA! E O TRANSMITE.
REFERÊNCIAS
ARISTÓTELES. Ética
a Nicômacos. 3ed. Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 1985.
BENJAMIN, Walter. Estética
Y Política. Buenos Aires: Las Cuarenta, 2009.
DELEUZE, Gilles, GUATTARI, Félix. O Anti-Édipo: Capitalismo e
Esquizofrenia. Lisboa: Assírio e Alvim, 1966.
DERRIDA, Jacques. Estados-da-alma
da psicanálise. São Paulo: Escuta, 2001.
FOUCAULT, Michel. Resumo
dos Cursos do College de France. Rio de Janeiro, Zahar, 1997.
JIMENEZ, Marc. O
que é Estética?. São
Leopoldo:Unisinos, 1999.
LACAN, Jacques. O
seminário: a lógica do fantasma (1966-1967). Recife: Centro de estudos
freudianos do Recife, 2008.
REOLON, Vera Marta. mulheres para um homem... para O Homem, A Mulher. Porto Alegre:
EDIPUCRS, 2008.
TIBURI, Márcia; ROCHA, Thereza. Diálogo: Dança. São Paulo: SENAC, 2012.
[1]
Jornalista (Mtb 16.069), psicóloga (CRP 07/7654) e psicanalista lacaniana.
Co-editora dos blogs Folha das Artes
e Mondo dela Arte, especializados em
crítica de arte e pesquisa em (est)ética. Docente do Departamento de Estudos
Básicos (Faced/UFRGS). Bacharel em Ciências Contábeis (UCS), Graduada em
Psicologia – Formação de Psicólogo (UCS), Mestre em Letras e Cultura Regional
(UCS), Doutora em Filosofia (PUC-RS), Doutora em Educação (UFRGS), Pós-doutora
em Estética e Filosofia da Arte. Autora de “mulheres para um homem... para O
Homem, A Mulher” (Edipucrs, 2008).
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