Guilherme Reolon de Oliveira[1]
Sim, o império está doente e, o que é pior, procura
habituar-se às suas doenças. O propósito de minhas explorações é o seguinte:
perscrutando os vestígios de felicidade que ainda se entreveem, posso medir o
grau de penúria. Para descobrir quanta escuridão existe em torno, é preciso
concentrar o olhar nas luzes fracas e distantes.
(CALVINO, 1990, p.57)
“Poesia numa hora dessas?”
perguntou um colunista do jornal de maior circulação impressa do país, no
início da pandemia, diante do sofrimento, do medo e da insegurança, frente a
uma realidade incerta, com um vírus totalmente desconhecido. A
importância das artes – ainda que caracterizada por muitos como supérflua,
principalmente se comparada aos problemas sanitários e de saúde, consequências
da nova doença instaurada – durante a quarentena (que parece interminável!), no
entanto, parece-nos fundamental. No início, houve uma onda, uma inundação de lives, em que artistas, sem saber como proceder no novo cenário, expuseram seus
trabalhos em apresentações ao vivo na internet. Tais lives, muitas vezes acompanhadas de campanhas de doações de alimentos e
Equipamentos de Proteção Individual (destinados especialmente aos profissionais
da saúde e às entidades de assistência social), depois de um esgotamento, uma
proliferação, estressaram também o espectador (tendo em vista o excesso de
apresentações e a angústia da escolha). Este, o espectador, com isso, migrou
para as mídias tradicionais, como a televisão (com programas, especialmente de
humor, dedicados ao tema da quarentena, em paralelo àos números e estatísticas
bombardeados a todo instante pelos programas jornalísticos, repetitivos na
temática, e lives de especialistas, mais acadêmicas). Ou para mecanismos de streaming, de filmes e séries, que já vinham crescendo, mas aumentaram
consideravelmente em seus números de assinantes.
É consenso que a arte, agora quarentenada (com a ausência de
apresentações ao vivo de peças de teatro, espetáculos de dança, shows musicais,
exposições – não digitais – de artes visuais), exerce papel constituidor da/na
sociedade (inclusive econômico-financeiro, com a geração de emprego e renda a
inúmeros profissionais, bem como de economia criativa) e no bem-estar
individual (saúde física e mental, e na instauração de subjetividade, por meio
da produção de sentido e presença). Uma das funções da arte é a de operar como
uma forma de conhecimento da realidade. A pandemia, nesse sentido, parece
colocar em xeque, inclusive, a ontologia da arte.
A arte tem papel estruturador societário (do coletivo), porque além de
uma função antecipatória, possibilita (favorece, não institui obrigatoriamente)
o laço social, lança os alicerces para o que está por vir (e aí sua
responsabilidade, seu caráter ético), e dá espaço para a sublimação (segundo
Freud, negação do princípio da realidade, via transformação do instinto sexual
em arte), em contraposição à barbárie, conduz a uma catarse para instintos
agressivos. Neste último sentido, em uma sociedade que valoriza a
“passagem ao ato” de fantasias perversas, não estaria a arte perdendo sua real
função, transformando-se em mais um veículo de apoio à fetichização dos objetos[2] (ou, melhor, de
meras coisas), principalmente quando, por meio de performances,
convida o espectador, ou melhor, o obriga a participar de “jogos” dos quais não
sabe as regras?
A arte pode cumprir sua função revolucionária interna somente se ela
própria não se torna parte de qualquer establishment, inclusive
o establishment revolucionário [...] A realização da arte como
princípio de reconstrução social pressupõe mudanças sociais fundamentais. O que
está em jogo não é o embelezamento do que existe, mas sim a reorientação total
da vida em uma nova sociedade. [...] Por que o artista hoje parece incapaz de
encontrar a transfiguração e a transubstancialização da forma que capte as
coisas e as liberte de sua sujeição a uma realidade bruta e destrutiva? [...]
Não uma arte política, não a política como arte, porém a arte como arquitetura
de uma sociedade livre. (MARCUSE, 2000, p.161-170)
O objeto só é auratizado quando não tem função utilitária. A arte só
acontece na inefabilidade[3] e no prazer
desinteressado. Não há transvaloração do objeto em obra de arte se este se
configura como instrumento[4]. A obra
adquire o verdadeiro estatuto de arte quando atinge o limiar do não-dito, na
pura expressividade[5] do dizer
não-dizendo: a própria linguagem (e não o objeto) é, pois, transfigurada numa
universalidade[6]. No cinema, dois
exemplos são “Orgulho e Preconceito” (Pride and Prejudice, 2005), e
“Amor além da vida“ (What dreams may came, 1998). No primeiro, o sublime,
ainda que complementado pelo figurino, pelo roteiro, pela fotografia, está no
indizível, nos olhares, nas frases inacabadas, nos sentimentos, nos pensamentos
dos personagens, “ditos” não pela palavra. No segundo, é a qualidade plástica,
do Paraíso criado como uma tela impressionista, carregado de tinta, cuja cor é
a própria expressividade de um “além da vida”, a partir do sentimento familiar
vivido “na Vida”. No cinema, cabe lembrar ainda de “O sorriso de Mona Lisa” (Monalisa
Smile, 2003), mas aqui a arte não exatamente no conteúdo fílmico (claro que
ali também há), mas numa cena específica, quando Julia Roberts, a professora de
História da Arte, encomenda um painel-tela de Pollock e, diante da surpresa de
suas alunas (trata-se de um College conservador, nos anos 60)
– “isso é arte?” interroga uma delas – apenas diz: “parem de falar,
aproximem-se, olhem-no de perto, e apenas apreciem!”: a interpretação[7] não é necessária,
arte acontece, por si, identiferenciando-se na novidade (não apenas material,
mas espiritual[8] – ou seja, na forma
e no conteúdo, no exterior e no interior da obra).
Kant, em sua Crítica da faculdade do juízo, afirmara que “o
Belo é o símbolo da moralidade”. Se a (des)lógica contemporânea é a da
des-simbolização, com o Imagético (“fingindo-se” de Imaginário) a imperar e a
se sobrepor ao Simbólico (à linguagem), como pensar em “símbolo”?. Se o símbolo
se desintegra – e a arte do sem-sentido nos mostra isso, trancafiando o Belo
nas caves e nas instalações –, a moralidade e o enlace
fundamental, fundacional, são denegados, por conseguinte: a hybris toma
conta!
Talvez nem grau zero (plenitude de sentido), nem sem-sentido
(anti-sentido), mas Presença e Sentido dialetizados, porque na Arte sempre
há sujeito (feitor) e sujeito (olhador), em
relação – obra e experiência estética. Um novo paradigma, que vise uma arte
efetiva, verdadeira, pós-nonsense (pós-grau zero[9]), pós-mídia (cultura-de-Sentido
e não cultura-de-imagem), ainda mais se torna necessário,
senão obrigatório, propiciando, então, que a hybrida crie
um novo estatuto existencial, pleno de sentido, ou seja, ético e estético por
excelência. Só assim – se a arte se restabelecer como tal – é que ela será,
também como Kant afirmara, liberdade[10]. Só assim,
enterraremos essa “existência inautêntica” (segundo Heidegger), calcada numa
cultura da máquina e da técnica (que deveria ser ferramenta e não fim em si
mesma). Só assim escaparemos às armadilhas do esfacelamento do Ser[11].
Talvez a arte seja importante fundamento para as questões éticas
contemporâneas, como abertura para a alteridade e a valorização da diferença –
Olhar o Outro em sua singularidade – tendo em vista exatamente a
responsabilidade para com o Outro que se dá no conceito de acolhimento e
hospitalidade em Levinas, posteriormente revisado por Derrida.
O filósofo da desconstrução destaca que, no acolhimento, a ética
interrompe a tradição filosófica do parto e desfaz a astúcia do mestre quando
este finge desaparecer atrás da figura da parteira. Uma política de
hospitalidade é uma política do poder quanto ao hóspede, quer seja ele o que
acolhe ou o acolhido. Para Levinas, o acolhimento dá e recebe outra coisa, mais
do que eu e mais do que outra coisa:
Desde as primeiras páginas de Totalidade e infinito, lê-se que abordar o
Outro no discurso é acolher sua expressão em que ele
ultrapassa a todo instante a ideia que se poderia ter dele. É então receber do
Outro para além da capacidade do eu; o que significa exatamente: ter a ideia do
infinito. Porém isso significa também ser ensinado. A relação com o Outro ou o
Discurso é uma relação não-alérgica, uma relação ética, porém esse
discurso acolhido é um ensinamento. Porém o ensinamento não
retorna à maiêutica. Ele vem do exterior e me traz mais do que eu contenho.
(DERRIDA, 2004, p.35-35).
Esse
receber, proposto como sinônimo de acolher por Derrida, só recebe na medida –
uma medida desmedida – em que ele recebe para além da capacidade do eu. Essa desproporção
dissimétrica marca a lei da hospitalidade. A palavra “acolher” designa, com a
noção de Rosto, a abertura do eu, e a anterioridade filosófica do sendo sobre o
ser. O Discurso, assim, se apresenta como Justiça “na retidão do acolhimento
dado ao rosto” (DERRIDA, 2004, p.46). Nossa questão é exatamente neste ponto:
se a arte pode ser entendida como Discurso, atuando como produtora de sentido e
presença numa dimensão de abertura à alteridade.
A
hospitalidade, para Derrida (2004), é a essância (diferente de
essência) do que é, ou antes do que se abre assim para além do
ser. Numa continuidade do pensamento levinasiano, a hospitalidade é infinita ou
ela não é; ela é acordada ao acolhimento da ideia do infinito, portando do
incondicional, e é a partir de sua abertura que se pode dizer, como o fará
Levinas, que a ética não é uma disciplina da filosofia, mas a “filosofia
primeira”.
Pensamos
que a arte pode figurar precisamente como originária de um olhar para o
diferente e como abertura para questões fundamentais da contemporaneidade –
como fielmente é produzida, sempre como atenção ao tempo presente, e mesmo como
antecipatória de problemáticas futuras – a partir das formulações do conceito
de acolhimento e hospitalidade, tendo em vista que a lógica desses, como
destaca Derrida, é uma “estranha lógica, mas tão esclarecedora, essa de um
senhor impaciente que espera seu hóspede como um libertador, seu emancipador”
(2003, p.107).
Entendemos
que a arte é suspensão da linguagem, porque anterior a ela. Novamente,
parece-nos que a arte acontece na hospitalidade, só é se acolhe, se permite uma
abertura do eu. Nesse sentido, Derrida acrescenta:
Já nos aconteceu de perguntarmo-nos se a hospitalidade absoluta,
hiperbólica, incondicional, não consistiria em suspender a linguagem, uma certa
linguagem determinada, e mesmo o endereçamento ao outro. Sendo assim, não seria
preciso submeter a uma espécie de contenção essa tentação de perguntar ao outro
quem ele é, qual é o seu nome, de onde ele vem, etc? Não seria preciso
abster-se de colocar essas questões que anunciam um tal número de condições
requeridas, portanto limites a uma hospitalidade assim constrangida e confinada
num direito e num dever? (DERRIDA, 2003, p.117).
Merleau-Ponty ressalta que “a criação artística colabora, de maneira
privilegiada, com a elaboração da questão do Ser” (1984, p.109). Mondzain
(2015), em outras palavras, ao pensar uma ontologia da imagem, destaca:
a imagem é [...] duas coisas em uma: ao mesmo tempo uma operadora em uma
relação e objeto produzido por essa relação. As operações imaginantes são
inseparáveis dos gestos que produzem os signos que, por essa razão, permitem os
processos de identificação e a separação sem as quais não haveria sujeito. A
definição da imagem é, portanto, inseparável da definição
de sujeito (MONDZAIN, 2015, p.39)
Rancière (2015), em outro sentido, lembra que a vida das imagens é uma
vida ao mesmo tempo mais sólida que a das aparências e uma vida mais leve que a
das potências maléficas (p.193): em outros termos, não são apenas
representações, não são tão coisas em si, são uma mescla, nem inocentes de suas
consequências, nem supremo-poderosas. Para o teórico, “as imagens não são
reflexos, sombras ou artifícios, são seres viventes, quer dizer, organismos
dotados de desejos” (2015, p.193).
Em outra passagem, ele explicita melhor o que quer dizer com esse termo
tão inusual quando se trata de imagem – ser vivente: “a imagem é eficaz ao
abolir a distinção usual entre a abstração desencarnada das palavras e a
vitalidade do corpo” (p.199). Rancière esclarece: “o que constitui uma imagem é
a operação que transforma uma corporeidade em outra” (p.200), ou seja, a imagem
é justamente a passagem entre palavra e corporeidade, entre o imaterial e o
material, entre significante e significado. Ou, até mesmo, a passagem entre
significantes, o que lhe confere exatamente o caráter de Sujeito, na
conceituação de Lacan (1961), aquele que desliza numa cadeia de significantes,
o que é representado por um significante para outro significante.
Para Rancière, “dar às imagens sua consistência própria é justamente
lhes dar a consistência de quase-corpo que são mais que ilusões, menos que
organismos vivos” (p.200). A imagem só é como quase, ou seja, ela
só é, só acontece, só se estrutura ou se constitui como
sujeito a partir do olhar do Outro: sua potência só ascende a partir desse
olhar desejante que, por sua vez, lhe confere desejo e consistência, ainda que
ficcional[12].
Durante a pandemia, diante da fundamental importância que a arte exerce,
como destacamos no início deste ensaio (tanto no quesito econômico-financeiro,
com a geração de emprego e renda e movimentação da economia criativa, como no
bem-estar individual, na saúde física e mental, bem como na produção de
subjetividade, por meio do sentido e da presença), esta (a arte) acaba por
operar também um exercício de poder, tal como as práticas clínicas e a
governança.
O exercício do poder opera através de uma modalidade especial de ação,
de natureza agônica, que pode ser entendida como o governo das próprias ações e
das ações dos outros. Governo significa ordenar um campo de probabilidades
através da condução de condutas, ou seja, governar é “conduzir” ações. Para
Foucault (1982), “a conduta é, ao mesmo tempo, o ato de ‘conduzir’ os outros e
a maneira de se comportar num campo mais ou menos aberto de possibilidade”
(Foucault, 1982, p.243).
Segundo
Tedesco e Rodrigues (2009), as práticas clínicas podem ser afirmadas como
formas de governo do outro, ou seja, ação realizada sobre a maneira como o
outro se cuida para se governar. A arte também opera nesse sentido, dado seu
papel societário, evidenciado na pandemia. Trata-se de atos que contribuem na
construção do autogoverno do outro. E, ao realizar essa aproximação entre arte,
prática clínica e modo de governo, “a problematização ética é recolocada em
novos termos. A questão é saber como a ética, que diz respeito à ‘relação
consigo’, se aplica no contexto do governo do outro” (p.91).
A
orientação ética da arte deve, portanto, alocar-se do lado da incitação ao
movimento de forças, da instalação e da preservação dos jogos de poder. Tal estratégica
deve ser realizada em duas direções:
De um lado, devemos evitar, nas relações de poder, que soframos os
abusos de poder por parte do outro que visa conduzir nossas ações. De outro
lado, e é o que mais nos interessa apontar no momento, devemos evitar exercer
sobre o outro o poder indevido, forma de poder que conduza a estados de
dominação. Em ambos os casos, trata-se de escapar dos estados de dominação e,
para tanto, é preciso realizar um trabalho sobre nós mesmos que ao mesmo tempo
nos transforme, opere deslocamentos de forças nos jogos de poder e,
consequentemente, nos impeça de subjugar os outros. (TEDESCO & RODRIGUES,
2009, p.91-92).
É nesse sentido que a arte funciona como cuidado de si, como pressuposto
para escape do estado de dominação, operando naquele sentido, de deslocamento
de forças nos jogos de poder. O cuidado consigo mesmo visa administrar bem as
relações de poder no sentido da não-dominação, como bem conceituara Foucault
(1984): “aquele que cuida adequadamente de si mesmo é, por isso mesmo, capaz de
se conduzir adequadamente na relação aos outros e para os outros” (p.271).
Cuidado de si e cuidado dos outros precisam estar entrecruzados no
manejo das práticas que alimentam a circulação das assimetrias de poder, para,
dessa forma, melhor acolherem os movimentos éticos de invenção
de si mesmo. A “relação consigo” torna-se a estratégia ética principal uma vez
que “não se deve fazer passar o cuidado dos outros na frente do cuidado de si;
o cuidado de si vem eticamente em primeiro lugar, na medida em que a relação
consigo mesmo é ontologicamente primária” (Foucault, 1984, p.271) .
Para
governar os outros é preciso antes governar a si mesmo. O cuidado de si,
conceituado por Foucault remete ao conceito grego de askésis. Um
aspecto importante nesse último conceito (que de certa maneira nos remete ao
“chegar-a-ser-o-que-se-é” nietzschiano) é a possibilidade de invenção de si
mesmo através das práticas de si, e, segundo Laponte (2003), “não a
descoberta da verdade de um sujeito que estaria oculta, eclipsada pela falta de
consciência de si mesmo. As diferentes formas de práticas de si não são, dessa
forma, ‘tomadas de consciência’” (p.77).
O
cuidado de si, para Foucault, reverbera em uma “estética da existência”, que
implica todo um conjunto de trabalhos sobre si mesmo no sentido de
estetizar-se, produzir-se como uma obra de arte, bela aos olhos dos outros (e
de si). Esse trabalho estético de produzir-se como obra de arte é o principal
esforço ao nível das relações do sujeito consigo mesmo, destacando o princípio
‘ocupa-te de ti mesmo’ (e conhece-te a ti mesmo) e colocando-o como condição
para o conhecimento de si, o que quer dizer que esse sujeito histórico se
constitui eticamente nesse movimento que vai do trabalhar-se
ao conhecer-se: .
Existem os cuidados com o corpo, os regimes da saúde, os exercícios
físicos sem excesso, a satisfação, tão medida quanto possível, das
necessidades. Existem as meditações, as leituras, as anotações que se toma
sobre livros ou conversações ouvidas, e que mais tarde serão relidas, a
rememoração das verdades que já se sabe mas de que convém apropriar-se ainda
melhor. [...] as conversas com um confidente, com amigos, com um guia ou
diretor; às quais se acrescenta a correspondência onde se expõe o estado da
própria alma, solicita-se conselhos, ou eles são fornecidos a quem deles
necessita. [...] em torno dos cuidados consigo toda uma atividade da palavra e
de escrita se desenvolveu, na qual se ligam o trabalho de si para consigo e a
comunicação com outrem. Tem-se aí um dos pontos mais importantes dessa
atividade consagrada a si mesmo: ela não constitui um exercício da solidão, mas
sim uma verdadeira prática social. (FOUCAULT, 1985, p.56-57).
O filósofo destaca, em um de seus últimos seminários no Collège
de France, dedicado ao tema do governo de si e dos outros, que,
em particular nos dois primeiros séculos de nossa era, houve um desenvolvimento
de uma (certa) “cultura de si” que adquirira naquele momento tais dimensões que
se podia falar de uma verdadeira era dourada da cultura de si, vinculada à
verdade, a uma “coragem da verdade”, encarnada no sentido de um “falar
francamente”.
E nessa cultura de si, nessa relação consigo, viu-se desenvolver toda
uma técnica e toda uma arte que se aprendem e se exercem. Viu-se que essa arte
de si necessita de uma relação com o outro. Em outras palavras: não se pode
cuidar de si mesmo, se preocupar consigo mesmo sem ter relação com o outro. E o
papel desse outro é precisamente dizer a verdade, dizer toda a verdade, ou em
todo caso dizer toda a verdade necessária, e dizê-la de uma certa forma que é
precisamente a parresía, que mais uma vez é traduzida pela fala
franca. (FOUCAULT, 2010, p.43)
Assim, há uma dupla temática do cuidado de si e do conhecimento de si: a
obrigação de todo indivíduo de se preocupar consigo mesmo, imediatamente
ligada, como sua condição, ao conhecimento de si. Ninguém pode cuidar de si sem
se conhecer. A arte, nesse sentido, é um conhecimento de si, a partir de um
saber (ainda que suposto) do artista, ou uma experiência estética, propiciada
ou alicerçada por este, também fundamentado numa prática de conhecimento de si
próprio. O que está em questão é como tal conhecimento reverbera no cuidado de
si, como uma ação mais ampla, existencial, como construção de uma “estética da
existência”, tornando-se si mesmo, tornando-se obra de arte, e autor dessa
obra, logo artista. E, ainda, como esse cuidado de si é condição sine
qua non para a constituição de um cuidado dos outros, fundamento do
cuidado de si destes outros, e a criação de uma estilística, dando vasão às
singularidades e à diferença, como resistência à fragilização das
subjetividades contemporâneas e suas sintomáticas: o desamparo, o desespero, o
sofrimento psíquico, além de suas consequências psicopatológicas e
comportamentais.
Heidegger chama de Befindlichkeit (sentimento de
situação) um existencial que acompanha toda a compreensão do Dasein (do
ser-no-mundo, a existência em si) e, em especial, as relações deste com seu
conceito-chave de cuidado (Sorge). Segundo Stein (2000):
O cuidado se constitui como ser do ser-aí, porque nele se estabelece uma
relação circular entre afecção e compreensão, na medida em que é eliminada a
ideia de representação e substituída por um modo de ser-em, de ser-no-mundo e
de relação do ser-aí consigo mesmo como ter-que-ser e ser-para-a-morte
(facticidade e existência). O cuidado é o ser do ser-aí porque o ser-aí tem
nele o horizonte de seu sentido: a temporalidade. Então o cuidado, com o
caminho pelo qual o ser-aí, numa relação ontológica consigo mesmo, consegue,
pela afecção e pela compreensão, ser, de algum modo, todas as coisas. (STEIN,
2000, p.157)
Quando a arte se restringe à esfera digital, como durante a pandemia,
uma vez que também quarentenada, seu próprio conceito também é questionado,
assim como o de virtualidade e ficção. “Não há instauração da verdade sem uma
posição essencial da alteridade” complementa Foucault, no seminário de 1984.
Por isso, talvez, cada vez mais enclausurados em nossas individualidades, nos
prendemos às ficções e às virtualidades, às mascaras das redes sociais, com o
totalitarismo das versões. Valorizamos Pokemon Go, ignoramos os
malefícios do lítio e do silício na saúde, não consideramos problemático sermos
localizados e vigiados via GPS e em conexões com o Facebook. Somos
conhecidos por números, cadastros e cartões de crédito. Nos afastamos do Rosto
e do Olhar, simbólicos do Outro, como destacara Levinas: “O encontro com Outrem
é imediatamente minha responsabilidade por ele [...] é sempre a partir do
Rosto, a partir da responsabilidade por outrem que aparece a justiça, que
comporta julgamento e comparação, comparação daquilo que, em princípio, é
incomparável, pois cada ser é único, todo outrem é único”.
As
ciências humanas que, em sua origem, eram chamadas de ciências do espírito, em
contraposição às ciências da natureza, físicas e biológicas, sempre tiveram em
seu cerne preocupações éticas relativas ao homem e suas relações. Contudo, com
os avanços científicos e tecnológicos, evidenciados durante a pandemia de
COVID-19, passaram a ciências cada vez mais técnicas, com procedimentos e
métodos apropriados de outras ciências, visando uma afirmação e,
principalmente, um reconhecimento daqueles cientistas. É estranho, muitos temos
ojeriza ao tecnicismo, mas permanecemos neste caminho. E, com isso,
nos afastamos cada vez das humanidades, essa grande área que abarcaria todos
nossos estudos. As humanidades sempre se caracterizaram por um equilíbrio entre
a técnica e a arte. Pendemos, no entanto, cada vez mais, para o tecnicismo.
Heidegger nos alertara sobre isso na primeira metade do século XX: para
os perigos da articulação entre tecné e logos,
convertida em tecnologia. E, consequentemente, nos afastamos da verdade. Disse
o pensador que mais filosófica que a ciência e mais rigorosa, ou seja, mais
próxima da essência da coisa, é a arte. Afirmou ele: §204 – A arte não é
tomada nem como um campo de realização cultural nem como uma manifestação do
Espírito. Ela pertence ao acontecer-poético-apropriante (Ereignis), a
partir do qual se determina o “sentido do Ser”. (HEIDEGGER, 2010).
A
obra de arte dá a conhecer o que o utensílio é em verdade: a exposição sobre os
sapatos pintados por Van Gogh leva Heidegger a definir a essência da arte como
o pôr-se em obra da verdade do sendo (§55 e §65, 2010). Pode-se, inclusive
fazer uma identificação do conceito de Grau Zero do Ser ao de Verdade do
hermeneuta alemão. Para ele (§130), a verdade é não-verdade na medida em que
lhe pertence o âmbito da proveniência do ainda-não revelado, no sentido de
velamento (cuidado, guarda, conservação, proteção: resguardar o deixar
acontecer).
Paul
Valery, também no início do século XX, observando o papel que a ciência
desempenhava na Primeira Guerra Mundial, afirmou: “Temo que o espírito esteja
se transformando numa coisa supérflua”. Que a pandemia de COVID-19, além de
destacar o papel da ciência na sociedade, também provoque um retorno às
humanidades por meio da arte. Para, também com ética e sem fragmentações, não
sufocar o que de humano permanece em cada um de nós! E que arte, no “novo
normal”, também retorne renovada, hospitalidade!
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[1] Filósofo,
sociólogo (Mtb 1.029) e jornalista (Mtb 15.241). Editor do site apolineo.net,
curador e crítico de arte. Doutorando em Filosofia (PUC-RS), Mestre em
História, Teoria e Crítica de Arte (PPGAV/UFRGS), Mestre em Psicologia Social e
Institucional (UFRGS), Bacharel em Ciências Sociais (UFRGS), Bacharel em
Filosofia (UFRGS/UCS) e Bacharel em Comunicação Social – Jornalismo (UCS).
E-mail: guilhermereolon@terra.com.br
[2] “Através
da liberação de formas, linhas, cores e concepções estéticas, através da
mixagem de todas as culturas e de todos os estilos, nossa cultura produziu uma
estetização geral” (BAUDRILLARD, 1990, p.23).
[3] “A
vida é êxtase, como a escalada do Everest, sim, mas também é toda indefinição,
necessita de pequenas traduções e algumas mitificações” (ALBUQUERQUE, 2009,
p.74).
[4] “O que
se conserva, a coisa ou a obra de arte, é um bloco de sensações, isto é, um
composto de perceptos e afectos. Os perceptos não mais são percepções, são
independentes daqueles que os experimentam. [...] O artista cria blocos de
perceptos e afectos, mas a única lei da criação é que o composto deve ficar de
pé sozinho. O mais difícil.” (DELEUZE, 1992, p.213-214); “Composição, eis a
única definição da arte. A composição é estética, e o que não é composto não é
uma obra de arte” (p.247).
[5] Aqui
não me refiro, ainda, à Presença, tal como conceituada por Gumbrecht (2010).
[6] “A
interação do universal e do particular, que se produz inconscientemente nas
obras de arte e que a estética tem de elevar à consciência, é a verdadeira
necessidade de uma concepção dialética de arte” (ADORNO, 1993, p.205).
[7] As
teorias da arte contemporânea introduzem a Interpretação como elemento
constituinte, fundamental da obra de arte. A obra, entretanto, independe da
Interpretação: ela é o que apresenta. Kant, no parágrafo 9 da Crítica
da faculdade do juízo, afirma: “É belo o que agrada universalmente sem
conceito”. Denegar a Interpretação, no entanto, não compactua com o
sem-sentido. O sentido é condição para a coisa, o artefato, elevar-se à obra de
arte. Baudrillard destaca: “A arte é obrigada a significar; nem sequer se pode
suicidar no cotidiano” (s/d, p.118).
[8] “A
união dos dois tipos de força – a da inteligência ou da espiritualidade e a da
forma ou da perfeição técnica – é coisa rara, o que a história da arte
igualmente prova” (KANDINSKY, 1991, p.168).
[9] “O que
se mostra no limiar entre ser e não-ser, entre sensível e inteligível, entre
palavra e coisa, não é o abismo incolor do nada, mas a espiral luminosa do
possível. Poder significa: nem atribuir, nem negar” (AGAMBEN, apud
Bartleby, ou da contingência)
[10] “[...]
enquanto o particular e o universal divergirem, não há liberdade” (ADORNO,
1993, p.56)
[11] “A
partir dos Tempos Modernos, a filosofia teve de dar adeus à metafísica, à
verdade, ao Ser, à ciência, às grandes ideologias, às utopias da modernidade;
ao homem também, que ela entregou ao cuidado das ciências humanas. Mas ela
nunca pôde, de fato, cortar os laços com a arte. Ferramenta pedagógica,
argumento teológico, instrumento de propaganda, cópia da natureza, aparência
inofensiva, reflexo da realidade, projeção de fantasmas, paixão narcisista,
objeto de prazer, meio de conhecimento, a arte sempre foi o brinquedo da
filosofia. A filosofia, todavia, leva a sério tal brinquedo, talvez com secreta
inveja do artista, capaz de apreender com um gesto, com uma cor, com um simples
acorde o que os discursos e os conceitos nunca conseguem realmente expressar. A
arte revela-se assim como a questão essencial da filosofia. [...] E é por essa
razão que o filósofo da arte não pode, sob pena de ele mesmo desaparecer,
acreditar seriamente em uma morte da arte” (JIMENEZ, 1999, p.390-391).
[12] “A lógica
das imagens [...] é uma lógica da mostração: as imagens
nos dão a ver alguma coisa, nos colocam alguma coisa “sob os olhos” e sua
demonstração procede, portanto, de uma mostração” (BOEHM, 2015, p.23).
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