Guilherme Reolon de
Oliveira[1]
Observa-se um
certo aumento do ensino da dança em Porto Alegre e no estado, em geral,
especialmente o ensino dito formal e, mais especificamente, no ensino superior.
A dança, assim, mostra-se como importante área do conhecimento, já que dela há
cursos não só de bacharelado, mas de licenciatura e mesmo tecnólogo. Parece
importante elucida-la, uma vez que, mesmo acadêmicos, parecem confundir-se
quanto às suas abordagens. Cada abordagem se diferencia em seus fundamentos,
ainda que, epistemologicamente, a área seja una e seus objetos tão diversos:
danças urbanas, dança clássica, moderna e contemporânea, dança de salão,
sapateado, etc. Nesse sentido, a técnica é ensinada e propagada de inúmeras
formas, por meio de diferentes métodos. Mas a experiência estética advinda de
sua apreciação parece sempre relegada a segundo plano. E, com isso, a formação
de público em dança parece sempre um problema impossível de ser resolvido.
A dança
precisa urgentemente ser pensada como área do conhecimento, em suas múltiplas
facetas, lembrando sempre que é uma arte e advinda do campo da estética. Assim,
quando se aborda dança por meio de um curso de licenciatura, o enfoque pode ser
o formativo, ou, em outros termos, o de produção do gosto, que só acontece pela
experiência estética, alicerçada em teoria, e o de consciência corporal, em
abordagem diferenciada da educação física, que só acontece pela prática do
conhecer a si mesmo.
Tal enfoque,
nesse sentido, se diferencia de um curso de bacharelado, que se alicerça na
pesquisa, mais teórica que prática, baseada em abordagens multi e
interdisciplinares, e fundamentada na filosofia da dança e nas teorias
estéticas. Tratamento quase oposto ao do curso de tecnólogo na área, inserido
no terreno da prática e, esse sim, com foco na produção coreográfica, nos usos
diversos da arte cênica, com foco na dança como produto ou obra artística,
fruto de trabalho de criação conjunto, no que concerna à partitura de
movimentos , figurino, cenário, elementos cênicos, iluminação, música
subjacente (ou música-tema), dentre outros. Quando se menciona a música, isso
não acontece à toa: observa-se bailarinos que também a ignoram ou a enxergam
como dispensável, dando visibilidade apenas ao movimento em si, embora o
casamento com outras artes deixe a dança ainda mais interessante.
Independentemente
do tipo de formação na área, é certo que a dança como área de conhecimentos
pode ser pensada tanto em seus aspectos artísticos, como educativos, psicológicos
ou físicos. No campo da arte, a dança pode ser tanto arte cênica (como na
maioria das vezes é tratada), como arte visual (dada a sua poeticidade plástica
e imagética, imune à narratividade e, por vezes, ao sentido). Talvez, aqui,
também caiba uma diferenciação em relação à performance
que, penso, deva ser tratada em sua especificidade e, como tal, ganhar
visibilidade. Ainda, no campo artístico e, principalmente, na estética, a dança
pode ser abordada em quatro frentes da crítica: na descrição (o que é visto e
apresentado), na interpretação (o que dela deriva), na avaliação (que juízos
são possíveis – e suas reverberações no campo da ação humana) e na
contextualização (genealogia da criação).
Em sua
pluralidade de facetas, a dança se configura, como já demonstrei em estudo
anterior[2],
como originário e grau zero da arte, já que, dela, Sentido e Presença se
mesclam como matrizes que reverberam em
diversas linguagens ou aportes artísticos.
[1]
Jornalista (Mtb 15.241), sociólogo (Mtb 1.127), filósofo e crítico de dança.
Co-editor dos blogs Folha das Artes e
Mondo dela Arte, especializados em
crítica e pesquisa em (est)ética. Bacharel em Comunicação Social – Jornalismo
(UCS), Bacharel em Ciências Sociais (UFRGS), Bacharel em Filosofia (UFRGS/UCS),
Mestre em Psicologia Social e Institucional (UFRGS) e Doutorando em História,
Teoria e Crítica de Arte (PPGAV/IA/UFRGS). .
[2]
“Arte pós-nonsense: do abismo entre a
negação (hybris) e o grau zero (hybrida) de Sentido e Presença – ou da
dança como gênese do Ser da Arte“, no prelo.
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