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domingo, 6 de agosto de 2017

Uma outra Revolução Russa, em solo estrangeiro

Guilherme Reolon de Oliveira

O teatro Champs-Élysées, em Paris, foi inaugurado em 1913. Sua arquitetura, considerada moderna demais, chocou os parisienses da época. Mas o maior escândalo que o Champs-Elysees viveu ainda estava por vir, com a estréia, em 29 de maio de 1913, do ballet A Sagração da Primavera, que tinha como sub-título Quadros da Rússia pagã em duas partes. A programação da noite começou com Les Sylphides, um balé baseado na música de Chopin, seguido de A Sagração da Primavera.
Em uma noite anormalmente quente, a alta sociedade parisiense se reunia para prestigiar o mais novo espetáculo da companhia de Ballet Russo, liderada pelo empresário Sergei Diaghilev. Este não só esperava certo estranhamento do público, como havia se prevenido de infortúnios, contratando cerca de vinte estudantes para aplaudir o espetáculo durante sua apresentação. Mas ninguém, nem mesmo Diaghilev, esperava o célebre escândalo que se tornou a noite de estréia. 
A Sagração da Primavera foi composta, musicalmente, por Igor Stravinsky, e demorou cerca de 30 anos para ficar pronta. A obra, hoje considerada uma das mais influentes músicas do início do período moderno, era por si só motivo de comoção, com forte influência folclórica. Ainda que o próprio compositor tenha inicialmente negado a obra para o ballet, a Sagração pode ser entendida como uma composição completa, dada as suas dissonâncias e contraposições, indo da mais alta agressividade dissonante a trechos melodiosos e calmos.
Mesmo Diaghilev, patrocinador da polêmica, estranhou a música ao ouvi-la pela primeira vez: “Vai continuar assim por muito tempo?”, perguntou após escutar os primeiros acordes da segunda seção, intitulada “Augúrios primaveris”. Ao que Stravinsky respondeu: “Até o fim meu caro”.
A polêmica da obra, entretanto, também se estende ao seu enredo, que conta a história de um ritual tribal: uma jovem virgem deveria ser sacrificada, como oferenda ao deus da primavera, para que, na primavera que se iniciasse, as terras se tornassem férteis.
Não foi fácil para Nijinsky, um bailarino que iniciava sua carreira como coreógrafo, lidar com o compositor e sua obra. Em nota de seus diários, ele conta que, enquanto Stravinsky insistia em lhe ensinar teoria musical, o que ele queria saber eram as inspirações do compositor para sua criação. Igualmente difícil foi acertar a marcação do ballet, uma vez que quase toda música estava fora do tradicional compasso para espetáculos desse gênero de dança.
Nijinsky concebeu um estilo de dança completamente original para o balé, que enfatizava movimentos staccato de terra com os pés voltados para dentro. Foi uma mudança radical do balé como era conhecido na época. Nijinsky experimentou problemas consideráveis ​​em transmitir suas idéias para seus colaboradores e em ensinar os passos para os dançarinos. Stravinsky escreveria mais tarde em sua autobiografia sobre o processo de trabalho com Nijinsky na coreografia, afirmando que "o pobre rapaz não sabia nada de música" e que Nijinsky "tinha sido confrontado com uma tarefa além de sua capacidade".
Essa frustração foi retribuída por Nijinsky em relação à atitude paternalista de Stravinsky: "tanto tempo é desperdiçado quando Stravinsky pensa que ele é o único que sabe alguma coisa sobre música. Quando trabalha comigo, ele explica o valor das notas pretas, das brancas, e afins como se eu nunca tivesse estudado música [...] Eu queria que ele falasse mais sobre a sua música de Sacre, e não que me desse uma palestra sobre a teoria musical”. 
Ao final, a coreografia de Nijinsky foi considerada uma antítese do ballet moderno. Neste último, os bailarinos permanecem em posições de corpos mais alongados e realizam movimentos suaves. Na Sagração, por sua vez, vê-se corpos contorcidos, movimentos frenéticos e muita tremedeira. Sem sequer uma meia ponta, os dançarinos impunham força em suas pisadas, e erguiam as mãos com os punhos fechados, numa brutalidade inesperada até então. Nesses movimentos, considerados anárquicos, Nijinsky capturou a essência da obra: todo o pavor da morte pelas virgens é exteriorizado nos movimentos tremidos e encolhidos da dança. Ao se assistir o espetáculo, não há dúvidas: estamos diante de um sacrifício tribal, com direito a um beijo de um ancião no solo, simbolizando a terra sagrada, e a uma morte frenética da virgem que dança o pavor e a convulsão de seu sacrifício.
É sabido que todo o conjunto da obra foi composto para chocar, afinal, também os figurinos e o cenário eram distintos do habitual. Segundo Diaghilev, o novo espetáculo seria “um frisson que sem dúvida inspirará debates acalorados”. E de fato foi. A Sagração é dividida em duas partes com as seguintes cenas:
                       
Primeira parte: Adoração da Terra
Introdução. 
Os Augures Primaveris: Dança dos Adolescentes
Jogo do Rapto
Círculos Primaveris
Jogos das Cidades Rivais
Procissão do Sábio
Adoração da Terra (O Sábio)
Dança da Terra

Segunda Parte: O Sacrifício 
Introdução 
Círculos Misteriosos das Adolescentes
Glorificação da Eleita
Evocação dos Ancestrais
Ação Ritual dos Ancestrais
Dança Sagrada (A Eleita)

           No início do espetáculo, ouve-se o solo de fagote hiper agudo. Porém, para o espanto do público, a cortina não se abre. Aos poucos, na sua primeira apresentação, o silêncio da platéia foi dando lugar a risos e burburinhos, motivados pela crescente dissonância da música. Quando finalmente se inicia a dança, o que aparece são corpos contorcidos, com roupas de inspiração eslava, e um grande painel no lugar de um cenário, o que chocou, como nunca, o público parisiense. Dividido, parte do público vaiava, enquanto outra parte aplaudia. Urros de desaprovação eram respondidos com ofensas.
Enquanto isso, nas coxias, Nijinsky, de pé em uma cadeira, gritava para seus bailarinos o compasso, já que era impossível ouvir o som da orquestra. Contam os anais da história que a exaltação era tanta que o coreógrafo quase caiu, sendo salvo por Stravinky, que o segurou pela cauda do fraque. Lá pelas tantas, as luzes do teatro tiveram que ser acesas, e a policia foi acionada para conter o estágio de histeria coletiva que tomou conta do Champs-Élyseés. O balé de Nijinsky não foi realizado novamente e sua coreografia desapareceu até ser reconstruída na década de 1980.
Cabe destacar que a execução da obra dura cerca de 33 minutos. Enquanto o título russo, literalmente, significa "fonte sagrada", o título inglês é baseado no título francês sob o qual a obra estreou, embora sacre seja mais precisamente traduzida como "consagração".
As versões divergem sobre a origem do conceito de A Sagração da Primavera. Já velho, Stravinsky disse que a concepção veio até ele em um sonho. Mas fontes da época sustentam que a idéia surgiu com o filósofo e pintor russo Nicholas Roerich. Roerich compartilhou sua idéia com Stravinsky em 1910.
Juntos, Roerich e Stravinsky elaboraram um cenário de danças pagãs na Rússia pré-cristã. Roerich retratou a partir de cenas de ritos históricos para inspiração e usou uma pesquisa da cultura russa para criar os cenários e figurinos para completar a imagem do paganismo russo.
Em nota enviada ao condutor Serge Koussevitzky em Fevereiro de 1914, Stravinsky descreveu A Sagração da Primavera como "um trabalho musical coreografado, [representando] a Rússia pagã, [...] unificada por uma idéia única: o mistério e a grandeza do surgimento do poder criativo da Primavera". Em sua analise da Sagração, Pieter van den Toorn escreve que o trabalho carece de sinopse especifica e narrativa, e deve ser considerado como uma sucessão de cenas coreografada apenas.
Alguns estudiosos têm questionado a tradicional crença, que extensamente aponta que o tumulto foi causado pela música, ao invés da coreografia e /ou das circunstâncias sociais e políticas. O estudioso de Stravinsky, Richard Taruskin, escreveu um artigo chamado de Um mito do século XX, em português, no qual ele tenta demonstrar que a história tradicional que aponta que a música foi a provocadora da agitação foi em grande parte inventada pelo próprio Stravinsky em 1920: “Em 1913, [a música] não era o objeto principal de atenção. A leitura mais superficial das análises de Paris sobre a produção original, convenientemente coletadas em uma dissertação de Truman Bullard, revela que a hoje esquecida coreografia de Nijinsky, muito mais do que a música de Stravinsky, foi o que fomentou a famosa ‘revolta’ na estréia. Muitas das análises citam Stravinsky apenas como compositor. E, como a maioria das lembranças da estréia [...] isso eu concordo, a maior parte da música não foi ouvida”, escreveu o intelectual.


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