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domingo, 6 de agosto de 2017

Esses russos maravilhosos e seus incríveis discursos

                                                                                 Vera Marta Reolon

            Todos os autores que nos propusermos a estudar em literatura concordam que o prazer com a literatura deve ser “sentido”, o prazer de ler está presente em todo e qualquer leitor que se propõe a ler uma obra “apenas para ler e sentir”. O que aqui é pensado é o “a mais” que podemos extrair da literatura que, para Antônio Cândido, uma obra deve ser avaliada por sua integridade estética, mas também deve-se distinguir sua função total, social e ideológica. Devemos, ao ler uma obra, observar a universalização de seu conteúdo, a ideologia que perpassa a obra, as relações sociais contidas no texto, para aquele grupo. O ideal para compreender uma obra seria a união dos planos estético, simbólico-descritivo e sociológico, levando em conta o quadro sócio-cultural em que essas manifestações literárias se situam, mas procurando captá-las na integridade de seu significado. O poeta narra uma experiência pessoal que adquire sentido genérico à medida que ele passa da emoção a uma concepção de vida Þ a universalização.
            Já Bakhtin nos oferece o estudo da polifonia existente na obra: vozes plenivalentes (plenas de valor) que mantêm com as outras vozes do discurso uma relação de absoluta igualdade como participantes do grande diálogo. As obras podem apresentar uma representação de consciências independentes, que dialogam entre si, interagem, mantendo-se imiscíveis, enquanto consciências individuais que não se objetivam. Avalia também a carnavalização na obra: o mundo não é representado, é vivido e mais que tudo subvertido, as leis são desviadas de sua ordem natural.
            A literatura e a história são “companheiras” na análise do mundo em que vivemos. Vivemos novas ordens para conceber a história. Fato histórico o é quando passa pelo registro do discurso. A história assim passa a se ater também ao imaginário. A literatura é uma manifestação cultural, entre outras manifestações culturais que retratam o passado. A literatura lê aquém e além dos historiadores.
            Os estudiosos dos gêneros de fronteiras, pensam que se constitui linha tênue a separar história de ficção, a leitura depende do receptor. Depende do receptor um texto ser mais histórico ou não. Quanto mais próxima a ambientação da história da vida do escritor, mais o leitor verá a obra como histórica. Nesta óptica, o romance histórico pode:
-         tentar reconstituir o passado
-         subverter a história
-         apresentar acontecimentos que estão se dando


A teoria de Bakhtin –uma teoria revolucionária: os personagens de Dostoievski revelam uma notória independência interior em relação ao autor na estrutura do romance, que permite, em certos momentos, até rebelar-se contra seu criador. A representação destes personagens é, sobretudo, uma representação de consciências, de uma interação de consciências, consciências isônomas e plenivalentes, que dialogam entre si, interagem, preenchem com suas vozes as lacunas e evasivas deixadas por seus interlocutores, mantêm-se imiscíveis, enquanto consciências individuais que não se objetivam.

Sobre a visão polifônica: Para ele a polifonia é o discurso do diálogo inacabado; não é possível dizer tudo sobre uma época por mais que dela se saiba.

Sobre a visão e concepção filosófica: “...no mundo ainda não ocorreu nada definitivo, a última palavra do mundo e sobre o mundo ainda não foi pronunciada, o mundo é aberto e livre, tudo ainda está por vir e sempre estará por vir...”

Dostoievski criou um tipo inteiramente novo de pensamento artístico, a que chamamos convencionalmente de tipo polifônico.

O Romance polifônico de Dostoievski e seu enfoque na crítica literária:  aqui  Bakhtin parte do trabalho de diversos estudiosos de Dostoievski e busca compreendê-los  e criticá-los. Para uns pesquisadores, a voz de Dostoiervski se confunde com a voz desses e daqueles heróis, para outros, é uma síntese peculiar de todas essas vozes ideológicas, para terceiros, aquela é simplesmente abafada por estas.

“A multiplicidade de vozes e consciências independentes e imiscíveis e a autêntica polifonia de vozes plenivalentes (plenas de valor, que mantêm com as outras vozes do discurso uma relação de absoluta igualdade como participantes do grande diálogo) constituem, de fato, a peculiaridade fundamental dos romances de Dostoievski.”
“a multiplicidade de consciências eqüipolentes (consciências e vozes que participam do diálogo com as outras vozes em pé de absoluta igualdade; não se objetivam, isto é, não perdem o seu SER enquanto vozes e consciências autônomas) e seus mundos que aqui se combinam numa unidade de acontecimento, mantendo a sua imiscibilidade”.

A consciência do herói é dada como a outra, a consciência do outro, mas ao mesmo tempo não se objetiva, não se fecha, não se torna mero objeto da consciência do autor.
A voz do herói sobre si mesmo e o mundo é tão plena como a palavra comum do autor; não está subordinada à imagem objetificada do herói como uma de suas características, mas tampouco serve de intérprete da voz do autor.

O Romance polifônico por Dostoievski criado não teve precursores.

Vyatcheslav Ivánov: define o realismo dostoievskiano como o realismo que não se baseia no conhecimento (objetivado) mas na penetração. Ivánov mostra uma interpretação puramente temática e negativa...-> a afirmação (e não-afirmação) do “eu” do outro pelo herói é o tema das obras de Dostoievski.

Askóldov: “o crime nos romances dostoievskianos é uma colocação vital do problema ético-religioso. O castigo é uma forma de sua solução, daí ambos representarem o tema fundamental da obra de Dostoievski.” -> Askóldov “monologa” o mundo artístico de Dostoievski., transfere o dominante desse mundo a uma pregação monológica e com isto reduz as personagens a simples ilustrações dessa pregação.

Para Grossman, Dostoievski coaduna os contrários.

Bakhtin: o problema gira em torno da última dialogicidade (ciência do diálogo), como o todo da interação entre várias consciências dentre as quais nenhuma se converteu definitivamente em objeto da outra.

Kaus: Dostoievski é multifacético e imprevisível em todos os movimentos do seu pensamento artístico, suas obras são saturadas de forças e intenções que, pareceria, são separadas por abismos intransponíveis.Para Kaus, o mundo de Dostoievski é a expressão mais pura e mais autêntica do espírito do capitalismo. =>  As explicações de Kaus são corretas em muitos sentidos. O romance polifônico só pode realizar-se na época capitalista.
Bakhtin ainda observa e critica os trabalhos de V. Komaróvitch, Engelgardt, V. Kirpótin..

“Dostoievski via e pensava seu mundo predominantemente no espaço e não no tempo” (coexistência e interação). “Seu herói é o homem... o homem no homem..” “...para Dostoievski tudo na vida é diálogo, ou seja, contraposição dialógica..”

REFERÊNCIAS:
BAKHTIN, Mikhail. Problemas da poética de Dostoievski.
DOSTOIEVSKI, Fiódor. Diversas.



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