VERA MARTA REOLON
“meras coisas não tem direito a títulos” (Danto)
“Os discursos se apagam, mas se fazem presentes em cada ação.
“Os discursos se apagam, mas se fazem presentes em cada ação.
Cem linhas e sem linhas [...]”
O SEGREDO: “fazer existir, não julgar” (Deleuze)
“Os discursos NÃO se apagam E SE fazem presentes
em CADA ação.
Cem linhas, COM linhas e sem linhas [...]”
O
SEGREDO: “fazer existir, não julgar” (Deleuze)
OUTRO
SEGREDO: “Não invadir a VIDA dos outros” (Vera Marta
Reolon)
Etimologicamente MODA é 1. uso passageiro que rege, de acordo com o gosto
do momento, a maneira de viver, de vestir, etc. 2. arte e técnica do vestuário.
3. modo ou maneira de executar as coisas. 4. cantiga, ária, modinha. 5. coisa ou hábito que goza
momentaneamente de gr ande apreço popular, coqueluche. 6. na estatística, valor
de uma característica quantitativa discreta de freqüência mais elevada, ou
centro de uma classe que apresenta freqüência mais elevada.
Flusser em seu texto Pós-História, quando aborda Nossas Roupas propõe que “os termos “modelo”
e “moda” provém da raiz “m.d.” que significa medir[..] o significado de “medir”
é próximo do de “evaluar””. Evaluar, valorar, dar valor. Moda como valor, valor
de algo, valor de “alguém”?. Somos “valorados” a partir de uma vestimenta?.
Quiçá somos valorados pela “moda” que ostentamos?
Corriqueiramente dizemos MODA, como significado de uma tendência, um
jeito de vestir do momento, um estar “IN”,
estar de acordo com as tendências ditadas por um grande centro, por grandes
costureiros, por uma grande MAISON. A
CASA deste ou daquele que desenvolve um trabalho com roupas e apresenta os
resultados de suas pesquisas e desenvolvimentos ao mundo.
Stallybrass, em O casaco de Marx, propõe que sigamos com ele no que ele
desenvolve como sendo a importância da moda, mais especificamente a importância
das roupas, do modo de vestir-se na segunda metade do século XIX, a partir do
exemplo de Marx e sua família, seus costumes e modos de vida, tendo como
referencial as roupas, seus objetos pessoais e o resultado de suas negociações
em lojas de penhores com estes bens.
Parte o autor das idéias desenvolvidas por Marx em O Capital, citando que
Marx dizia do capitalismo como um
processo de universalização da produção de mercadorias. A foirma celular da
economia como forma mercadoria, forma valor.Mercadoria e valor seriam
importantes como valor de troca. A equivalência de um bem seria seu valor de
troca por outro bem.
Para Stallybrass toda essa “balela” marxista torna-se paradoxal e
irônica, pois Marx, para escrever, para pesquisar na Museu Britânico, realizar
suas pesquisas para escrever o texto do O Capital precisava, além de um visto
especial que ele tinha, estar vestido de acordo, que no caso seria estar com
sua CASACA.
O paradoxal e irônico é que, para manter-se a família de Marx, precisava
de dinheiro para a subsistência e, não dispondo dos recursos necessários,
inclusive para a compra de alimentos, necessitava penhorar bens pessoais,
prataria, objetos, e, pasme-se suas roupas, inclusive o CASACO, roupas das
filhas, de Jenny Marx, entre outros objetos.
Diz Marx: “se abstraímos seu valor de uso (da mercadoria), abstraímos
também os componentes e formas corpóreas que fazem dela valor de uso..Todas as
suas qualidades sensoriais se apagaram.”.
Diz Stallybrass: “fetichizar as mercadorias significa, em uma das ironias
menos compreendidas de Marx, reverter toda a história do fetichismo. Pois
significa fetichizar o invisível, o imaterial, o supra-sensível.O fetichismo da
mercadoria inscreve a imaterialidade como a característica definidora do
capitalismo”. Mas a ironia está exatamente nisso, para que Marx e sua família
fossem minimamente “respeitados” em seus ambientes de vivências, de
necessidades sociais (Jenny era alguém que desfrutou de ambientes
aristocráticos na Alemanha), precisavam usar roupas “adequadas” que, por
precisarem penhorar estas peças de vestimenta, com o fim de garantir alimentos,
aluguel, enfim, vida, não dispunham das mesmas para as freqüências sociais,
inclusive as necessárias para a obtenção de dinheiro, através dos trabalhos
jornalísticos, sequer para a freqüência ao Museu Britânico para o
desenvolvimento de suas pesquisas.
O autor produz diversas ironias e desmembra sua crítica ao sistema
“socialista”, trazendo o processo histórico de colonização portuguesa e as
hipócritas idéias propostas aos colonizados de “desfaça-se de seus objetos,
pois os mesmos não portam valor (ouro e pedras preciosas vindas do solo
colonizado, inclusive!) e deixe-os a mim, eu saberei o que fazer com eles!”.
Nada que não tenha acontecido por estas plagas também.
Marcel Mauss, citado também pelo autor, diz de “contrato”, em que os
“objetos” “afirmam seu desejo de serem doados”. Claro que sempre, os objetos
são os do outro, er de preferência que as doações sejam destinadas àquele que
propõe ao outro que se desfaça dos bens. Igrejas e instituições são grandes
mentores de tais discursos. Mas “governos” e “interesseiros” de plantão também.
Logo, para Stallybrass a proposta de Marx em O Capital os bens devem ser
considerados abstrações supra-sensíveis, as roupas incluídas aí mas, no
particular de sua vida, Marx bem sabia que a necessidade de suas roupas, das
roupas e objetos de sua família, os bens, os objetos, o CASACO eram muito mais
que uma abstração pura e simples, eram a necessidade da subsistência, na
penhora dos mesmos, mas também eram a necessidade da convivência e frequência
social ao serem resgatados da penhora.
Cita o autor, que a penhora de roupas e objetos pessoais eram uma prática
comum no século XIX, não somente à família Marx, mas a grande número de
europeus frente às dificuldades enfrentadas, o resgate e o posterior retorno às
lojas de penhores para novas negociações. Dostoievsky cita em praticamente todos seus textos
literários as negociações em lojas de penhores e, no caso de sua literatura, os
baixos valores dados aos objetos penhorados pelos avaliadores.
ROUPA, seus tecidos, suas costuras, seu “design”, são formas de “identidade” social. A roupa que vestimos
nos identifica, diz de nossa profissão, de nossa classe social, quem e o que
somos, de onde viemos, quiçá para onde
vamos. Diz também da respeitabilidade que portamos. As marcas de uma peça de
roupa diz também de uma “memória”, a trajetória da roupa, seus usos, a
trajetória, por onde andou e o que fez e faz quem a porta.
Roupas também podem portar condições de gênero, já que, como lembra
Dickens “a particularidade do objeto-como-memória e a generalidade do
objeto-como-mercadoria, o primeiro se apresenta como amor verdadeiro, o último
como prostituição”, pois as lojas de penhores geralmente eram conduzidas por
mulheres e o fato da mulher também como mercadoria, já que anéis de noivado e
bens absolutamente pessoais eram levados a loja de penhores e expostos em
vitrines.
Cita o autor também estórias que Marx contaria a suas filhas, a rejeição
que faz a penhora de brinquedos e a ironia contida em seus discursos e escritos.
Estar sem dinheiro significava ser forçado a desnudar o corpo. Ter
dinheiro significava tornar a vestir o corpo. Não ter dinheiro forçava o
sujeito a ter de penhorar suas roupas, ter dinheiro significava poder resgatar
os penhores. Sem roupas apropriadas Jenny Marx não podia sair para a rua, Marx
não podia pesquisar, o operário desempregado não podia procurar novo emprego.
“Coisas” para Marx e para os operários não seriam meras coisas, eram os
materiais de suas vidas, ou as tinham,
ou aniquilavam seu ser.
No filme de Wim Wenders, documentando a vida, o trabalho de Yohji
Yamamoto, Wim ouve, freqüenta a “fábrica”, observa, filma a “construção”, o
desenvolvimento das peças para o desfile, o próprio desfile, o pensamento de Yamamoto,
regado a uma conversa em um jogo de bilhar. O que diz Yamamoto?. Fala de si,
mas, mais do que falar de sua vida, f
ala da importância de seu trabalho, mostra o desenvolvimento de suas idéias,
diz, inclusive que, se Myiake (citado) copiasse uma peça sua, não importaria,
porque a “linguagem” utilizada por um e outro não seria a mesma => cada um
porta, carrega em sua linguagem um estilo próprio.
O que fica de suma importância no documentário é que Yamamoto diz da
importância que dá a assimetria, objetos muito simétricos não o satisfazem, não
são algo que o deixam feliz, porque estão muito “certinhos”, o importante é o
que torna o objeto real, sua assimetria, sua não perfeição.
Seleciono um trecho que me chamou mais atenção no documentário e na fala de
Yamamoto que, para mim definem o estilo clássico, respeitador da realidade, da
vida, do grande costureiro: “estilo: enorme dificuldade. O estilo podia se
tornar uma prisão, uma sala de espelhos... onde você só consegue se espelhar e
se imitar. Yohji conhecia bem esse problema. Claro que caíra nessa
armadilha.“escapou dela”, ele disse, quando aprendeu a aceitar seu estilo.“de
repente a prisão se abrira”, ele disse. Isso para mim é um autor: alguém que,
para começar, tem algo a dizer... que sabe se expressar com sua própria voz...
e que finalmente encontra em si a força e a insolência necessária para se
tornar o guardião de sua prisão, e não continuar prisioneiro.
No mundo consome-se tudo, tudo, em princípio pode ser adquirido como
objeto.
Yamamoto conta que, no século XIX, pessoas muito pobres, em dias muito
frios usavam um casaco como se fosse continuação de sua própria pele, para não
sentir frio. Ele gostaria que suas roupas pudessem ser vestidas desta forma,
como necessidade e marca de si. Isso o deixaria feliz.
Inicia-se e termina-se falando de CASACO. Necessário usá-los no frio,
frio de nosso Estado e para que mantenhamos o estado de ser, humano, sentindo
menos a baixa temperatura.
Bibliografia:
Wenders, Wim –
Identidade de Nós Mesmos – Documentário
– Europa Filmes –
FLUSSER, Vilém –
Pós-História: vinte instantâneos e um
modo de usar. SP: AnnaBlume, 2011.
STALLYBRASS – O
Casaco de Marx
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