Vera Marta Reolon[1]
“Os bons escritores escrevem a partir do amor, por amor, e com
frequência, seja diretamente ou não, pela libertação de todos os seres.”
Rebecca Solnit – in: De quem é esta história?
“Os discursos NÃO se apagam E SE fazem presentes em
CADA ação.
Cem linhas, COM linhas e sem linhas [...]”
O SEGREDO: “fazer
existir, não julgar” (Deleuze)
OUTRO SEGREDO: “Não
invadir a VIDA dos outros” (Vera Marta Reolon)
Então... devemos discorrer sobre a pandemia de forma multidisciplinar
(inter/trans). Falar da pandemia estando nela... vivenciando-a em nosso dia a
dia, em nossas vidas, em nosso cotidiano. E não só vivenciando-a, mas sem
muitas informações sobre suas causas, seus efeitos múltiplos, suas sequelas,
enfim sobre tudo que abarca este estado de coisas. Isso manifesta muita tensão,
muita dor, não somente gerando processos depressivos, mas estresse, físico,
mental, emocional e, por que não dizer, social. Já tínhamos passado por outros
processos de abalos na saúde, dengue, H1N1, zika, chikunguia... sempre as lembranças
que nos vêm das grandes epidemias que dizimaram populações inteiras. Podemos
dizer: essa é mais uma delas?
Não é tão simples, já que gostamos de pensar que temos atingido novos
patamares científicos, nosso conhecimento da vida, dos efeitos de processos
virais, bacteriológicos, doenças relacionadas nos trouxeram mais saber,
progresso científico, segurança. Mas eis que nos chocamos ao nos darmos conta
que nossos saberes não são tantos assim e um vírus microscópico nos pega de
surpresa e abala nossa vida, nossa economia, nossa saúde, nossas relações
sociais e muito nossa vida pessoal.
Vivemos um momento em que o individualismo impera, as relações pessoais
acontecem mais em contatos mediados por celulares, com poucos contatos
pessoais, abraços, apertos de mão, beijos..., afeto. Há, em nossos dias, o que
chamamos, em psicologia, “isolamento do afeto”. Vejamos, esta é uma
característica citada em livros de psicologia como sintoma de processos de
isolamento social, psicoses, dores emocionais mais agravadas. Eis que os
excessos de tecnologias nos têm levado a esse isolamento dos afetos. Nos
afastamos do outro, quer seja para não nos comprometermos social,
emocionalmente, mas também para nos escondermos em um universo ensimesmado,
para dentro de nós mesmos. Alguns podem dizer: mas isso é bom, estamos em busca
de nós mesmos, de nos conhecermos, do tal “conhece-te a ti mesmo”. Doce ilusão!
O dentro de nós mesmos é só um jogo retórico para dizer dentro do
computador, dentro do celular. Ou seja, para dentro do nada. As máquinas são
universos fabricados por mãos humanas que as projetaram, inseriram-nas
determinados códigos de programação, de tal forma que funcionem como
ferramentas o mais competentemente possível, com o fim de nos auxiliar em
nossas tarefas cotidianas. Ficamos tão a mercê dessas ferramentas que as
consideramos seres pensantes por si mesmos. Isso é de um absurdo tão grande,
mas reflete o mais da realidade de nossos dias. Pensamos nas máquinas como
autônomas, sem programas, sem linguagens de máquina, sem inserção de dados por
alguém anterior a nós, sem um programador que as preparou para que nos
propiciassem uma vida mais simples. Qual o quê!... Nossas vidas ficaram mais
complicadas.
Inicialmente, o universo tecnológico nos causava temor. Temor que não os
entendêssemos, temor que perdêssemos dados, temor que os desconfigurássemos,
que a máquina queimasse... Temor até que precisássemos chamar um técnico para
reconfigurar tudo, formatar a máquina e iniciar tudo... além dos custos que
tudo isso acarretaria. Com o tempo, formos aprendendo a formatar, a iniciar as
máquinas, fomos aprendendo as linguagens, os programas, fomos aprendendo a
salvar dados importantes em outros pequenos instrumentos, cada vez mais
versáteis, cada vez mais complexos, mais potentes. Mas a individualidade que
isso nos acarretou, o tempo gasto em frente a elas (as máquinas), sem ao menos
nos darmos conta de sua quantidade, nos tiraram muito da vivência social,
familiar, amorosa, filial. Fomos nos afastando do mundo, acreditando nas premissas
de que, estando em um computador, em um celular, estamos globalizados,
informados do todo, dos acontecimentos do mundo. Mais uma doce ilusão!
Quanto mais tecnologia temos, menos informação temos. Porque mesmo com
dados à disposição em diferentes plataformas, menos acesso a elas temos. É um
paradoxo, mas paradoxalmente, para sermos redundantes, lá onde precisamos
sê-lo, quanto mais dados inserimos na tecnologia, mais precisaremos saber os
caminhos para chegar aos dados. Logo, menos acesso a informações temos. Não
temos os “links” necessários para acessar as notícias. Não sabemos
acessar as notícias verdadeiras e diferenciá-las das “fake news”. E,
quem nos dirá o que é verdadeiro e o que é “fake”?
Podemos pensar em saudosismo, mas não é só disso que se trata. Há o
saudosismo do buscar uma informação, por exemplo, em uma prefeitura, para obter
determinado recurso, que hoje não temos, porque devemos saber que um edital foi
publicado e onde podemos acessá-lo. Mas nos falta também o contato com as
pessoas, com o funcionário, a conversa para obter o recurso e a informação. Nos
falta o necessário afeto da busca, do contato, da gentileza. Tudo ficou
impessoal, distante, quase “esquizofrênico”, para usar outro termo da
psicologia. Vivemos um tempo de quebra da personalização, somos o ser da
máquina, do software, do aplicativo e, nem sempre aquele que se
apresenta via máquina é o ser real. Sim, porque o ser da máquina é o que nos
acostumamos a chamar (sem pensar muito sobre o termo) virtual. E já não sabemos
distinguir a diferença entre o real e o virtual.
O real, o de “carne e osso”, é muito diferente do virtual. Claro que
alguns preferem mesmo que assim o seja, já que montam grandes fantasias de si
mesmos, criam perfis que não condizem com a realidade, fotos de outros,
montagens, inteligências que não possuem, critérios que pertencem a outros,
criam o que nos acostumamos a chamar mentiras. Só que, por mais absurdo que
seja, não julgamos, nem pensamos nisso, que sejam mentiras. É como se a vida
que criamos nas tecnologias, fosse outra, um outro, uma outra vivência, um
ideal. Claro que este mundo de idealidades nada tem a ver com o universo ideal
de Platão. Naquele, o mundo ideal é uma busca constante de melhorias em si
mesmo, de um “tornar-se si mesmo”.
O que temos nisso que convencionamos chamar de perfil é
um universo quase esquizoide, particionado, dividido, algo que queríamos ser,
mas jamais o seremos, porque não há busca, não há melhorar-se, não há tornar-se
si mesmo. O que há é o buscar ser o que invejo de outro,..., de todos os
outros. Há a constante mentira. Daí, há a necessidade de afastarmo-nos de
todos, pois no encontro, dar-se-ia a percepção que tudo aquilo que está no
perfil é falso, a máscara cai. Então, quanto mais longe melhor, quanto mais
distante, mais a “verdade-falsa” do perfil será a “verdade” “virtual-real”.
Tudo isso soa absurdo, uma linguagem do absurdo. E realmente o é, mas essa é
nossa realidade do hoje, do nosso tempo.
Neste momento necessário, se faz evocar uma frase de Savvas Karydakis,
inserida na apresentação do livro A Peste, de Camus: “nada melhor
do que uma crise coletiva para revelar ao indivíduo acuado os valores não
individuais- políticos, éticos, metafísicos – que constituem sua precisa
individualidade”.
Nada
melhor que uma crise, como a que estamos enfrentando, para nos dar uma real
dimensão de nossa vida, social, coletiva, amorosa, familiar. Entramos nesta
crise há, mais ou menos, um ano, e como ela nos modificou e nos deu novas
dimensões de mundo. Claro que não a todos, mas alguns conseguiram acordar. A
crise nos afetou, de início parecia ser um mundo que não nos abalaria, começou
na Ásia, tudo muito distante, outro povo, outra cultura, outros hábitos.
Pensamos, inicialmente, que se tratava de um vírus que veio a eles através de
suas alimentações exóticas, e até hoje não se sabe muito bem se realmente não
foi por ali! Enfim, estávamos distantes deles, eles enfrentavam um
problema localizado e buscavam soluções.
Logo, o que antes estava distante, começou a se aproximar, a Europa cita
casos de infecção. Os casos passam a ser epidemia, inicialmente localizada, aos
poucos se alastrando, viram pandemia, chegam às Américas e, aqui, a crise se
espalha de tal forma que viramos o que se convencionou chamar de epicentro da
doença. Que isso quer dizer? Quer dizer que passamos a ser uma
região, do mundo, em que temos mais casos de infecção e, pior, mais casos de
mortes.
Novamente, voltamos a números e, dia a dia, só ouvimos números,
estatísticas. As informações, depois de um ano, praticamente inteiro, não
mudaram tanto. Sabemos que o vírus, o CoronaVírus, é altamente
contagioso. A doença que causa, a COVID-19, é mortal, em corpos mais suscetíveis,
em corpos mais fragilizados. Porém, além disso, as informações são parcas,
pequenas. Sabemos que, como o ataque do vírus em corpos mais fragilizados é
maior, logo os idosos, com doenças pré-existentes, são mais, não só
suscetíveis, mas a população que mais precisa de cuidados e afastamento,
recolhimento, o que convencionamos chamar de quarentena, que já não é quarenta
dias, mas ano e, quem sabe...
Interessante observarmos que pessoas que tenham um organismo mais forte,
com mais defesas, não são afetadas pelo vírus, ou, quando o são, a doença passa
quase despercebida. OK! Essa é uma informação divulgada corriqueiramente pelos
órgãos de saúde, pelos pesquisadores. Mas, em sendo verdadeira, e deve ser, por
qual razão as crianças, que certamente têm um organismo ainda não totalmente
forte, ainda não totalmente constituído por defesas sólidas de um organismo
mais adulto, mais bem alimentado, mais exercitado, não sofrem tantos revezes
com a doença, com o vírus? Perguntas que sempre são recorrentes quando nos
questionamos um pouco mais. E, em “quarentena”, pensamos mais com certeza.
Sabemos que idosos, pessoas enfraquecidas por doenças pré-existentes,
sofrem mais, e são mais rapidamente, e corriqueiramente, levadas a óbito.
Sabemos também, depois de um ano de internações e isolamentos, e infecções, que
a doença, COVID-19, deixa sequelas. Sequelas sérias: perda de olfato, perda de
paladar, dificuldades na locomoção, na fala, ..., e sabe-se lá quantas mais.
Porque, óbvio, nem todas as informações são divulgadas, já que só fariam por
assustar mais a população.
Nestas alturas, todos nós já convivemos com alguém que passou pela
doença, pela infecção com sintomas leves, moderados, graves. Com cura, se é que
assim podemos chamar, com mortes, enfim... Tudo isso nos leva a momentos de
grande angústia, de dor, cada um a seu modo. Porém todos buscando ultrapassar
estes momentos e acreditar em esperança.
Camus, em seu livro A Peste, nos diz que “uma forma cômoda
de travar conhecimento com uma cidade é procurar saber como se trabalha, como
se ama e como nela se morre”. Nesta obra, Camus nos traz a vivência existencial
de uma população local a viver um surto de doença. Doença essa que se inicia lá
por uma morte generalizada de ratos, a queda da mortalidade de ratos e o avanço
sobre a população humana. As agruras do sofrimento das personagens nos mostram,
nos fazem sentir (e a mim, em particular, nos idos da leitura do livro) a dor
do existir em um ambiente febril de dor, desespero, doença. Qual o que, que
passamos nós a vivê-lo em nossos dias. Quase um século depois, da escrita do
livro.
Isolamento das pessoas, do convívio com familiares, de saída às ruas, de
fechamento de comércios, de indústrias, de serviços, de toda a cadeia
produtiva, problemas econômicos agravados, ruas desertas, estoques de
alimentos, aumentos de preços, falta de alguns itens de consumo.
Impossibilidade de adquiri-los, pois houve demissões (com fechamento de
empresas, queda de empregos). Aliado a tudo isso, como se a dor já não fosse
tão grande e séria, governos nem sempre coerentes, nem sempre éticos, corrupção
em diversos campos, na aquisição de EPIs (Equipamentos de Proteção Individual),
afastamento de responsáveis corruptos. Além das dores de sempre: as “fake
news”, notícias falsas, de débeis, metidos a “sabidos”, ou a
“engraçadinhos” que pensam tirar vantagens em momentos de crise. Sempre os há!
A população brasileira ainda sofrendo pela queda de detritos em Mariana e
Brumadinho (por quê nunca conseguem antecipar graves problemas, que certamente
se darão em futuros não tão distantes e que todos sofrerão as consequências de
atos que podem ser previsíveis?) e recebe notícias de ministro do Supremo
Tribunal Federal a liberar chefe de tráfico de drogas em habeas
corpus fora de propósito (o comprovadamente marginal sendo
buscado na cadeia , na liberação, por motorista particular em carro
importado). E o juiz “ingênuo” escreve, em sua concessão do habeas
corpus, que o réu deve informar à justiça seu paradeiro. Ingenuidade
de um juiz crer que o ex-fugitivo da justiça não o fará novamente!
A política já não é política dos gregos, dos que saem das sombras e
conseguem ver a verdade e usá-la, mas sim os que praticam o “jeitinho” da
manipulação de dados, de verdades, de mentiras, de palavras, de atos, em
“técnicas” que traduzem o que virou a política hoje: da enganação, da
ludibriação. Em meio a tudo isso, o povo parece anestesiado. Sem saber o que
fazer, vai “vivendo”. Em quê se tornou esse ir vivendo? Um deixar-se levar
pelos acontecimentos. Um “se não posso fazer nada, não quero nem saber, apenas
sigo”. Isso é terrível, pois é a estagnação de um povo, de vidas. É um não
viver, é como um estar permanentemente drogado pela vida, pelo não viver, pela
morte.
Como diz Camus, trabalhar, amar, seriam formas de vida. Morrer, da
morte, naturalmente.
Como vivemos? Certamente anestesiados pela dor é que não podemos chamar
de viver! Os acontecimentos que, já antes da pandemia, nos levavam a um
aniquilamento das forças e a uma busca desenfreada do individualismo, com a
pandemia se agravam.
Em uma série no “streaming”, procuraram retratar a vivência de
amigos durante a pandemia (inicial, diga-se!) do COVID-19. Há os que se afastam
dos outros, isolando-se em suas casas, sem deixar nem mesmo o ar entrar, por
temor de contrair o vírus, enchendo-se de álcool gel (até mesmo
ingerindo-o) numa tentativa de esterilizar-se e esterilizar o ambiente em que
vive. Há os que se alienam, isolados em suas casas, mas a fazer o que jamais
fariam em uma “normalidade”: postam-se em sacadas, nus a mostrar-se a vizinhos
e buscar contrair improváveis relacionamentos. Há os que se afastam, crendo que
o vírus, a doença, é uma reação da natureza a nossos constantes ataques a tudo
o que é natural. Logo, buscam um retorno, em defesa dessa natureza tão devastada
e sofrida (no Brasil, sabemos bem o que é isso, com as queimadas, com a
poluição). Outros, fazendo parte dos grupos de profissionais da saúde, sofrem
com a necessidade da escolha, do ter de escolher em quem será atendido pelos
instrumentos médico-hospitalares disponíveis e quem será relegado e deixado à
morte. Outros buscam fazer sua parte, buscando atender às necessidades de quem
precisa trabalhar, doando alimentos, preparando-os, transportando-os. Outros,
ainda, buscam as redes para, de alguma forma, minimizar o isolamento e buscar
uma aproximação social e, até mesmo, um ganho pessoal.
“Deixar que um vírus que não conhecemos bem circule livremente é
anti-ético. Não é uma opção”, afirmou Tedros Adhanom, Diretor Geral da
Organização Mundial da Saúde. OK, precisamos controlar o vírus, precisamos nos
proteger, precisamos proteger nossas famílias, precisamos proteger nossos bens,
precisamos proteger nossa saúde, nossa vida. Tudo isso é complicado, mas se
complica mais se temos a informação de que não temos todas as informações
necessárias para fazê-lo. E, pior, não sabemos sequer como fazê-lo, já que
estamos a tatear atos, ações, acontecimentos. Claro, recebemos informações
todos os dias, os meios de comunicação, jornais, rádio, televisão, buscam nos
ensinar diariamente como seguir em frente. Mas, se pensamos um pouco, sabemos
que as coisas estão meio confusas. Sabemos que as doenças infecciosas tendem a
se agravar em ambientes sujos. Então, por quê quando estamos a praticar
exercícios, ao término deles, não podemos tomar um banho para, ao menos, tirar
o suor do corpo? Claro, devemos evitar aglomerações. Mas, os chuveiros são
isolados, os banhos favorecem a limpeza, então...? Isso para falarmos em um
ponto minúsculo no universo de bobagens (ou não) que enfrentamos durante essa
pandemia.
Os profissionais de saúde também enfrentam uma gama de problemas, já
que, além de enfrentar as doenças dos pacientes que lhes chegam e que, muitas
vezes, eles mesmos não têm respostas a lhes dar, ainda devem enfrentar a
possibilidade de serem contaminados também. E, sabemos, muitos têm sofrido e
morrido vítimas que são também do vírus. Culpa, dor e angústia fazem parte de
seus dias, assim como a todos. Mas, eles sempre foram preparados para atender
as dores do mundo e, com parcas informações, se veem à mercê da falta delas e
do não saber o que fazer, mesmo em suas profissões.
Compreende-se o senhor Diretor Geral da OMS, mas como não ser
anti-éticos sob todas essas variáveis? Espera-se a vacina, mas como e quando
ela virá? Quem a ela será submetido? Quais as reações adversas que podemos
esperar? Por quanto tempo estaremos imunizados? Mesmo, em sabendo todas essas
respostas, e vivendo além delas, que tipo de população e vivências teremos?
A economia, os processos econômicos estarão devastados, em grandes crises,
o desemprego, que já abalava o mundo, estará agravado. Como vamos seguir, que
empregos gerar, num universo governado por tecnologias que ainda estamos longe
de administrar com eficiência e eficácia. Óbvio que precisamos gerar
empregos, mas a busca por empreendimentos é uma variável que ainda não
conseguimos antecipar com clareza. As universidades não estão preparadas a
preparar (redundante mesmo!) pessoas para um novo universo de desemprego
galopante e falta de perspectivas.
A ação é o que torna o homem diferente, humano. A ação humana por
natureza é o trabalho; como viver, ser humano, sem trabalho? O
homem, constituído pela marca desejante, está condenado à liberdade de escolha
e, com ela, deve representar todos os homens e o que de humano há neles, se é
que possuímos humanidade.
Partindo-se do pressuposto de que a ação humana é o trabalho, que este é
a condição humana por excelência; partindo-se dos dados que nos são fornecidos
praticamente todos os dias de queda de postos de trabalho; partindo-se do dado
de que muitos destes postos de trabalho são perdidos em função da introdução
das tecnologias em todos os meios; partindo-se de tudo o que se têm escrito
sobre as ideias de homem, suas necessidades, suas angústias e ideias do bem
viver, do compartilhar, do viver em sociedade, de “compaixão”. E, utilizando-se
alguns autores, e o que dizem sobre que HOMEM temos hoje, ele é diferente, ele
VIVE, ou ele apenas sobrevive e o mundo está num “salve-se quem puder” (ou
seja, queda de toda e qualquer possibilidade social!)?
O homem e a escolha. A ação humana. A Condição
Humana. O trabalho, o labor, a vita activa. A escolha de um estilo
de vida, conforme proposto por Kierkegaard, o estilo de vida ético, o estilo de
vida estético e o estilo de vida ético-estético (?). As
tecnologias. A falta de recursos advindos da falta de postos de trabalho. O
cuidado de si. A volta ao questionamento sobre o homem e quê homem
temos, como e para onde vamos (se vamos!). A educação e a filosofia,
em particular, como busca por respostas (se as há!).
Num tempo em que vivenciamos grandes demandas por novas respostas a tudo
o que nos ocorre no social, nem sempre com vontade e desejo de pensar sobre
elas, de muitas transições, imigrações, emigrações, transferências de pessoas
de cá para lá (nem sempre bem vindas!), de uma violência galopantemente
invasiva e sem possibilidades de soluções no mundo e na sociedade (não há
interesse, a não ser que os interesses sejam os de livrar-se do “problema”,
enjaulando, marginalizando, segregando, “matando”?), de um “parecer” ser, de um
ter mais do que qualquer possibilidade de busca de ser, de viver, de um
mascarar-se para fingir ser algo e/ou alguém (aqui “copiar” o outro deixa de
ser o horror Frankenstein para “parecer” ser o outro, sem qualquer
possibilidade de identidade – DIFERENÇA - SINGULARIDADE - própria, sequer do
outro - já que jamais haverá qualquer possibilidade de ser O outro!).
Num
mundo em que não se sabe mais o que é o homem, o que o diferencia de uma
máquina, o que é uma máquina (alguns chegam ao absurdo de pensar que as
máquinas operam-se sozinhas, programam-se sozinhas, são!). Num tempo em que não
se compreende o que se tem para viver, como as relações homem-homem podem se
dar, como viver (já que tudo aparenta ser só “conexão”!) como escolher uma vida
a viver, é possível ainda “escolher”?. O que pensadores antes de nós acreditaram
ser uma escolha, uma boa escolha? Ainda é possível “viver”, na forma como estes
pensadores (alguns ou todos?) pensaram, propuseram, escreveram sobre?
Sem
trabalho, não se tem o poder de troca para pensar em “VIDA”, socialmente,
pessoalmente, em família... Como há um homem sem trabalho, logo, sem o retorno
desta condição? Quem o sustenta, o quê o sustenta, ele pensa, ele “rouba” (se
ele rouba, ele tem a condição? – ele é HUMANO?)?
Se
o homem, ou o ser que temos hoje (se é “ser”), não tem a condição de seu
sustento, quem o mantém respirando? De onde viriam recursos para tanto, que
tipo de governos podemos pensar para atender a essas demandas (é de “governo”
que se precisa – de que tipo de “governo” estes “seres” precisam?).
Estas
são questões que urgem ser pensadas, até mesmo para repensar sociedades, meios
de sobrevivência, de subsistência, de trocas, meios de relações, possíveis ou
não, de seguir com o que fazemos ou mudar os rumos. URGE,
para ONTEM, que na educação, já se estivesse com alunos “formados”, pensando
sobre tais questões, propondo novas pesquisas, mas com ÉTICA (não é na ACADEMIA
que se deveria falar, pensar, escrever, discutir, propor desta forma? – se não
o for, onde mais poderia ser, existe um outro lugar?).
O
que nos diferencia como humanos? O homem, em alguns momentos, diz-se humano
porque possui racionalidade, porque possui espírito, enfim diferentes
conceitos, construções teóricas que, na verdade, nada dizem, são apenas palavras
que não trazem respostas às nossas inquietações. Diferentemente de Platão, que
concebe o amor como movimento, pulsão, vida, desejo de algo, busca por algo,
Schopenhauer encontrou-o a priori manifestando-se na Vontade.
Como coloca Dumoulié (2005), o nosso conhecimento se acha encerrado no mundo
dos fenômenos, portanto de representação, mas nós temos a intuição imediata
através do nosso corpo, da essência íntima dos seres e do mundo. Para
Schopenhauer, que sofreu influências de Platão e Kant, o mundo é fenômeno, é
representação. A Vontade estaria em um mundo de ideias – platônico -, num mundo
idealizado, superior, inalcançável, que pode apenas ser simbolizado. A Vontade,
entretanto, não é externa, para Schopenhauer, ela está em nós.
Schopenhauer estabelece uma dupla lei relativa ao desejo: os contrários
se atraem e cada um procura no outro aquilo que lhe falta. Desta forma,
procura-se um amado que possua aquilo de que se é carente. Aqui há uma conexão
com Platão e com Lacan. Sartre vai além deste conceito, ele fala do existir
humano, do processo da existência humana, como uma construção, construção essa
que parte da própria liberdade de ser humano. O homem vai
construindo sua existência, a partir da liberdade que possui, liberdade de
escolher, conforme seu desejo: “toda verdade e toda ação implicam um meio e uma
subjetividade humana” (SARTRE, 1970, p.1). Kierkegaard vai propor que o homem
deve/pode escolher/eleger como vai conduzir sua vida. Propõe dois estilos de
vida, de escolha: o estilo de vida estético e o estilo de
vida ético. Se o homem opta por seguir um estilo de vida estético
(que aqui nada tem de estética – arte ou o que hoje entendemos pelo termo
estética), ele é o que vive o INSTANTE (fronteira entre o antes e o depois). Em
princípio ele viveria em liberdade. Mas, na crítica que Kierkegaard faz a este
“escolhedor”, dirá que esta liberdade é um engodo, já que a verdadeira
liberdade só se dá na opção pelo estilo de vida ético
o que vale é madurar a própria personalidade antes de formar
o espírito [...] desejarias fortalecer tua alma [...] tem em cada ser uma
potência capaz de desafiar o mundo inteiro [...] o principal da vida,
reconquistar-te a ti mesmo, adquirir-te a ti mesmo, com a condição de que
possas, o mais bem que queiras poder a energia necessária para fazê-lo.
(KIERKEGAARD, 1966, p. 9-11).
O estilo de vida ético, à semelhança do que ocorria no mundo grego,
incorpora, abarca o que entendemos por estético. Ao optarmos pelo estilo de
vida ético, incluímos em nossa opção a vida estética, incluímos a opção por nós
mesmos, o eterno. O sujeito que opta pelo estilo de vida estético
vive no desespero e nada tem de fato.
Tua escolha é uma escolha estética, mas uma escolha estética não é uma
escolha. Em verdade, o fato de escolher é uma expressão real e rigorosa da
ética [...] o único aut-aut (ou isto, ou aquilo)
absoluto que existe é a escolha entre o bem e o mal e essa
escolha também é absolutamente ética. (KIERKEGAARD, 1966,
p. 20).
O desespero não deve ser um inibidor de minha ação. Ao contrário, deve
me engajar na ação: “não é preciso ter esperança para empreender [...] não
deverei ter ilusões e que farei o melhor que puder” (SARTRE, 1970, p.08). A
realidade só existe a partir da ação, o homem só existe à medida que se realiza
na ação, o homem é o conjunto de seus atos. Para Hanna Arendt, o homem não é um
ser de natureza, é um ser de condição. A condição humana é que o homem é um ser
de ação (arte) e discurso (político). Hanna diferencia labor de trabalho, mas
dirá que a condição humana, por excelência é o trabalho, ação humana que nos
diz quem e o quê somos.
Com a expressão vita activa pretendo designar três
atividades humanas fundamentais: labor, trabalho e ação. [...] o labor é a
atividade que corresponde ao processo biológico do corpo humano [...] tem a ver
com as necessidades vitais [...] a condição humana do labor é a própria vida. O
trabalho é a atividade correspondente ao artificialismo da existência humana.
[...] a condição humana do trabalho é a mundanidade. A ação, única atividade
que se exerce diretamente entre os homens sem a mediação das coisas ou da
matéria, corresponde à condição humana da pluralidade. (ARENDT, 2008, p.15).
Independentemente
se tomamos cada uma das atividades humanas ou se nos dedicarmos, abarcarmos o
termo proposto por Hanna, vita activa, as três atividades
referem-se ao que designa, distingue o homem como homem, à durabilidade do
mundo, já que o homem o habita.
o trabalho de nossas mãos, em contraposição ao labor de nosso corpo –
o homo faber que “faz” e literalmente “trabalha sobre” os
materiais, em oposição ao animal laborans que labora e “se
mistura com eles” – fabrica a infinita variedade de coisas cuja soma
total constitui o artifício humano. (ARENDT, 2008, p.149).
Outros autores também nos apresentam a importância do trabalho na vida
humana, para o seguir de sua existência: “No trabalho, o homem satisfaz uma
potência de criação que se multiplica por numerosas metáforas” (BACHELARD,
2001, p.24). A própria Hanna questiona, em seu texto A Condição Humana,
o que faremos (ela já se perguntava nos anos 60 do século XX), sem trabalho: “O
que se nos depara, portanto, é a possibilidade de uma sociedade de
trabalhadores sem trabalho, isto é, sem a única atividade que lhes resta”
(ARENDT, 2008, p.13). E ela mesma nos aponta o que pode nos ter conduzido a
esta “situação”:
talvez o desejo de fugir à condição humana esteja presente na esperança
de prolongar a duração da vida para além do limite de cem anos. [...] O
problema tem a ver com o fato de que as “verdades” da moderna visão científica
do mundo, embora possam ser demonstrados em fórmulas matemáticas e comprovadas
pela tecnologia, já não se prestam à expressão normal da fala e do raciocínio.
[...] Se realmente for comprovado esse divórcio definitivo entre o conhecimento
e o pensamento, então passaremos, sem dúvida, à condição de escravos indefesos,
não tanto de nossas máquinas quanto de nosso know-how, criaturas
desprovidas de raciocínio, à mercê de qualquer engenhoca tecnicamente possível,
por mais mortífera que seja. (ARENDT, 2008, p.11).
Nunca, em nenhuma outra época de nossa história, esteve o homem
tão só em meio à multidão. Os ideais que o sustentavam caíram, a felicidade não
depende mais da harmonia de vínculos sociais, mas de objetos adquiridos e
ofertados incessantemente pela mídia e os instrumentos gerais do marketing. Há
uma oferta de gozo total. A foraclusão da Lei da vida é paga com dízimos. O
sujeito é transformado, através do seu assassinato, em objeto submisso do gozo
do Outro. Não há nada mais psicotizante do que isso. Nas doenças da
modernidade, anorexia, bulimia, toxicomanias (acrescenta-se, neste momento, os
sintomas da pandemia de COVID-19), e a consequente violência advinda delas, o
que se tem são sombras que o mundo das luzes não ilumina. A modernidade nos
oferece um mundo iluminado (de uma iluminação artificial,
mascarada) pelos outdoors plenos de ofertas, mas
nosso eu, quem sou, para onde vou, o que desejo (?), não há resposta. Há muita
“luz” de LED e a luz interior é apagada!
Michel Foucault, em seus Seminários sobre o Governo de Si e dos
Outros e sobre a Hermenêutica do Sujeito, aborda e
discorre sobre o cuidado de si, como uma questão ampla de uma busca de saúde
que vai de encontro com o conhecimento de si, com o saber de seu corpo, com o
saber de suas necessidades, de seus desejos, com vistas a uma ampla busca de
felicidade, não mais como uma busca utópica, subjetiva, inalcançável (talvez
como ideal demais!), mas, através desse conhecimento de si, uma felicidade
possível, palpável, vivenciável: “A filosofia está assimilada ao cuidado com a
alma (o termo é precisamente médico: hugiainein), e esse cuidado é
uma tarefa que deve ser seguida ao longo de toda a vida” (FOUCAULT, 1997,
p.120).
Hermenêutica de si como epimeléia heautou, cura
sui, princípio de ocupar-se de si. Cuidar de si mesmo, conhecer a si
mesmo, obscurecido pelo brilho do Gnôthi seauton. (FOUCAULT,
1997, p.119). Neste momento pandêmico, que fazer de nossas vidas, quem somos,
para onde vamos, tudo depende de nós. Sartre nos ilumina com: “o destino do homem
está em suas próprias mãos” (SARTRE, 1970, p.09).
REFERÊNCIAS
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[1] Professora na FACED/UFRGS, psicanalista,
psicóloga (CRP 07/7654) e jornalista (MTb 16.069). Editora do site apolineo.net,
curadora e crítica de arte. Doutora em Filosofia (PUC-RS), Doutora em Educação
(UFRGS), Mestre em Letras e Cultura Regional (UCS), Graduada em Psicologia –
Formação de Psicólogo (UCS) e Bacharel em Ciências Contábeis (UCS). E-mail:
verareolon@terra.com.br
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