Vera Marta Reolon[1]
RESUMO: Partindo
da conceituação das três ecologias propostas por Felix Guattari , como podemos e (se) devemos intervir
para tornar ambientes, sujeitos e instituições mais aptos a viver no mundo
contemporâneo, propiciando melhor bem-estar aos ambientes e aos membros da
população. Só uma articulação ético-política – ECOSOFIA – entre os três registros
ecológicos: do meio ambiente, das relações sociais e da subjetividade podem
esclarecer as questões. Necessários novos dispositivos de produção de
subjetividades individuais e coletivas. Égide ético-estética de uma ECOSOFIA. Gewalt. A violência e suas diferentes esferas de atuação. O poder , aquele aliado
da liderança, e o poder que aliena e escraviza, vinculado à paranoia. Humano,
que é humano? Desejo. Ação. Liberdade. Responsabilidade. Os estilos de vida,
sua escolha no viver. A ação humana. O trabalho.
PALAVRAS-CHAVE: Contemporaneidade, Crise Ecológica, Possíveis Soluções, Poder, Ação,
Humano
ABSTRACT: Starting from the conceptualization of the three
ecologies proposed by Felix Guattari, how can and (if) we intervene to make
environments, subjects and institutions more apt to live in the contemporary
world, providing better well-being to environments and members of the
population. Only an ethical-political articulation - ECOSOPHY - between the
three ecological records: the environment, social relations and subjectivity
can clarify the issues. New devices for the production of individual and
collective subjectivities are needed. Ethical-aesthetic aegis of an ECOSOPHY. Gewalt. Violence and its different
spheres of action. Power, that ally of leadership, and the power that alienates
and enslaves, linked to paranoia. Human, who is human? Desire. Action. Freedom. Responsibility. Lifestyles, your
choice to live. Human action. The work.
KEY WORDS:
Contemporaneity, Ecological Crisis, Possible Solutions, Power, Action, Human.
O que é ECOLOGIA? Sempre que falamos em Ecologia nos remetemos
diretamente a questões ambientais, ao meio ambiente, ao mundo que nos cerca, à
natureza!
Mas, o que é ECOLOGIA mesmo?
ECO: da raiz grega öikos: lar,
bem doméstico, habitat, meio natural.
Então, o que pensamos ao sinalizar o termo Ecologia torna-se muito mais
amplo, pois nos remete à casa, ao lar, ao habitat. Vamos, assim, muito além do
estudo do meio ambiente, da natureza. Estudamos o ambiente doméstico, social,
coletivo, o eu pessoal, a natureza que nos abarca, enfim todo o ambiente que
habitamos, inclusive nosso próprio corpo.
1.
As
Três Ecologias de Guattari
Guattari irá partir de uma Análise Institucional. Para ele, há uma
progressiva deterioração nos modos de vida humanos, individuais e
coletivos. A esses fenômenos, denominará de “desequilíbrio ecológico”. Nomeará
tais fenômenos de infantilização regressiva. Dirá que só uma articulação
ético-política, que nomeia ECOSOFIA, entre os três registros ecológicos – do meio
ambiente, das relações sociais e da subjetividade – podem esclarecer as
questões.
1.1 Capitalismo Mundial Integrado
Necessária é uma revolução social, política e cultural, com o fim
de reorientar objetivos de produção de bens materiais e imateriais. Essa
revolução deverá ser das forças visíveis, mas também de domínios moleculares de
sensibilidade, inteligência e desejo.
Modos dominantes de valorização das atividades humanas concentrados em
estabelecer, no mesmo patamar, bens materiais, culturais, áreas naturais: o
patamar do mercado, além de colocar o conjunto das relações sociais e
internacionais sob a direção das máquinas policiais e militares.
Há um sistema de capitalismo mundial integrado, que
estimula a miséria, a fome, a morte, grandes centros de exploração e, ainda, o
reforço: há uma exacerbação das questões de imigração e racismo.
Os jovens ficam concentrados numa esfera cultural de pseudo-identidade
rock, isolados em um mundo de alienação, de distanciamento social, vivendo em
“tribos”.
Tudo isso leva a uma fratura social extrema.
1.2 Revolução Ecosofia
Ecosofia propõe uma reconexão das práxis humanas nos mais variados
domínios. Necessários novos dispositivos de produção de subjetividades
individuais e coletivas. No lugar de uma usinagem pela mídia, que só conduz
ao desespero:
-
Formação de líderes carismáticos
-
Criação artística liberta do mercado
-
Ecosofia mental libertada de fantasmas e máscaras
Se não houver uma rearticulação dos três registros da ecologia (mental,
social e ambiental), podemos pressagiar a escalada de:
-
Racismo
-
Fanatismo religioso
-
Cismas nacionalitários (com fechamentos reacionários)
-
Exploração do trabalho infantil
-
Opressão feminina
Ao invés de sujeitos, teríamos componentes de subjetivação
trabalhando cada um por conta própria (conjuntos sócio-econômicos, máquinas
informacionais, etc.) – o sujeito seria apenas um “Terminal”. Tudo se
passa como se um “sistema científico” exigisse do sujeito coordenadas de
vivências fora dele. Necessário livrar-se dos paradigmas científicos em
favor de novos paradigmas ético-estéticos.
Dois pontos devem ser levados em consideração:
1. A apreensão
do fato psíquico como inseparável do agenciamento de enunciação, como fato e
processo expressivo. Fato e processo não desvinculados, mas em relação
2. Deve haver
uma inteligibilidade discursiva – tarefa específica do cuidador (também do
professor, em sala de aula), que difere de todo trabalho de mídia tecnológica.
Expressar-se para chegar ao outro (em relação) e discutir com o outro os
fatos da vida, com o intuito de elucidá-los.
1.3 Insustentabilidade Ética
Devemos fazer do fato freudiano outro uso, desmascarar a psicanálise sem fantasmas e mitos, torná-la extensiva,
realizar intervenções não
apenas no campo psi, mas na educação,
na saúde, na cultura, no esporte, na arte, na mídia, na moda. Deve-se sair da insustentabilidade
ética abrigada na neutralidade, sustentada em um corpus científico e buscar interfaces com campos
estéticos.
Fim dos catecismos
psicanalíticos, comportamentalistas e sistemistas. O povo psi convergindo com o mundo da arte se desfaz de aventais brancos,
de linguagem opressiva e da forma de ser para fazer evoluir sua prática tanto
quanto suas bases teóricas. Recomposição das práticas sociais e individuais
através de três rubricas complementares:
ecologia
social,
ecologia
mental e
ecologia
ambiental.
Égide ético-estética de uma ECOSOFIA
para fugir dos quatro regimes semióticos que compõem o Capitalismo Mundial
Integrado: a semiótica econômica, a semiótica jurídica, a semiótica
técnico-cientifica e a semiótica de subjetivação.
1.4 Passividade e homeless
Um dos problemas dessa modernidade
tardia é a questão do sujeito manter-se passivo diante do imposto pelas
mídias e pelas políticas. Precisamos aprender a pensar transversalmente as
diferentes interações entre cultura e natureza para evitar o efeito do
que Guattari chama de homeless (instalação de conglomerados e
arranha-céus, arrastando a população para a marginalidade e a periferia). Não
desaparecem apenas as espécies, mas também as palavras, as frases, os gestos de
solidariedade humana.
1.5 Ecologia Social
Deverá trabalhar na reconstrução das
relações humanas em todos os níveis do socius. Tornou-se igualmente
imperativo encarar seus efeitos no campo da ecologia mental, no seio da vida
cotidiana individual, doméstica, conjugal, de vizinhança, de criação e de ética
pessoal. A subjetividade capitalística se esforça por gerar o mundo da
infância, da ordem da loucura, da dor, da morte, do sentimento de
despertencimento – se anestesia num sentimento coletivo de pseudo-eternidade.
São necessárias novas práticas micro-políticas e micro-sociais; que as práticas
sociais e políticas trabalhem para a humanidade e não mais para um simples
reequilíbrio permanente do universo em semióticas capitalísticas.
1.6 Ecologia Ambiental
Cada vez mais os equilíbrios
naturais dependerão das intervenções humanas. Interessante seria pensarmos em
requalificar a ecologia ambiental como uma ecologia maquínica, porque sempre
será uma questão das máquinas e, especialmente, das máquinas de guerra. Sempre
pensando numa ética ecosófica: em políticas focalizadas no destino da
humanidade.
1.7 Ecologia Mental
Julgada em função de:
- Capacidade de circunscrever cadeias discursivas em
ruptura de sentido
- Possibilidade de operar conceitos, autorizando uma
auto-construtibilidade teórica e prática.
•
Confusão público-privado
•
Proteção à violência levando a mais violência (a
questão da vigilância constante, os armamentos, a tecnologia que ocasiona o
desemprego e sucessiva marginalização).
Necessária a promoção de práticas
inovadoras, disseminação de experiências alternativas, centradas no respeito
à singularidade e no trabalho permanente de produção de subjetividade,
que vai adquirindo autonomia e, ao mesmo tempo, se articulando ao
resto da sociedade.
O principio comum às três ecologias consiste, pois, em
que os territórios existenciais com os quais elas nos põem em confronto não se
dão como um em si, fechado sobre si mesmo, mas como um para si precário,
finito, finitizado, singular, singularizado, capaz de bifurcar em reiterações
estratificadas e mortíferas ou em abertura processual a partir de práxis
que permitam torná-lo ‘habitável’ por um projeto humano.
Não se trata de criar regras universais, como guias das práticas, mas de
liberar as antinomias de princípio entre os três níveis ecosóficos. Agir, em
Políticas Públicas, demanda conhecimentos que não se restringem a mera ação
especulativa.
Necessitamos conhecer o campo cultural, as demandas sociais, o agir
comunitário, as formas de aglomeração social, os ajuntamentos, as problemáticas
advindas desses ajuntamentos e, mais do que tudo, necessitamos conhecer como as
problemáticas acontecem. Logo, para resolver, ou, ao menos, buscar formas de
amenizar problemas sociais decorrentes, cada vez mais, da violência, precisamos
urgentemente, determinar, buscar conceituar o que é violência, nos diversos
contextos culturais.
2 Gewalt:
Violência como Poder
A violência acontece nos nichos culturais atentos às dependências
químicas, cada vez mais presentes em nosso cotidiano social, mas também às
dependências sociais.
Se pensarmos em um mundo estabelecido na e da dependência, aos moldes das
manifestações apresentadas em todas as dependências químicas, urge que
busquemos problematizar violência, mas, principalmente que determinemos modos de
atuação social para reduzi-la, amenizá-la, eliminá-la do cotidiano, para que a
vida em sociedade possa se dar. Se não providenciarmos soluções, tendemos a
eliminar o social, tendemos ao desgoverno, a morte social.
São diversas as formas de violência existentes, a física, a moral, a
social, a institucional, a marital, a familiar, a filial, a paternal... Mas
existe uma violência que nos chega através das máximas formas de PODER, poder
atento ao que Jacques Lacan, relendo Freud, entre outros, nomeia no campo das
PSICOSES (aqui, especialmente no campo da
PARANÓIA) E PERVERSÕES.
Necessário então conceituar estas estruturas psíquicas, levá-las aos
meios sociais, pensar em produções sociais psicótico-perversas e conceituar
violência, suas formas, os “establishment”
do que vemos apresentar-se nos diferentes contextos sociais e na vida – ou
poderíamos dizer morte em sociedade.
Então, a partir da obra de Sigmund Freud, de Jacques-Marie Lacan pensamos
as estruturas clínicas. Através da obra de Walter Benjamin – Para uma Crítica da Violência - buscamos
a conceituação de Gewalt, pois Gewalt significa não só violência, como
também poder legítimo, autoridade, força pública..., designa tanto a violência
como o poder legítimo. Benjamin, segundo Jacques Derrida, em Força de Lei, conceitua Gewalt , e faz uma “Crítica à
Violência”.
Pensar, então, violência, a partir de movimentos de ataques e horror
praticados uns contra os outros, distingui-la de “poder legítimo”, se é que
podemos fazê-lo, nos tempos atuais e pensar em formas de ação para isso, e/ou a
partir disso, penso ser imprescindível para agir publicamente, principalmente
no campo das políticas públicas, no agir político, na vida em sociedade, nos
movimentos sociais, na educação, ..., na VIDA!
Como fazê-lo sem saber por onde andamos?
O que é VIOLÊNCIA – como conceituá-la, em que parâmetros e sob quê
critérios; como ela se dá no social estabelecido no século XXI, há critérios
ético-estéticos para determiná-la? Que políticas públicas podem ser
implementadas, se é que já poderemos determiná-las, para agir de forma a, se
não eliminá-la, reduzi-la?
3 O Humano: desejo,
estilo de vida, ação
O que nos diferencia como humanos? O
homem, em alguns momentos, diz-se humano porque possui racionalidade, porque
possui espírito, enfim diferentes conceitos, construções teóricas que, na
verdade, nada dizem, são apenas palavras que não trazem respostas às nossas
inquietações.
A psicanálise, como teoria interpretativa da realidade, serve para
analisar os fenômenos, no campo individual, através das manifestações do
inconsciente, presentes na linguagem dos diversos sujeitos, nos chistes, na
interpretação dos sonhos, etc. Pode, entretanto, interpretar os fenômenos
sociais, através da análise das manifestações da sociedade, das organizações e
instituições, dos grupos sociais. Aliando-se a filosofia, essencial para seu
desenvolvimento desde o início, a psicanálise, além de realizar interpretações,
reflete sobre os fatos, utilizando-se das teorias dos grandes pensadores.
Partindo-se, assim, da escrita desconstrutiva de Derrida, o discurso
psicanalítico é o que pode dar conta das questões contemporâneas: “Se há um
discurso que poderia, hoje em dia, reivindicar a causa da crueldade psíquica
como assunto próprio, este é o que se chama, de mais ou menos um século para
cá, psicanálise” (DERRIDA, 2001, p.8-9).
Basta que eduquemos, que adestremos
os animais, mesmo que selvagens, para observarmos neles amorosidade, carinho,
dedicação. Se os tratarmos com amor, recebemos amor e dedicação para sempre. O
ser humano também precisa desta “amarragem” amorosa, sem esta estruturação, sem
esta dedicação ele fica perdido, como um objeto do Outro, este que o gerou. É
preciso que o ser humano, ao nascer, ou antes disso, seja desejado, seja marcado com a insígnia do desejo por alguém, que ele
tenha sido esperado, querido por alguém, mas não desejado
para completar este alguém, e sim que ele seja desejado para viver, ser feliz,
progredir, fazer-se. É um processo, e um projeto de humanização constante, que
se inicia com este Outro.
Para que sejamos marcados como
desejantes, tenhamos “voz plena de valor”, precisamos da marca primordial de
instituição narcísica, que denominamos Amor do Outro. Outro este que faz para
nós um papel materno, de mãe instituidora da marca amorosa que levaremos em
nossas vidas. Sem esta marca inicial não somos considerados estruturalmente
sujeitos, donos de uma identidade, estaremos sempre presos a alguém que nos
deve conduzir pela vida, pois esta marca é primordial, necessária em nossa
frenética luta pela libertação. Com a marca podemos nos libertar e seguir. Sem
a marca estamos presos ao desejo do Outro, às suas imposições.
O que nos torna humanos então, para
a psicanálise, não nos deixando objetivar, ou sermos objetivados, é este amor
de estrutura, que nos diferencia perante os demais, que nos torna desejantes,
desejantes de vida, de felicidade, de busca.
Sartre vai além deste conceito, ele fala
do existir humano, do processo da existência humana, como uma construção,
construção essa que parte da própria liberdade de ser humano. O homem vai construindo sua existência, a partir da
liberdade que possui, liberdade de escolher, conforme seu desejo: “toda verdade
e toda ação implicam um meio e uma subjetividade humana” (SARTRE, 1970, p.01).
No texto sartriano, há uma noção de
humanidade que extrapola toda a individualidade, todo egoísmo ou todo
egocentrismo narcisista que o homem possa carregar, pois ele expõe a liberdade
existencial humana como uma responsabilidade que inclui a humanidade inteira:
“a nossa responsabilidade é muito maior do que poderíamos supor, pois ela
engaja a humanidade inteira” (SARTRE, 1970, p.03).
Logo, em Sartre, toda nossa ação é
livre, a partir de nossas escolhas, toda nossa ação é uma construção livre de
nossa individualidade, uma marca individual de nossa existência, mas ela também
é uma responsabilidade sobre a marca que transmitimos como retrato da
humanidade toda e “sobre” toda essa humanidade. Essa responsabilidade carrega
muita angústia, e daí a afirmação de Sartre de que o “homem é angústia”
(SARTRE, 1970, p.04). Não há disfarces para a angústia, pois ela faz parte
deste existir humano, de escolhas e de responsabilidade.
Kierkegaard vai propor que o homem
deve/pode escolher/eleger como vai conduzir sua vida. Propõe dois estilos de
vida, de escolha: o estilo de vida estético e o estilo de vida ético. Se o
homem opta por seguir um estilo de vida estético (que aqui nada tem de estética
– arte ou o que hoje entendemos pelo termo estética), ele é o que vive o
INSTANTE (fronteira entre o antes e o depois). Em princípio ele viveria em
liberdade. Mas na crítica que Kierkegaard faz a este “escolhedor”, dirá que
esta liberdade é um engodo, já que a verdadeira liberdade só se dá na opção
pelo estilo de vida ético
o que vale é madurar a própria personalidade antes de formar o espírito. [..] desejarias
fortalecer tua alma [..] tem em cada ser uma potência capaz de desafiar o mundo
inteiro. [..] o principal da vida , reconquistar-te a ti mesmo , adquirir-te a
ti mesmo, com a condição de que possas, o mais bem que queiras poder a energia
necessária para fazê-lo. (KIERKEGAARD, 1966, p.9-11).
O estilo de vida ético, à semelhança do que ocorria no mundo grego,
incorpora, abarca o que entendemos por estético. Ao optarmos pelo estilo de
vida ético, incluímos em nossa opção a vida estética, incluímos a opção por nós
mesmos, o eterno. O sujeito que opta pelo estilo de vida estético vive no
desespero e nada tem de fato.
Tua escolha é uma escolha estética, mas uma escolha
estética não é uma escolha. Em verdade, o fato de escolher é uma expressão real
e rigorosa da ética [...] o único aut-aut (ou isto, ou aquilo) absoluto que existe
é a escolha entre o bem e o mal e essa escolha
também é absolutamente ética.
(KIERKEGAARD, 1966, p. 20).
O desespero não deve ser um inibidor de minha ação. Ao contrário, deve me
engajar na ação: “não é preciso ter esperança para empreender [...] não deverei
ter ilusões e que farei o melhor que puder” (SARTRE, 1970, p.08).
A realidade só existe a partir da
ação, o homem só existe à medida que se realiza na ação, o homem é o conjunto
de seus atos. Para Hanna Arendt, o homem não é um ser de natureza, é um ser de
condição. A condição humana é que o homem é um ser de ação (arte) e discurso
(político). Hanna diferencia labor de
trabalho, mas dirá que a condição humana por excelência é o trabalho, ação
humana que nos diz quem e o quê somos.
Com a expressão vita
activa pretendo designar três atividades humanas fundamentais: labor,
trabalho e ação. [...] o labor é a atividade que corresponde ao processo
biológico do corpo humano [...] tem a ver com as necessidades vitais [...] a
condição humana do labor é a própria vida. O trabalho é a atividade correspondente
ao artificialismo da existência humana. [...] a condição humana do trabalho é a
mundanidade. A ação, única atividade que se exerce diretamente entre os homens sem a mediação das coisas ou
da matéria, corresponde à condição humana da pluralidade. (ARENDT, 2008, p.15).
Independentemente se tomamos cada
uma das atividades humanas ou se nos dedicarmos, abarcarmos o termo proposto
por Hanna, vita activa, as três
atividades referem-se ao que designa, distingue o homem como homem, à
durabilidade do mundo, já que o homem o habita.
o trabalho de nossas mãos, em contraposição ao labor
de nosso corpo – o homo faber que
“faz” e literalmente “trabalha sobre” os materiais, em oposição ao animal laborans que labora e “se mistura
com eles” – fabrica a infinita variedade de coisas cuja soma total constitui o artifício humano.
(ARENDT, 2008, p.149).
Outros autores também nos apresentam
a importância do trabalho na vida humana, para o seguir de sua existência: “No
trabalho, o homem satisfaz uma potência de criação que se multiplica por
numerosas metáforas” (BACHELARD, 2001, p.24). A própria Hanna vai nos conduzir,
em seu texto A Condição Humana, o que
faremos (ela já se questionava nos anos 60 do século XX), sem trabalho: “O que
se nos depara, portanto, é a possibilidade de uma sociedade de trabalhadores
sem trabalho, isto é, sem a única atividade que lhes resta” (ARENDT, 2008,
p.13).
E ela mesma nos aponta o que pode
nos ter conduzido a esta “situação”:
[..] talvez o desejo de fugir à condição humana esteja
presente na esperança de prolongar a duração da vida para além do limite de cem
anos. [..] O problema tem a ver com o fato de que as “verdades” da moderna
visão científica do mundo, embora possam ser demonstrados em fórmulas
matemáticas e comprovadas pela
tecnologia, já não se prestam à expressão normal da fala e do
raciocínio. [..]Se realmente for comprovado esse divórcio definitivo entre o
conhecimento e o pensamento, então passaremos, sem dúvida, à condição de escravos
indefesos, não tanto de nossas máquinas quanto de nosso know-how, criaturas
desprovidas de raciocínio, à mercê de qualquer engenhoca tecnicamente possível,
por mais mortífera que seja. (ARENDT, 2008, p.11)
As confusões público-privado, câmeras e os excessos de invasões sobre a
vida das pessoas, ao mesmo tempo que tais invasões em nada auxiliam no cessar
da violência (já que o são por si) e
nada provam, quando exigidas pela justiça penal. Esta violência (invasão)
produz uma violência virtual que, sob pressão, desencadeia violência física.
As FEBEM’s e a falsa educação do ECA (Estatuto da Criança e do
Adolescente) na prática. As
prerrogativas do ECA na prática mostram-se ora defasadas, ora falsas, sem suso
real, mas uma virtualidade para mostrar-se à mídia. As falas dos meninos da
FEBEM o comprovam: “eu quero ficar com os grandões no presídio, depois dos 18,
quando zera minha ficha policial”(sic). A necessidade se faz premente de
educação, uma educação abrangente que inclua ética, moral. Nietzsche já nos
ensinava: “nunca se precisou tanto de educadores morais” (sic).
Leis iguais para todos. De que leis, de fato, se fala aqui? Como fica,
por exemplo, o Complexo do Alemão, lei igual? Que leis podem ser aplicadas num
ambiente pleno de violência e onde qualquer ação torna-se também uma violência?
Importante lembrar do caso Eichmann, debatido por Hanna Arendt, e a forma
“judaica” de conduzi-lo, assim como do conceito de autonomia, ou em outros
termos, a Bildung, a partir da
Paidéia grega e de Rousseau e Hobbes.
Michel Foucault, em seus seminários sobre o Governo de Si e dos Outros e sobre a Hermenêutica do Sujeito aborda e discorre sobre o cuidado de si,
como uma questão ampla de uma busca de saúde que vai de encontro com o
conhecimento de si, com o saber de seu corpo, com o saber de suas necessidades,
de seus desejos, com vistas a uma ampla busca de felicidade, não mais como uma
busca utópica, subjetiva, inalcançável (talvez como ideal demais!) mas, através
desse conhecimento de si, uma felicidade possível, palpável, vivenciável: “A
filosofia está assimilada ao cuidado com a alma (o termo é precisamente médico:
hugiainein), e esse cuidado é uma
tarefa que deve ser seguida ao longo de toda a vida”. (FOUCAULT, 1997, p.120).
A hermenêutica de si - epimeléia heautou (grego) e cura sui (latim) – como princípio de ocupar-se de si, cuidar
de si mesmo, obscurecido pelo brilho do Gnôthi
seauton. (FOUCAULT, 1997, p.119).
Que fazer de nossas vidas, quem
somos, para onde vamos, tudo depende de nós: “o destino do homem está em suas
próprias mãos” (SARTRE, 1970, p.09).
Já o dizia
Arnaldo Antunes, em O Pulso:
“o pulso
ainda pulsa
Peste
bubônica, câncer, pneumonia,
Raiva,
rubéola, tuberculose, anemia,
Rancor,
osteoporose, caxumba, difteria,
Encefalite,
laringite, gripe, leucemia
O pulso ainda
pulsa
[...]
Hipocondria
[...] hipocrisia [...] miopia [...] culpa [...] lepra [...] afasia”
O que é normal?
Existe
uma normalidade?
E se buscarmos a
normalidade, como traduzí-la?
REFERÊNCIAS
ARENDT, Hanna. A
condição humana. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2008.
BACHELARD,
Gaston. A terra e os devaneios da vontade:
ensaio sobre a imaginação das forças. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
BENJAMIN,
Walter. Origem do Drama Trágico Alemão.
Belo Horizonte: Autêntica, 2013.
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DERRIDA,
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São Paulo: Escuta, 2001.
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FOUCAULT, Michel. O
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_______. Resumo dos
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FREUD,
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GUATTARI, Félix.
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Estética y ética em la formación de la
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LACAN,
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_______. Escritos 1. Buenos Aires: Siglo
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_______. O seminário 6: o desejo e sua interpretação.
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Éditions Nagel, Paris, 1970.
[1] Psicanalista,
psicóloga (CRP 07/7654), jornalista (Mtb 16.069), curadora e crítica de arte,
professora (FACED/UFRGS). Doutora em Filosofia (PUC-RS), Doutora em Educação
(UFRGS), Mestre em Letras e Cultura Regional (UCS), Graduada em Psicologia –
Formação de Psicólogo (UCS), Bacharel em Ciências Contábeis (UCS). .Coeditora
do site apolineo.net. Autora de “mulheres para um homem... para O Homem, A
Mulher” (Edipucrs, 2008). E-mail: verareolon@terra.com.br.
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