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domingo, 24 de setembro de 2017

Uma pluralidade de facetas


Guilherme Reolon de Oliveira[1]

Observa-se um certo aumento do ensino da dança em Porto Alegre e no estado, em geral, especialmente o ensino dito formal e, mais especificamente, no ensino superior. A dança, assim, mostra-se como importante área do conhecimento, já que dela há cursos não só de bacharelado, mas de licenciatura e mesmo tecnólogo. Parece importante elucida-la, uma vez que, mesmo acadêmicos, parecem confundir-se quanto às suas abordagens. Cada abordagem se diferencia em seus fundamentos, ainda que, epistemologicamente, a área seja una e seus objetos tão diversos: danças urbanas, dança clássica, moderna e contemporânea, dança de salão, sapateado, etc. Nesse sentido, a técnica é ensinada e propagada de inúmeras formas, por meio de diferentes métodos. Mas a experiência estética advinda de sua apreciação parece sempre relegada a segundo plano. E, com isso, a formação de público em dança parece sempre um problema impossível de ser resolvido.
A dança precisa urgentemente ser pensada como área do conhecimento, em suas múltiplas facetas, lembrando sempre que é uma arte e advinda do campo da estética. Assim, quando se aborda dança por meio de um curso de licenciatura, o enfoque pode ser o formativo, ou, em outros termos, o de produção do gosto, que só acontece pela experiência estética, alicerçada em teoria, e o de consciência corporal, em abordagem diferenciada da educação física, que só acontece pela prática do conhecer a si mesmo.
Tal enfoque, nesse sentido, se diferencia de um curso de bacharelado, que se alicerça na pesquisa, mais teórica que prática, baseada em abordagens multi e interdisciplinares, e fundamentada na filosofia da dança e nas teorias estéticas. Tratamento quase oposto ao do curso de tecnólogo na área, inserido no terreno da prática e, esse sim, com foco na produção coreográfica, nos usos diversos da arte cênica, com foco na dança como produto ou obra artística, fruto de trabalho de criação conjunto, no que concerna à partitura de movimentos , figurino, cenário, elementos cênicos, iluminação, música subjacente (ou música-tema), dentre outros. Quando se menciona a música, isso não acontece à toa: observa-se bailarinos que também a ignoram ou a enxergam como dispensável, dando visibilidade apenas ao movimento em si, embora o casamento com outras artes deixe a dança ainda mais interessante.   
Independentemente do tipo de formação na área, é certo que a dança como área de conhecimentos pode ser pensada tanto em seus aspectos artísticos, como educativos, psicológicos ou físicos. No campo da arte, a dança pode ser tanto arte cênica (como na maioria das vezes é tratada), como arte visual (dada a sua poeticidade plástica e imagética, imune à narratividade e, por vezes, ao sentido). Talvez, aqui, também caiba uma diferenciação em relação à performance que, penso, deva ser tratada em sua especificidade e, como tal, ganhar visibilidade. Ainda, no campo artístico e, principalmente, na estética, a dança pode ser abordada em quatro frentes da crítica: na descrição (o que é visto e apresentado), na interpretação (o que dela deriva), na avaliação (que juízos são possíveis – e suas reverberações no campo da ação humana) e na contextualização (genealogia da criação).
Em sua pluralidade de facetas, a dança se configura, como já demonstrei em estudo anterior[2], como originário e grau zero da arte, já que, dela, Sentido e Presença se mesclam como matrizes  que reverberam em diversas linguagens ou aportes artísticos.




[1] Jornalista (Mtb 15.241), sociólogo (Mtb 1.127), filósofo e crítico de dança. Co-editor dos blogs Folha das Artes e Mondo dela Arte, especializados em crítica e pesquisa em (est)ética. Bacharel em Comunicação Social – Jornalismo (UCS), Bacharel em Ciências Sociais (UFRGS), Bacharel em Filosofia (UFRGS/UCS), Mestre em Psicologia Social e Institucional (UFRGS) e Doutorando em História, Teoria e Crítica de Arte (PPGAV/IA/UFRGS).  .
[2] “Arte pós-nonsense: do abismo entre a negação (hybris) e o grau zero (hybrida) de Sentido e Presença – ou da dança como gênese do Ser da Arte“, no prelo. 

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