LIVRO EDITADO PELA EDUCS sob ISBN 978-85-7061-967-9
guilherme reolon de oliveira
[ARTE PÓS-NONSENSE]
do
abismo entre a ausência (hybris) e o grau zero (hybrida) de Sentido e Presença
–
ou da dança como gênese do Ser da Arte –
Porto Alegre, 2017
Para a minha mãe: dança-Desejo, antes do
Sujeito
Pertence
verdadeiramente ao seu tempo, é verdadeiramente contemporâneo, aquele que não
coincide perfeitamente com este, nem está adequado às suas pretensões e é,
portanto, nesse sentido, inatual; mas, exatamente por isso, exatamente através
desse deslocamento e desse anacronismo, ele é capaz, mais do que os outros, de
perceber e apreender o seu tempo. [...] A contemporaneidade, portanto, é uma
singular relação com o próprio tempo, que adere a este e, ao mesmo tempo, dele
toma distâncias. [...] Contemporâneo é aquele que mantém fixo o olhar no seu
tempo, para nele perceber não as luzes, mas o escuro [...] é aquele que percebe
o escuro do seu tempo como algo que lhe concerne e não cessa de interpelá-lo
[...] significa ser capaz não apenas de manter fixo o olhar no escuro da época,
mas também de perceber nesse escuro uma luz que, dirigida para nós,
distancia-se infinitamente de nós. Ou ainda: ser pontual num compromisso ao
qual se pode apenas faltar.
Giorgio Agamben, O que é o contemporâneo?
É preciso
encontrar um estilo que saiba apontar (estilete) e descrever com a pena aquilo
que é. Digo: um pensamento questionador que saiba minar em profundidade os
andaimes de todos aqueles que, maldosamente, F. Pessoa chamava de “cadáveres
adiados que procriam”.
Michel Maffesoli, A república dos bons
sentimentos
Dado que
nem no conhecimento nem na reflexão nos é possível chegar à totalidade, porque
àquele falta a dimensão interior e a esta a exterior, temos necessariamente de
pensar a ciência como arte, se esperamos encontrar nela alguma espécie de
totalidade. Essa totalidade não deve ser procurada no universal, no excessivo;
pelo contrário, do mesmo modo que a arte se manifesta sempre como um todo em
cada obra de arte particular, assim também a ciência deveria poder ser
demonstrada em cada um dos objetos de que se ocupa.
J.W. Von Goethe
A própria
teoria é uma prática, tanto quanto seu objeto. Ela não é mais abstrata que seu
objeto. É uma prática de conceitos, e é preciso julgá-la em função de outras
práticas nas quais interfere.
Gilles Deleuze, Cinema 1: a imagem-movimento
SUMÁRIO
Introdução............................................................................................................................................6
1
Esboço para
uma crítica do sujeito pós-mídia..................................................................................10
2
Identidade e
diferença: uma ontologia da arte..................................................................................24
Intermezzo
Anotações
generalistas....................................................................................................39
3
Da dimensão
estética da dança: escritura de um sinthoma.............................................................43
Considerações
finais: Est(Ética) do Encontro...................................................................................51
Referências.........................................................................................................................................54
OUTROS
ENSAIOS DE ESTÉTICA
PSICANÁLISE
E CINEMA
1.
Shine: a música, a água e o
Outro..................................................................................................60
FILOSOFIA
E MODA
2.
Ontologia da
Roupa.........................................................................................................................64
ARTE,
LITERATURA E PSICANÁLISE
3.
Deus é imanente e conhecido pela razão e pelo corpo...................................................................66
[introdução]
Existem
aqueles que procuram para encontrar, mesmo sabendo que eles encontrarão quase
necessariamente algo diferente daquilo que buscam. Existem outros cuja busca é,
precisamente, sem objeto.
Maurice
Blanchot
INTRODUÇÃO
Parafraseando
Nietzsche, para fazer justiça a este trabalho, é preciso sofrer do destino da
dança como de uma ferida aberta. Tal como uma coreografia[1],
o que aqui se apresenta – ou representa – é de uma rapidez, uma certa agilidade
– nosso tempo o requer. A ritmicidade de uma coreografia se configura de acordo
com sua poética, ou seja, o tema deste trabalho, sendo a arte (o contemporâneo
da arte, especificamente da dança), impõe uma grafia de movimentação
contemporânea – na definição de Agamben (2009). Certos assuntos não permitem
lentidão na argumentação: a crise ontológica da arte é um deles.
Este estudo, embora
filosófico, estreita-se no que ora se denomina Estética, ora Filosofia da Arte.
A ontologia da arte e a experiência da arte são, embora insistam em
desintegrá-las, uma só coisa, faces de uma mesma moeda, e a filosofia parece
relegar a segundo, senão último, plano este ramo de seu saber. Epistemologia e
lógica abafam cada vez mais a estética para lugares marginalizados. A arte, na
contramão do que alguns pensam, não está à margem da vida, é a própria. E se há
uma crise ontológica da arte, há uma crise propriamente ontológica, ou seja, do
Ser e, consequentemente, uma crise ética.
Mas pensar a arte, o que é tão satisfatório e
prazeroso, não é tarefa fácil: embora este trabalho se aplique às artes em
geral, dedica-se especificamente à dança. A bibliografia sobre dança é tão
escassa[2]
que, por tal motivo, pensá-la e ensaiá-la é relevante e justificado em termos
filosóficos[3].
Mas isso é pouco. Sofrer do destino da dança é dançar – matizar o movimento,
via grafia. Escrever sobre esta arte é, além de visibilizá-la, fazer da escrita
uma escritura, uma movimentação da letra singularizada. Tendo como pressuposto
a necessidade de conjugação identidade-diferença, como critério de definição da
obra de arte, como afirmar a dança como arte, ou até matriz – genealógica – do
Ser artístico?
O nonsense pregado – prego litúrgico e
dogmático de leituras inviesadas –, como base de sustentação do pós-moderno, é
o pano de fundo de nossa discussão. Pretende-se lançar dúvidas, espanto - a
gênese do filosofar – questionamentos, diagnósticos do presente, por uma
conceituação particular de diferenciação entre hybris (mistura) e hybrida
(híbrido) para uma caracterização do tempo
presente. O método é o ensaio, forma de escrita, gênero discursivo que se nutre
tanto das artes como das ciências; ensaio em dupla acepção: o desenvolvimento
textual de um raciocínio, de uma análise; e a prática de um ato ou movimento
para adquirir um domínio sobre ele – ambos atrelados a uma teoria de teor
crítico[4],
num enlace comunicação-filosofia-sociologia-psicanálise. Dialogam Escola de
Frankfurt e pós-estruturalismo francês.
Aparentada com
a técnica plástica da collage ou com a errância do flâneur na
cidade moderna, a prosa do ensaio discorre de forma fragmentária e
anti-sistemática, tecendo argumentações à medida que avança sem rumo fixo em
sua travessia textual. Com seu andar sinuoso, o ensaio é mais afeito à
formulação de perguntas do que à elaboração de respostas, articulando questões
ao entrever as incertezas e lidando com metáforas e conceitos para tentar
significá-las. (SIBILIA, 2002, p. 21).
Flusser (2010, p.
245), nesse sentido, destaca que “um ensaio é uma tentativa de incitar os
outros a refletirem, de levá-los a escrever complementos.[...] Não se trata,
com a edição de um ensaio, de comprovar algo ou de se contrapor a isso (como no
caso de um experimento); ao contrário, trata-se de refletir novamente, de
maneira dialógica, sobre tudo.”
Com a ambição de
acrescentar um grão de areia ao vasto deserto que é a teoria da arte (um intermezzo entre a estética e a crítica
de arte), o trabalho se compõe de três partes, a serem lidas como três atos de
uma coreografia, com especificidades de movimentos (assuntos), ritmos (formas
de ensaios) e narrativas (poéticas/conteúdos), com idas e vindas. Tal qual o
que se busca, além da Presença, é a produção de sentido.
A primeira parte,
intitulada Esboço para uma crítica do
sujeito pós-mídia é um espécie de panorama do presente, este enigma. Está
ali o diagnóstico que o tempo atual tem o imperativo de multielementaridade,
dada a suposta falência do uno. Para
discursar sobre este imperativo, trago a questão da imagem – seu estatuto
ontológico – como cerne do pós-moderno, tamanha a imbricação desta na sociedade
contemporânea, e a práxis (teoria e
prática) ética[5]
(ethos – do ético-estético)
imprescindível na sua discussão.
O segundo ato ensaístico, Identidade e diferença: uma ontologia da arte, versa criticamente
sobre o conceito de nonsense,
associando-o ao de grau zero. O mundo
da arte traduziu “rapidamente” nonsense
por sem-sentido. Procurarei demonstrar que o nonsense difere da ausência de sentido, e nada mais é que grau
zero, o sentido em seu estado mais bruto, concentrado.
O que se almeja neste capítulo é a construção preliminar de uma arte pós-nonsense via conceito de identiferença
(conceito nosso, imprescindível), como critério de definição da obra de arte,
lugar da verdade (HEIDEGGER, 2010) em seu sentido mais estrito e, portanto, do
Ser.
Da
dimensão estética da dança: escritura de um sinthoma, terceira parte deste ensaio,
deixa de lado, em parte, a ontologia da arte e analisa, especificamente, sob o
prisma da experiência estética, a dança. O objetivo é investigar esta em sua
dimensão artística, como abertura para a diferença, partindo do conceito de sinthoma[6]
(LACAN, 2007) – diferente de uma sintomática e identificado à noção de estilo –, ou seja: a dança como
expressão pura do falante, um dito do indizível: inefabilidade, uma estrutura
plena de significação.
Como um intervalo,
incluí um Intermezzo, quase-apêndice,
entre a segunda e a terceira parte. Neste, exponho algumas informações que considero
importantes, porém que ficariam estranhas em algum capítulo específico.
[esboço
para uma crítica do sujeito pós-mídia]
Pai e mãe, ouro de mina
Coração, desejo e sina
Tudo mais, pura rotina, jazz
Tocarei seu nome pra poder falar de amor
Coração, desejo e sina
Tudo mais, pura rotina, jazz
Tocarei seu nome pra poder falar de amor
Minha princesa, art-nouveau
Da natureza, tudo o mais
Pura beleza, jazz
Da natureza, tudo o mais
Pura beleza, jazz
A luz de um grande prazer
É irremediável neon
Quando o grito do prazer
Açoitar o ar, réveillon
É irremediável neon
Quando o grito do prazer
Açoitar o ar, réveillon
O luar, estrela do mar
O sol e o dom
Quiçá, um dia, a fúria desse front
Virá lapidar o sonho
Até gerar o som
Como querer Caetanear
O que há de bom
O sol e o dom
Quiçá, um dia, a fúria desse front
Virá lapidar o sonho
Até gerar o som
Como querer Caetanear
O que há de bom
Djavan,
Sina.
1
ESBOÇO PARA UMA CRÍTICA DO SUJEITO PÓS-MÍDIA
§1
Três índios numa
aparição “civilizada”. Esbranquiçados: a mãe e os dois filhos, vestidos,
saboreiam iogurtes industrializados de uma marca famosa e conversam na língua
tupi. Cadê a cultura? Foi reaculturada?
Lady Gaga, a “andrógena” artista pop, capa de revistas e
fenômeno cultural, numa efervescência industrial-capitalista de início do
século XXI. Dúvidas em relação ao sexo: é mulher mesmo? A batida eletrônica em
letras que questionam e problematizam o celebritismo: ela não é
uma celebridade, não vive de celebritismo? E Amy Whinehouse, timbre das origens
do jazz, voz dos negros num corpo branco quase esquálido.
Num jornal, uma entrevista com o DJ carioca João Brasil,
criador de muitos mashups, misturas
musicais: The Beatles & Bonde do
Tigrão, Los Hermanos & De Leve,
Lady Gaga & Mc Gi. Negando a
criação, copiando. Cadê a música?
Um outdoor: “Recheio
duplo, uma explosão de sabor” é o grito publicitário. Não basta um recheio,
ainda que delicioso e sem igual?
§2
Uma realidade diferente, crua,
líquida, solúvel. Por vezes, enigmática. Com pitadas de um pretérito que ainda
se quer presente. Uma angústia, porém: a todo custo, o tempo se mutaciona, acelera.
O futuro rompe a casca do ovo, deseja nascer no instante imediato. Imperativos
por toda a parte. O gozo a qualquer preço. No entanto, a foraclusão age: não
in-clui, fora-clui. Cadê a ética[7],
princípio regente, essencial ao agir humano? Humano, onde estás?
Compreensão de mecanismos subjacentes, colocar-se no divã do analista,
revelar-se. Um estudo pretende um algo-a-mais: único, revelador. Decifrar
charadas, desemaranhar nós, reverter miscelâneas. Quem sabe, combinar teorias,
como um químico, formando novos compostos. Saber do/no social, criticar.
Analisar. Interpretar. Para conseguir enxergar o que realmente é, está, há.
Relevante, assim. Pois a pesquisa é um fato, um ato de desconstrução[8]. Para
construção do novo. Desvelamento (alethéia)
do obtuso, do obscuro, do encoberto. Trazer à tona o real, inacessível sem a
lupa, sem o conhecimento, enquanto episteme,
ação sobre o mundo.
§3
Vivemos, na atualidade, sob um
excesso de paradigmas[9]
– será que podemos falar neles?, paradigmas ou conhecimentos? –, na medida em
que a informação, especialmente a visual (como decifrá-la?) é a grande mentora
contemporânea. Há supervalorização da informação – há empoderamento pela
informação – e do serviço, em detrimento da produção de bens, ainda que estes
nos sejam convocados a ter, a necessitar, como supressão de algo. Há paridade
dinheiro-poder-ser.
Emergem, rapidamente, uma
quantidade enorme de disciplinas, ciências e conhecimentos, isolados e sem
comunicação. Excesso esse gerador de falta, carência paradigmática: tornamo-nos
cada vez mais confusos e sem caminhos a seguir, sob a égide da incerteza total.
O excesso é também caracterizador de uma fragmentação, de um espraiamento, de
uma quebra de conexões. Num movimento contra-a-corrente, uma análise complexa,
uma visualização do todo, muito comprometida, contudo muito abafada, renegada:
a interdisciplinaridade.
O homem
contemporâneo é marcado por insígnias muito singulares, em comparação aos
homens de tempos passados. Com as mudanças trazidas pela tecnologia e pelas
novas formas de estar/ser-no-mundo, a sociedade rompe com paradigmas, a partir
da década de 90. O homem, assim, acompanha a sociedade, constituindo-se ou
produzindo-se de forma diferenciada, inscrevendo-se no social, realizando laço,
a partir de um Outro – talvez um Outro muito frágil – superficial, diferente,
antes apenas outro, alteridade, ou nem mesmo isso. Um Outro que busca suprimir
a alteridade, a diferença e a singularidade. Há um novo homem: um não humano,
um objeto, o Não-Ser, Anti-Ser.
A mídia[10],
ou o Mercado, o sistema político-econômico vigente, ocupando este lugar, impedem
ou determinam outras vias de fluxos e devires, inscrevem significantes não mais
a partir de um Olhar[11]
afetivo, mas pelas vias do consumo e do espetáculo, muito reforçados pela
indústria cultural[12].
Uma nova percepção de mundo o homem adquire: neste momento, ele o abstrai pelas
imagens, o que, por vezes, carrega uma significância complexa para a mente
infantil, com uma cognição ainda muito primária, sensorial e em desenvolvimento.
Consequência desta superespecialização, adentrada em
todos os meandros sociais, não apenas na educação, ou no conhecimento, mas na
cultura, há multielementariedade por todos os lados. Fragmentada[13],
quebrada, violada, a sociedade busca reparação (?), (re)inscrição, renomeação
pela mistura?
Fala-se em pós-humanidade – mas aí a humanidade se
perde, dessubjetiva-se – uma pós-humanidade[14]
que prima pela mistura, pela fusão[15],
em todos os sentidos, sejam eles materiais e físicos (com as próteses, os
microchipes, a fertilização in vitro,
a manipulação genética[16]),
subjetivos e afetivos (a inteligência artificial, as relações líquidas, as
incertezas existenciais[17]).
A diferença é suprimida, abafada, em
favor da valorização da mistura. Não há mais bem e mal, ético e antiético, belo
e feio, uma vez que além da conceituação, o próprio existir é relativizado[18].
Todos são “normais”[19].
A normalidade passa a ser sinônimo de anormal, uma vez que o excêntrico deve ser a supremo. O excêntrico
é igualado ao diferente (entendido, talvez erroneamente, como ser-fora, como
ser-dos-extremos, que viola a qualquer preço o instituído, mesmo desprovido de
ideologia ou justificativa que sustente a ação).
Há andróginos, uma vez que a diferença
deve ser abolida. Toda interdição, todo primado de polarização ou classificação
precisa ser excluído ou ignorado. Neste sentido, não há mais diferença: todos a
visando, acabam por se igualar . É homem ou mulher? É a indistinção sexual. Há
fusão homem-máquina, com a sobreposição de materiais inorgânicos a orgânicos:
as tecnologias incorporadas ao fazer cotidiano e ao próprio corpo. Há um não humano
(quando as tecnologias são subservientes a proveitos antiéticos) e há um
pós-humano (no momento em que estas produzem melhores condições de vida, por
exemplo).
Não há relacionamento duradouro,
duradouro mesmo. Nem “solteirice” plena. Há um meio-termo. Os relacionamentos quânticos são os grandes valores
contemporâneos, já que a satisfação a qualquer preço, sem solidez, é a melhor
'sacada' do pós-modernismo. O ficar como modus relacionardis
contemporâneo, os instantâneos, o aqui-e-agora desprovido de sentimento, ou de
sentimento inócuo, fluido, superficial. A busca pelo gozo instantâneo, o eu com
o Mesmo, sem alteridade.
O ideal (se é que há?) é parecer sólido
externamente, quando na matriz real o que há é fluidez. Ser “politicamente
correto”: a “moda” do momento. O normal é ser normal, ou seria o contrário? Há mescla de estruturas[20],
se é que podemos falar nelas! Psicose[21]
e perversão[22],
neuropsicose, estruturas em rede, estruturas de borda, de fronteiras? Antes
excluídas pela sociedade, caracterizadas como patológicas, no contemporâneo são
motivadas pela sociedade do espetáculo, em que a mídia exerce papéis distintos
aos funcionais/utilitários – prestação de serviços, noticiabilidade, dentre
outros[23].
Enquanto campo da linguagem, campo de significações, neste caso exercido pela
mídia, o Outro da pós-modernidade incute para e no sujeito um pseudo-objeto,
gerador de pseudodesejo. As pseudossatisfações, o mal-estar de nosso tempo: a
ilusão do consumo. Se a mídia passa ao lugar de Outro, que homem surge, que
estrutura advém? Há détachement[24]:
há indiferença, desapego, desinteresse, há um “tornar a todos blasés” (desatados, destacados, soltos,
separados, insensíveis). A mídia como Détachemedium:
mediação para a indiferença, a mídia indiferente, a decorrente insensibilidade
advinda dos processos midiáticos.
Este pseudodesejo[25],
à semelhança do gozo, é puro fora-de-si, exterioridade plena. Daí o consumismo:
realização dessa busca, plenitude desta constante procura pela satisfação, com
o pseudo-objeto. As perfomances e a
indústria cultural, enquanto representações da sociedade pós-moderna, são estimuladas,
mesmo que inconscientemente, pelo sujeito. O são incutidas, ou mesmo
provocadas.
Poderia citar também a cibercultura[26]:
o sujeito imerso no virtual, no espaço do irreal, realizador (contudo não!) de
tudo, a tudo fazer, tudo desejar. A cibercultura é o símbolo da transgressão e
da alucinação – ícones de estruturas, se pensarmos a partir delas. No ambiente
virtual, o sujeito pode tudo: imaginar, sentir, necessitar, desejar, sem o
fazer realmente. O fetiche, o gozo pleno, a qualquer preço[27].
Há meio-termo, confusão entre público e
privado: o voyeurismo e o narcisismo[28].
Os celulares, as web-cams, os chats,
as redes sociais. Não há referências, já que todas
as anteriores perderam seu valor-de-verdade, foram relativizadas, questionadas
e colocadas à berlinda do real contemporâneo. Não há ícones, não há gênios
especialmente geniais, ao mesmo tempo que há ícones demais, há celebridades, há
sujeitos instantâneos, que surgem e desaparecem sob um mesmo surtir de tempo.
Isso confunde, o que iguala os não iguais, com a padronização imposta pelas
leis de mercado.
Não há divisão de funções, já que as
novas teorias administrativas pregam o saber-fazer tudo, o ser multifuncional,
cujo saber deve estar focado na missão empresarial, no objetivo final, no
produto acabado. Mas, no mesmo instante, há cobrança de especialização
superespecializada, que saiba lidar com as crises, com os problemas
emergenciais, com os problemas focais e de microestrutura. Ainda, um mercado
que deseja apáticos, não-questionadores, que apenas sigam regras. O mecanicismo
e a agilidade no fazer.
Há crise de costumes. Afinal, para
que, eles? A moral é (mal-)entendida como atadora da liberdade, que, por sua
vez, é sinônimo de fazer o que se quer, sem Outro, o Mesmo livre de limitações
sociais internas e externas. Não há tradição, já que ela está ultrapassada, mas
há retrôs, que estão na moda, na
crista da onda. Parecer antigo, parecer moderno, mas ser (supostamente) “híbrido”,
não o ser, ser um novo, que não seja um, nem seja outro.
Não há comunicação, mas há excesso
de meios para comunicação, há excesso de informação, ainda que absolutamente
superficial. Não há ideologia, que passa a categoria de utopia. Sob uma máscara
diplomática, prega-se o suprir qualquer demanda, em favor de propiciar a
democracia de agires, fazeres e seres. Há, contudo, excesso de ideólogos, que proclamam
saberes e verdades pretendentes a absolutas. Há um discurso democrático, mas um
agir totalitário, ditatorial. Há uma pseudodiferença: o discurso dos que
supostamente buscam a diferença é contraditório à medida que abolem o seu
contrário, o seu diferente. Há uma desmaterialização de trocas: uma patologia
da mesmidade[29]
– totalitarismo da mistura – travestido de hibridez, harmonia da diferença. O
resultado é uma cultura da hegemonia, da massificação, da não-relação:
Pode-se dizer que a hegemonia é o estágio supremo da
dominação e, ao mesmo tempo, sua fase terminal. A dominação caracteriza-se pela
relação senhor/escravo – que ainda é uma relação dual, com um potencial de
alienação, de relações de força e de conflitos. É uma história violenta de opressão
e de libertação. Há dominantes e dominados – é ainda uma relação simbólica.
[...] A hegemonia começa aí, nesse desaparecimento da relação dual, pessoal,
conflituosa, em proveito de uma realidade integral – a das redes, do virtual
[...] Mas, ao mesmo tempo, o que é abolido, devorado pelos signos e pelos
simulacros é toda a negatividade crítica, todo o trabalho do negativo. No
contexto da hegemonia, todo o trabalho histórico pensamento crítico, da relação
de forças ante a opressão, da subjetividade radical diante da alienação, tudo
isso está (virtualmente) findo [...] segundo os meandros da razão cínica.
(BAUDRILLARD, 2006, p.126).
§4
Não
há semelhança sem marca.
Michel
Foucault
O homem é um ser condicional, no sentido exposto por
Hanna Arendt. De natural, há o estado de condição, o estado de aculturado, de
sujeitado, de interposto num real construído, produzido, antes dele e por ele,
reconstruído a todo instante portanto. Calcado num agir e num ser: numa
estética e numa ética.
Que o homem é condicionalmente um ser múltiplo,
multifacetado, plural e singular, diferente e igual, ao mesmo tempo nada tenho
a acrescentar. Que o humano é inscrito, o é propriamente dito, é sujeito,
quando é inscrito na linguagem, no Simbólico. E esta inscrição, essa possibilidade
de vida, o laço social, acontece por intermédio da alteridade, desse Outro,
desse campo de significações.
Uma proliferação de enunciações: texto e imagem, tese e
argumentação – a multielementariedade está in
voga. Outras vezes, tratada por nomes e conceitos de ordem diversa, pode se
apresentar como mestiçagem, mais ligada a contextos étnico-raciais, e transculturação[30],
ambas as ideias remetidas à mistura. Isso que é falado, explícito, é a simples
mistura. Misturar significa hibridizar[31]?
Em que o híbrido se constitui? Sobre ele muito se fala, ou nele se conclui
problemas diversos – mas confusão mistura/híbrido se interpõe no caminho: de
quê se argumenta?
Do grego hybris, etimologicamente remetido a
ultraje[32],
corresponde a uma mistura que viola as leis naturais. Para os gregos, logo, o
termo corresponderia à desmedida, àquilo que ultrapassa limites, fronteiras.
Também remete ao que é misturado de maneira anômala ou irregular. Aberração. Também
é o que participa de dois ou mais gêneros, estilos, conjuntos: é o composto de
dois elementos diversos e, supostamente, díspares, reunidos com o fim de
originar um terceiro elemento. Nele permanecem as características dos dois
anteriores, reforçadas ou reduzidas. É o
ultrajante, é o reprodutor, simples mistura, cópia e simulacro[33],
quando dos elementos misturados muito permanece, apenas se prolifera, em
vertigem.
Encontramos o meio de eliminar a sujeira, mas
não o de eliminar os resíduos. Porque a sujeira nascia da indigência, que podia
ser reduzida, ao passo que os resíduos (inclusive os radioativos) nascem do
bem-estar que ninguém quer mais perder. Eis por que nosso século foi o da
angústia e da utopia de curá-la. Com um superego mais forte, a humanidade se
embaraça num mal que conhece perfeitamente, confessa-o em público, tenta
purificações expiatórias às quais se juntam as Igrejas e os governos e repete o
mal porque ação à distância e linha de montagem impedem identificá-lo no início
do processo. Espaço, tempo, informação, crime, castigo, arrependimento,
absolvição, indignação, esquecimento, descoberta, crítica, nascimento, longa
vida, morte... tudo em altíssima velocidade. A um ritmo de stress. Nosso século
é o do enfarte. (ECO, 1993, p.115).
§5
A multielementaridade, enquanto dispositivo, se
permite visível pelo regime do Mercado
(1) e da cultura-da-imagem
(2). Por estes elementos, o sujeito contemporâneo adquire forma, não
como dados a priori, mas como se pela suposta hibridação (quando tudo
isso não passa de mistura) ele se faça sujeito, se constitua.
Agamben (2009, p.39)
destaca que os dispositivos devem sempre implicar um processo de subjetivação,
isto é, devem capturar o seu sujeito. Para tanto, o dispositivo equivale a um
“conjunto de práxis, de saberes, de medidas, de instituições cujo objetivo é
gerir, governar, controlar e orientar, num sentido que se supõe útil, os gestos
e os pensamentos dos homens”
(1)
No auge da globalização e do neoliberalismo, os anos 2000
apelam para os ideais do sistema econômico para propiciar o surgimento da
multielementaridade como dispositivo[34]:
no dizer de Harvey (2008, p.15), “ideais bem convincentes e sedutores”, a saber
“os ideais políticos da dignidade humana e da liberdade individual”. O Mercado
produz misturas, porque lucra com elas – lembremos de estilos de música ou vestuário
supostamente “híbridos”, ou carros bicombustíveis, bimotores: há neles uma
lógica mercadológica.
Bauman (2008, p.23), nesse sentido, explicita que
vivemos, na atualidade, numa sociedade de consumidores, posterior à
chamada sociedade de produtores, em voga no auge da industrialização,
quando os interesses convergiam à produção e não ao consumo desenfreado,
propriamente dito. Segundo o sociólogo, “é papel do fetichismo da subjetividade
ocultar a realidade demasiado comodificada da sociedade de consumidores [...] É
a vez de comprar e vender os símbolos empregados na construção da identidade”.
Tudo, nesses termos, leva a uma “atitude blasé”, apática, insossa diante
do trabalho, do conhecimento, da família e de si próprio, também observada por
Georg Simmel no início do século XX:
A
essência da atitude blasé consiste no entorpecimento do poder de
diferenciação. Isso não significa que os objetos não sejam percebidos, como no
caso da estupidez, mas sim que os valores significativos e diferenciais das
coisas, e portanto as próprias coisas, são vivenciados como imateriais. Eles se
mostram à pessoa blasé num tom uniformemente cinza e monótono; nenhum
objeto tem preferência sobre qualquer outro [...] Todas as coisas flutuam com
igual gravidade específica na corrente constante do dinheiro. (SIMMEL, 1969,
p.52).
Também Dufour (2005) destaca que, do
enfraquecimento e da alteração da função simbólica, essa mudança radical no
jogo de trocas, surge uma verdadeira mutação antropológica. O neoliberalismo,
como todas as ideologias precedentes desencadeadas no século passado (tais como
o nazismo e o comunismo), quer a fabricação de um novo homem: introduzir um
novo estatuto do objeto, montagem do sujeito em nome de um real que “deve
sempre parecer doce, querido, desejado, como se se tratasse de entretenimentos
[...]. Bem cedo veremos que formidável violência se dissimula atrás dessas
fachadas soft” (DUFOUR, 2005, p.15). Dessa forma, as identidades se
tornam extremamente flexíveis, vulneráveis a interferências impessoais,
materiais, propícias a uma condição anti-humana.
O
Mercado tem objetivamente interesse na flexibilidade e na precariedade das
identidades. O sonho atual do Mercado, em sua lógica de extensão infinita da
área da mercadoria, é poder fornecer kits de todo gênero, inclusive panóplias
identitárias: discursos, imagens, modelos, próteses, produtos... Idealmente,
Idealmente, o Mercado é o que deve poder oferecer, a qualquer um, em todos os
lugares e a todo instante, todos os produtos que são supostos corresponder aos
desejos, estranhamente compreendidos como desejos instantâneos e possíveis de
satisfazer sem demora. (DUFOUR, 2005, p.183).
(2)
Imagem e coisa, imagem e representação, o objeto e a
coisa, imagem e palavra, imagem e texto, texto e contexto: no hibridismo, de que
se trata? Na era da mistura, na atual condição socio-cultural, fronteiras e polos
se aglutinam ou dispersam. O isso e seu espelho, ou o isso e sua imagem, não
mais se delimitam, são Um só e o Mesmo. A imagem é uma Nova-Coisa. E a Coisa
não é mais, deixa de Ser.
Quando nomeio, há o não-dito, há o inapreensível. A
nomeação é representação, não a coisa. Representar é substituir o ausente, dar uma
supostamente presença e confirmar a ausência. Há sempre algo que escapa[35],
de resto, o que é do acontecimento, inapreensível, imprevisto, irrupção. O
olhar é um misto de determinação, produção, constituição. Vejo determinadas
coisas. Quando vejo, foco no objeto, logo desfoco do seu entorno, não o
percebo.
Quando algo é exibido em vídeo, fotografia, este algo não
é representação: é algo que não a própria coisa, mas é outro do mesmo. A casa
exibida não é representação da casa, mas é uma casa-filmada-fotografada. As
imagens são irredutíveis a significações, a descrições, porque há sempre uma
instabilidade do olhar, respectiva à posição do espectador e suas sensações.
É impossível falar do que se viu, o que se viu. Há um
atravessamento institucional e de vivências. Há relações de poder. Quando há
uma imagem, não há um “quis dizer”, há simplesmente um “é”. Ao mesmo tempo, para
a psicanálise lacaniana, a coisa é inapreensível[36],
tudo é representação? Ou representação não deve ser confundida com
simbolização? Não há acesso ao Real[37].
Dele só há
notícias pelo Simbólico. Mas o Simbólico está esfacelado: na contemporaneidade,
quer-se o ato, sem simbolização, porque a simbolização é entendida como o
estanque de significações: a passagem ao ato[38],
quando da mistura e do ultraje, possibilita mais (mais um engodo!). A imagem é
sempre um jogo, entre o presente e o ausente.
A imagem é opaca, há uma opacidade da imagem: ela não é a
coisa, é a captação por meio da luz, de ângulos, de olhares, é algo fruto de
mediação. Há intermeios entre o excesso e a omissão: uma sombra, nem opacidade,
nem transparência[39].
Porque a coisa só existe para quem a pensa, é uma representação. Não se pode
sair da representação, ela é, não há como perceber a coisa.
A representação,
neste sentido, participa de uma morte: carência de plenitude e movimento, calor
e vida, ela estanca o sentido da coisa. Busca-se um traço, algo que traga de
volta a coisa, um resquício, um espectro. A representação, então, é a
petrificação de algo que se eterniza. A imagem é uma narrativa[40],
diz algo, e algo a mais, indizível. Ela não ilustra o texto, mas é texto.
Não estamos sempre em cena, então? O que me antecede? Sou
o que sou, sujeito, indivíduo, actante, ou um produto da relação com a
alteridade? Sou falante ou sou falado[41]?
A linguagem é equívoco: as palavras são infiéis, traem a natureza das coisas.
São traiçoeiras, signos enganosos. O sentido, assim, é anterior às palavras:
elas não passam de imitações, pinturas da realidade em si. Na enganação e na
traição das palavras, há possibilidades construtivas ou destrutivas. A cultura-da-imagem
é o vício do contemporâneo.
Agamben (2009, p.47) acrescenta que não seria errado
definir a fase extrema do desenvolvimento capitalista que estamos vivendo como
uma enorme acumulação e proliferação de dispositivos, que implicariam, cada
qual, um processo de subjetivação. Contudo, o que definiria os dispositivos da
atual fase do capitalismo é que “estes não agem mais tanto pela produção de um
sujeito quanto por meio de processos que podemos chamar de dessubjetivação”. O
pensador destaca que a esses processos de dessubjetivação implicariam um
sujeito espectral, ou larval[42],
sujeito em estado negativo.
§6
Da fragilidade do Outro primordial, “ocupado” pela
materialidade não-espiritualizada – a
mídia –, o sujeito é capturado pela imperatividade da
multielementariedade – mistura, travestida de hibridação. Dessubjetivado, autorreferenciado,
dessimbolizado, o sujeito produzirá que arte, lugar da verdade do Ser, na
contemporaneidade?
[identidade
e diferença: uma ontologia da arte]
Nada dessa cica de palavra triste em mim na
boca
Travo, trava mãe e papai, alma buena, dicha louca
Neca desse sono de nunca jamais nem never more
Sim, dizer que sim pra Cilu, pra Dedé, pra Dadi e Dó
Crista do desejo o destino deslinda-se em beleza: Outras palavras
Tudo seu azul, tudo céu, tudo azul e furta-cor
Tudo meu amor, tudo mel, tudo amor e ouro e sol
Na televisão, na palavra, no átimo, no chão
Quero essa mulher solamente pra mim, mais, muito mais
Rima, pra que faz tanto, mas tudo dor, amor e gozo: Outras palavras
Nem vem que não tem, vem que tem coração, tamanho trem
Como na palavra, palavra, a palavra estou em mim
E fora de mim
quando você parece que não dá
Você diz que diz em silêncio o que eu não desejo ouvir
Tem me feito muito infeliz mas agora minha filha: Outras palavras
Quase João, Gil, Ben, muito bem mas barroco como eu
Cérebro, máquina, palavras, sentidos, corações
Hiperestesia, Buarque, voilá, tu sais de cor
Tinjo-me romântico mas sou vadio computador
Só que sofri tanto que grita porém daqui pra a frente: Outras palavras
Parafins, gatins, alphaluz, sexonhei da guerrapaz
Ouraxé, palávoras, driz, okê, cris, espacial
Projeitinho, imanso, ciumortevida, vivavid
Lambetelho, frúturo, orgasmaravalha-me Logun
Homenina nel paraís de felicidadania: Outras palavras
Travo, trava mãe e papai, alma buena, dicha louca
Neca desse sono de nunca jamais nem never more
Sim, dizer que sim pra Cilu, pra Dedé, pra Dadi e Dó
Crista do desejo o destino deslinda-se em beleza: Outras palavras
Tudo seu azul, tudo céu, tudo azul e furta-cor
Tudo meu amor, tudo mel, tudo amor e ouro e sol
Na televisão, na palavra, no átimo, no chão
Quero essa mulher solamente pra mim, mais, muito mais
Rima, pra que faz tanto, mas tudo dor, amor e gozo: Outras palavras
Nem vem que não tem, vem que tem coração, tamanho trem
Como na palavra, palavra, a palavra estou em mim
E fora de mim
quando você parece que não dá
Você diz que diz em silêncio o que eu não desejo ouvir
Tem me feito muito infeliz mas agora minha filha: Outras palavras
Quase João, Gil, Ben, muito bem mas barroco como eu
Cérebro, máquina, palavras, sentidos, corações
Hiperestesia, Buarque, voilá, tu sais de cor
Tinjo-me romântico mas sou vadio computador
Só que sofri tanto que grita porém daqui pra a frente: Outras palavras
Parafins, gatins, alphaluz, sexonhei da guerrapaz
Ouraxé, palávoras, driz, okê, cris, espacial
Projeitinho, imanso, ciumortevida, vivavid
Lambetelho, frúturo, orgasmaravalha-me Logun
Homenina nel paraís de felicidadania: Outras palavras
Caetano Veloso, Outras palavras.
§7
Causa-me estranheza a afirmação de Mathieu, o personagem
professor de filosofia, de A idade da
razão (romance de Jean-Paul Sartre): “Agrada-me indignar-me contra o
capitalismo, mas não desejo que o suprimam, porque não teria mais motivos de
indignação” (SARTRE, 1949, p.116). Em tempos de hybris contemporânea, o intelectual adquire mais uma tarefa: sê-lo efetivamente. Sua tarefa é a
crítica. Ora, uma teoria crítica, e aqui me proponho a ao menos esboçá-la, além
de fazer um diagnóstico do presente, tem o ímpeto de lançar prognósticos,
perspectivas, com vistas à mudança. Assim, neste estudo, procurarei fazer uma
crítica aos modelos de teoria da arte contemporânea, especialmente o formulado
por Arthur Danto, em A transfiguração do
lugar-comum (2010), com base nos conceitos de Identidade e Diferença,
pensando-os como indissociáveis, porque, creio, o grande equívoco de muitos
filósofos contemporâneos, foi a valorização de um em detrimento do outro, ou,
em outro sentido, “a identidade de essência não é acompanhada de uma identidade
de existência” (SARTRE, 2011, p.10), e aí também o deslize acontece. Não há
Diferença sem Identidade, assim como a Identidade é vazia sem a Diferença.
Dessa forma, a introdução do conceito de Identiferença se realiza – e o fazemos
perante a arte, como ícone do Belo[43],
ao lado do Bom – de modo a dar bases para a sustentação de uma hybrida (híbrido), em contraposição à hybris (mistura) que caracteriza a
pós-modernidade.
§8
Este é o meu pressuposto: há supervalorização, de
um ponto de vista social, da multielementariedade. É através dela que o sujeito
contemporâneo estabelece o laço social. Dos fenômenos extremos, tal momento se
configura de duas formas antagônicas: híbrido
e mistura.
Da cultura grega, estabeleço o conceito de hybris – o que ligo à mistura. Jaeger (2010, p.210) indica que a hybris grega estava associada ao ultraje
e à desmedida – fundamento das perversões –, quando os homens, visando ao
além-limite (daí a característica perversa da hybris: denegar a lei), “não pensavam humanamente”. Inscrita nos
terrenos do direito e do religioso, a hybris
seria a maior ofensa à physis, à
natureza: aspirar à elevação exclusiva das divindades. Levinas soube
sintetizar, em poucas palavras, esse “sentimento” de ofensa à alteridade,
invasão do Outro e mesmo da sacralidade que outrem abarca (a divindade
interna), que essencializou a ação da (des)humanidade no século XX e que se
alastra nesses quinze anos do século XXI, em atitudes cada vez mais mascaradas,
espetacularizadas:
O fato mais revolucionário de nossa consciência no século XX [...]
talvez seja o da destruição de todo equilíbrio entre a teodicéia explícita e
implícita do pensamento ocidental e as formas que o sofrimento e seu mal
assumem no próprio desenrolar deste século. Século que, em trinta anos,
conheceu duas guerras mundiais, os totalitarismos de direita e de esquerda,
hitlerismo e stalinismo, Hiroshima, o goulag,
os genocídios de Auschwitz e do Cambodja. Século que finda na obsessão do
retorno de tudo o que estes nomes bárbaros significam. Sofrimento e mal
impostos de maneira deliberada, mas que nenhuma razão limitava na exasperação
da razão tornada pública e desligada de toda a ética (LEVINAS, 2005, p.136).
Deixar-se seduzir pela hybris rapidamente se transforma na mais
profunda dor e corrosão, miasma social,
à qual o próprio homem incorreu, diante da inveja dos deuses (para os antigos),
e diante, hoje diríamos, da alteridade autêntica, em ações cada vez mais
voltadas à massificação. A hybris
advém da ânsia pelo poder (de caráter paranoico), pela abundância e, como tal,
conduz à ruína do Ser e da civilização. No híbrido, há uma nova simbolização.
Na mistura, por sua vez, há uma desimbolização, desubjetivação, o que compactua
com as “passagens ao ato” – manifestações da perversão.
Isso
posto, é por tal definição que renego à hybris,
inscrita na estrutura da perversão (misturas irrefletidas, contra a lei, o
natural – contrário à proposta do semblante levinasiano), e defendo, por ora, a
hybrida – que correlaciono ao híbrido
–, também ligada à conexão de saberes, de culturas, à miscigenação (oposta à
eugenia, buscada pela hybris). Nesse
sentido, a hybrida inscreve-se na
estrutura neurótica, que aceita a diferença e não busca aniquilá-la[44].
Quando o Ser foi constituído na e da mistura, na hybris, ele já está inserido no antissocial, ele está no e conduz
ao Caos, à aniquilação da alteridade e
da própria sociedade, que é ela mesma alteridade em relação. Para um retorno ao
coletivo, à hybrida, ao ético e à
harmonia, há a necessidade ética de avaliar todos os fatores que conduziram à
formação na existencialidade das diferentes situações. E, ainda, para que a hybrida se sobressaia, imperioso é um
cuidado – de si e do Outro - para que não se afunde no poço da hybris, calcado no gozo social. Na
mistura, há poderio exacerbado, há paranóia. No hibridismo, há existência, há
liberdade, há responsabilidade.
§9
Entendo, com Levinas, que ética é a própria relação com a alteridade de
Outrem, que só se efetiva na cultura[45]
(a responsabilidade por Outrem), e na valorização do Rosto (semblante), a
linguagem antes das palavras. Antes do Rosto, o Olhar que deseja e constitui
Desejo, Sujeito, dá base para que a lei seja inscrita. É por meio do Olhar, no
Olhar – no entre-Olhares – que há o reconhecimento do Outro[46].
O Mesmo acontece pelo Olhar, e o Olhar é que permite mais que o ver, o
Reconhecer – princípio primeiro da Ética –, Reconhecer até mesmo o
desconhecido.
§10
O conceito de hybris deriva do grego μβριζ, designando
as noções de injúria, blasfêmia, ultraje, violência, insulto, ofensa. Segundo Luc
Ferry (2009), o conceito estava ligado às significações de caos e
descomedimento, contrários à diké, a
justiça. Foucault (2006), por sua vez, o relaciona à loucura e à desrazão, em
oposição ao logos.
§11
A hybris (mistura) é a desagregação, o
caos, a sobreposição do dionisíaco[47]
em relação ao apolíneo (abafando este), não constrói o novo, apenas dá nova
“roupagem” ao passado, até mesmo destruindo-o sob nova aparência (máscara). A hybrida (híbrido), por sua vez, é a
harmonia, a conexão, o equilíbrio entre o apolíneo e o dionisíaco, entre o
passado e o futuro, instituindo o novo, sem qualquer adulteração de um ou de
outro. Na mistura, há uma dessubjetivação, uma negativização de subjetividade,
porque lá ela se perde: perde sua identidade, perde sua diferença, há uma
superposição de significantes deslocados, é o não-ser, é a ausência do sentido,
tradução rápida e descuidada para nonsense.
Deleuze descreveu o
nonsense a partir da noção de grau
zero: “Assim como Jackobson define um fonema zero [...] O não-senso é ao mesmo
tempo o que não tem sentido, mas que, como tal, opõe-se à ausência de sentido,
operando a doação de sentido. E é isto que é preciso entender por nonsense” (2011, p.74). Entendemos,
porém que o nonsense é o sentido em
estado bruto, como-que-não-lapidado, potencialidade máxima e plenitude de
sentido, e que o sem-sentido, enquanto ausência, é o propulsor da extinção da
arte, tal como enunciada por Baudrillard – “A arte desapareceu.
Desapareceu como pacto simbólico, pelo qual ela se distingue da pura e simples
produção de valores estéticos que conhecemos sob o nome de cultura” (1990,
p.21) – e por Adorno & Horkheimer – “A novidade do estágio de cultura de
massa em face do liberalismo tardio está na exclusão do novo. A máquina gira em
torno do seu próprio eixo” (1985, p.182).
A tradução, nesse caso, de nonsense
por sem-sentido, enquanto ausência, é gênese de uma errância e uma traição
típica da arte contemporânea. Ausência e negação diferem substancial e
formalmente. Da ausência nada advém; da negação, a potência constitui devir e
presença. O não-sentido como possibilidade é abertura e, assim, não conduz, não
é imperativo: é a eticidade em seu íntimo. Quando Roland Barthes trata do “grau
zero” também não se refere à ausência de sentido, mas alude a uma Presença de
sentido que vacila, escapa e não pode ser recuperado por nenhuma linguagem ou
para nenhuma linguagem.
§12
No híbrido,
diferentemente da mistura, o ser permanece com seu traço – unário ainda assim,
porque nem identidade, nem diferença se corrompem, há uma virada de
significação. O “traço unário” é diferença única do ser, unitária
em si, irreplicável. O que implica no traço unário “essa função de unidade é,
justamente, não ser mais que diferença” (LACAN, L’identification, inédito, 29/11/1961). E: “A essência do
significante, na sua função de conotar a diferença, é o traço unário. [...] O
um unário é o número: ele designa a multiplicidade”. (PORGE, 2006, p.199).
Juranville acrescenta que o traço unário, significante diferenciador do
Sujeito, significante “escrito”, só adquire valor a partir do lugar daquele que
o traça, o ins-creve, ou seja, do Outro simbólico: o nome próprio é a forma
essencial do traço unário: “O vestígio do traço unário segundo o qual se
constitui o desejo não é mais do que um fragmento
de escrita, que conclama o sujeito a escrever, a concluir a escrita
começada” (JURANVILLE, 1987, p.254).
Lacan afirmara que
“o coletivo não é nada, senão o tema do individual” (1992, p.86), e que a
“subjetividade na origem não tem nenhuma relação com o real, mas com uma
sintaxe que aí engendra a marca
significante” (1992, p.57). Para tanto, só há Social, se já Sujeito. E só há
Sujeito, se há simbolização, “marcação” do traço unário, identificador e
diferenciador, de cada único em sua multiplicidade. Como expusera Fink (1998,
p.79), “a ordem simbólica serve para neutralizar o real, para transformá-lo em
uma realidade social”. A ordem simbólica, que também leva o nome de função
paterna, Lei ou significante Nome-do-Pai, na teoria lacaniana, barra a unidade
mãe/criança indiferenciada[48].
Na pós-modernidade,
a dessimbolização é um imperativo constante, principalmente porque interessa ao
Mercado[49].
Com a autorreferencialidade pregada pela dessimbolização, ausência de
referência, se vê também uma profusão de enunciações que impõem a
multielementaridade no discurso contemporâneo, com fachada (máscara) de
enunciado “híbrido”. O híbrido, contudo, o sendo, não denega a diferença, a
aceita; o que não acontece com a mistura, que, fusionando, propõe a
indiferenciação e, portanto, o totalitarismo.
§13
Identiferença,
pois, Identificar e Diferenciar, Identificar diferenciando e Diferenciar o
identificado[50],
porque Identidade, tampouco Diferença, sozinhas[51],
não são suficientes para uma definição de arte. Identiferença:
reconhecer a unidade no múltiplo e a multiplicidade no uno; a diferença no
Mesmo e a identidade no Outro[52].
Desse modo, desejo
introduzir o conceito de Identiferença para fazer da arte uma verdade, uma
libertação, não um mero objeto, sem sentido, porque não concordo com a
afirmativa de Nietzsche: “Temos a arte para não morrer da verdade”. O pensador
equivoca-se, porque 1) a verdade é vida, a mentira mata; e 2) a arte é verdade
por excelência[53],
não há contrariedade aí: ambas estão imbricadas. Heidegger soube explicitar,
com clareza, o que entendo por arte: “Mais filosófica que a ciência e mais
rigorosa, ou seja, mais próxima da essência da coisa – é a arte”. E, segundo
Adorno, “a arte representa a verdade numa dupla acepção: conserva a imagem de
seu objetivo obstruída pela racionalidade e convence o estado de coisas
existentes da sua irracionalidade, da sua absurdidade” (1993, p.68).
§14
Penso a arte com
papel estruturador societário (do coletivo), porque além de uma função
antecipatória, possibilita (favorece, não institui obrigatoriamente) o laço
social, lança os alicerces para o que está por vir (e aí sua responsabilidade,
seu caráter ético – estaria Duchamp, em 1917, iniciando a “loucura”[54]
do hoje?), e dá espaço para a sublimação (segundo Freud, negação do princípio
da realidade, via transformação do instinto sexual em arte), em contraposição à
barbárie, conduz a uma catarse para instintos agressivos. Neste último sentido, em uma sociedade que
valoriza a “passagem ao ato” de fantasias perversas, não estaria a arte
perdendo sua real função, transformando-se em mais um veículo de apoio à
fetichização dos objetos[55]
(ou, melhor, de meras coisas), principalmente quando, por meio de performances,
convida o espectador, ou melhor, o obriga a participar de “jogos” dos quais não
sabe as regras?
A arte pode cumprir sua função revolucionária interna somente se ela
própria não se torna parte de qualquer establishment,
inclusive o establishment
revolucionário [...] A realização da arte como princípio de reconstrução social
pressupõe mudanças sociais fundamentais. O que está em jogo não é o
embelezamento do que existe, mas sim a reorientação total da vida em uma nova
sociedade. [...] Por que o artista hoje parece incapaz de encontrar a
transfiguração e a transubstancialização da forma que capte as coisas e as
liberte de sua sujeição a uma realidade bruta e destrutiva? [...] Não uma arte
política, não a política como arte, porém a arte como arquitetura de uma
sociedade livre. (MARCUSE, 2000, p.161-170)
O objeto só é
auratizado quando não tem função utilitária. A arte só acontece na
inefabilidade[56]
e no prazer desinteressado. Não há transvaloração do objeto em obra de arte se
este se configura como instrumento[57].
§15
A obra adquire o
verdadeiro estatuto de arte quando atinge o limiar do não-dito, na pura
expressividade[58]
do dizer não-dizendo: a própria linguagem (e não o objeto) é, pois,
transfigurada numa universalidade[59].
No cinema, dois exemplos são “Orgulho e Preconceito” (Pride and Prejudice, 2005), e “Amor além da vida“ (What dreams may came, 1998). No
primeiro, o sublime, ainda que complementado pelo figurino, pelo roteiro, pela
fotografia, está no indizível, nos olhares, nas frases inacabadas, nos
sentimentos, nos pensamentos dos personagens, “ditos” não pela palavra. No
segundo, é a qualidade plástica, do Paraíso criado como uma tela
impressionista, carregado de tinta, cuja cor é a própria expressividade de um
“além da vida”, a partir do sentimento familiar vivido “na Vida”. No cinema,
cabe lembrar ainda de “O sorriso de Mona Lisa” (Monalisa Smile, 2003),
mas aqui a arte não exatamente no conteúdo fílmico (claro que ali também há),
mas numa cena específica, quando Julia Roberts, a professora de História da Arte,
encomenda um painel-tela de Pollock e, diante da surpresa de suas alunas
(trata-se de um College conservador, nos anos 60) – “isso é arte?” interroga
uma delas – apenas diz: “parem de falar, aproximem-se, olhem-no de perto, e
apenas apreciem!”: a interpretação[60]
não é necessária, arte acontece, por si, identiferenciando-se na novidade (não
apenas material, mas espiritual[61]
– ou seja, na forma e no conteúdo, no exterior e no interior da obra).
§16
A arte não[62]
pode ser um mero objeto do cotidiano, e isso podemos constatar pós-Andy Wahrol
e Marcel Duchamp – assim, a obra reduz-se a fetiche e nada dela deriva. Paviani
(2003, p.54) destaca que “é preciso lutar contra o novo que nada inventa, mas
que satisfaz as exigências da cultura de massa”. Na Identiferença, não basta a obra diferenciar-se[63]
dos demais objetos, nem mesmo Identificar-se com eles. Então, como se “identiferenciar”[64]?
Danto não se questionou, e talvez esse seja o seu maior equívoco, embora seu
esforço em definir a arte seja considerável, se a caixa de Brillo Box, as sopas
Campbell ou a Fonte (o urinol de Duchamp) são efetivamente “obras” e se estas
podem ser caracterizadas como “de arte”. Ele procura, a todo instante, elaborar
um conceito (a partir de condições) para enquadrá-las como tais. Mas quando se
olha para uma lata de sopa, para uma caixa de sabão em pó, nada ali há de
estético. A arte contemporânea – e seus aditivos: o contestatório[65],
o horrendo, o absurdo – subtraíram da arte sua Identidade (seu estatuto
enquanto tal, seu caráter identificador) e sua Diferença (o sublime, o Belo)[66].
É próprio da arte ser polêmica, vanguarda de ideias, mas só quando acontece
como aletheia, revelação,
desvelamento – o choque, em si, não só é superficial, como evapora no mesmo
instante. Só há arte quando há espanto – a gênese do filosofar segundo Platão e
Aristóteles – sem susto, ou melhor, sem enjoo. A repulsa causa mal-estar, mas
não provoca uma descontinuidade, uma ruptura epistêmica, tal qual a arte plena
de sentido e presença. A arte acontece como experiência estética,
transformadora; a arte fake, como
adicção instantânea e efêmera. Não afirmo que a arte deve voltar a ser mímesis (imitação) do real[67]
– muito pelo contrário. Isso (mimetizar) não é só insuficiente, como a obra de
arte, para assim ser caracterizada, deve matizar[68]
a vida cotidiana, ser um alento ao caos de tantos outros elementos: ao real do econômico,
o político, o racional[69].
§17
Poderia então dizer
que Danto não faz uma Filosofia da Arte, mas, especificamente, uma Filosofia da
“Arte” Contemporânea. A obra de arte contemporânea é essencialmente efêmera,
porque dela, em si, nada permanece, apenas sua atitude transgressora. Ela é
momentânea, é presenteísta (fragmentos de presentes perpétuos, cuja “história”
é esquecida – mas sem História, sem passado, não há constituição de Identidade,
não há Diferença, há apenas simulacros, fakes
e posers – semelhante ao momentum que vivemos, de uma sociedade toxicômana[70]),
e tão só. Uma vez exposta (às vezes antes, ainda em seu processo de produção[71]),
perde sua força, deixa de sê-lo: é o oposto da obra de arte por excelência
(permanência). Por isso, a obra de arte contemporânea parece[72],
mas não é a verdadeira obra de arte,
atemporal.
§18
Segundo Danto,
“como obra de arte, a caixa de Brillo Box faz mais do que afirmar que é uma
caixa de sabão dotada de surpreendentes atributos metafóricos. Ela faz o que
toda obra de arte sempre fez: exteriorizar uma maneira de ver o mundo,
expressar o interior de um período cultural, oferecendo-se como espelho para
flagrar a consciência dos nossos reis” (2010, p.297). Se assim o fosse, quem
são nossos “reis”, contemporaneamente? Qual o interior do atual período cultural? Sendo o apropriacionismo um dos
elementos característicos da arte contemporânea, de que maneira estamos vendo o mundo?
Para Danto, “em
períodos de estabilidade artística, somos capazes de identificar obras de arte
por indução”. Penso que aí há outro equívoco. Não identificamos obras de arte
por indução, mas por dedução ou por dialética, porque a verdadeira obra de arte, justamente, tem
Identidade e tem Diferença. A Fonte de Duchamp é apenas a duplicação de um
urinol, ainda que, posteriormente, tenha sido inundado por uma enxurrada de
interpretações turvas, propositais para enquadrá-lo como obra, que, como tal,
só pode parecer sê-la se exposto em
uma galeria de arte, como diria Dickie (a partir de sua Teoria Institucional da
Arte). Induzir um objeto a ser obra de arte é provocar um travestimento. Com
isso, não há parâmetro estético, há o que Baudrillard chama de transestético, o
desaparecimento da arte. A obra de arte é identificada por dedução ou
dialética, no sentido de formação do sujeito e produção do gosto estético[73].
§19
Marcel Duchamp
cindiu, via justaposição, o real e o ficcional do estético, fazendo dessa
mistura, a hybris no mundo da arte.
Quebrando a fronteira da Identidade e da Diferença entre a obra (a
representação) e o objeto (o representado), transfigurou a arte em meras
técnicas desconexas, de performances,
artifícios audiovisuais e apropriações: a arte deixou de ser (Original) para
não-ser (a cópia).(E será que somente
na Arte há isso? - aí está a questão!). Entendo que tais técnicas visam ao
choque, à crítica social. Mas aí a arte passa à categoria de instrumento.
Talvez possamos chamá-la de estética
instrumental. E uma diferenciação entre “obra de arte” e “instrumento
artístico” se torna necessária. A arte deve fugir à cotidianização, à
brutalidade da rotina.
Na mistura entre representação e representado,
o simulacro e o fetiche pelo objeto (suposta obra de arte) são imperiais. O que
deveria apenas parecer (a verdadeira obra de arte, ficcional por excelência) é, e o que deveria ser (a realidade) se
reduz ao parecer: está feita a
confusão!
Nos híbridos, por
sua vez – e aqui Bajofondo é o
exemplo típico, senão um dos únicos com essa proposta, ao menos na música, ao
lado do regional Rock de Galpão – não
há justaposição ou sobreposição de fronteiras, porque não há corrupção dos
elementos constituintes, mas harmonia entre eles – o ficcional artístico não
extrapola o real, porque, na hibridação, há conjugação para criação, jamais
expropriação estética, como ocorre nas mixagens “selvagens” e na mistura de
músicas justapostas. No Brasil, exemplo mais concreto de hibridação, é,
justamente, a Tropicália, que buscou uma atualização do modernismo de 1922,
especialmente do discurso de Oswald de Andrade, e esteve fortemente ligada à
busca da identidade nacional, como procurei demonstrar (REOLON DE OLIVEIRA,
2014). A Tropicália foi um movimento para acabar com todos os movimentos e
afirmar o Brasil como unidade, sem antagonismos. Assim como o modernismo, que
almejara integrar o primitivo ao civilizado), o tropicalismo buscou a síntese
entre o arcaico e o moderno, de forma totalmente inovadora e, portanto,
revolucionária: hybrida.
§20
A Fonte, as ready mades, a pop art,
as performances, o apropriacionismo[74],
não são transfigurações do lugar-comum, mas o próprio lugar-comum, inscrito num
“mundo da arte”. A transfiguração em si morreu com a arte moderna. Coloquemos,
em uma sala, um urinol, alguns entulhos, algumas telas, algumas esculturas e
peçamos a um leigo retirar dali as obras de arte – o que restará? O urinol,
fora do museu, é só um uninol, não uma obra de arte, porque desprovido da
identidade de uma. A pop art nada
mais é que a incorporação da publicidade no “mundo da arte” – não há qualquer
espiritualização aí. O Mercado, posteriormente, utilizou-se desse mesmo
princípio e fez do design sua
“galinha dos ovos de ouro”, ao lado da marca, já produzida pelo marketing – o “preço agregado” ao
produto agrega mais um pouco.
Cabe a uma nova
arte, a que se poderia chamar de pós-nonsense,
reintroduzir a transfiguração. A tarefa não é fácil. Na ausência de
simbolização[75],
a abstração some e o que resta são meros objetos. Meros objetos jamais serão
arte, uma vez que são desprovidos de sentido, sem-sentido, simulações. O signo mutilado nada é, nem mesmo
significantes abertos para a constituição do novo, por isso o absurdo da
proliferação do sempre-igual[76],
rememorado e desubstancializado. Para Wassily Kandinsky, o mestre do
abstracionismo, a arte deve servir à evolução e ao aperfeiçoamento da alma
humana, e a verdadeira obra de arte é aquela que expressa a alma do artista[77],
o momento, o instante. Para ele, “essa arte que não encerra em si nenhum
potencial de futuro, que é tão-só o produto do tempo presente e jamais
engendrará o ‘amanhã’, é uma arte
castrada. Vive pouco tempo e, privada de sua razão de ser, morre assim que
muda a atmosfera que a criou” (KANDINSKY, 1996, p.31).
O ápice da arte, no
que tange à pintura, foi a abstração e o surrealismo – ali a própria linguagem,
estruturada como ficção, se transfigurou: o artista, sua essência, sua alma,
são visíveis no indizível. Sem dúvida, Kandinsky e Dali foram seus maiores
expoentes. Kandinsky, dando expressividade ao espiritual na arte, enlaçando o
sublime ao místico – arte concreta, nesse sentido – e Dali, materializando o
onírico e o obscuro do humano, potencializaram o sentido e a presença na arte.
Essa
potencialização foi muito bem explorada por Paolo Sorrentino no filme “A grande
beleza”. A busca pelo Belo parece
enebriar o protagonista Jep Gambardello, e mesmo o espectador, em uma Roma
repleta do clássico e do contemporâneo. Da performance de não-sentido aos
retratos renascentistas, passando pela composição de pintura abstrata em
painel; do canto lírico à música techno vibrada nas festas diante do Coliseu;
do gozo sexual (e mecânico) ao gozo místico da religiosa que não fala da
pobreza (“a pobreza se vive”); a conversa despreocupada: o excesso cega e a
própria “beleza” deixa de ser fonte de dúvida.
§21
Uma obra auto-referencial[78]
é uma obra fechada em si mesma, morta, foracluída do estatuto do Ser e,
portanto, do estatuto da Arte. O objeto, para ser transfigurado em obra de
arte, só pode fazê-lo pela simbolização, inscrita como Sentido de Presença e
Presença de Sentido, que implica necessariamente uma falta, uma ausência, um
vazio, um significante-mestre, zero, aberto a inúmeras significações.
§22
O que é o Belo
contemporâneo, onde está? Nos corpos malhados, produzidos à base de ferros,
suplementos alimentares e anabolizantes; nos rostos maquiados e
“plastificados”; no brilho das telas dos computadores, televisões e celulares;
nas embalagens e nas formas dos produtos cada vez mais descartáveis? Procuro,
tal como Diógenes Laércio, com uma lanterna, em plena luz do dia.
§23
Kant, em sua Crítica da faculdade do juízo, afirmara
que “o Belo é o símbolo da moralidade”. Se a (dês)lógica contemporânea é a da
dessimbolização, com o Imagético (“fingindo-se” de Imaginário) a imperar e a se
sobrepor ao Simbólico (à linguagem), como pensar em “símbolo”?. Se o símbolo se
desintegra – e a arte do sem-sentido nos mostra isso, trancafiando o Belo nas caves e nas instalações –, a moralidade
e o enlace fundamental, fundacional, são denegados por conseguinte: a hybris toma conta!
§24
Talvez nem grau
zero (plenitude de sentido), nem sem-sentido (anti-sentido), mas Presença e
Sentido dialetizados, porque na Arte sempre há sujeito (feitor) e sujeito
(olhador), em relação – obra e experiência estética. Um novo paradigma, que
vise uma arte efetiva, verdadeira, pós-nonsense
(pós-grau zero[79]),
pós-mídia (cultura-de-Sentido e não
cultura-de-imagem), ainda mais torna-se necessário,
senão obrigatório, propiciando,
então, que a hybrida crie um novo
estatuto existencial, pleno de sentido, ou seja, ético e estético por
excelência. Só assim – se a arte se restabelecer como tal – é que ela será,
também como Kant afirmara, liberdade[80].
Só assim, enterraremos essa “existência inautêntica” (segundo Heidegger),
calcada numa cultura da máquina e da técnica (que deveria ser ferramenta e não
fim em si mesma). Só assim escaparemos às armadilhas do esfacelamento do Ser[81].
§25
Uma ontologia da arte, que abarque a arte contemporânea,
e que possibilite uma arte pós-nonsense,
ou melhor, que retome o grau zero de arte para não fazê-la morrer, só se mostra
possível a partir de uma indissociabilidade de Identidade e Diferença, abrindo
caminho para uma arte do Híbrido, sincronia dos diacrônicos, sem a homogeneização
da mistura. Talvez a dança nos apresente esse caminho, em sua dimensão
estética, como abertura para a diferença, como escritura de um sinthoma.
[intermezzo]
A
efervescência dionisíaca está aí, mas toda essa heterogeneidade heróica nada
valerá esteticamente enquanto não tiver sido encontrada a forma artística e
clássica de uma cosmogonia apolínea.
Salvador
Dali, Libelo contra a arte moderna
INTERMEZZO: ANOTAÇÕES GENERALISTAS
§26
Demarco mais algumas posições
importantes, antes de seguir com o movimento proposto. A arte só é Arte se
comporta a noção de construção humana, ou seja, não maquínica e, portanto, traz
em seu bojo o quesito de artesanal (produzido com a mão, com o corpo, mesmo com
o pensamento, mas desprovida de auxílios apriorísticos
– por exemplo, de programação informática). Ela se diferencia, basicamente, da
filosofia, da religião e da ciência, embora esteja próxima às duas primeiras:
não visa ao útil, mas ao Belo.
É universal, é linguagem do não-dito, e, portanto, intraduzível e, ao
mesmo tempo, dado o seu caráter de inefabilidade, acessível a todos. É da ordem
de uma aculturação, talvez caracterize, justamente, a passagem do
estado-de-natureza e instaure o contrato social. Está intimamente ligada ao
sublime – neste caso, como pensar a matemática, a alquimia, a psicanálise e
mesmo o esporte, que o alcançam, por vezes? Todavia, é ficção, sentido bruto de
um além-da-realidade, porque enleva, traz consigo o prazer desinteressado, o
“entretenimento”. Não visa ao mercantil, logo se a venda acontece, esta não é o
fim último.
§27
O Mercado se apropria da imagem-Arte
para dar mais valor ao utensílio – isso é evidente no design gráfico, no design
de produto e, mais recentemente, na gastronomia: o status-etiqueta-marca
“gourmet”. Esta etiquetagem teve como consequências, também, levar a
nomenclatura de uma disciplina filosófica – a Estética – para serviços
vendáveis, “de beleza”, tais como corte de cabelo, manicure, pedicure e
massagem.
§28
Então, nesse sentido, quais seriam
as artes? Na classificação tradicional, clássica, figuram seis artes.
Posteriormente, o cinema foi dito 7ª arte. São elas, as nomeadas por tantos,
dentre eles Hegel: arquitetura, pintura, escultura, poesia (literatura), música
e teatro. Da dança, explanarei no Capítulo 3. Schopenhauer acrescentou, ao rol
das artes, a jardinagem, mas ela, propriamente, não é um artefato. E a
gastronomia? Lembremos que ela carrega uma carga de utilidade (a comida é nossa
fonte energética, de sobrevivência mesmo), mas, ao mesmo tempo, lembremos
também que é justamente a transposição “cru-cozido” que Lévi-Strauss usou como
metáfora, para tratar da aculturação humana. E a perfumaria, a tapeçaria, a
moda e a fotografia, que de utilitários, utensílios, passam, por vezes, à outra
condição, auratizada, sublime e inefável?
§29
A perfumaria, talvez, é a única arte
que é auratizada, justamente, por não ser visual (música e literatura levam à
imagetização): a única arte que se esvai no ar em instantes – portanto é
efêmera –, mas que é sublime por seu caráter de não pertencer à
visualidade, tal qual às demais artes e,
ainda assim, e mais ainda por isso, ser fonte de deleite. Uma boa fragrância,
composta “humanamente”, é aquela que, borrifada em uma materialidade, se cheira
e não se consegue parar de fazê-lo.
§30
A tapeçaria não-industrial – refiro-me
especificamente à oriental – é arte porque traz a transcendência pretérita,
presentifica a história familiar em um enlaçar único. Cada tapete, cada nó de
linha, perpassado por mãos-em-relação, singularizados, auratizam o objeto que,
agora, só em último plano, serve a alguma utilidade. O tapete oriental é, em um
só, pintura e escultura, história particular, universalizada e eternizada.
§31
Vanguarda a cada seis meses: eis o
desafio da moda. Por seu caráter efêmero, e muito ligado à indústria (logo ao
Mercado), talvez a moda possa não ser considerada arte. Mas, e se pensarmos em
termos de criação, poética embutida em cada peça de roupa, em cada coleção, não
seria tecido transfigurado em arte? Expressão do eu, expressão de grupo: a moda
é isso, ou apenas a expressão da mente criativa de um estilista? Afinal, não é
estilo[82]
o que enlaça e auratiza o objeto?
§32
A fotografia, por sua vez, só se
auratiza porque advém de uma dupla composição: documentar e presentificar. Sua
transfiguração em objeto de deleite surge exatamente da falência de uma aura
que antes pertencia à pintura: a fotografia é o retrato renascentista e, em
menor grau, a paisagem impressionista. Onde a arte se perdeu, onde até mesmo
deixou de ser arte, ou morreu enquanto tal, a fotografia se estigmatizou. A
fotografia só é arte quando historiciza um fato, ou seja, quando não o
mortifica. O não esquecimento é a gênese da vida.
Uma pena que hoje, uma época não de
fotografias, mas de selfies, se
fotografa para mostrar aos outros, para publicar em redes “sociais” e para “ser
curtido”. Com a digitalização, fotografa-se qualquer coisa, há um descuido,
perde-se a aura da lembrança: viver o momento e depois recordá-lo – vive-se
apenas o próprio fotografar. Fotografa-se, filma-se o momento, para depois
“revê-lo” em casa, no computador, mas esquece-se de vivê-lo no instante de seu
acontecimento.
[da dimensão estética da dança: escritura de um sinthoma]
As imagens descem como folhas / No chão da sala / Folhas que o
luar / acende / Folhas que o vento espalha
Eu plantado no alto em mim / Contemplo a ilusão da casa / As
imagens descem como folhas / Enquanto falo
Eu sei / O tempo é o meu lugar / O tempo é minha casa / A casa é
onde quero estar / Eu sei
As imagens se acumulam / Rolam no pó da sala / São pequenas
folhas secas
Folhas de pura prata
Eu plantado no alto em mim / Contemplo a ilusão da casa / As
imagens se acumulam / Rolam enquanto falo
Eu sei / O tempo é o meu lugar / O tempo é minha casa / A casa é
onde quero estar / Eu sei
As imagens enchem tudo / Vivem do ar da sala / São montanhas
secas
São montanhas enluaradas
Eu plantado no alto em mim / Contemplo a ilusão da casa / As
imagens enchem tudo / Vivem enquanto falo
Eu sei / O tempo é o meu lugar / O tempo é
minha casa / A casa é onde quero estar / Eu sei
Vitor
Ramil, Ilusão da casa
3
DA DIMENSÃO ESTÉTICA DA DANÇA: ESCRITURA DE UM SINTHOMA
§33
Apenas uma única
crítica de dança foi publicada pelo jornal de maior circulação no Brasil em
2015, contrastando com uma infinidade de críticas de cinema, teatro, música e
literatura. Falta de espetáculos não há. As opções em São Paulo são múltiplas;
Porto Alegre, com número bem menor, por exemplo, possibilita ao espectador no
mínimo uma opção por semana. O destaque do veículo foi para o grupo Corpo, de
Minas Gerais, muito merecido, referência técnica e conceitual para a crítica de
dança. Mas por que só ele?
§34
Arte do corpo, arte no corpo, arte do movimento, arte da
linguagem e da presença, produtora de sentido. Do culto aos deuses pagãos aos
palcos italianos, da ópera aos guetos norte-americanos, das pistas ao show business. Do ponto de vista do
bailarino, a dança é expressão, pulsação, vida traduzida em grafia do
movimento. Do ponto de vista do espectador, é matriz de todas as artes:
pictural, cênica, musical, poética, trágica e mesmo escultural.
“Dance bem, dance
mal, dance sem parar; dance bem, dance até sem saber dançar” ecoavam as
Frenéticas nas danceterias dos anos 70. Dança: talvez a arte mais executada e,
por isso, a menos apreciada como tal. Afinal, quantos de nós não fervemos nas
pistas, mas nunca sequer ousamos tocar um instrumento, esculpir um mármore ou
colorir uma tela em branco? O que é a dança senão a matiz do movimento, cujo
instrumental é o corpo e cujo estilo é alma, o ritmo, que, segundo Elvis
Presley, ou se tem ou não se tem, e aqueles que têm tem muito?
§35
Da Paidéia grega a Bildung alemã, reatualizadas e
rememoradas, a dança esteve sempre presente como constituinte da Mousike, o conjunto de atividades que
abrangia, para os gregos, desde a ginástica e a dança, até a poesia e o teatro,
compreendendo a música e o canto; ou parte essencial da “arte total” de Wagner.
O impressionista Degas e o modernista Matisse deram vida
à dança na pintura; filmes memoráveis lhe deram visibilidade, ora como arte (Dirty Dancing, Flashdance), ora como catarse (Footloose),
transgressão (Hair), diversão (Os embalos de sábado à noite) e
profissionalismo (Os embalos continuam).
Mais recentemente, Natalie Portman ganhou o Oscar de melhor atriz por Cisne Negro, interpretando uma bailarina
e seus conflitos na montagem do clássico O
Lago dos Cisnes, de Tchaikovsky.
§36
Estilo é
individual, disso não há dúvida. E o que faz da dança uma arte, uma arte
portanto universalizável? Será que a técnica, essa coisa que os gregos nos
legaram: o “saber fazer”, o “como fazer”? Nesse ponto, o cinema, o vídeo, nos
permite parar e refletir, já que eterniza uma coreografia, uma escrita da
afecção que se manifesta nos movimentos. Nos filmes, a dança, por vezes, é só
um ponto de nexo. Quem não se recorda do tango executado por Al Pacino, cego,
em Perfume de Mulher? Em outras obras
da 7ª arte, a dança é o próprio mote, senão o clímax da narrativa. Esses são os
casos, na minha opinião, respectivamente, de Be cool – O outro nome do jogo e Nine.
No primeiro, Jonh
Travolta (interpretando Chili Palmer) e Uma Thurman (no papel de herdeira de
uma gravadora musical), dirigidos por Gary Gray, executam um pás de deux, embalados por Sexy, música de Tom Jobim e Vinícius de
Moraes, interpretada pelo grupo de hip
hop Black Eyed Peas, que também está em cena, juntamente com o pianista
brasileiro Sérgio Mendes. A música remete à sexualidade, é uma declaração de
fanatismo e excitação, e a dança, embora pareça não coreografada, feita de
improviso, é executada com extremo cuidado e rigor. O figurino, a iluminação e
o cenário remetem a uma boate ou bar intimista. A música, sendo ao vivo, requer
uma dança também única; e Travolta e Uma o fazem com precisão, materializando o
ritmo e o conteúdo da canção em seus corpos. O sentido é produzido pela própria
tradução “música-dança”. Há presença: os atores-bailarinos parecem enamorados,
em um momento de conquista, mostrando seus “dotes”. Travolta e Uma trabalharam
juntos, também em um duo, no já clássico Pulp
Fiction, de Quentim Tarantino, mas em Be
Cool, o que antes era fruto de entorpecentes, é êxtase quase místico.
Kate Hudson, por
sua vez, em seu número intitulado “Cinema italiano”, de Nine, é uma editora de Vogue, buscando uma entrevista exclusiva com
o cineasta Guido Contini. Vogue: Madonna já cantou o universo da moda em música
homônima à revista-ícone, mas Kate o faz com mestria, unindo moda e cinema. O
cenário é uma passarela, em diversos níveis. O figurino, da protagonista e de
seus bailarinos remete aos anos 50 – algumas franjas e botas, e ternos justos e
gravatas fininhas, além de óculos escuros. A iluminação é de show business. A música tem muito swing,
um pop rock ritmado, com toques de jazz – e a coreografia é em stileto, tal como desejada pelo diretor
do filme, Rob Marshall, um “solto controlado”. Os bailarinos estão em
despojamento corporal que anima muito quem vê; a sincronia entre eles é
radical: parecem estar em uma sala de espelhos. Tudo contribui para um clima de
glamour cinematográfico (cabe
destacar que Kate é jornalista e deseja conquistar a atenção do diretor de
filmes, que está em crise criativa). Os holofotes, a música, o troca-troca
entre as lentes “preto-e-branco” e “colorido” remetem à temática e agregam
valor à coreografia de intensos movimentos marcados. Excelente dança que
contribui para um enriquecimento da narrativa: “Cinema Italiano” é mais que um
número musical: destaca e dá brilho a toda obra fílmica.
Be
Cool – O outro nome do jogo
e Nine, explorando a dança de
maneiras tão díspares e tão singulares, sem dúvida, conduzem para uma resposta
aberta à questão colocada no início: a técnica é um passo, mas o estilo é um
espetáculo. Um passo, sozinho, nada é. Mas um espetáculo só acontece com
passos; estes muito bem fusionados e matizados.
§37
A dança, além de
arte, é gênese do Ser artístico, porque dela depreende-se o particular
universalizável e o universal no individual: arte além e aquém de qualquer
ideologia, mesmo a que se pensa anti-ideológica. Nesse sentido, a dança aparece
como Evento (Ereignis), uma simbólica
exatamente do originário-da-arte, tal como enunciado por Heidegger:
§204 – A arte
não é tomada nem como um campo de realização cultural nem como uma manifestação
do Espírito. Ela pertence ao acontecer-poético-apropriante (Ereignis), a partir
do qual se determina o “sentido do Ser”. (HEIDEGGER, 2010).
A obra de arte dá a conhecer o que o
utensílio é em verdade: a exposição sobre os sapatos pintados por Van Gogh leva
Heidegger a definir a essência da arte como o pôr-se em obra da verdade do
sendo (§55 e §65, 2010). Pode-se, inclusive fazer uma identificação do conceito
de Grau Zero do Ser (conceituado em nosso §11) ao de Verdade do hermeneuta
alemão. Para ele (§130), a verdade é não-verdade na medida em que lhe pertence
o âmbito da proveniência do ainda-não revelado, no sentido de velamento
(cuidado, guarda, conservação, proteção: resguardar o deixar acontecer).
§38
Próprio da dança é o sentido produzido pela Presença[83]
do movimento, ou o movimento, Presente, dando sentido: por isso, dança é poiesis (em grego, ação que dá.sentido).
Nesse sentido, dança é também ética, porque ethos,
morada que dá sentido à existência. E isso é irrepresentável. Márcia Tiburi e
Thereza Rocha, em um Diálogo sobre dança, colocam que “A dança é. Um pensamento
sem predicação” (2012, p.11). Se ela é sem complementação, dela depreende-se o
Ser da Arte, dança é grau zero do artístico, gênese das artes da representação[84],
porque Acontece sendo, Presença, e presentifica-se acontecendo na plenitude do
sentido, na potencialidade máxima de significação.
Mas a dança é sentido-bruto, como se o Sentido estivesse, tal qual o
diamante, ainda na mina[85].
É força de uma brutalidade ainda não retirada de seu originário, de sua
nascente e, portanto, de uma impossibilidade, a impossibilidade de uma
discursividade, mas não a discursividade do diálogo, da relação: um pensar e um
falar infantil, fora da gramática. Só Acontece se se dá numa contemporaneidade[86],
numa atualidade inatual, se dá voz a uma potência corporal, sendo universal,
apresentando-se uma alíngua, sem
língua, mas numa linguagem primordial, Real[87].
§39
Poder-se-ia pensar a dança, epistemologicamente, como o corpo
metaforizado, ou o corpo transfigurado. Mas o corpo é muito e, ao mesmo tempo,
muito pouco, para caracterizar a dança como Arte. Talvez não corpo, mas
“metáfora do movimento”, dada a emoção e a expressividade, a manifestação de
impulsos inconscientes, a produção de um raciocínio, ou mesmo a função da
racionalidade estética presentes na elaboração de uma coreografia – coreografia
“apriorística”, ou seja, fruto de um
planejamento gráfico de movimentos, ou mesmo uma coreografia, uma escritura que
se dá no acontecimento, numa espontaneidade não reproduzível. Talvez nem metaforização, nem transfiguração
do movimento (poética do andar, oposta ao andar-útil), mas matização do
movimento. Dança, matiz do movimento, movimento sublimado, auratizado.
§40
Dança é pulsação, pulsão de movimento, ritmo. “Rythm is something you either have or don’t have, but
when you have it, you have it all over”, disse Elvis Presley. Ritmo,
portanto, é estilo, conjunção de identidade e diferença, que é substância e
gênese do Ser. Ritmo é constituir-se Sujeito: ter ou não ritmo, ser ou não ser
sujeito. Portanto, o estilo não é uma caracterização, uma predicação, uma
adjetivação, mas a própria nomeação (Desejo) que dá corpo, corporifica,
materializa, é corpo e alma do Sujeito, é substantivo próprio. A dança é
enigma: enunciação cujo enunciado não se sabe, porque advém de uma marca, de um
lugar, o lugar daquele que desejou o Sujeito. Dança é ontogênese do Ser-Arte e também
experiência estética, porque abertura para a diferença: diferença é a arte do falasser, do Sujeito, daquele que fala,
aquele do falo: falado, falante, fálico[88].
Nesse sentido, singular – sinfonia – sinthoma
são um tríptico da univocidade do Ser, de uma simbólica da unidade, da
diferença em estado puro, que identifica o sujeito, e não permite mimetização,
nem representação. No início é a visàge,
é o Olhar do Outro: é a alteridade que constitui o Sujeito. É por meio desta
primeira imagem especular que o Sujeito acontece. Sem ela, ele permanece o
amorfo, o nada, um como-todos, sem diferença, sem identidade. Sem ritmicidade,
sem estilo. Por isso, o sujeito, segundo Lacan (2007), é de uma suposição, e
está sempre entregue a uma ambigüidade: “O sujeito sempre é não somente duplo,
mas dividido” (p.30), porque inscrito numa idealização do Outro e numa
idealização própria, constituintes e estruturadoras. O sujeito é de uma
conjugação fundamental de três registros – Real, Simbólico e Imaginário –
fundados por um estrutural sinthoma,
que é de uma expressividade dessa subjetivação, diferente de sintoma, como
manifestação comportamental, mas diferença do sujeito, Arte deste.
§41
Em que o artifício pode visar expressamente o que se apresenta de início
como sinthoma? Em que a arte, o artesanato, pode desfazer, se assim posso
dizer, o que se impõe do sinthoma? A saber, a verdade. (LACAN, 2007,
p.23).
É a
partir desses questionamentos que Lacan deduzirá que a arte pretende (p.38), de
maneira divinatória, substancializar o sinthoma
em sua consistência, em sua ex-sistência (simbolização) e em sua furo (falta).
Encontrar um sentido é precisamente a função do sinthoma: implica saber qual é o nó (como se configura a
enodulação, no Sujeito, entre seus registros), emendando este último graças a
um artifício. Não se trata propriamente de uma artificialidade, de uma
simulação, mas da simbolização, ação fundamental para a entrada no Simbólico,
na linguagem, na condição Humana. Sem este “artifício”, há uma concreticidade
que não permite relação e, portanto, uma a-sociedade.
O sinthoma é o que possibilita uma escritura, uma Verdade. É
diferença: “o sinthoma é, muito
precisamente, o sexo ao qual não pertenço” (LACAN, 2007, p.98). Não se trata,
pois, de uma escrita, mas de um Escritura. A escrita[89],
“o que ele escreve é a conseqüência do que ele é” (p.77). Mas a escritura é a
ex-sistência presente e com sentido.
Quando se escreve, pode-se muito bem
tocar o real, mas não o verdadeiro. [...] O real encontra-se nos
emaranhados do verdadeiro. [...] Só é verdadeiro o que tem um sentido, o real
não tem sentido algum. (LACAN, 2007, p.78-112).
É,
nesses termos, que a dança é uma escritura[90],
um desvelamento de Verdade, porque inauguração do sentido, e, mais
especificamente, escritura de um sinthoma,
de uma singularidade, de uma subjetividade unívoca, diferença em estado puro, instância da arte no e do Sujeito.
§42
Da não-predicabilidade da dança, inscreve-se a sua excepcionalidade.
Produtora de sentido e produtora de Presença, a dança é temporalização e
espacialização, pensamento e corpo, materialidade e espiritualidade, semântica
e impossível-de-significação.
Dança é gênese do Ser-Arte, porque dela depreende-se, desvelam-se (aletheia) as artes da representação, as
artes da simbolização e mesmo as artes da abstração: a dança é Idéia, e
estabelece para o desvelamento, para a Verdade, para o acontecer-poético das
artes em geral, uma conjugação entre música-Idéia (idéia-Tempo) e
abstracionismo(na-pintura)-Idéia (idéia-Espaço). É neste Encontro que a Dança
emerge como Arte-unária, Um que
engendra e dá materialidade às artes.
[considerações
finais]
Cada
resposta somente conserva sua força como resposta, enquanto ela permanecer
enraizada no questionar.
Martin
Heidegger, A origem da obra de arte,
§159
CONSIDERAÇÕES
FINAIS: Est(Ética) do Encontro
Se identiferença é critério para definição da obra de arte, então identiferenciar (identificar
diferenciando, diferenciar identificando) é Encontro entre artista, obra e
espectador.
Talvez a dança não seja a arte do movimento, mas a arte da Palavra em
movimento, do discurso em ação, discursação, dansação; um texto composto por
vocábulos (signos, gestos), espaços e pontuações (pausas, paradas). Significantes
em movimento, abertos a significações (interpretações, sentidos) inscritos pelo
espectador: dança como arte de um espaço, um Lugar entre bailarino e platéia,
dançante e dançado, dançandante e dançamparado.
Arte do encontro: encontro com o Eu,
com o Outro, abertura para a alteridade-Outra e para a alteridade-mesma (aquela
perdida ou presa no pensamento ou no andar-útil, o movimento cotidiano);
encontro com o corpo – meu e do outro –; retorno à Palavra primeira. Porque a
dança só É, ex-siste, em ação: dançar: uma ação, um ato, logo Ética – próprio
do ethos, da morada interior, lugar
do Desejo.
A dança é o oposto da imagem, ou
melhor, da cultura-da-imagem, porque É, não representa, não ilusiona, mas
presentifica. Só na Presença, Acontece[91].
Porque só a danseidade[92]
é acontecimento-dança. Presentando, presentificando, apresentando, mostrando,
desvelando: dançar é grau zero da subjetivação, plenitude de significação[93].
Dançar é Palavra em estado bruto, ainda não lapidada.
Dançar é encontrar, é desvelamento
de uma Relação, aletheia contra a
fuga (ilusão/mentira) do movimento cotidiano; e só por isso, é originária,
Verdade. A dança é além-arte, aquém-arte, matriz do Ser artístico: encontro
entre o Olhar do Mesmo e o Rosto do Outro, gênese do falasser, criação do laço fundamental entre o sujeito falante e a
diferença, entre fala (sinthoma) e
ação (não-todo). Ser da Arte, uma vez união de pensamento e movimento, ação e
aparição, ética e estética.
Como busquei demonstrar ao longo
deste trabalho, respondendo à questão-problema formulada, a dança é matriz do
Ser da Arte, então gênese do Belo e, se o Belo é claritas, esplendor do Ser (Tomás de Aquino), dançando há um
encontro também com o divino, e a dança nunca se afastou desse festejo às
divindades, que a caracterizou na Antiguidade.
Dançar, talvez, seja apenas “djavanear”, “caetanear” e “ramilongar”,
poesia-Palavra e poesia-movimento, Híbrido original. Ou, ainda, talvez seja
cedo e não tenhamos compreendido nada.
“Não compreendo como isso ocorre, mas sinto grande
prazer por não compreender”
Teresa
D’Ávila, Meditação sobre os cantares
, I, 1
“Eu só acreditaria em um deus se esse deus fosse
bailarino”
F.
Nietzsche
REFERÊNCIAS
ADORNO, Theodor Introdução à controvérsia sobre o positivismo na sociologia alemã.
São Paulo: Abril Cultural, 2000a (Coleção Os pensadores).
_______. Teoria
estética. Lisboa: Edições 70, 1993.
_______; HORKHEIMER, Max. Conceito de iluminismo. São Paulo:
Abril Cultural, 2000a. (Coleção Os Pensadores).
_______. _______. Dialética do esclarecimento. Rio de
Janeiro: Zahar, 1985.
_______; _______. A indústria
cultural: o iluminismo como mistificação de massas. In: LIMA, Luiz Costa. Teoria da cultura de massa. 5 ed. São
Paulo: Paz e Terra, 2000b.
AGAMBEN, Giorgio. Estado
de exceção. São Paulo: Boitempo, 2004.
______. O que é o
contemporâneo? e outros ensaios. Chapecó: Argos, 2009.
ALBUQUERQUE FILHO, Dinarte.
Leminski: o samurai-malandro. Caxias
do Sul: Educs, 2009.
BAUDRILLARD,
Jean. A
sociedade de consumo. Lisboa: Edições 70, 1995.
_______.
A transparência do mal: ensaio sobre os fenômenos extremos. 8 ed.
Campinas: Papirus, 1990.
_______.
Carnaval/Canibal. In: SILVA,
Juremir Machado da; SCHULER, Fernando. Metamorfoses
da cultura contemporânea. Porto Alegre: Sulina, 2006.
_______. Para uma crítica da economia política do signo. São Paulo: Martins
Fontes, s/d.
BAUMAN, Zygmunt. Confiança e medo na cidade. Rio de
Janeiro: Zahar, 2009.
_______. Globalização: as
conseqüências humanas. Rio de Janeiro: Zahar, 1999.
_______. Vida para consumo. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.
BENJAMIN, Walter. A obra de arte na época de sua
reprodutibilidade técnica. In: LIMA,
Luiz Costa. Teoria da cultura de massa.
5 ed. São Paulo: Paz e Terra, 2000.
_______. A ética – Fragmentos
(filosofia da história e política). In: O
anjo da história. 2 ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2013a.
_______. Eduard Fuchs,
colecionador e historiador. In: O anjo da história. 2 ed. Belo
Horizonte: Autêntica, 2013a.
_______. Origem do drama trágico alemão. 2 ed. Belo Horizonte: Autêntica,
2013b.
_______. Sobre o conceito de história. In: O
anjo da história. 2 ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2013a.
BOUCIER,
Paul. História da dança no Ocidente.
2 ed. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
DALÍ,
Salvador. Libelo contra a arte moderna.
Porto Alegre: L&PM, 2008.
DANTAS,
Mônica. Dança: o enigma do
movimento. Porto Alegre: UFRGS, 1999.
DANTO,
Arthur. A transfiguração do lugar-comum.
São Paulo: Cosac Naify, 2010.
DEBORD, Guy. A sociedade do espetáculo. Rio de
Janeiro: Contraponto, 1997.
DELEUZE,
Gilles. Lógica
do sentido. São Paulo: Perspetiva, 2011.
________; GUATTARI, Félix. O que é a filosofia? Rio de Janeiro:
34, 1992.
DERRIDA, Jacques. Posições. Belo Horizonte: Autêntica,
2001.
DUFOUR, Dany-Robert. A arte de reduzir as cabeças: sobre a
nova servidão na sociedade ultraliberal. Rio de Janeiro: Companhia de Freud,
2005.
DUFOURMANTELLE, Anne;
DERRIDA, Jacques. Da hospitalidade.
São Paulo: Escuta, 2003.
ECO, Umberto. Rápida
utopia. In: Reflexões para o
futuro – Veja 25 anos. São Paulo: Abril, 1993.
ENAUDEAU, Corinne. La paradoja de la representación. Buenos Aires: Paidós, 1999.
FEATHERSTONE,
Mike. Cultura de consumo e pós-modernismo. São Paulo: Studio Nobel, 1995.
FERREIRA, Nadiá et
al. Tóxicos & Manias: o
mal-estar na contemporaneidade. Rio de Janeiro: UERJ, 1995.
_______. Introdução. In: Tóxicos e manias: o mal-estar
na contemporaneidade. Rio de Janeiro: UERJ, 1995.
FERRY, Luc. A
sabedoria dos mitos gregos. Rio de Janeiro: Objetiva, 2009.
FINK, Bruce. O
sujeito lacaniano: entre a linguagem e o gozo. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.
FLUSSER, Vilém. O
universo das imagens técnicas: elogio da superficialidade. São Paulo:
Annablume, 2008.
_______. A escrita: há futuro para a escrita?.
São Paulo: Annablume, 2010.
FONSECA, Eliane. A palavra in-sensata: poesia e
psicanálise. São Paulo: Escuta, 1993.
FOUCAULT, Michel. História
da sexualidade II: o uso dos prazeres. Rio de Janeiro: Graal, 1994.
_______. O
sujeito e o Poder. IN DREYFUS, Hubert L; RABINOW, Paul. Michel
Foucault: uma
trajetória filosófica para além do estruturalismo e da hermenêutica. Rio de
Janeiro: Forense Universitária, 1995.
_______. Prefácio
(Folie et deraison). In: Problematização do sujeito: Psicologia,
psiquiatria e psicanálise. 2d. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2006.
FREITAS, Verlaine. Adorno & a arte contemporânea. Rio de Janeiro: Zahar, 2003.
FREUD, Sigmund. O mal-estar
na civilização. In: Edição standart das
obras psicológicas completas. Rio de Janeiro: Imago, 1987.
GUMBRECHT, Hans. Produção de presença: o que o sentido não consegue transmitir. Rio
de Janeiro: Contraponto, 2010.
HARVEY,
David. O neoliberalismo: história e implicações. São Paulo: Loyola,
2008.
HEIDEGGER, Martin. Conferências e escritos filosóficos. São Paulo: Nova Cultural,
2000. (Coleção Os pensadores).
_______. A
origem da obra de arte. São Paulo: Edições 70, 2010.
HUISMAN,
Denis. A estética. Lisboa: Edições
70, 1997.
JAEGER,
Werner. Paidéia: a formação do homem
grego. 5 ed. São Paulo: Martins Fontes, 2010.
JIMENEZ,
Marc. O que é estética? São
Leopoldo: Unisinos, 1999.
JURANVILLE,
Alain. Lacan e a filosofia. Rio de
Janeiro: Zahar, 1987.
KANDINSKY,
Wassily. Do espiritual na arte. 2
ed. São Paulo: Martins Fontes, 1996.
_______.
Olhar sobre o passado. São Paulo:
Martins Fontes, 1991.
KEHL, Maria Rita. Televisão e
violência do imaginário. In: BUCCI, Eugênio; KEHL, Maria Rita. Videologias. São Paulo: Boitempo, 2004.
_______. Você decide... e Freud
explica. In: CHALHUB, Samira (org.). Psicanálise
e o contemporâneo. São Paulo: Hacker, 1996.
LACAN, Jacques. O problema
do estilo e a concepção psiquiátrica das formas paranóicas da experiência. In: Da psicose paranóica em suas relações com a
personalidade. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1987.
_______. O Seminário.
Livro 23: O sinthoma. Rio de Janeiro: Zahar, 2007.
_______. Seminário sobre ‘A carta roubada’. In: Escritos. 3 ed. São Paulo: Perspectiva,
1992.
_______. Subversão do sujeito e Dialética do desejo
no inconsciente freudiano. In: Escritos.
3 ed. São Paulo: Perspectiva, 1992.
_______. Televisão.
Rio de Janeiro: Zahar, 1993.
_______. Tempo lógico e a asserção da certeza
antecipada – um novo sofisma. In: Escritos.
3 ed. São Paulo: Perspectiva, 1992.
LACOSTE, Jean. A
filosofia da arte. Rio de Janeiro: Zahar, 1986.
LEVINAS, Emmanuel. Entre nós: ensaios sobre a alteridade. Petrópolis: Vozes, 2005.
LIPOVETSKY, Gilles. Metamorfoses da cultura liberal: ética, mídia, empresa. São Paulo:
Sulina, 2004a.
_______. Os tempos hipermodernos. São Paulo:
Barcarolla, 2004b.
MAFFESOLI,
Michel. A república dos bons sentimentos. São Paulo: Iluminuras, 2009.
_______. Intervenções I. In: SILVA, Juremir Machado da; SCHULER, Fernando. Metamorfoses da cultura contemporânea.
Porto Alegre: Sulina, 2006.
MANGUEL, Alberto. Lendo imagens: uma história de amor e
ódio. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.
MARCUSE, Herbert. A arte na sociedade
unidimensional. In: LIMA, Luiz Costa. Teoria da cultura de massa. 5 ed. São
Paulo: Paz e Terra, 2000.
_______. A dimensão estética. São Paulo: Martins Fontes; Lisboa: Edições 70,
1977.
MENDONÇA, Antônio Sérgio de
Lima. A insustentável leveza da cultura. In: O ensino de Lacan II. Rio de Janeiro: CEL, Gryphus, 1994.
NIETZSCHE,
Friederich. O nascimento da tragédia no
espírito da música (1871). Rio de Janeiro: Companhia das Letras, 1993.
NOBRE.
Marcos. A teoria crítica. Rio de
Janeiro: Zahar, 2011.
PACHECO, Olandina. Sujeito
e singularidade: ensaio sobre a construção da diferença. Rio de Janeiro:
Zahar, 1996.
PALACIOS, Suzana Amalia.
Psicanálise e saúde. In: Tóxicos e
manias: o mal-estar na contemporaneidade. Rio de Janeiro: UERJ, 1995.
PAVIANI,
Jayme. A racionalidade estética.
Porto Alegre: Edipucrs, 1991.
_______.
Estética mínima: notas sobre arte e
literatura. Porto Alegre: Edipucrs, 2003.
PIVATTO,
Pergentino. Ética da alteridade. In: OLIVEIRA, Manfredo (org.). Correntes fundamentais da ética
contemporânea. Petrópolis: Vozes, 2000.
PORGE,
Erik. Jacques Lacan, um psicanalista:
percurso de um ensino. Brasília: UnB, 2006.
QUINET,
Antônio. Os outros em Lacan. Rio de
Janeiro: Zahar, 2012.
REGNAULT,
François. Em torno do vazio: a arte
à luz da psicanálise. Rio de Janeiro: Contracapa, 2001.
REOLON
DE OLIVEIRA, Guilherme. No lugar do
Outro: ensaio sobre mídia e pós-modernidade. Monografia (Bacharelado em
Comunicação Social – Jornalismo), Universidade de Caxias do Sul, 2008a.
_______.
Cortes na subjetividade: o pathos pós-moderno. Conjectura (Filosofia e Educação), Universidade de Caxias do Sul,
v.13, n.2, jul-dez 2008b, p.105-111.
_______.
Prolegômenos à condição híbrida:
esboço de uma teoria crítica do sujeito pós-midiático. Dissertação (Mestrado em
Psicologia Social e Institucional), Universidade Federal do Rio Grande do Sul,
2011.
_______.
Brasilidade em tempos de dessimbolização:
um ensaio. Monografia (Bacharelado em Ciências Sociais), Universidade Federal
do Rio Grande do Sul, 2014.
REOLON,
Vera Marta. mulheres para um homem...
para O Homem, A Mulher. Porto Alegre: Edipucrs, 2008.
_______.
Ética e Desejo – Derrida e Lacan: a
psicanálise em análise na pós-modernidade. Tese (Doutorado em Filosofia),
PUC-RS, 2010.
RIVIERA,
Tânia. Arte e psicanálise. Rio de
Janeiro: Zahar, 2002.
_______.
O avesso do imaginário: arte
contemporânea e psicanálise. São Paulo: Cosac Naify, 2013.
SANTAELLA, Lucia. Culturas e artes do pós-humano: da
cultura das mídias à cibercultura. São Paulo: Paulus, 2003a.
_______. O conceito de cultura revisitado. Conexão: Comunicação e
Cultura, Universidade de Caxias do Sul, v. 2, n. 4, p. 177-184, 2003b.
SANTUÁRIO, Luiz Carlos. É
possível clonar o humano? In:
PAVIANI, Jayme; KUIAVA, Evaldo. Educação,
ética e epistemologia. Caxias do Sul: Educs, 2005.
SARTRE,
Jean-Paul. A idade da razão. São
Paulo: Instituto Progresso Editorial, 1949.
_______.
A imaginação. Porto Alegre:
L&PM, 2011.
_______.
O existencialismo é um humanismo.
São Paulo: Nova Cultural, 1987. (Coleção Os pensadores).
SASPORTES,
José. Pensar a dança: a reflexão
estética de Mallarmé a Cocteau. 2 ed. Lisboa: Imprensa Nacional, 2006.
SCHULER, Fernando; SILVA, Juremir Machado da (org.). Metamorfoses da
cultura contemporânea. Porto Alegre: Sulina, 2006.
SIBILIA, Paula. O homem
pós-orgânico: corpo, subjetividade e tecnologias digitais. Rio de Janeiro:
Relume Dumará, 2002.
SIMMEL,
Georg. The metropolis and mental life. In: SENNETT, Richard (org.). Classic essays on the culture of
cities. Appleton-Century-Crofts,
1969.
SODRÉ, Muniz. A
máquina de Narciso: televisão, indivíduo e poder no Brasil. São Paulo:
Cortez, 1994.
_______. Televisão e psicanálise. São Paulo:
Ática, 2000.
STEIN, Ernildo. Nota do
tradutor. In: HEIDEGGER, Martin. Identidade
e diferença. Petrópolis: Vozes, 2006.
TIBURI, Márcia; ROCHA,
Thereza. Diálogo / Dança. São Paulo:
Senac SP, 2012.
VASSE, Denis. Leitura psicanalítica de Teresa D’Ávila.
São Paulo: Loyola, 1994.
ZIZEK, Slavoj. A fuga para
o real, Folha de S. Paulo, Caderno
Mais, 8 abri 2008, p.8-12.
______. Bem-vindo ao deserto do real. São
Paulo: Boitempo, 2003.
A
música, a água e o Outro: ensaio sobre a psicose em “Shine”
Longe de ser a loucura o fato contingente das fragilidades de um
organismo, ela é a virtualidade permanente de uma falta aberta na sua essência.
Longe de ser para liberdade ‘um insulto’, ela é sua mais fiel companheira, ele
segue seu movimento como uma sombra. E o ser do homem não pode ser compreendido
sem sua loucura, assim como não seria o ser do homem se não trouxesse em si a
loucura como limite de sua liberdade.
Jacques Lacan
A
psicose, para a psicanálise, é uma falha no que concerne à realização do
“amor”, amor de estrutura, que incute desejo e, portanto, diferencial, constituição
de sujeito. Na psicose, o que se observa é uma relação simbiótica entre o
sujeito e o Outro, função materna, campo da linguagem e inscrição de
significantes. O sujeito se introjeta ao Outro, para não deixar que se abra um
espaço por sua falta.
O sujeito, ao permanecer com o Outro, não
subjetiva, não se estrutura enquanto ser singular, único, diferencial, uma vez
que não tem desejo, não lhe é permitido desejar, já que este Outro não o amou,
não o desejou. E mais: a lei não é inscrita, e o sujeito não consegue se
internalizar, pois o Outro não incluiu na relação o terceiro, o Lugar de Desejo
da Mãe. Isso, pois, é a foraclusão, o mecanismo do psicótico. Mecanismo através
do qual se produz a rejeição, provocada pelo Outro, de um significante
fundamental (o Nome-do-Pai) para fora do universo do sujeito. Quando essa
rejeição se produz, o significante é foracluído. Não é integrado no
inconsciente, como no recalque, e retorna sob forma alucinatória no real do
sujeito.
Na psicose, o sujeito está ligado, habita o Outro
e introjeta uma estrutura semelhante à linguagem. Mas esse lugar tem um
suporte: o Nome-do-Pai. É exatamente este significante que tem como função
representar o Outro, sob a forma da lei, que falta. Justamente por isso Lacan
fala que o que caracteriza a estrutura psicótica é a foraclusão do Nome-do-Pai.
Por conseqüência, os delírios e as alucinações
tornam-se realidade, mundo vivido. As buscas por uma exterioridade são
representações, sintomas desse sujeito que não se volta e não constitui para o
dentro-de-si, mas que não inclui, ou seja, foraclui toda e qualquer
possibilidade de simbólico. O que se percebe, no psicótico, é uma triplicação
de real, simbólico e imaginário, ou melhor, uma sobreposição de registros que
se confundem. Na psicose, não há simbólico, não há linguagem, não há
representação lingüística, tudo está contido nos registros Real e Imaginário.
“O que não veio à luz do simbólico, aparece no
real”, afirmava Lacan. O psicótico quer o gozo absoluto. Para ele, o desejo é
violência (é assim que ele interpreta, mas não violência enquanto ato, ação
propriamente dita). Nele, o Real, o Simbólico e o Imaginário se confundem. Ele
produz um outro “real” – a alucinação – e um outro “imaginário” – o delírio –
para acreditar-se sem falha. Os objetos do delírio não passam das faces
objetais dele. O psicótico funciona como falo do Outro.
O psicótico fica no nível do Outro, duplo de Outro
não castrado, relação SA. Há pai severo, que impede qualquer possibilidade
desejante. No lugar do desejo, há hostilidade. Assim, no psicótico não há
inconsciente, não há recalque, não há metáfora, tudo é transformado em
alucinação ou delírio, pois não há marcas, principalmente a amorosa, a
constituidora de desejo. Ele não simboliza, pois não foi marcado pela falta, não
houve separação. Ele personifica o Outro, ele se transforma em Outro. Desta
forma, ele ignora a diferença, ele tem o saber absoluto, o saber da certeza.
O filme “Shine” dirigido por
Scott Hicks e estrelado por Geoffrey Rush, nos apresenta a história de David
Helfgott, pianista e filho de Peter Helfgott, pai neurótico obsessivo, tirano,
severo e “sugador”. Peter é o Outro de David. Em “Shine”, percebe-se,
claramente, o mecanismo da estruturação do sujeito psicótico. É Peter quem
representa o campo da linguagem e das significações a David. Por ser um Outro
que não incute Lugar de Desejo da Mãe e, posteriormente, inscrição do
Nome-do-Pai, Peter foraclui este significante primordial na estruturação de
David.
A história real apresentada em “Shine”, na qual o Concerto nº 3 de
Rachmaninoff poderia ser interpretado como objeto a da relação SA entre David e Peter, escancara uma psicose
desencadeada quando da apresentação do concerto em questão. É no momento da
interpretação do concerto, que David é acometido pelo surto psicótico que,
posteriormente, lhe desintegra a personalidade. Outros momentos do filme deixam
clara essa relação “psicotizante” entre David e Peter, quando este queima a
carta de admissão de David, símbolo de libertação e possível saída do discurso
do Outro.
“Ninguém vai amá-lo como eu” e
“Animal asqueroso: defecar na banheira, que nojento” são expressões que
evidenciam uma sucção de vida por parte de Peter. É esta sucção, prisão,
colagem, demonstrada por uma intensa demonstração dicotômica entre amor e ódio,
que estrutura e inscreverá David no campo psicótico. Uma relação em que só há
Outro e não há função paterna determina o destino do pianista. Cabe ressaltar o
desejo de Peter em formar David a partir de uma constituição não tida por ele
de seu pai: “Meu pai nunca permitiu a música. Você é um menino de sorte.” Ora,
seria a música o desejo de David, ou de Peter?
A música e a água têm também um
caráter constituinte em David. Ao mesmo tempo em que a música representa um
alicerce, ainda que imposto pelo Outro como desejo (?) – aqui cabe bem a
célebre expressão de Lacan, “O desejo é o desejo do Outro” –, esta prende David
na infância e não permite um seguir, um não não-ceder de seu desejo – cabe
ressaltar a frase de David, “papai escolheu a música”. A água, por sua vez,
simboliza um retorno ao útero, retorno ao acolhido, confortável e seguro, que,
para David, seria a saída do Outro, uma vez que é sua mãe a acolhedora – ainda
que à distância – quando da rejeição de David por parte de Peter.
David, à semelhança de outros
artistas, tais como Vincent Van Gogh, Salvador Dalí, Franz Kafka, Fiódor
Dostoievski, faz de sua arte “a expressão do inexpressível”, como mencionado
por uma das personagens. A arte, para estes, funcionaria como uma “válvula de
escape”, sintoma, já que são manifestações, expressadas no delírio, com suas
características de desvario bem construído e sistematizado, mostrando a mescla
de registros em funcionamento na psicose. Em Shine, especificamente em David, presencia-se o que de singular há
na psicose: o eu não constituído como imagem unificada do corpo próprio e o
Outro reduzido ao outro como semelhante: “No ponto em que, veremos como, o
Nome-do-Pai é invocado, pode então responder no Outro um puro e simples buraco,
o qual, pela carência do efeito metafórico, provoca um buraco correspondente no
lugar da significação fálica” (LACAN apud
Waelhens, 1990, 95).
A arte, enquanto sintoma, é
linguagem em David. A arte é a única linguagem do psicótico, uma vez que este
tem imaginário e real sobrepostos ao simbólico, ao registro da linguagem. É a
arte o delírio e (por que não?) a alucinação de David, uma vez que ele não tem
simbólico:
[...] uma
dupla transcendência da fala: transcendência da fala perante ela mesma e
transcendência da fala perante o mundo. [...] no psicótico essas duas funções
de transcendência deixam de funcionar ou passam a funcionar apenas no vazio e
sem o controle de uma sobre a outra. Ora, ambas são necessárias para que se
assegure “a emergência do mundo simbólico no mundo da realidade. (WAELHENS,
1990, p. 180).
“Nunca cresci, eu diminuí, eu sou um
inútil”, diz David em um momento, após o surto desencadeante da psicose. Essa
expressão evidencia um “ficar à mercê”, como sombra do Outro, em que
pensamento, conduta e afetividade são determinados por este Outro que permanece
colado, unido ao sujeito. Rabinovitch expressa, poeticamente, como as funções
mentais se situam no psicótico, a partir da foraclusão:
A foraclusão é
o nome da fratura que os encerrou fora de toda inscrição, fora das pegadas na
rota dos nossos sonhos, do céu dos nossos pensamentos, da casa da nossa dor ou
da nossa alegria [...] A foraclusão não atingiu apenas os significantes
fundadores do inconsciente, ela jogou fora a sua chave para sempre; expulsou-os
para longe, muito longe dos presos nesse estranho exterior [...] O exílio
fratura a memória; as fotografias da família desapareceram, os objetos do lar
foram dispersados, não há mais marcas. Mais radical ainda que a supressão das
marcas, a ausência de palavras para dizer a supressão das marcas, a ausência de
palavras para dizer a supressão abole uma não-marca. (RABINOVITCH, 2001, p. 8).
Pensamento, conduta e afetividade, assim como o
próprio viver do sujeito, sua posição e papel enquanto ser-no-mundo, estão em desarmonia,
porque é o significante do Nome-do-Pai, foracluído em David, que organiza o
mundo para o sujeito, que confere sua realidade ao mundo da percepção. É o significante Nome-do-Pai, faltante em
David, que entrelaça os três registros – Real, Simbólico e Imaginário – e que
dá sustentação, estruturação ao sujeito. A estrutura psicótica de David
expressa essa falta, esse descentramento, esse estado fora-de-si, manifestação
em delírio e/ou alucinação, representadas no personagem pela “busca” incessante
da perfeição musical, o Concerto nº 3 de Rachmaninoff, determinada por Peter,
enquanto gozo absoluto, gozo do Outro, JA. A psicose, portanto, nada mais é que
uma psico-ose, uma psiquê-ose: uma infecção, uma inflamação, uma alteração
patológica do psiquismo, da alma.
REFERÊNCIAS
JORGE,
Marco Antonio Coutinho; FERREIRA, Nadiá Paulo. Lacan: o grande
freudiano. Rio de Janeiro: Zahar, 2005.
JURANVILLE,
Alain. Lacan e a filosofia. Rio de
Janeiro: Zahar, 1987.
LACAN,
Jacques. O Seminário 3: as psicoses. Rio de Janeiro: Zahar,
1985.
RABINOVITCH,
Solal. A foraclusão: presos do lado de fora. Rio de Janeiro: Zahar,
2001
WAELHENS,
Alphonse De. A psicose: ensaio de interpretação analítica e
existencial. Rio de Janeiro: Zahar, 1990.
ONTOLOGIA DA ROUPA:
o indivíduo entre o artifício e a realidade
O que é uma roupa? Pergunta
inocente, afinal vestimo-nos ou desnudamo-nos tão facilmente com um simples ato
de colocar ou retirar uma ou mais peças de roupas. Segunda pele, sobre a pele;
máscara, fantasia; cobrir-se ou descobrir-se. Uma folha a cobrir a genitália,
um casaco sem o qual não se pode frequentar determinado estabelecimento. A
roupa poderia ser definida como “tecidos recortados e costurados”. Mas, como
tal, se reduz à coisa. De acordo com a funcionalidade, talvez, poder-se-ia
dizer que a roupa é um utensílio que serve para vestir. O vestir, entretanto,
só acontece como ação se há uma roupa e, assim, há uma circularidade na
conceituação.
Tecidos recortados e costurados, em
si, não constituem uma roupa, pois outros utensílios são assim produzidos:
toalhas de mesa e lençóis, por exemplo. Em um manequim, a roupa já é roupa? Em
um desfile conceitual, a roupa já existe como acontecimento? Perguntar o que é
a roupa é pensar a sua essência, ou, em outras palavras, seu originário, ou
ainda, seu ser. Costuro tecidos, quaisquer tecidos, e o resultado é uma roupa?
Costuro quaisquer tecidos, a partir de moldes pré-estabelecidos de camisa, por
exemplo: eis uma camisa? E se houver uma escolha deliberada do tecido a ser
utilizado? Uma camisa sem mangas e sem gola ainda é uma camisa? Essa suposta
camisa, criada e exposta ao público, por meio de um desfile, ou em uma vitrine,
já é roupa?
Yohji Yamamoto definiu a roupa
feminina com uma pergunta: “Posso ajudar?”. E a roupa masculina com um convite:
“Vem, vamos embora”. Essas “definições”, na forma de frases, contribuem para
uma ontologia da roupa à medida que expandem a compreensão do ser da coisa. Ajudar e ir, verbos inscritos nas orações de Yamamoto, são ações: o
criador-estilista-costureiro está na roupa que oferece ao cliente: ele está ora
numa condição subserviente, ora numa relação de companheirismo. Yamamoto está
não só no desenho e no desenvolvimento produtivo daquilo que cria, mas na
relação que estabelece com aquele que o compra. Yamamoto é na roupa,
como etiqueta, como assinatura e como estilo de criação (a prisão da qual tem a
chave). Vestir a roupa de Yamamoto é vestir Yamamoto, o próprio, é quase sê-lo.
Identificando-me com ele, integro-o à minha identidade.
Marx, o pensador do capitalismo,
crítico do fetichismo da mercadoria, considera a roupa uma abstração. Abstração
de um trabalho, de uma mão de obra valorada, porém alienada. E se enreda no
roteiro que ignora, atestando que é, ou melhor, está capitalista (e não só
porque também “escraviza” uma serviçal). Ele só consegue ser Marx – o sujeito
que pesquisa, que escreve, que frequenta o Museu Britânico e que se torna
mundialmente conhecido com a publicação de O
Capital – se portador de um casaco. Esse casaco, no entanto, é modo de
subsistência, quando objeto penhorável. Sem a penhora, Marx não pode pagar seu
aluguel e sequer alimentar a si e a sua família. O casaco, em si, tem tanto
valor, ou mais, que o trabalho do operário que o produz. Porém não só: Marx é
aniquilado como pensador sem a pesquisa que, por sua vez, só é possível se Marx
porta seu casaco. Marx, nesse sentido, está em seu casaco. Marx é
o casaco: nele estão contidos seu passado e seu futuro.
Retornamos à pergunta inicial: o que
é uma roupa? Depreendemos que uma roupa só o é a partir de seu uso. O ser da
roupa é apreendido em sua realidade mesma, a partir da conjugação de seus
registros: real (de que é feito), simbólico (significados que lhe são
atribuídos) e imaginário (forma e conteúdo transformados no tempo-espaço). Só
no corpo, e em movimento, a roupa é: o uso e a conferência de identidade e de
diferença é o que lhe conferem seu estatuto de verdade.
DEUS
É IMANENTE E CONHECIDO PELA RAZÃO E PELO CORPO
Primeiramente, o
homem inventou o mundo, deu nome aos deuses, inquietou-se com os astros, com os
anjos e com a divindade. O Renascimento marcou o parto de uma outra cultura,
que colocou o homem e suas inquietações – e não mais Deus – de volta ao centro
do mundo (embora mesmo entre os gregos, não o homem, mas a polis é que estivera na centralidade de seus pensamentos). Pouco
depois, o século XVII marca a vitória da razão e da ciência sobre a religião –
movimento batizado de Iluminismo, que dará início à Filosofia Moderna (com
Descartes, Espinosa, Locke e Kant) e com o barroco nas artes.
Françoise Dosse
(2007), a partir da obra Les mots et les
choses, de Foucault, publicada no ápice do estruturalismo francês, em 1966
– mesmo ano de Écrits, de Jacques
Lacan –, destaca que a primeira configuração do saber estudado pelo filósofo é
a episteme que compreende a
Renascença até o século 16, fundamentada no mesmo, na repetição e na
representação do representado, e na qual a semelhança desempenha o papel
fundador do saber na cultura ocidental.
Esta episteme vai balançar no século 16 a
partir de uma ruptura que afetará o velho parentesco entre as palavras e as
coisas, lugar a partir do qual o homem vai poder nascer para si mesmo,
tornar-se objeto singular do saber. Essa mutação é simbolizada pela busca de
Dom Quixote, que tenta ler o mundo para demonstrar a veracidade dos livros. Ele
esbarra na não-concordância dos signos e do real, no perfeito desacordo em que
sua utopia vai se consumar. (DOSSE, 2007, p.434-435)
O homem se descobre. Em busca de si (não ainda de sua
subjetividade individual, o que só acontecerá com Freud, mas de uma
singularidade que o caracterizaria como universal de homem, como espécie), ele
se debruça sobre a diferença (em relação aos outros animais), para constituir
uma identidade humana. A obra de Shakespeare, nesse sentido, é emblemática,
porque traz à tona uma universalidade de sentimentos (amor, inveja, ânsia pelo
poder, angústia), ainda que Bloom (2005) destaque que “não temos como saber em
que acreditam Dom Quixote e Hamlet, pois tais personagens não compartilham das
nossas limitações” (p.116). Lacan (1989), em sentido oposto, afirmara que a
tragédia de Hamlet se distingue por ser a “tragédia do desejo”.
A peça de
Hamlet é uma espécie de aparelho, de rede, de armadilha para pássaros na qual
se articula o desejo do homem, precisamente nas coordenadas que Freud
descobriu, Édipo e castração [...] A estrutura fundamental da eterna Saga que
reencontramos desde a origem dos séculos é modificada por Shakespeare de modo a
fazer emergir o desejo; o homem não é simplesmente possuído por ele, tem que
encontrá-lo, encontrá-lo à sua custa no maior dos sofrimentos. (LACAN, 1989,
p.31)
O homem e seu
desejo, logo o homem e ele mesmo, começam a se encontrar nesta passagem entre
os séculos XVI e XVII, período em que emergem escritos de místicos, tais
como João da Cruz e Teresa D’Ávila, que
relatam a materialização da espiritualidade, ou melhor, uma corporificação,
significada no êxtase. Segundo Quinet (2012), o que os místicos descrevem como
êxtase, Lacan identifica-o com um gozo não-fálico, “enigmático”, “louco” e
não-sexual propriamente dito.
Eis o gozo
Outro. Trata-se de um gozo fora do significante, para o qual não há palavras,
nem é possível dele ser efetuada uma doutrina, como notava o abade Rousselat,
que considerava o que descreviam os místicos mais como uma efusão lírica do que
uma sistematização lógica (QUINET, 2012, p.64).
Teresa D’Ávila é notável nesse sentido. Para ela, “falar
é impossível, pois a alma não atina a formar palavras e, se atinasse, não teria
poder para pronunciá-las”. Em Teresa D’Ávila, há uma corporificação do divino.
Ele deixa de ser transcendente, imanentizando-se. Não há mediações para se
chegar a Deus, ele está acessível, é corpóreo e material. Teresa nos dirige a
palavra, a partir de um encontro cujo lugar é a carne e cujos efeitos são, na
oração, a quietude e o êxtase, isto é, re-pouso e saída de si. Esses efeitos
são, para a doutora da Igreja, os mesmos de todo encontro amoroso no qual a
“re-posição” de si no outro, fora de toda confusão e de toda sedução, é sentida
como o próprio dom da vida.
Teresa vai contestar a mediação do saber até mesmo pelos
livros. Segundo Dosse (1994), o capítulo XXII do Livro da vida, é, sobre esse ponto central da teologia de Teresa,
capital. É através da própria humanidade que o homem se encontra com Deus: “A
história de Jesus confirma que o dom de Deus passa pela vida do corpo e não
pela idéia que homem teria de Deus [...] Retirar esse apoio da encarnação
significa deixar a fé cristã gravitar entre as mitologias”. (p.22-23).
Colocar Deus como transcendente, fora do corpo, é
assimilá-lo como ideia de si, mera projeção e, assim, negação de toda
alteridade. Para Dosse (1994), a negação da alteridade separa-nos da realidade.
A confusão do Outro com a ideia ou a imagem de mim mesmo é cega, faz enganar-se
e leva à idolatria.
O homem não é
a idéia que tem de si próprio. E Deus também não é a representação que o homem
faz dele. Na exaltação projetiva do que pensamos, não atingimos a verdade que
procuramos. Só a apreendemos em relação aos efeitos de vida, repouso e alegria
manifestados no corpo, quando é denunciado o orgulho de um pensamento que
deseje possuir a verdade antes mesmo que ela se manifeste (DOSSE, 1994, p.20).
É por isso que a
obra O êxtase de Santa Teresa
(1645-52)[94],
de Gian Lorenza Bernini, alguns anos mais velho que Rembrant, Velásquez e van
Dick, é tão emblemática. Teresa fecha os olhos, no êxtase, porque não se trata
nem de ver, nem de compreender. Diz ela, em Meditação sobre os cantares: “não
compreendo como isso ocorre, mas sinto grande prazer por não compreender” (MC,
I, 1). Para Teresa, não compreender convida a esperar o que é procurado no
dentro do desejo, o que ainda não está ausente e já está ali (DOSSE, 1994, p.39).
Deus anima seu corpo, é a vida do seu corpo; ele habita nela como habita ela
nele. A humanidade de Deus está no meio dos homens, neles, mas velada (MC, VI,
7).
O êxtase de Teresa,
esculpido por Bernini, é descrito pela mística:
Vi em sua mão uma grande lança
dourada... ele parecia enterrá-la em meu coração às vezes e perfurar minhas
entranhas; quando a retirava, parecia... deixar-me em brasa, repleta do grande
amor de Deus.
Em Quando a arte é
genial, Pankhurst e Hawksley (2015) afirmam que as feições de Santa Teresa
exprimem, ao mesmo tempo, um último suspiro antes da morte e a respiração
arfante durante o orgasmo, tendo em vista que a expressão facial remete à idéia
metafísica de que o orgasmo é um “breve morrer”. Na escultura, repleta de
movimento, segundo os autores, “raios dourados parecem conduzir Teresa até o
céu, e a postura arqueada de seu corpo mostra que ela está ao mesmo tempo
entregando sua alma e divinamente feliz pelo encontro com Jesus” (p.95).
Gombrich (2012) faz semelhante análise deste
arrebatamento de Teresa em êxtase, relacionando a obra com o seu entorno:
Vemos Santa
Teresa sendo arrebatada para o céu numa nuvem, em direção a caudais de luz que
jorram do alto na forma de raios dourados. Vemos o anjo que se aproxima
docemente dela, e a santa desfalecida em êxtase. O grupo está disposto de modo
que parece pairar sem apoio algum na suntuosa moldura oferecida pelo altar, e
receber luz de uma janela invisível, no alto. (GOMBRICH, 2012, p. 438).
Se concordarmos com Bloom (2005), que os seres ficcionais
surgidos nos últimos quatro séculos ou são cervantescos ou shakespearianos, ou,
mais frequentemente, uma mescla de ambos, dado que representam exatamente o
homem em sua descoberta de si, imediatamente nos reportamos ao que Lacan destacou
nos colocar na via da “ex-sistência”: o gozo[95]
experimentado pelos místicos, a partir de um inconsciente obscuro, de um Real
impossível de ser conhecido, só acessível por suas manifestações no Simbólico.
REFERÊNCIAS
BLOOM, Harold. Onde encontrar a sabedoria? Rio de
Janeiro: Objetiva, 2005.
DOSSE, Francçoise. História do estruturalismo. V.1: o
campo do signo. Bauru: Edusc, 2007.
FOUCAULT, Michel. Les mots et les
choses. Paris: Gallimard, 1966.
GOMBRICH, E.H. A história da arte. 16 ed. Rio de
Janeiro: LTC, 2012.
LACAN, Jacques. O seminário: livro 20: mais, ainda. 2
ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1985.
_______. Hamlet. In: Shakespeare,
Duras, Wedekind, Joyce. Lisboa:
Assírio e Alvim, 1989.
PANKHURST, Andy; HAWKSLEY,
Lucinda. Quando a arte é genial. São
Paulo: Gustavo Geli, 2015.
QUINET, Antônio. Os outros em Lacan. Rio de Janeiro:
Zahar, 2012.
VASSE, Denis. Leitura psicanalítica de Teresa D´Ávila.
São Paulo: Loyola, 1994.
Guilherme Reolon de Oliveira
nasceu em março de 1987, em Caxias do Sul-RS. É jornalista, filósofo, sociólogo,
curador e crítico de arte (dança, teatro e artes visuais). Bacharel em
Comunicação Social-Jornalismo (UCS, com Láurea Acadêmica), em Ciências Sociais
(UFRGS) e em Filosofia (UCS/UFRGS, com Láurea Acadêmica), Mestre em Psicologia
Social e Institucional (UFRGS), Mestrando em História, Teoria e Crítica de Arte
(PPGAV/UFRGS). Dentre seus muitos interesses, dedicou-se aos estudos de mídia,
arte e subjetividade, a partir da teoria crítica (Escola de Frankfurt), da
psicanálise lacaniana, da filosofia francesa contemporânea e do pensamento
heideggeriano. É coeditor dos blogs
Folha das Artes, especializado em crítica, e Mondo dela Arte, dedicado à teoria
de arte e estética. Foi Assessor de Imprensa de instituições públicas, como
Ministério Público do Rio Grande do Sul e Prefeitura Municipal de Caxias do
Sul, e de empresas privadas. Áreas de atuação: Teoria da Comunicação, Estética,
Ética, Teoria e Crítica da Arte, Antropologia e Sociologia da Cultura. É também
artista plástico (pintura e fotografia), ator (premiado em mostras de artes
cênicas) e bailarino (dança de salão). Mais informações no CV da Plataforma
Lattes (CNPq). E-mail: guilhermereolon@terra.com.br.
“Termo de Compromisso e condições
de uso de reproduções imagéticas” assinado, declaro que sou responsável pelo
uso, neste trabalho, das reproduções das imagens deste trabalho. O uso que
fizerem de meu trabalho e mesmo de suas imagens (e/ou a vinculação destas com quaisquer escritos/imagens/o que for meus
e/ou de outrem), após e/ou durante a disponibilização deste em qualquer
sistema, mesmo na internet (e/ou em qualquer meio), é de inteira
responsabilidade de quem o fizer e, portanto incorrerá em todas as penalidades previstas em LEI.
[1]
“É verdade que estes pontos culminantes [a correspondência entre filosofia,
arte e ciência] comportam dois perigos extremos: ou reconduzir-nos à opinião da
qual queríamos sair, ou nos precipitar no caos que queríamos enfrentar.”
(DELEUZE, 1992, p .255).
[2]
Na Filosofia da Arte, a maioria dos pensadores se deteve, em maior grau, nas
artes ditas plásticas – pintura e escultura – e na literatura, e, em menor
grau, na música. Da dança, tão pouco se “filosofou”.
[3]
“A filosofia é a arte de formar, de inventar, de fabricar conceitos.” (DELEUZE,
1992, p. 10); “Os novos conceitos devem estar em relação com problemas que são
os nossos, com nossa história e sobretudo com nossos devires. [...] Se um
conceito é ‘melhor’ que o precedente, é porque ele faz ouvir novas variações e
ressonâncias desconhecidos, opera recortes insólitos, suscita um Acontecimento
que nos sobrevoa” (p. 40-41); “O conceito é o contorno, a configuração, a
constelação de um acontecimento por vir. [...] Destacar sempre um conceito das
coisas e dos seres é a tarefa da filosofia quando cria conceitos, entidades.
[...] O conceito filosófico não se refere ao vivido, por compensação, mas
consiste, por sua própria criação, em erigir um acontecimento que sobrevoe todo
o vivido.” (p. 46-47).
[4]
O método dialético, posteriormente nomeado por Max Horkheimer de Teoria Crítica
(em contraposição à Teoria Tradicional), expõe as contradições de um mesmo
fato, contrapõe argumento contra argumento e almeja uma síntese, ou não – que
constitui a realidade mesma do objeto analisado – entre a coisa e seu contexto,
a essência e a aparência, a identidade e a diferença, o particular e o
universal: “O télos do modo dialético
de encarar a sociedade é contrário ao global. Apesar da reflexão sobre a
totalidade, a dialética não procede a partir do alto, mas trata de dominar
teoricamente pelo seu procedimento a relação antinômica do universal e do
particular.” (ADORNO, 2000a, p, 154). Para Adorno, uma teoria crítica, apesar
de toda aparência de coisificação, se orienta pela idéia da sociedade como
sujeito. Assim, “o fenômeno singular encerra em si toda a sociedade.” (p. 156).
Investigar um objeto e suas vicissitudes, desse modo, é estudar o social do
qual ele surge. Benjamim (2013a), por sua vez, acrescenta: ”Todo esforço de aproximação de uma obra de
arte será vão se o seu conteúdo histórico sóbrio não se tornar objeto de um
conhecimento dialético”.
[5]
“Ou o homem é moral ou não é humano.” (PIVATTO, 2000, p. 96).
[6]
“Lacan chamou esse nó de sinthome, que é um significante perpassado de
gozo, solto, fora da cadeia. É significante porque sustenta o jouissens
– termo que articula o sentido, o objeto a e o gozo –, que é o gozo do ‘sujeito
curado’, já nomeado, ou seja, de quem já identificou seu gozo particular e por
isso goza de forma singular e ética no seu retorno da indiferenciação
dessubjetiva, quando impõe-se ao mundo de forma inteiramente singular. O
fundamental nessa concepção de sujeito é que passou-se por um lugar fora da
cadeia da linguagem, lugar de pura pulsão. Esta é a radicalização pela qual o
conceito de sujeito passa na obra de Lacan e, ao mesmo tempo, a referência é
óbvia ao Wo Es war, soll Ich werden [Onde estava isso, o sujeito deve advir], sujeito pulsional de
Freud. A dimensão do sinthome rompe com os limites do discurso, da
representação, frequentando o puro pulsional” (PACHECO, 1996, p .53).
[7]
Moral e ética não devem ser confundidas. Ética também não deve ser confundida
com lei, embora, com certa frequência, a lei seja baseada em princípios éticos.
Ao contrário do que ocorre com a lei, nenhum indivíduo pode ser compelido, pelo
Estado ou por outros indivíduos, a cumprir as normas éticas, nem sofrer
qualquer sanção pela desobediência a estas; por outro lado, a lei pode ser
omissa quanto a questões abrangidas no escopo da ética.
Nos
dizeres de Foucault: (1995, p. 263).Ética é “o tipo de relação que se deve ter
consigo mesmo, [...] e que determina de que maneira pela qual o indivíduo deve
se constituir a si mesmo como o sujeito moral de suas próprias ações.”
Retomaremos
esta questão no §9, Capítulo 2.
[8]
Desconstrução no sentido conceitual
de Jacques Derrida (2001,p. 47), contrário a destruições, mas mudança de foco,
descentralização: “Essa estratégia deveria evitar simplesmente neutralizar as
oposições binárias da metafísica e, ao mesmo tempo, simplesmente residir no
campo fechado dessas oposições e, portanto, confirmá-lo.”
[9]
Paradigma é a representação de um padrão a ser seguido. É um pressuposto
filosófico, matriz, ou seja, uma teoria, um conhecimento que origina o estudo
de um campo científico; uma realização científica com métodos e valores que são
concebidos como modelo; uma referência inicial como base de modelo para estudos
e pesquisas. Thomas Kuhn (1922 – 1996), físico americano, em A estrutura das revoluções científicas
coloca que “um paradigma, é aquilo que os membros de uma comunidade partilham
e, inversamente, uma comunidade científica consiste em homens que partilham um
paradigma”.
[10]
“A mídia, de fato, é uma das forças subentendidas na formidável dinâmica de
individualização dos modos de vida e dos comportamentos da nossa época. A
imprensa, o cinema, a publicidade e a televisão disseminaram no corpo social as
normas da felicidade e do consumo privados, da liberdade individual, do lazer e
das viagens e do prazer erótico: a realização íntima e a satisfação individual
tornaram-se ideais de massa exaustivamente valorizados”. (LIPOVETSKY, 2004a, p.
70).
[11]
Somos constituídos pelo Olhar do Outro, pela imagem (nossa) refletida no olhar
deste. É através do Olhar, contudo, que a cultura-da-imagem transfere para a
mídia o lugar de Outro. Procura-se, especialmente na TV, na imagem especular,
este Outro.
[12]
“[...] para a referida Indústria Cultural, a cultura, propriamente dita,
subordina-se ao entretenimento para que possa sobreviver em sua estratégia de
divulgação mercadológica, mesmo que para tal tenha que se fundir à animação
própria do espetáculo: daí o termo “animação cultural”. O que não deve ser
confundido com a função da cultura no Humanismo Renascentista, onde a Razão era
o próprio espetáculo ou, dito de outra forma (tomando-se o teatro
“sheakespereano” como marco), o espetáculo transformava-se em cultura e não a
cultura em espetáculo. Vale dizer que Hamlet era culturalmente maior do que
seus intérpretes e/ou porta-vozes críticos, enquanto na contemporânea sociedade
do espetáculo o porta-voz faz-se passar pela autoria (maestria)”. (MENDONÇA,
1994, p .67).
“A indústria cultural impede a
formação de indivíduos autônomos, independentes, capazes de julgar e de decidir
conscientemente. O próprio ócio do homem é utilizado pela indústria cultural
como o fito de mecanizá-lo, de tal modo que, sob o capitalismo, em suas formas
mais avançadas, a diversão e o lazer tornam-se um prolongamento do trabalho.
[...] A indústria cultural traz em seu bojo todos os elementos característicos
do mundo industrial moderno e nele exerce um papel específico, qual seja, o de
portadora da ideologia dominante, a qual outorga sentido a todo o sistema.
Aliada à ideologia capitalista [...] a indústria cultural contribui eficazmente
para falsificar as relações entre os homens, bem como dos homens com a
natureza, de tal forma que o resultado final constitui uma espécie de
antiiluminismo” (ADORNO, 2000a, p. 08)
[13]
Fragmentado, pois não possui referências, base estrutural. O homem da
pós-modernidade é caracterizado pela especialização focada em campos de estudo
micro; caracterizado por um pensamento fragmentado atento às partes e não ao
todo. Segundo Featherstone (1995), o pós-modernismo é caracterizado pela
transformação da realidade em imagens e pela fragmentação do tempo numa série
de presentes perpétuos. Esta segunda característica tem como paradigma a
esquizofrenia, considerada um colapso da relação entre os significantes, o
colapso da temporalidade, a memória, o senso de história. A experiência
imediata e indiferenciada da presencialidade do mundo, para o esquizofrênico,
conduz a uma noção de “intensidades”.
[14]
Santaella (2003a) ressalta que, no campo das tecnologias, a inteligência
artificial, a robótica e a protética são, evidentemente, construções
pós-humanas.
[15]
“Ao absorver e digerir, dentro de si, essas [...] formas de cultura, a cultura
de massas tende a dissolver a polaridade entre o popular e o erudito, anulando
suas fronteiras. Disso resultam cruzamentos culturais em que o tradicional e o
moderno, o artesanal e o industrial mesclam-se em tecidos híbridos e voláteis
próprios das culturas urbanas” (SANTAELLA, 2003b, p.52)
[16]
Santuário (2005, p.185) coloca que: “Estamos entrando em uma era em que os
seres humanos poderão ser intencionalmente (choice) aperfeiçoados como
são as galinhas, com elevado QI, melhor aparência e maior longevidade. Isso
virá substituir a modalidade antiga de deixar a natureza seguir seu próprio
curso (chance)”.
[17]
Nosso tempo é um tempo de incertezas. Não há verdade-absoluta em nenhum
sentido, em nenhum lugar ou em área do conhecimento. O relativismo penetrou nos
diferentes meandros da educação, da cultura e da sociedade. Sob esta
perspectiva, Bauman acrescenta que vivemos uma modernidade líquida, que há uma
liquidez no viver, nas relações afetivas, nas relações sociais, nos conceitos.
[18]
Ainda que, em muitos casos, pensemos em termos de “mocinho” e “bandido”,
“corrupto” e “legal”, “educado” e “grosseiro”, essas relações
dominante-dominado são criadas e produzidas por um discurso midiático, que
procura encobrir o que poderíamos chamar de discurso capitalista, com o
intuito de fazer não-crer que a abolição da diferença acontece em todas as
redes, os meios e os extremos.
[19]
Zizek (2008, p.11) lembra que Lacan propôs “uma visão libidinal de nossas
sociedades capitalistas tardias ao falar da proliferação de sintomas, dos
tiques particulares e contingentes que dão corpo ao gozo e que estão mais bem
exemplificados pelos inúmeros aparelhos com os quais a tecnologia nos bombardeia
todos os dias. Na perversão generalizada do capitalismo tardio, a própria
transgressão é solicitada; somos bombardeados com aparelhos e formas sociais
que não apenas nos permitem viver com nossas perversões, mas também conjuram
diretamente novas perversões”
[20]
Vera Marta Reolon (2010) coloca que, se no início do século XX o que vigia era
a neurose, a contemporaneidade é caracterizada pela psicose e pela perversão.
[21]
A psicose, segundo Juranville (1987),
é um tipo de falência no que concerne à realização do “amor”. O psicótico quer
o gozo absoluto. Para ele, o desejo é violência, auto ou hetero-hostil (é assim
que ele interpreta). Ele não se desvincula do Outro, para não deixar que se
abra um espaço provocado por sua falta. Ou melhor, o Outro, não o desejando,
não se desvincula dele. Nele, o Real, o Simbólico e o Imaginário (na teoria
lacaneana) se confundem. Ele produz um outro “real” – a alucinação – e um outro
“simbólico” – o delírio – para acreditar-se sem falha, puro imaginário, total.
Os objetos do delírio não passam das faces objetais dele.
[22]
O perverso, para Juranville (1987),
dá-se apenas ao Outro simbólico. Todos os “outros”, inclusive o próprio
sujeito, são para esse Outro instrumentos de gozo. Para o perverso, o desejo é
pulsão. Nele, o Real se separa do Simbólico, mas é imaginarizado. Daí a
fantasia da plenitude. Nele, o fetiche é o desejo do Outro. E a violência
exercida sobre o outro é uma antecipação do fetiche. A perversão é a
transgressão da lei, da norma, da natureza. Nela, o inconsciente estaria a
descoberto. Aparece sob as formas: masoquismo, sadismo e narcisismo.
[23]
“A televisão não é, portanto, como se costuma afirmar, mero “reflexo do real”,
mas antes “real do reflexo”. Em termos mais claros: num espaço visualizado à
distância (telecomunicações), comandado à distância (telecomandos,
informática), com coordenadas de tempo e espaço alteradas (simultaneidade,
instantaneidade e globalidade dos acontecimentos), com uma produção ilimitada
de simulacros (reproduções ou duplicações do real), a técnica televisiva
apresenta-se com um aspecto real dessa ordem de reflexos ou simulacros” (SODRÉ,
1994, p.59).
[24] Expressão utilizada pela psicanalista Vera Marta Reolon
(2010).
[25]
“Desejo, imagem televisiva, imagem publicitária reencontram-se na afinidade de
remeterem sempre a um objeto fadado a não poder jamais satisfazer o sujeito, ou
seja, a um real que não se aprovará nunca. A imagem sob a forma de simulacro é
apenas um signo feérico e, como tal, deve gerar a sua própria ordem baseada
numa economia de frustração. Sua dinâmica de funcionamento consiste em não
poder jamais cumprir inteiramente aquilo que promete: no caso do vídeo, o real
indigitado; no caso da publicidade, o objeto anunciado, que não pode ser
definitivamente satisfatório, pois deve deixar margem ao desejo ininterrupto de
consumo”. (SODRÉ, 1994, p.61).
[26]
Cibercultura tem vários sentidos. Mas se pode entender por Cibercultura
a forma sociocultural que advém de uma relação de trocas entre a sociedade, a
cultura e as novas tecnologias de base microeletrônicas surgidas na década de
70, graças à convergência das telecomunicações com a informática. A
cibercultura é um termo utilizado para definir os agenciamentos sociais das
comunidades no espaço eletrônico virtual.
[27]
“O sujeito da cultura do narcisismo é tão 'socialmente determinado' quanto
qualquer outro, mas tem que se acreditar livre para tudo desejar e tudo
consumir. Esta fantasia de liberdade – o delírio da autonomia do homem moderno,
no dizer de Lacan – tem seu preço em culpabilidade. O sujeito da cultura do
narcisismo sente-se inteiramente responsável por suas escolhas e ignora que
está sendo 'escolhido' pelo discurso do Outro; sente-se culpado por não ser
capaz de obedecer ao imperativo do gozo desconhecendo que é impossível de se
cumprir” (KEHL, 1996, p.133).
[28]
“Do mesmo modo que Narciso, o personagem da mitologia grega, apaixonou-se por
sua própria imagem numa lagoa, os indivíduos do capitalismo contemporâneo
também precisam de um espelho em que possam recobrar o amor por sua própria imagem,
tão comprometido pelo esforço de continuar a gerar valores financeiros. É por
causa disso que Adorno diz que a cultura de massa como um todo é narcisista, pois ela vende a seus
consumidores a satisfação manipulada
de se sentirem representados nas telas do cinema e da televisão, nas músicas e
nos vários espetáculos” (FREITAS, 2003, p.19).
[29]
“A lógica do mesmo reiterada nos jogos de espelho sem fim” (DUFOURMANTELLE,
2003, p.112).
[30]
O termo surgiu em 1947, no livro Contraponto
cubano do açúcar e do tabaco, de Fernan Ortiz.
[31]
A diferenciação entre mistura (hybris)
e híbrido (hybrida) será fundamentada
a partir do §8, no Cap. 2, conforme
REOLON DE OLIVEIRA (2011).
[32]
Hybris é um termo grego que significa
o excesso, a desmedida e o ultraje. Traduz-se num comportamento de provocação
aos deuses e à ordem estabelecida. A hybris
revela um sentimento de arrogância, de soberba e de orgulho, que leva os heróis
da tragédia à insubmissão e à violação das leis dos deuses, da pólis (cidade), da família ou da
natureza.
[33] “Hoje encontramos no mercado uma série de
produtos desprovidos de suas propriedades malignas: café sem cafeína, creme de
leite sem gordura, cerveja sem álcool... E a lista não tem fim: o que dizer do
sexo virtual, o sexo sem sexo; [...] ou mesmo do multiculturalismo tolerante de
nossos dias, a experiência do Outro sem sua Alteridade (o Outro idealizado que
tem danças fascinantes e uma abordagem holística ecologicamente sadia da
realidade, enquanto práticas como o espancamento das mulheres ficam ocultas...)?
A Realidade Virtual simplesmente generaliza esse processo de oferecer um
produto esvaziado de sua substância: oferece a própria realidade esvaziada de
sua substância, do núcleo duro e resistente do Real [...] a Realidade virtual é
sentida como a realidade sem o ser. Mas o que acontece no final desse processo
de virtualização é que começamos a sentir a própria 'realidade real' como uma
entidade virtual. Para a grande maioria do público, as explosões do WTC
aconteceram na tela dos televisores [...]” (ZIZEK, 2003, p.24-25).
[34]
Demarco tal datação – anos 2000 – a partir do entendimento que a primeira
década do século XXI, especificamente o período pós-11 de setembro, apresenta
uma nova roupagem, uma descontinuidade, que produz novos modos de subjetivação,
advindas de um estado de exceção, como destacaria Giorgio Agamben (2004,
p.57): “Estar-fora e, ao mesmo, pertencer: tal é a estrutura
topológica do estado de exceção, e apenas porque o soberano que decide sobre a
exceção é, na realidade, logicamente definido por ela em seu ser, é que ele
pode também ser definido pelo exímoro êxtase-pertencimento”. Lembremos
de êxtase/extático e a relação fora-dentro: extático (do grego ekstatikós), que faz mudar de lugar;
êxtase: arrebatamento íntimo, enlevo, arroubo, encanto, que faz sair de si,
perturba o espírito, que se deixa mover.
[35]
“Fotografias, filmagens, imagens de TV, de vídeo e dos terminais de computador
assumem o papel de portadores de informação outrora desempenhado por textos
lineares. Não mais vivenciamos, conhecemos e valorizamos o mundo graças a
linhas escritas, mas agora graças a superfícies imaginadas. Como a estrutura da
mediação influi sobre a mensagem, há mutação na nossa vivência, nosso
conhecimento e nossos valores. O mundo não se apresenta mais como linha,
processo, acontecimento, mas enquanto plano, cena, contexto – como era o caso
na pré-história e como ainda é o caso para iletrados” (FLUSSER, 2008,
p.15).
[36]
“Representar es sustituir a un ausente, darle presencia y confirmar la
ausencia. Por una parte, trasparencia de la representación: ella se borra ante
lo que muestra. Gozo de su eficacia: es como si la cosa estuviera allí. Pero,
por otra parte, opacidad: la representación sólo se presenta a sí mesma, se
presenta representando a la cosa, la eclipsa y la suplanta, duplica su
ausencia. Decepción de haber dejado la presa por la sombra, o incluso júbilo
por haber ganado con el cambio: el arte supera a la naturaleza, la completa y
la realiza” (ENAUDEAU, 1999, p.27).
[37]
“O interessante do pensamento é que ele tem que produzir sempre novas
signficações porque não temos acesso direto ao Real – o tempo todo o Real nos
escapa, o tempo todo temos que re-simbolizar o Real e prosseguir com o
deslizamento do significante até produzir um novo significado” (KELH, 2004,
p.90).
[38]
“[...] eu questionaria se é possível existir uma sociedade que incite e demande
que tudo tenha expressão e visibilidade, em que todos sejam convocados a dizer
e mostrar tudo e que, ao mesmo tempo, não facilite as passagens ao ato” (KEHL,
2004, p. 92). Segundo a autora, estamos numa “cultura em que a nossa existência
psíquica depende de uma passagem ao ato, e de preferência de uma passagem ao
ato em público. Onde nós possamos também fazer do nosso corpo, imagem, e imagem
para o outro assistir e para o outro fruir. (KELH, 2004, p. 93).
[39]
“La imagen no posee la transparencia del signo, la claridad de la palabra, que
deja ver la cosa cuyo sentido capta. Por el contrario, la imagen, al duplicar
el objeto, lo aleja e incluso lo anula, lo convierte en una sensación pura en
la que desaparece el concepto, el objeto conocido” (ENAUDEAU, 1999, p. 47).
[40]
“Quando lemos imagens – de qualquer tipo sejam pintadas, esculpidas,
fotografadas, edificadas ou encenadas –, atribuímos a elas o caráter temporal
da narrativa. Ampliamos o que é limitado por uma moldura para um antes e um
depois e, por meio da arte de narrar histórias (sejam de amor ou de ódio),
conferimos à imagem imutável uma vida infinita e inesgotável” (MANGUEL, 2001,
p.27).
[41]
“Cada imagem apresentada proporciona ao espectador um microfragmento de gozo –
e a cada fragmento de gozo, o pensamento cessa [...] a produção imaginária
oferece continuamente representantes para a satisfação do desejo. Diante da TV
ligada, isto é, diante do fluxo contínuo de imagens que nos oferecem o puro
gozo, não é necessário pensar. ” (KELH, 2004, p.90-91).
[42] “[...] o que acontece agora é que processos de subjetivação e
processos de dessubjetivação parecem tornar-se reciprocamente indiferentes e
não dão lugar à recomposição de um novo sujeito, a não ser de forma larvar e,
por assim dizer, espectral. Na não-verdade do sujeito não há mais de modo algum
a sua verdade. Aquele que se deixa capturar no dispositivo “telefone celular”,
qualquer que seja a intensidade do desejo que o impulsionou, não adquire, por
isso, uma nova subjetividade, mas somente um número pelo qual pode ser,
eventualmente, controlado; o espectador que passa as suas noites na frente da
televisão recebe em troca da sua dessubjetivação apenas a máscara frustrante do
zappeur ou a inclusão no cálculo de um índice de audiência. Aqui se
mostra a futilidade daqueles discursos bem intencionados sobre a tecnologia,
que afirmam que o problema dos dispositivos se reduz àquele de seu uso correto.
Esses discursos parecem ignorar que, se a todo dispositivo corresponde um
determinado processo de subjetivação (ou, neste caso, de dessubjetivação), é
totalmente impossível que o sujeito do dispositivo o use “de modo correto”.
Aqueles que têm discursos similares são, de resto, o resultado do dispositivo
midiático no qual estão capturados”. (AGAMBEN, 2009, p.47-48).
[43]
Embora acompanhemos Kant ao formular que a natureza também é objeto da
Estética, enquanto estudo do Belo – e aqui sempre me recordo dos belíssimos
plátanos no outono –, adotamos a perspectiva de Hegel ao afirmar que a arte é o
objeto por excelência da Estética, uma vez criação do Espírito, produto
essencialmente humano.
[44] A hybrida
(híbrido) valoriza a Diferença, os diferenciais (talentos) individuais, para,
no coletivo, propiciar a troca, base do social. A hybris (mistura), por sua vez, aniquila a Diferença, busca a
mesmidade, num sentido de repetição. Logo, a hybris (mistura) é o fim do coletivo e do social.
[45]
“A brutalidade perante as coisas é potencialmente uma brutalidade para com os
homens” (ADORNO, 1993, p.260).
[46]
Saramago, em Ensaio sobre a cegueira,
parece ter explorado essa temática com um viés muito particular e, por isso,
assertivo: numa cultura da visão, a visão é civilizatória; a cegueira, então,
provoca um retorno ao primitivo e um comportamento regressivo, instintivo, onde
a sociedade desaparece.
[47]
Tão erroneamente interpretado, e mal compreendido, já que o dionisíaco implica
a alegria, o prazer, logo o não-Gozo, voltado ao Outro. Quando nos referimos ao
binômio dionisíaco-apolíneo, o fazemos a partir de Nietzsche, em O nascimento da tragédia no espírito da
música: “Dionísio fala a linguagem de Apolo, mas Apolo, ao fim, fala a
linguagem de Dionísio: com o que fica alcançada a meta suprema da tragédia e da
arte em geral” (NIETZSCHE, 1993, p. 130).
[48]
“Ela barra o acesso fácil da criança ao contato prazeroso com a mãe, exigindo
que a criança busque o prazer através de vias mais aceitáveis pela figura
paterna e/ou Outro materno (na medida em que é somente através da importância
que a mãe atribui ao pai que este pode desempenhar sua função). Nos termos
freudianos, o ordem simbólica é um correlato do princípio da realidade, que não
nega por completo os objetivos do princípio do prazer mas os canaliza para caminhos
socialmente estabelecidos”. (FINK, 1998, p.79).
[49]
“Como o Mercado ignora o Terceiro e pode propor apenas relações duais, isto é,
interações, ele não permite ao sujeito se fixar no que o ultrapassa. Ora, um
sujeito privado das questões impossíveis da origem e do fim é um sujeito
amputado da abertura para o Ser, ou seja, um sujeito impedido de ser plenamente
sujeito. A rede constitui, pois, uma espécie de grau zero da sociedade, já que
ela forclui toda relação com o ser” (DUFOUR, 2005, p.87). E, ainda: “O Mercado
tem objetivamente interesse na flexibilidade e na precarização das identidades.
O sonho atual do Mercado [...] é poder fornecer kits de todo gênero, inclusive
panóplias identitárias: discursos, imagens, modelos, próteses, produtos.
Idealmente, o Mercado é o que deve poder fornecer a qualquer um, em todos os
lugares e a todo instante, todos os produtos que são supostos corresponder aos
desejos, estranhamente compreendidos como desejos instantâneos e possíveis de
satisfazer sem demora” (DUFOUR, 2005, p.183).
[50]
Talvez, aqui, se trate de acolher: “A diferença entre identificar e acolher é
abismal. Na identificação, o eu é pólo de referência em torno do qual tudo
gira. No acolhimento, o outro é referido na sua alteridade, o eu o acolhe no
seu em-si. [...] acolher é relação melhor do que compreender [...] o mesmo,
abrindo-se na ordem do ser expansivo-identificador, se transcende e responde
para além de sua medida e liberdade, isto é, com infinda responsabilidade”
(PIVATTO, 2000, p. 90).
[51]
“Não se trata mais de constatar a ruptura entre e a linguagem e o mundo, o
homem e as coisas, a verdade e a realidade, mas de investigar a passagem, a
gênese da relação, o elemento que constitui a possibilidade da diferença na
identidade entre sensível e inteligível” (PAVIANI, 1991, p.119).
[52]
“A identidade na diferença é para Hölderlin a essência da beleza. Beleza
significa, para o poeta, naquela época, ser. Antes que se descobrisse que o
enigma do ser está no fato de ocultar em si mesmo a identidade e a diferença,
não havia filosofia. Ou ainda, o ser somente é ser porque é em si mesmo
identidade e diferença; a tarefa da filosofia é questionar o ser nesta
dimensão, porque dela brota sua própria possibilidade” (STEIN, 2006, p.11).
[53]
“O conhecimento é questionável, a verdade não. [...] [N’O Banquete], a verdade – o reino das idéias – é ilustrada como o
conteúdo essencial da beleza” (BENJAMIN, 2013b, p.18-19).
[54]
“Nós nos encontramos [...] num espaço anômico sem referências [...] no qual nem
todos os indivíduos se tornam necessariamente psicóticos, mas no qual as
solicitações para se o tornar são abundantes” (DUFOUR, 2005, p.60).
[55]
“Através da liberação de formas, linhas, cores e concepções estéticas, através
da mixagem de todas as culturas e de todos os estilos, nossa cultura produziu
uma estetização geral” (BAUDRILLARD, 1990, p.23).
[56]
“A vida é êxtase, como a escalada do Everest, sim, mas também é toda
indefinição, necessita de pequenas traduções e algumas mitificações”
(ALBUQUERQUE, 2009, p.74).
[57]
“O que se conserva, a coisa ou a obra de arte, é um bloco de sensações, isto é,
um composto de perceptos e afectos. Os perceptos não mais são percepções, são
independentes daqueles que os experimentam. [...] O artista cria blocos de
perceptos e afectos, mas a única lei da criação é que o composto deve ficar de
pé sozinho. O mais difícil.” (DELEUZE, 1992, p.213-214); “Composição, eis a
única definição da arte. A composição é estética, e o que não é composto não é
uma obra de arte” (p.247).
[58]
Aqui não me refiro, ainda, à Presença, tal como conceituada por Gumbrecht
(2010).
[59]
“A interação do universal e do particular, que se produz inconscientemente nas
obras de arte e que a estética tem de elevar à consciência, é a verdadeira
necessidade de uma concepção dialética de arte” (ADORNO, 1993, p.205).
[60]
As teorias da arte contemporânea introduzem a Interpretação como elemento
constituinte, fundamental da obra de arte. A obra, entretanto, independe da
Interpretação: ela é o que apresenta. Kant, no parágrafo 9 da Crítica da faculdade do juízo, afirma:
“É belo o que agrada universalmente sem conceito”. Denegar a Interpretação, no
entanto, não compactua com o sem-sentido. O sentido é condição para a coisa, o
artefato, elevar-se à obra de arte. Baudrillard destaca: “A arte é obrigada a
significar; nem sequer se pode suicidar no cotidiano” (s/d, p.118).
[61]
“A união dos dois tipos de força – a da inteligência ou da espiritualidade e a
da forma ou da perfeição técnica – é coisa rara, o que a história da arte
igualmente prova” (KANDINSKY, 1991, p.168).
[62]
“Se a estética se recusa a ser rigorosa, precisa e positiva, deixará de
existir” (HUISMAN, 1997, p.127).
[63]
“A possibilidade da diferença supõe algo comum. O absolutamente diferente não
tem a necessidade de ser diferenciado”. (PAVIANI, 1991, p.14).
[64]
“A identidade estética deve defender o não-idêntico que a compulsão à
identidade oprime na realidade.” (ADORNO, 1993, p. 15).
[65]
“A arte não se espiritualiza através das idéias que proclama, mas mediante o
elementar. É esta ausência de intenções que é capaz de em si receber o
espírito; a dialética de ambos é o conteúdo da verdade” (ADORNO, 1993, p.222).
[66]
“A arte em sua época de dissolução, como movimento negativo que prossegue a
superação da arte em uma sociedade histórica na qual a história ainda não foi
vivida, é ao mesmo tempo uma arte de mudança e a pura expressão da mudança
impossível. Quanto mais grandiosa for sua exigência, tanto mais sua verdadeira
realização estará além dela. Essa arte é forçosamente de vanguarda, e não existe.
Sua vanguarda é seu desaparecimento.” (DEBORD, 1997, p. 181).
[67]
Sobre a cibercultura, discorri em trabalhos anteriores (2008a, 2008b).
[68]
“A arte degrada-se mais que o seu conceito e, quando não atinge essa
transcendência, perde o seu caráter de arte”. (ADORNO, 1993, p.96).
[69]
“Só é verdadeiro o que tem um sentido [...] o real [...] não tem sentido algum”
(LACAN, 2007, p.112).
[70]
Cf. FERREIRA et al, 1995; LIPOVETSKY,
2004b.
[71]
Nesse momento cultural, em que o “making off” é mais importante que o produto
final, atrelado à ânsia por conhecer o mundo das celebridades.
[72]
“[à realidade da sociedade do espetáculo] só lhe é permitido aparecer naquilo
que ela não é” (DEBORD, 1997, p. 18).
[73]
“A arte só é interpretável pela lei de seu movimento, não por invariantes.
Determina-se na relação com o que ela não é. O caráter artístico específico que
nela existe deve deduzir-se, quanto ao conteúdo, do seu Outro; apenas isso
bastaria para qualquer exigência de uma estética materialista dialética.
(ADORNO, 1993, p.13)
[74]
Um dos casos mais emblemáticos é a tela de Marcel Duchamp, intitulada L.H.O.O.Q. Duchamp utilizou-se da
pintura consagrada de Leonardo Da Vinci, Monalisa, e, acrescentando um bigode,
se apropriou não apenas do quadro, mas da consagração deste e do artista. Ética
zero, grau negativo de arte.
[75]
“Estamos, pois lidando com uma dessimbolização [...] é no espaço vacante
deixado por essa queda atual dos ideais do eu e do supereu em sua face
simbólica que se entranha o Mercado” (DUFOUR, 2005, p.106-7).
[76]
“o estilo da indústria cultural, que não tem mais de se afirmar sobre a
resistência do material, é, ao mesmo tempo, a negação do estilo [...] A
indústria cultural absolutiza a imitação” (ADORNO, 1985, p. 178-179).
[77]
“A arte retrata a sociedade em que o artista está inserido, a cultura em que
vive, os sentimentos que possui e que deseja passar, mas, primordialmente, a
arte retrata sua época, ou deveria retratar, mostra e demonstra uma história, a
história do artista (e a estória que conta em sua obra) e a história social”
(REOLON, 2008, p.74).
[78]
“A obra que nega rigorosamente o sentido está obrigada à mesma coerência e
unidade, que outrora devia presentificar o sentido. [...] Tudo depende de se o
sentido é inerente à negação do sentido na obra de arte ou se tal negação se
adapta às contingências; de se a crise de sentido está refletida na obra ou se
ela permanece imediata e, por isso, estranha ao sujeito” (ADORNO, 1993, p.176).
[79]
“O que se mostra no limiar entre ser e não-ser, entre sensível e inteligível,
entre palavra e coisa, não é o abismo incolor do nada, mas a espiral luminosa
do possível. Poder significa: nem atribuir, nem negar” (AGAMBEN, apud Bartleby, ou da contingência)
[80]
“[...] enquanto o particular e o universal divergirem, não há liberdade”
(ADORNO, 1993, p.56)
[81]
“A partir dos Tempos Modernos, a filosofia teve de dar adeus à metafísica, à
verdade, ao Ser, à ciência, às grandes ideologias, às utopias da modernidade;
ao homem também, que ela entregou ao cuidado das ciências humanas. Mas ela
nunca pôde, de fato, cortar os laços com a arte. Ferramenta pedagógica,
argumento teológico, instrumento de propaganda, cópia da natureza, aparência
inofensiva, reflexo da realidade, projeção de fantasmas, paixão narcisista,
objeto de prazer, meio de conhecimento, a arte sempre foi o brinquedo da
filosofia. A filosofia, todavia, leva a sério tal brinquedo, talvez com secreta
inveja do artista, capaz de apreender com um gesto, com uma cor, com um simples
acorde o que os discursos e os conceitos nunca conseguem realmente expressar. A
arte revela-se assim como a questão essencial da filosofia. [...] E é por essa
razão que o filósofo da arte não pode, sob pena de ele mesmo desaparecer,
acreditar seriamente em uma morte da arte” (JIMENEZ, 1999, p.390-391).
[82]
“Entre todos os problemas da criação artística, o que mais imperiosamente
requer – e até para o próprio artista, acreditamos – uma solução teórica, é o
do estilo. [...] o artista, com efeito, conceberá o estilo como o fruto de uma
escolha racional, de uma escolha ética, de uma escolha arbitrária, ou então
ainda de uma necessidade sentida cuja espontaneidade se impõe contra qualquer
controle, ou mesmo que é conveniente liberá-la por uma ascese negativa” (LACAN,
1987, p.375).
[83]
“Não existe emergência de sentido que não alivie o peso da presença”
(GUMBRECHT, 2010, p.117).
[84]
“A dança não é a sombra. Ela não é mimese. A dança é o acontecimento do corpo.”
(TIBURI; ROCHA, 2012, p.15).
[85]
“A arte combate a reificação fazendo falar, cantar e talvez dançar a palavra
petrificada” (MARCUSE, 1977, p.79).
[86]
“A dança é fraca (pouco potente) quando não é contemporânea de seu próprio
gesto” (TIBURI; ROCHA, 2012, p.69).
[87]
“O encontro com a verdade da arte acontece na linguagem e imagem
distanciadoras, que tornam perceptível, visível e audível o que já não é ou
ainda não é percebido, dito e ouvido na vida diária” (MARCUSE, 1977, p.78).
[88]
Lacan (2007, p.16), ao dissertar sobre James Joyce: “Como ele tinha o pau um
pouco mole, se assim posso dizer, foi sua arte que supriu sua firmeza fálica. E
é sempre assim. O falo é a conjunção do que chamei de ‘esse parasita’, ou seja,
o pedacinho de pau em questão, com a função da fala. E é nisso que sua arte é o
verdadeiro fiador de seu falo”.
[89]
“A dança sempre é o ato próprio da alegria, não apenas a sua potência, como é a
escrita” (TIBURI; ROCHA, 2012, p.30)
[90]
“Minha letra é feita de dança” (TIBURI; ROCHA, 2012, p.131).
[91]
“o artifício se integra no jogo de aproximação e ruptura que constituem a dança
originária. [...] a Palavra não começa, a não ser com a passagem do artifício à
ordem do significante[...] Outro, reconhecido como lugar da Palavra, impõem-se
igualmente como testemunha da Verdade” (LACAN, 1992, p.290)
[92]
“Pode haver dança sem que a danseidade ali compareça. Assim como pode haver
danseidade em uma obra que não seja (reconhecida como) ‘de dança’, um Jackson
Pollock, por exemplo” (TIBURI; ROCHA, 2012, p.151).
[93]
“O sentido é relativo às formas simbólicas não-discursivas que são as chamadas
sínteses primordiais. [...] Aqui não há saber sobre o objeto, há um viver o
objeto. [...] Nesse plano, não há presentação, mas a presentificação de
concepções emocionais, ou seja, a vivência” (FONSECA, 1993, p.55).
[94] “O êxtase de Santa Teresa”
(1645-52), mármore, 350cm de altura, Santa Maria della Vittoria, Roma, Itália.
[95] “basta que vocês vão olhar em
Roma a estátua de Bernini para compreenderem logo que ela está gozando, não há
dúvida. E do que é que ela goza? É claro que o testemunho essencial dos
místicos é justamente o de dizer que eles o experimentam, mas não sabem nada dele.
[...] Esse gozo que se experimenta e do qual não se sabe nada, não é ele o que
nos coloca na via da ex-sistência?” (LACAN, 1985, p.103).

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.