Vera Marta Reolon
Todos os autores que nos propusermos a estudar em
literatura concordam que o prazer com a literatura deve ser “sentido”, o prazer
de ler está presente em todo e qualquer leitor que se propõe a ler uma obra
“apenas para ler e sentir”. O que aqui é pensado é o “a mais” que podemos
extrair da literatura que, para Antônio Cândido, uma obra deve ser avaliada por
sua integridade estética, mas também deve-se distinguir sua função total,
social e ideológica. Devemos, ao ler uma obra, observar a universalização de
seu conteúdo, a ideologia que perpassa a obra, as relações sociais contidas no
texto, para aquele grupo. O ideal para compreender uma obra seria a união dos
planos estético, simbólico-descritivo e sociológico, levando em conta o quadro
sócio-cultural em que essas manifestações literárias se situam, mas procurando
captá-las na integridade de seu significado. O poeta narra uma experiência
pessoal que adquire sentido genérico à medida que ele passa da emoção a uma
concepção de vida Þ
a universalização.
Já Bakhtin nos oferece o estudo da polifonia existente na
obra: vozes plenivalentes (plenas de valor) que mantêm com as outras vozes do
discurso uma relação de absoluta igualdade como participantes do grande
diálogo. As obras podem apresentar uma representação de consciências
independentes, que dialogam entre si, interagem, mantendo-se imiscíveis, enquanto
consciências individuais que não se objetivam. Avalia também a carnavalização
na obra: o mundo não é representado, é vivido e mais que tudo subvertido, as
leis são desviadas de sua ordem natural.
A literatura e a história são “companheiras” na análise
do mundo em que vivemos. Vivemos novas ordens para conceber a história. Fato
histórico o é quando passa pelo registro do discurso. A história assim passa a
se ater também ao imaginário. A literatura é uma manifestação cultural, entre
outras manifestações culturais que retratam o passado. A literatura lê aquém e
além dos historiadores.
Os estudiosos dos gêneros de fronteiras, pensam que se
constitui linha tênue a separar história de ficção, a leitura depende do
receptor. Depende do receptor um texto ser mais histórico ou não. Quanto mais
próxima a ambientação da história da vida do escritor, mais o leitor verá a
obra como histórica. Nesta óptica, o romance histórico pode:
-
tentar reconstituir o
passado
-
subverter a história
-
apresentar
acontecimentos que estão se dando
A
teoria de Bakhtin –uma teoria revolucionária: os personagens de Dostoievski
revelam uma notória independência interior em relação ao autor na estrutura do
romance, que permite, em certos momentos, até rebelar-se contra seu criador. A
representação destes personagens é, sobretudo, uma representação de
consciências, de uma interação de consciências, consciências isônomas e
plenivalentes, que dialogam entre si, interagem, preenchem com suas vozes as
lacunas e evasivas deixadas por seus interlocutores, mantêm-se imiscíveis,
enquanto consciências individuais que não se objetivam.
Sobre a visão polifônica: Para ele a
polifonia é o discurso do diálogo inacabado; não é possível dizer tudo sobre
uma época por mais que dela se saiba.
Sobre a visão e concepção filosófica:
“...no mundo ainda não ocorreu nada definitivo, a última palavra do mundo e
sobre o mundo ainda não foi pronunciada, o mundo é aberto e livre, tudo ainda
está por vir e sempre estará por vir...”
Dostoievski criou um tipo inteiramente
novo de pensamento artístico, a que chamamos convencionalmente de tipo
polifônico.
O Romance polifônico de Dostoievski e seu
enfoque na crítica literária: aqui Bakhtin parte do trabalho de diversos
estudiosos de Dostoievski e busca compreendê-los e criticá-los. Para uns pesquisadores, a voz
de Dostoiervski se confunde com a voz desses e daqueles heróis, para outros, é
uma síntese peculiar de todas essas vozes ideológicas, para terceiros, aquela é
simplesmente abafada por estas.
“A multiplicidade de vozes e consciências
independentes e imiscíveis e a autêntica polifonia de vozes plenivalentes
(plenas de valor, que mantêm com as outras vozes do discurso uma relação de
absoluta igualdade como participantes do grande diálogo) constituem, de fato, a
peculiaridade fundamental dos romances de Dostoievski.”
“a multiplicidade de consciências
eqüipolentes (consciências e vozes que participam do diálogo com as outras
vozes em pé de absoluta igualdade; não se objetivam, isto é, não perdem o seu
SER enquanto vozes e consciências autônomas) e seus mundos que aqui se combinam
numa unidade de acontecimento, mantendo a sua imiscibilidade”.
A consciência do herói é dada como a
outra, a consciência do outro, mas ao mesmo tempo não se objetiva, não se
fecha, não se torna mero objeto da consciência do autor.
A voz do herói sobre si mesmo e o mundo é
tão plena como a palavra comum do autor; não está subordinada à imagem
objetificada do herói como uma de suas características, mas tampouco serve de
intérprete da voz do autor.
O Romance polifônico por Dostoievski
criado não teve precursores.
Vyatcheslav Ivánov: define o realismo
dostoievskiano como o realismo que não se baseia no conhecimento (objetivado)
mas na penetração. Ivánov mostra uma interpretação puramente temática e
negativa...-> a afirmação (e não-afirmação) do “eu” do outro pelo herói é o
tema das obras de Dostoievski.
Askóldov: “o crime nos romances
dostoievskianos é uma colocação vital do problema ético-religioso. O castigo é
uma forma de sua solução, daí ambos representarem o tema fundamental da obra de
Dostoievski.” -> Askóldov “monologa” o mundo artístico de Dostoievski.,
transfere o dominante desse mundo a uma pregação monológica e com isto reduz as
personagens a simples ilustrações dessa pregação.
Para Grossman, Dostoievski coaduna os
contrários.
Bakhtin: o problema gira em torno da
última dialogicidade (ciência do diálogo), como o todo da interação entre
várias consciências dentre as quais nenhuma se converteu definitivamente em
objeto da outra.
Kaus: Dostoievski é multifacético e
imprevisível em todos os movimentos do seu pensamento artístico, suas obras são
saturadas de forças e intenções que, pareceria, são separadas por abismos
intransponíveis.Para Kaus, o mundo de Dostoievski é a expressão mais pura e
mais autêntica do espírito do capitalismo. => As explicações de Kaus são corretas em muitos
sentidos. O romance polifônico só pode realizar-se na época capitalista.
Bakhtin ainda observa e critica os
trabalhos de V. Komaróvitch, Engelgardt, V. Kirpótin..
“Dostoievski via e pensava seu mundo
predominantemente no espaço e não no tempo” (coexistência e interação). “Seu
herói é o homem... o homem no homem..” “...para Dostoievski tudo na vida é
diálogo, ou seja, contraposição dialógica..”
REFERÊNCIAS:
BAKHTIN, Mikhail. Problemas
da poética de Dostoievski.
DOSTOIEVSKI, Fiódor. Diversas.
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