Guilherme Reolon de Oliveira[1]
Resumo: Os “cancelamentos” nas redes sociais. São fortes os embates entre
os que defendem a liberdade de expressão como direito fundamental e os que
elevam o “lugar de fala” à categoria de superioridade, principalmente quando o
assunto é relativo a questões identitárias e minoritárias. A polarização
das redes deu contornos extremados a esse embate. A solução talvez passe pelo
equilíbrio, pela temperança. Aristóteles, e mediedade, a virtude moral. Sartre,
a liberdade com responsabilidade. O fundamento da sustentabilidade, cujo
objetivo é a agregação, jamais qualquer tipo de exclusão. Já foi dito que as
redes sociais tribalizam a cultura partilhada. Formam-se “bolhas”.
O “cancelamento”, ainda que motivado por questões ético-políticas,
destrói mais sujeitos que ideias e é oposto à democracia. No lugar do
“cancelamento”, o acolhimento, a responsabilidade pelo Outro (e o respeito à
sua singularidade), que não passa pela dimensão do dever, mas do reconhecimento
do Rosto: ecosofia.
Palavras-chave: cancelamento, redes sociais, ecologia & ética, reconhecimento,
hospitalidade, equilíbrio, responsabilidade
Abstract: The “cancellations” on social networks. There
are strong clashes between those who defend freedom of expression as a
fundamental right and those who raise the “place of speech” to the category of
superiority, especially when the subject is related to identity and minority
issues. The polarization of the networks gave extreme contours to this clash.
The solution may be balance, temperance. Aristotle, and mediation, the moral
virtue. Sartre, freedom with responsibility. Such is the foundation of
sustainability, whose objective is aggregation, never any kind of exclusion. It
has already been said that social networks tribalize shared culture. “Bubbles”
form. “Cancellation”, although motivated by ethical-political issues, destroys
more subjects than ideas and is opposed to democracy. In place of
“cancellation”, acceptance, responsibility for the Other (and respect for their
uniqueness), which does not involve the dimension of duty, but the recognition
of the Face: ecosophy.
Key-words: cancellation, social networks, ecology
& ethics, recognition, hospitality, balance, responsibility
Etimologicamente, ecologia é palavra que deriva das gregas oikos e logos. Oikos designa
casa, ambiente, o que amplia a significação da ecologia: perpassa
questões relativas à natureza. O filósofo e psicanalista Felix Guattari, atento
a isso, destacara que são três os registros ecológicos: o do meio ambiente, o
das relações sociais e o da subjetividade humana.
Parece-me importante, neste momento pandêmico, refletir não somente
sobre o que fazemos com as árvores, as águas e os animais que nos cercam e
convivem conosco, mas sobre nossas relações. É evidente o debate sobre os
“cancelamentos” de pessoas – sim, porque, independente de suas ideias, são
sujeitos – nas redes sociais. Destroem-se reputações, carreiras e
subjetividades. São fortes os embates entre os que defendem a liberdade de
expressão como direito fundamental absoluto e os que elevam o “lugar de fala” à
categoria de superioridade, principalmente quando o assunto é relativo a
questões identitárias e minoritárias.
Na polarização que foi exacerbada nos meios digitais, esse embate também
ganhou contornos extremados. A solução, me parece, sempre passa pelo
equilíbrio, pela temperança, o caminho do meio, como também nos legara
Aristóteles, na Ética a Nicômacos .
1.Ecologia e
ética
1.1. Da virtude moral: a mediedade
como ápice
Ethica
Nicomachea é um dos quatro tratados de ética de Aristóteles, ao lado
de Ethica Eudemia, Magna Moralia e De
virtutibus et vitilis. É também a obra ética mais conhecida do pensador e a
mais comentada desde a Antiguidade. O livro fora dedicado, com maior
probabilidade, ao seu filho e, com menor probabilidade, ao seu pai.
A
ética aristotélica está associada à noção grega de felicidade (eudaimonia)
e, como tal, “certa atividade da alma segundo perfeita virtude”. As virtudes,
por sua vez, disposições dignas de elogios, se configuram em intelectuais (por
ex. a sabedoria, a perspicácia, a prudência), adquiridas pelo ensino (em termos
de experiência e tempo), e em morais (por ex. a generosidade e a temperança –
que inclui a indignação, ou seja, diferente do ‘acatamento’), adquiridas pelo
hábito, alcançadas na prática, via convivência com a alteridade: primeiramente
o Outro fundante do sujeito e, posterior à sua simbolização, o outro da
socialização.
A virtude moral, ou a boa medida de nossas ações,
por sua vez, é correlata à mediedade e à disposição do sujeito em escolher por
deliberação. Ligada à felicidade e, também ao Bem (eis o objetivo da ação
virtuosa), a ética aristotélica se contrapõe à ética dos prazeres (dos gozos[2]), contemporaneamente designada como
utilitarismo, já que, antes, está associada à responsabilidade. Para
Aristóteles, o prazer não é um bem: ele provém de natureza perversa (o que,
logo, poderíamos traduzir, por gozo), seja de nascença, seja por efeito do
hábito, como os “prazeres” dos homens viciosos[3].
Felicidade, portanto, é agir bem. Não raras vezes,
implica buscar o que é moralmente belo (o ethos) às custas do que
não nos é vantajoso. O tratado nicomaquéio da virtude moral gira em torno da
responsabilidade moral e da liberdade da ação – por isso é que, a seguir, o
associarei à ética sartreana. A virtude moral, nesse sentido, é a mediedade (o
equilíbrio, a harmonia) entre a falta e o excesso – lembremos do preceito
délfico, “nada em excesso”.
Para compreendermos como se configura a virtude
moral, associada à noção de mediedade, e que é adquirida pelo hábito (logo por
escolhas, e Aristóteles coloca aqui a expressão “escolha deliberada”),
necessário se faz o entendimento da noção de deliberação. A virtude moral é uma
disposição de escolher por deliberação, por isso a escolha deliberada
encontra-se no cerne da noção de virtude moral. A escolha deliberada está,
intimamente, ligada à responsabilidade do sujeito: não na adoção dos fins, mas
antes na escolha dos meios[4]. Enquanto disposição, neste sentido, a
deliberação está associada às tendências do caráter (também traduzível pela
estruturação psíquica do sujeito): as intenções, as motivações do agente, o
discernimento de reconhecer, nos particulares, o que é, de fato, bom.
A virtude aprimora o bom estado. Todo conhecedor,
para Aristóteles, evita o excesso e a falta, e busca o meio termo. Por essência
e pela fórmula que exprime equidade, a virtude é mediedade, mas segundo o
melhor e o bem, é um ápice. É também neste sentido que nem toda ação admite
mediedade: há ações que são vis por elas mesmas, não por seus excessos ou
faltas. Para Aristóteles, entretanto, ações e reações tendem sempre ao
equilíbrio, devem estar atentas à harmonia, de acordo com as circunstâncias:
novamente, a moderação[5].
Moderação
implica, acrescento, uma ex-sistência e Olhar sobre o Outro de
forma existencial, qual seja a do respeito, se o que se recebe é da ordem de
uma límpida alteridade, e do limite, se há invasão, porque o Rosto, como muito
sabiamente Levinas afirmara, é o começo da inteligibilidade – e, acrescentaria,
da subjetividade (a mascarada, no oposto é a da ordem da dessimbolização, do
a-sujeito). Não há sociedade na mascaração: há o espetáculo, que não passa de
relação invertida, desumanização, repetição, aniquilamento da alteridade,
negação da diferença e, consequentemente, da realidade que a sustenta.
O inter-humano propriamente dito está numa não-indiferença de uns para
com outros, numa responsabilidade de uns para com os outros, mas antes que a
reciprocidade desta responsabilidade, que se inscreverá nas leis impessoais,
venha sobrepor-se ao altruísmo puro desta responsabilidade inscrita na posição
ética do eu como eu; antes de todo contrato que significaria, precisamente, o
momento da reciprocidade onde pode, com certeza, continuar, mas onde pode
também atenuar-se ou extinguir-se o altruísmo e o des-interessamento.(LEVINAS,
2005, p. 141).
Bem é diferente de Bem aparente (ou o que é agradável). Ao homem
virtuoso é objeto do querer o bem segundo a verdade. O virtuoso vê a verdade,
esta se manifesta a ele, em cada coisa. A verdade, no entanto, às vezes se
apresenta encoberta, “mascarada”, há na troca virtuosa o alcançar a verdade (alethéia,
desvelamento[6], des-marcaramento).
Com efeito, o homem virtuoso
julga corretamente cada coisa e em cada uma a verdade se manifesta a ele, pois
há coisas belas e agradáveis a cada disposição e presumivelmente o homem
virtuoso se distingue sobretudo pelo fato de ver o verdadeiro em cada coisa,
como se fosse um padrão e uma medida delas. (ARISTÓTELES, 2008, p.70).
Está em nosso poder sermos bons ou maus, fazer ou
não fazer. A maldade, neste sentido, é voluntária. Uma vez que nos tornamos
injustos, ou seja, pelo hábito, não é mais possível não sê-lo. É por isso que
são reprováveis os vícios que estão sob o nosso poder. Vícios e virtudes são
voluntários. Diante disso, as virtudes morais são mediedades, são disposições
por si mesmas (de distinguir entre o bem e o mal), estão em nosso poder, são
voluntárias (ou seja, seus princípios estão no agente e o agente conhece as
circunstâncias nas quais a ação ocorre) e são designadas tais quais a reta
razão ordena.
Não obstante, a ética aristotélica é também uma ética da liberdade, já
que fundada na possibilidade de dizer sim ou não em função da deliberação sobre
os meios para realizar bons e belos fins. Não se trata de dizer que um ato
moralmente bom é o que é feito por um agente moralmente bom: não se trata de
agir conforme um imperativo categórico, mas antes a um ethos fundamental
– a moralia (ao íntimo das deliberações familiares, de acordo
com os preceitos ancestrais). O ato é moralmente bom porque responde a
propriedades que o caracterizam como um meio termo em certas circunstâncias,
apartado do excesso e da falta, que constituem ambos o vício.
1.2.Do
existencialismo: não há liberdade sem responsabilidade
Sartre, em O existencialismo é um humanismo (1987),
inicia afirmando que o existencialismo é uma "doutrina que torna a vida
humana possível e que, por outro lado, declara que toda verdade e toda ação
implicam um meio e uma subjetividade humana" (p.3), cujo cerne está
calcado na afirmação "a existência precede a essência, ou, se se preferir,
que é necessário partir da subjetividade" (p.5). Compactuo com o autor: é
necessário que partamos da subjetividade, do homem em si – e acrescentaria: não
só do humano, mas de todo ser vivo –, para investigar qualquer questão que
possamos pensar social: a sociedade é um conjunto, uma formação de seres
individuais, portadores de subjetividades, logo existências singulares, únicas,
não replicáveis. Cada ser é permeado por uma dignidade inviolável: o indivíduo,
jamais replicável, é portador de um complexus, uma sacralidade,
jamais escrava de Outrem.
Se unos, não passíveis de cópia, cada ente, cada
sujeito, é responsável por suas ações. Sartre coloca que "quando dizemos
que o homem é responsável por si mesmo, não queremos dizer que o homem é apenas
responsável por sua estrita individualidade, mas que ele é responsável por
todos os homens" (p.6). Se nos encaminhamos para uma nova condição
subjetivo-social, há que se olhar (Olhar com escuta!) o Outro, esse que convive
e vive conosco, esse que nos constitui e nos abarca, há que se avistar a ética,
o âmago do ser, do ser-agir no social. É o que Sartre expõe como o sujeito
legislador, que não escolheu apenas a si mesmo, mas, simultaneamente, a
humanidade inteira. Levinas acrescenta que Outrem é aquele por quem sou
responsável e que essa responsabilidade só acontece pelo
encontro, que é o inverso da aniquilação ou da contaminação de unicidades.
O encontro com Outrem é imediatamente minha responsabilidade com ele
[...] é sempre a partir do Rosto, a partir da responsabilidade por Outrem, que
aparece a justiça, que comporta julgamento e comparação, comparação daquilo
que, em princípio, é incomparável, pois cada ser é único; todo outrem é único.
(LEVINAS, 2005, p. 143-144).
Esse ente "não consegue escapar ao sentimento
de sua total e profunda responsabilidade" (SARTRE, 1987, p.7), pois
qualquer projeto (tal qual o da condição que investigamos) "por mais
individual que seja, tem um valor universal" (p.10). Como nos lembra
Levinas: minha liberdade começa quando começa a liberdade do Outro.
Ressaltemos, a sacralidade do indivíduo é anterior a qualquer social: a
dignidade humana, o valor humano consiste na subjetividade, no que cada sujeito
porta de singularidade e diferença: não há possibilidade de social sem a
liberdade - e ressaltamos, a responsabilidade - de cada qual.
Destaca o pensador que "não há determinismo, o
homem é livre, o homem é liberdade" (p.5), então somos o uno único,
inscrito num âmago individual-social, portanto que não pode conceber a
não-liberdade da humanidade inteira. Se assim o procedemos, não há como escapar
da ética, filosofia primeira. Há uma imensidão conosco, há um inteiro em cada
um de nós, sempre faltante[7], sempre em busca de algo, logo há uma
impossibilidade da solidão, somos um feixe de relações, há uma
intersubjetividade. Se há, e há, não escapamos da responsabilidade integral por
cada escolha. Caso contrário, nasce a anti-sociedade, a anti-polis. Não
há liberdade quando um único ser é escravo - ou mesmo senhor. O humano é livre
quando inscrito em um ethos digno de existência: o ethos da
responsabilidade. Não concebemos social sem a existência livre de cada ser, sem
a total liberdade - de escolha, de opinião e de existência - de cada indivíduo:
"[...] nós nos apreendemos a nós mesmos perante o outro, e o outro é tão
verdadeiro para nós quanto nós mesmos [...] Para que eu obtenha qualquer
verdade sobre mim, é necessário que eu considere o outro" (p.16).
2. Contra o
cancelamento: acolhimento e hospitalidade
A responsabilidade pelo Outro e o equilíbrio (no que se refere à
moralidade) são os fundamentos da sustentabilidade, cujo objetivo é a
agregação, jamais qualquer tipo de exclusão. Pensar a ecologia na atualidade,
obviamente passa pela preocupação com o que acontece na Amazônia e no Pantanal,
mas não só. Com a mineração em terras indígenas, mas não só. Com as podas e
derrubadas de nossas árvores, nas cidades, mas não só. Lembro-me de um desenho
de minha infância, Capitão Planeta, em que o herói era constituído pela união
dos elementos naturais (materiais) com os emocionais (as relações, os
sujeitos). Isso é comunidade!.
Já foi dito que as redes sociais tribalizam a cultura partilhada, ou
seja, juntamo-nos cada vez mais, aos nossos semelhantes[8] (nem tanto!), não
àqueles diferentes. Formam-se gangues[9], bolhas.
A mídia, de fato, é uma das forças subentendidas na
formidável dinâmica de individualização dos modos de vida e dos comportamentos
da nossa época. A imprensa, o cinema, a publicidade e a televisão disseminaram
no corpo social as normas da felicidade e do consumo privados, da liberdade
individual, do lazer e das viagens e do prazer erótico: a realização íntima e a
satisfação individual tornaram-se ideais de massa exaustivamente valorizados.
(LIPOVETSKY, 2004, p.70)
Mas as pesquisas indicam que elas, as redes sociais, estão em
declínio. O “cancelamento” ainda que motivado por questões
ético-políticas destrói mais sujeitos que ideias e é o oposto à democracia.
Respeitar o outro em sua singularidade, independente de suas características
(ou por elas e apesar delas), demonstra que o politicamente correto é a pior
censura.
Entendemos, com Levinas, que ética é a própria relação com a alteridade
de Outrem, que só se efetiva na cultura (a responsabilidade por Outrem), e na
valorização do Rosto (semblante), a linguagem antes das palavras. Antes do
Rosto, o Olhar que deseja e constitui Desejo, Sujeito, dá base para que a lei
seja inscrita. É por meio do Olhar, no Olhar – no entre-Olhares – que há o
reconhecimento do Outro. O Mesmo acontece pelo Olhar, e o Olhar é que permite
mais que o ver, o Reconhecer – princípio primeiro da Ética.
O Mesmo, sua identidade e sua diferença, revelado no Olhar e no Rosto
que porta, também está inscrito numa marca, num traço, no nome próprio,
advindo, inclusive, do Outro. “Um nome próprio não é nunca puramente
individual”, afirmara Jacques Derrida (2003, p.23), já que nele o sujeito
carrega sua estrutura, sua unicidade e sua multiplicidade, que, tal qual o nome
(inviolável e intransferível), só a história do sujeito comporta e alicerça –
seu passado, seu presente e mesmo seu futuro.
O filósofo da desconstrução (que nunca é o que alguns associam à
destruição mas, pelo contrário, à absoluta construção de algo,
“destrinchamento”) destaca que, no acolhimento, a ética interrompe a tradição filosófica
do parto e desfaz a astúcia do mestre quando este finge desaparecer atrás da
figura da parteira. Uma política de hospitalidade é uma política do poder
quanto ao hóspede, quer seja ele o que acolhe ou o acolhido. Para Levinas, o
acolhimento dá e recebe outra coisa, mais do que eu e mais que outra
coisa:
Desde as primeiras páginas de Totalidade e infinito, lê-se que abordar o
Outro no discurso é acolher sua expressão em que ele
ultrapassa a todo instante a ideia que se poderia ter dele. É então receber do
Outro para além da capacidade do eu; o que significa exatamente: ter a ideia do
infinito. Porém isso significa também ser ensinado. A relação com o Outro ou o
Discurso é uma relação não-alérgica, uma relação ética, porém esse
discurso acolhido é um ensinamento. Porém o ensinamento não
retorna à maiêutica. Ele vem do exterior e me traz mais do que eu contenho.
(DERRIDA, 2004, p.35-35).
Esse
receber, proposto como sinônimo de acolher por Derrida, só recebe na medida –
uma medida desmedida – em que ele recebe para além da capacidade do eu. Essa
desproporção dissimétrica marca a lei da hospitalidade. A palavra “acolher”
designa, com a noção de Rosto, a abertura do eu, e a anterioridade filosófica
do sendo sobre o ser. O Discurso, assim, se apresenta como Justiça “na retidão
do acolhimento dado ao rosto” (DERRIDA, 2004, p.46).
A hospitalidade, para Derrida (2004), é a essância (diferente
de essência) do que é ou, antes, do que se abre assim para
além do ser. Numa continuidade do pensamento levinasiano, a hospitalidade é
infinita ou ela não é; ela é acordada ao acolhimento da ideia do infinito,
portanto do incondicional, e é a partir de sua abertura que se pode dizer, como
o fará Levinas, que a ética não é uma disciplina da filosofia, mas a “filosofia
primeira”.
Já nos aconteceu de perguntarmo-nos se a hospitalidade absoluta,
hiperbólica, incondicional, não consistiria em suspender a linguagem, uma certa
linguagem determinada, e mesmo o endereçamento ao outro. Sendo assim, não seria
preciso submeter a uma espécie de contenção essa tentação de perguntar ao outro
quem ele é, qual é o seu nome, de onde ele vem, etc? Não seria preciso abster-se
de colocar essas questões que anunciam um tal número de condições requeridas,
portanto limites a uma hospitalidade assim constrangida e confinada num direito
e num dever? (DERRIDA, 2003, p.117).
No lugar do “cancelamento”, o acolhimento, a responsabilidade pelo
outro, que não passa pela dimensão do dever, da obrigação, mas do
reconhecimento, do respeito de si. O respeito ao outro indica respeito e ética
consigo mesmo e com os seus (verdadeiro sentido da ética mesma).
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[1] Jornalista
(Mtb 15.241), sociólogo (Mtb 1.029), filósofo, curador de arte e crítico
cultural. Doutorando em Filosofia (PUC-RS), Mestre em História, Teoria e
Crítica de Arte (PPGAV/UFRGS), Mestre em Psicologia Social e Institucional
(UFRGS), Bacharel em Filosofia (UFRGS/UCS), Bacharel em Ciências Sociais
(UFRGS), Bacharel em Comunicação Social – Jornalismo (UCS). Coeditor do site
apolineo.net. Autor de “Arte pós-nonsense, ou da dança como gênese do Ser da
Arte” (EDUCS, 2019). E-mail: guilhermereolon@terra.com.br
[2] Gozo
difere de Prazer, segundo REOLON (2008), em sua leitura da psicanálise
freudo-lacaniana. Segundo a autora, o Gozo vincula-se à estrutura perverso-paranóica
e ao instinto de morte. O Prazer, à estrutura neurótica e suas manifestações
(histeria e obsessão) e ligado ao instinto de vida.
[3] “Como
são três os objetos de busca e três os de fuga – o belo, o proveitoso e o
agradável – e três os contrários – o feio, o danoso e o penoso –, o homem bom é
correto e o homem perverso é incorreto a respeito de todos eles, mas sobretudo
a respeito dos prazeres, pois este comum aos animais e acompanha a tudo o que
cai na rubrica busca, pois o belo e o proveitoso são manifestamente
prazerosos”. (ARISTÓTELES, 2008, p.45).
[4] Na
interpretação de Walter Benjamin, do imperativo categórico de Kant: a ética
está atenta ao humano sempre como fim, nunca como meio.
[5] “Nem
toda ação admite mediedade, tampouco toda emoção, pois algumas são denominadas
em imediata conjunção com a vileza, como a malevolência, a impudicícia, a
inveja e, quanto às ações, o adultério, o roubo, o assassinato. Com efeito,
todas essas e as demais são censuradas por serem elas próprias vis e não por
serem vis os seus excessos ou faltas. Não há jamais como acertar a seu
respeito, mas sempre se erra”. (ARISTÓTELES, 2008, p.52).
[6] “[...]
a verdade não é desvelamento que destrói o mistério, mas antes uma revelação
que lhe faz justiça” (BENJAMIN, 2013b, p.19).
[7] “Se
a ação de cada um não está mais referida ao que a ultrapassa e a garante, não
há mais diferença entre o direito à liberdade de que cada um dispõe doravante
incondicionalmente e o abuso do direito à liberdade” (DUFOUR, 2005, p.97).
[8] “Do mesmo modo que Narciso,
o personagem da mitologia grega, apaixonou-se por sua própria imagem numa
lagoa, os indivíduos do capitalismo contemporâneo também precisam de um espelho
em que possam recobrar o amor por sua própria imagem, tão comprometido pelo
esforço de continuar a gerar valores financeiros. É por causa disso que Adorno
diz que a cultura de massa como um todo é narcisista, pois ela
vende a seus consumidores a satisfação manipulada de se
sentirem representados nas telas do cinema e da televisão, nas músicas e nos
vários espetáculos” (FREITAS, 2003, p.19).
[9] Segundo
Mike Featherstone (1995), o pós-modernismo é caracterizado pela transformação
da realidade em imagens e pela fragmentação do tempo numa série de presentes
perpétuos. Esta segunda característica tem como paradigma a esquizofrenia,
considerada um colapso da relação entre os significantes, o colapso da
temporalidade, memória, senso de história. A experiência imediata e
indiferenciada da presencialidade do mundo, para o esquizofrênico, conduz a uma
noção de “intensidades”.
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