VERA MARTA REOLON
Pesquisa apresentada no Departamento de Psicanálise e
Psicopatologia, do Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio
Grande do Sul ,ao Departamento de Ensino e Currículo da Faculdade de Educação e
ao Departamento de Psicologia do Desenvolvimento e da Personalidade, ,do
Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, sub-área Desenvolvimento Psicossocial,
Vulnerabilidade e Intervenção Comunitária ao Departamento de Psicologia
Social e Institucional ,do Instituto de Psicologia. e também no Departamento de
Ciências Administrativas, da Escola de Administração da mesma Universidade.
PORTO
ALEGRE – RS
2016/2017
RESUMO
Buscar um referencial teórico que
responda a questionamentos culturais, sociais e antropológicos sobre o homem
utilizar complementos para viver como ser-no-mundo, a partir da clínica
psicanalítica. Investigar se o uso de entorpecentes é individual ou resultado
de questões sociais que impulsionam o sujeito à utilização de substâncias
psicoativas. Analisar as estruturas clínicas vinculadas ao uso dessas
substâncias. Investigar as relações entre as fraturas com a Lei e a dependência
química, e a religião/espiritualidade, estabelecendo vinculações entre as
estruturas clínicas nas toxicomanias e a sociedade. Como objetivos: investigar
as questões com a Lei Paterna e o uso de substâncias químicas. Relacionar os
sistemas culturais e sociais vinculados às adicções; buscar pressupostos
individuais e familiares, talvez sociais, que elucidem a necessária busca de um
complemento/droga. Problema-chave: a dependência química é produzida por uma
estrutura clínica singular?
Os possíveis aprendizados com a clínica das toxicomanias.
A partir de referencial bibliográfico da clínica psicanalítica
(Calligaris, Melman, Magno, Santiago e outros) e a da prática clínica, depreendemos
que vivemos um ambiente social de características toxicômanas. A manipulação de
dados, a corrupção na política, as instituições que já não conseguem se manter
e responder às necessidades da sociedade, a família em desestruturação (não
somente sob o prisma da tradição, de sua constituição, mas uma família sem
valores morais que a sustentem, que mantenha seus membros unidos), mentiras,
objetivação do outro, uso dos animais, dos seres vivos, como se objetos fossem,
objetivação da vida como droga. Estas são características utilizadas pelos
dependentes químicos em sua relação com as drogas, que eles repetem, mesmo que
“recuperados”, a partir de grupos de entre-ajuda, de amor-exigente, de AA, com
suas famílias, com suas namoradas, com suas esposas, com seus maridos, com seus
filhos, com os objetos que detém, com as pessoas que se relacionam, no
trabalho, ..., na vida. Assim, compreender o que podemos abstrair da clínica
com as toxicomanias, com o intuito de teorizar sobre e propiciar trabalhos com
a violência, com políticas públicas, com redução de danos (não só pessoais, mas
no nível coletivo, na saúde, na assistência social, no trabalho, nas relações,
nas instituições, etc.) torna-se imprescindível para que a sociedade ainda
possa pensar em viver em coletividade.
Muitas são as questões que permeiam o ambiente dos que trabalham com a
dependência química, mas não só estes, como toda a sociedade busca reduzir os
danos causados pelo uso indiscriminado de drogas e álcool. A violência
decorrente do uso extrapola o ambiente familiar das toxicomanias, abarca toda a
sociedade quando a segurança pública já não consegue dar conta da violência
social, do aumento da mendicância nas ruas (os abrigos sociais não os atendem,
pois para ficar naquele ambiente têm de abandonar o vício, o que não fazem,
preferem permanecer nas ruas), mesmo os que estão empregados, as empresas não
conseguem responder a processos que demandam atendimentos especializados e
políticas mais abrangentes. Nas famílias, sabe-se que um dependente químico
influencia outro (ou outros) membro da mesma para o vício.
O que fazer? As respostas só conseguem ser respondidas se tivermos um
caminho seguro por onde transitar que venha de dentro do ambiente. Respostas
que tenhamos obtido na observação (mas não só), na escuta das toxicomanias, do
dependente, de suas famílias, de seu entorno.
Penso que a clínica psicológica, com uma escuta do ego, visando mudar comportamentos
não responde suficientemente, pois o dependente químico para de usar droga, mas
segue com suas atitudes “dependentes” em todas suas relações. Creio que apenas
pensando em uma estrutura clínica das toxicomanias e tratamentos que propiciem
uma abordagem mais profunda das problemáticas (algumas distintas e singulares,
é claro, como toda subjetividade, mas outras coletivamente semelhantes)
chegaremos a alguma possibilidade de realmente reduzir danos coletivos e
individuais, quiçá pensarmos em possibilidade de “cura” (palavra proibida no
meio, já que os tratamentos existentes “pensam” em um dia por vez e curas
impossíveis).
Problema de pesquisa
Pode-se pensar em uma estrutura
clínica específica nas toxicomanias? E se existe(m) tal estrutura(s), qual(is)
seria(m) ela(s)?
Objetivos
1. Objetivo geral
Buscar, através
da escuta na clínica das toxicomanias, observar e teorizar se há uma estrutura
clínica específica que responda pela
singularização da problemática da dependência química e, se existe tal
estrutura, ou mais de uma, como seria sua manifestação e possibilidades de
entendimento e atendimento com vistas a reduzir danos individuais e coletivos
do uso abusivo de drogas.
2. Objetivos específicos
Escutar a
clínica das toxicomanias, documentá-la como especificidade estrutural, com o
fim de buscar respostas a indagações de toda uma coletividade que já não
consegue lidar com a imensa gama de drogas existentes e de sintomáticas que
forjam seres “zumbicos” nos ambientes sociais e familiares.
Delimitar a
clínica das toxicomanias sob o prisma da psicanálise.
Descrever e
analisar sintomáticas e procedimentos dos dependentes com vistas a obter uma
direção de cura nas toxicomanias.
Referencial teórico
Vivemos um momento particular no
social, quando percebe-se afrouxamentos com a lei, nas estradas está
determinado um limite de velocidade que sempre é ultrapassado e só é seguido se
temo pela multa que me será infligida caso seja “pega”; quando não devo usar o
celular ao dirigir e uso, mesmo arriscando minha vida e a de outrem; quando
marcamos determinada hora com alguém que nunca é cumprida; quando busca-se, e
até ensina-se (o que é pior!) aos filhos, o “jeitinho” para sair ganhando. Se
alguém “ganha” é porque outro “perde”,
isso é um “jogo”. Quando vivemos a lei, vivemos o respeito ao outro, assim
todos ganham, pois todos têm o limite que é imposto pela existência do outro.
Este social impregnado de tentativas de tirar vantagens pessoais a
qualquer custo (e muitas vezes não são tentativas!) faz-nos pensar em uma
estrutura social particular, diferenciada, algo como nomeia Contardo Calligaris
de “estrutura social toxicômana”, a partir de Melman (1992).
Não basta que um grande número de indivíduos em uma
comunidade seja atingido por algo para que isso se transforme em sintoma social
[...] mas pode-se falar em sintoma social a partir do momento em que a
toxicomania é, de certo modo, inscrita, mesmo que seja nas entrelinhas [...] no
discurso que é o discurso dominante de uma sociedade em uma época dada. (MELMAN
apud CALLIGARIS, 1992, p.9).
Não é por acaso que vivemos, neste nosso mundo globalizado, o flagelo das
drogas de forma exacerbada. As drogas evidenciam uma forma particular de
transgressão, a transgressão à lei paterna, pois a marca paterna presente no sujeito
é uma marca de respeito à lei familiar, à lei social, à lei do Desejo. Não o
desejo, como ele se apresenta na linguagem popular, mas o Desejo que nos
constitui como sujeitos, de crescer, não só externamente, de tamanho, mas de
crescer em seu ser, progredir, conhecer-se e conhecer o mundo, fazer sua diferença.
Nestes tempos, junto à transgressão às leis interna e social, observamos
momentos de uma violência ímpar, que difere muito da violência das guerras
primitivas. É uma violência que se faz por vezes silenciosa, coercitiva,
escravagista, fingindo-se de libertadora. Vemos, então, crimes bárbaros, que
nos chocam pela frieza, pela falta de afeto, pelo distanciamento do humano.
Penso que muito temos a estudar sobre estes fatos, mas urgente se faz
conscientizar da necessidade de mudanças, de uma busca de passagem de
inscrições significantes na geração dos filhos, de cuidados primordiais para a
estruturação destas crianças, para que sejam adultos melhores.
Diz-se das drogas que elas são um flagelo social. Flagelo pela degradação
que ocasionam nos usuários e suas famílias e flagelo pela violência que
desencadeiam, pois para ter acesso às drogas muitos precisam praticar roubos,
assaltos, destruição e morte. Estuda-se muito e quanto mais se avança nas teorias
existentes, ao aliá-las a uma prática, percebe-se que muito há ainda a estudar
para que possamos de fato causar algum efeito realmente eficaz e duradouro.
Algo tem se evidenciado ao tratar usuários de drogas: problemas com a “lei”.
Não somente a lei jurídica, a lei constitucional, mas percebe-se algo mais profundo, anterior, o que se
constata é que nesta facção social os pontos de convergência têm a ver com o
enfraquecimento da lei estrutural, da marca primeira que é a do “Nome do Pai” –
significante básico e necessário para qualquer atendimento às normas, condutas
e leis sociais. Trabalhar com a
recuperação na drogadição implica necessariamente fazer valer esta inscrição,
quer fortificando-a (quando existente ou enfraquecida), quer buscando
“costurá-la” a uma estrutura psíquica parcializada. Nisso percebe-se grandes
avanços trabalhando a espiritualidade destes “doentes”, trazendo a figura de
Deus como um Pai amoroso e disciplinador (que tem leis para ser cumpridas).
Para que sejamos marcados como
desejantes, tenhamos “voz plena de valor”, precisamos da marca primordial de
instituição narcísica, que denominamos Amor do Outro. Outro este que faz para
nós um papel materno, de mãe instituidora da marca amorosa que levaremos em
nossas vidas. Sem esta marca inicial não somos considerados estruturalmente
sujeitos, donos de uma identidade, estaremos sempre presos a alguém que nos
deve conduzir pela vida, pois esta marca é primordial, necessária em nossa
frenética luta pela libertação. Com a marca podemos nos libertar e seguir. Sem
a marca estamos presos ao desejo do Outro, às suas imposições: “Freud via nos
primórdios da experiência psíquica uma identificação primária que consistiria
na ‘transferência direta e imediata’ do ego em formação para o “pai da
pré-história individual”, o qual possuiria as características sexuais de pai e
mãe e seria um conglomerado de suas funções.” (KRISTEVA, 1987, p.36). Lacan,
estudioso e tradutor dos textos freudianos na França, amplia e sustenta o
pensamento freudiano a partir da filosofia, da arte, da cultura, e da clínica,
substituindo, inclusive, o termo pênis,
utilizado por Freud e abrangendo mais, a partir da idéia de falo:
[...] se a palavra pênis fica reservada ao membro
real, a palavra falo, derivada do latim, designa esse órgão mais no sentido
simbólico [...] o adjetivo “fálico” ocupa um grande lugar na teoria freudiana
da libido única (de essência masculina), na doutrina da sexualidade feminina e
da diferença sexual e, por fim, na concepção dos diferentes estádios [...] o falo
é um atributo divino [...] Lacan faz do falo o próprio significante do desejo.
(ROUDINESCO; PLON, 1998, p.221).
Antígona (que vai contra a lei moral
e segue a sua ética, o seu desejo), representada nas obras de Sófocles, é portadora
de Desejo. Desejo enquanto marca instituidora de diferença, enquanto
singularidade do sujeito. Desejo que provém do amor transmitido pelo Outro, que
é energia vital, pulsão de vida. Platão, em O
Banquete, nos fala de Eros, enquanto amor, desejo, vida. É Platão que
melhor retrata e descreve, na literatura e na filosofia, o amor, enquanto
instituidor de desejo, instituidor de busca, instituidor de diferença:
Por que começar com uma leitura
deste texto platônico? Em primeiro lugar, porque toda a filosofia está contida,
em potência, em Platão. Tanto aquela que pertence à grande história da
metafísica ocidental como aquela que procurou inverter ou desconstruir o
platonismo. Mas nem todo o Platão está na filosofia. Ele a excede pelo recurso
aos mitos, à encenação de um carnaval literário e aos efeitos dialógicos de
escrita. Em segundo lugar, por se tratar de um texto fundador para a concepção
ocidental do amor, sempre de novo resgatado e comentado, de Plotino ou Marsílio
Ficino a Freud ou Lacan. (DUMOULIÉ, 2005, p.15).
Como podemos entender e interpretar a ética, a partir da filosofia, desde
a antiguidade até a pós-modernidade? Para a psicanálise, o que é Desejo? Pensar
a teoria psicanalítica e a psicanálise, enquanto psicoterapia, a partir da
ética é essencial quando nos remetemos à pós-modernidade, período caracterizado
pela perversão e pela psicose. Lacan (1998), em seu Seminário 7, já esboçava a ética
da psicanálise, e seu axioma. “Não ceder de seu desejo”:
O que faz com que possa haver desejo humano, que esse
campo exista é a suposição de que tudo o que ocorre de real é contabilizado em
algum lugar. Kant pôde reduzir a essência do campo moral à sua pureza, mas em
seu ponto central resta que é preciso haver, a certa altura, lugar para a
contabilização. [...] É na medida em que o sujeito se situa e se constitui em
relação ao significante, que nele se produz essa ruptura, essa divisão, essa
ambivalência em cujo nível se situa a tensão do desejo. (LACAN, 1991, p.380)
Este estudo busca analisar também, como apêndice, a obra O Anti-Édipo: Capitalismo e Esquizofrenia
(1966), de Gilles Deleuze e Felix Guattari, com o objetivo de refletir sobre a
questão do desejo, tendo em mente que a psicanálise centra seus estudos e sua
teoria no Complexo de Édipo. Se a cultura humana é calcada, formada, na
interdição do incesto originada no mito edípico, de Sófocles, como pensar a
cultura, o desejo e o homem a partir do Anti-Édipo deleuziano?
Com a psicanálise, há uma desconstrução lingüística do sujeito, para que
ele se “ache”, se compreenda efetivamente, enquanto estrutura psíquica. Desta
forma, é necessário, importante e relevante, investigar como Derrida
desconstrói a psicanálise, especialmente na e com a obra Estados-da-alma da psicanálise (2001), para que cheguemos a uma
nova concepção de sociedade-sujeito desejante:
Quem sofre e se lamenta? Quem sofre do quê? Qual a
queixa da psicanálise? Que livro de condolências abre ela? Quem assina? O que é
que não marcha a bom passo de acordo com as marcações prevalentes de seu
discurso, de sua prática, de sua hipotética ou virtual comunidade, de suas
inscrições institucionais, de suas relações com o que se chamava, outrora,
sociedade civil e Estado, na perturbação de sua sociologia, e se maneira
diferente em cada país, na mutação que afeta a figura dos pacientes e dos
praticantes, na transformação da demanda, da cena e do que ainda ontem de
chamava “situação analítica” – sobre a qual eu me lembro de ter falado, há
decênios, de sua precariedade e artificialidade histórica? (DERRIDA, 2001,
p.15)
A psicanálise, como teoria interpretativa da realidade, como
“hermenêutica”, serve para analisar os fenômenos, no campo individual, através
das manifestações do inconsciente, presentes na linguagem dos diversos
sujeitos, nos chistes, na interpretação dos sonhos, etc. Pode, entretanto,
interpretar os fenômenos sociais, através da análise das manifestações da
sociedade, das organizações e instituições, dos grupos sociais. O desejo que
nos constitui é o nosso diferencial ético perante o mundo. Buscando-o nos
diferenciamos dos demais, nos tornamos únicos: “[...] o desejo seria o único
‘universal ético’ de que dispomos; e a novidade da prática revolucionária de
Freud consistiu em colocar essa questão trágica no centro de nosso pensamento
ético, prometendo-nos algo novo nas possibilidades de nossos almores”.(RAJCHMAN,
1993, p.98).
O desejo, que nos estrutura como seres humanos e nos induz à busca da
vida no decorrer de nossa existência, nos é “transmitido” no desejo do Outro,
desejo daquele que um dia nos desejou (antes de nossa geração, por nossos pais)
e que, mais tarde, nos “olhou” com um Olhar de possibilidades para viver e ser
feliz. Esse desejo inicial, estrutural, lançado pelo Outro, é o que
denominamos, em psicanálise, amor, amor de estrutura. Juranville (1987) faz uma
diferenciação das estruturas neurose, psicose e perversão, no que concerne ao
desejo e ao amor de estrutura:
O psicótico não dá, não quer a relação com o Outro,
que suporia que ele entrasse na castração. “A psicose”, diz Lacan, “é uma
espécie de falência no que concerne à realização do que é chamado ‘amor’”.
Nela, o sujeito quer o gozo absoluto, o que ele efetivamente conhece ao nível
de seu corpo. Daí seu narcisismo. [...] [Na perversão] dá-se apenas ao Outro
simbólico, essencialmente ausente do mundo. Todos os “outros” humanos,
inclusive o próprio sujeito, são para esse Outro instrumentos de gozo. [...] O
neurótico precisa, pois, de um simbólico suplementar, ou seja, do sintoma, onde
o desejo se mantém como recalcado. (JURANVILLE, 1987, p.363-365).
Em termos topológicos, a partir do
nó borromeano proposto por Lacan, Juranville elabora as três estruturas dessa
forma:
Amar é ver no outro o desejo por mim que me constitui. Mas é um engodo,
porque o que efetivamente vejo é, na verdade, reflexo do meu desejo pelo outro.
Sócrates, na voz de Platão, em O Banquete,
usando Diotima como interlocutora, diz que amar é desejar o que ainda não se
tem, o de que se é carente, o que se quer conservar consigo. Amor é amor de
algo. Amar é o desejo do que é bom e de ser feliz, é o desejo da imortalidade.
Diferentemente
de Platão, que concebe o amor como movimento, pulsão, vida, desejo de algo,
busca por algo, Schopenhauer encontrou o a
priori manifestando-se na Vontade. Como coloca Dumoulié (2005), o nosso conhecimento se acha
encerrado no mundo dos fenômenos, portanto de representação, mas nós temos a
intuição imediata através do nosso corpo, da essência íntima do seres e do
mundo. Para Schopenhauer, que sofreu influências de Platão e Kant, o mundo é
fenômeno, é representação. A Vontade estaria em um mundo de idéias – platônico
-, num mundo idealizado, superior, inalcançável, que pode apenas ser
simbolizado. A Vontade, entretanto, não é externa, para Schopenhauer, ela está
em nós:
A coisa em si, que não podemos
conhecer do lado de fora, nós a alcançamos diretamente por dentro, pois ela
está em nós. Esta Vontade, da qual a vontade humana é apenas uma manifestação,
é um princípio metafísico, sustentáculo de tudo aquilo que é. [...] A expressão
“coisa em si” deve ser entendida da maneira mais concreta, como uma Coisa
toda-poderosa que habita em cada um de nós, que nos faz viver e nos vai
devorando ao mesmo tempo. Por essência é um desejo bruto, cego e insaciável.
(DUMOULIÉ, 2005,p.101).
Schopenhauer coloca que, se o desejo
nasce da carência, sua origem é um sofrimento. Tanto na origem como no fim,
segundo Schopenhauer, o desejo é sempre sofrimento; e como ele é a própria
essência da existência, “o sofrimento é o fundo de toda a vida”.
Schopenhauer se apresenta como o
primeiro filósofo que abordou o tema do amor até então abandonado pelos poetas.
Somente Platão, antes dele, teria abordado essa questão. A base da “metafísica
do amor”, de Schopenhauer é “física”. Como precursor da psicanálise, ele coloca
que toda paixão tem sua raiz no instinto sexual ou é um instinto sexual
individualizado: “Aquilo que acreditamos ser o nosso desejo é somente a
manifestação da Coisa em si, infinita, cega, e que não visa outra coisa a não
ser a perpetuação da Vontade pela procriação das espécies” (DUMOULIÉ, 2005,
p.103).
Para Lacan, o desejo é o desejo do
Outro. Não sei nada de meu desejo, a não ser o que o Outro me revela. Assim, o
objeto do desejo é o objeto do desejo do Outro. Através do Olhar do Outro é que
o meu desejo se constitui. É através deste Olhar que me constituo, enquanto
sujeito. J.-D. Nasio coloca que “uma definição correlata do desejo nos é dada:
o desejo é, acima de tudo, uma seqüela dessa constituição do eu no Outro”(1995,
p.267), realizada no Estádio do Espelho.
Lacan nos opôs uma filosofia do desejo a uma biologia
das paixões, mas utilizou um discurso filosófico para conceituar a visão
freudiana, que julgou insuficiente. Assim, estabeleceu um elo entre o desejo
baseado no reconhecimento (ou desejo do desejo do outro) e o desejo
inconsciente [...] Através da idéia hegeliana de reconhecimento, Lacan
introduziu, entre 1953 e 1957, um terceiro termo, ao qual deu o nome de
demanda. Esta é endereçada a outrem e, aparentemente, incide sobre um objeto.
Mas esse objeto é inessencial, porquanto a demanda é demanda de amor. [...] A
necessidade, de natureza biológica, satisfaz-se com um objeto real (o
alimento), ao passo que o desejo [...] nasce da distância entre a demanda e a
necessidade. (ROUDINESCO; PLON, 1998, p.147).
Assim, parece-me que ética e desejo
entram em conflito quando pensamos em pós-modernidade e em tempos das
estruturas: perversão e psicose. Jacques Derrida (2001), da mesma forma, em Estados-da-alma da psicanálise, aponta
para a existência de uma dupla resistência em curso: uma, do mundo à
psicanálise e outra, da psicanálise a ela mesma bem como ao mundo, ou seja, da
psicanálise para a psicanálise como ser-no-mundo. Derrida detecta, na
psicanálise, uma crise. Uma crise em relação ao papel, ao lugar do
analista.
Derrida afirma que o caráter da
sessão analítica seria revolucionário. O que critica, entretanto, é que a
psicanálise se coloca numa posição superior ao analisando, adotando uma postura
intelectualizada, que pretende “normatizar” o sujeito, ao invés de transformar
suas pulsões, no sentido do desejo.
O pensador nos coloca acerca da
psicanálise:
A psicanálise, acho eu, ainda não empreendeu e,
portanto, ainda menos conseguiu pensar, penetrar e mudar os axiomas da ética,
do jurídico e da política, notadamente nos lugares sísmicos onde tremula o
fantasma teológico da soberania e onde se produzem os mais traumáticos
acontecimentos geopolíticos, digamos ainda, confusamente, os mais cruéis destes
tempos. [...] É sobretudo aí que o conceito de crueldade [...] na psicanálise e
fora dela, pede análises indispensáveis para as quais deveríamos nos voltar.
[...] A psicanálise é indelével, sua revolução é irreversível – e, no entanto,
como civilização, ela é mortal. (DERRIDA, 2001)
Derrida, então, questiona se há relação entre
psicanálise e ética, direito e política. E responde que a psicanálise, em si,
não produz, nem causa, nenhuma ética, direito ou política, mas trata-se de responsabilidade,
nesses três domínios, de levar em conta o saber psicanalítico. Se a psicanálise
não produz, nem causa nenhuma ética, que relação há entre analista-analisando?
Como se estrutura o encontro entre o psicanalista e o paciente? A transferência
não se configura a partir de uma ética pré-estabelecida entre ambos?
Se a psicanálise não leva em conta essa mutação, se
não se engaja nisso, se não se transforma nesse ritmo, ela será – e já o é, em
larga medida – deportada, ultrapassada, deixada à beira da estrada, exposta a
todas as derivas, a todas as apropriações, a todas as amputações; ou, então,
inversamente, ela continuará enraizada nas condições de uma época que foi
aquela do seu nascimento, ainda afásica em seu berço centro-europeu. (DERRIDA,
2001, p.20).
Tais questionamentos, juntamente com
outros, que virão durante o percurso da pesquisa, serão respondidos, ou ao
menos elucidados, desmembrados em outros. Ao final deste trabalho, que
provavelmente permanecerá inacabado, sempre em construção, pretendo contribuir
para uma possível reformulação de idéias e teorias, que permaneceram estanques
durante o percurso da psicanálise, desde sua origem no final do século XIX até
a pós-modernidade.
Metodologia
a) Revisão bibliográfica da
literatura comparada entre as principais correntes contemporâneas de ética
aplicada, das toxicomanias, da clínica psicanalítica, especialmente da clínica
freudo-lacaniana.
b) Sistematização das análises
clínicas realizadas no campo das dependências químicas a partir da escuta
clínica dos toxicômanos e de suas famílias, em trabalho realizado com estes, em
Comunidades Terapêuticas e Instituições de atendimento a dependentes químicos.
c) Confronto qualitativo dos itens a e b.
d) Elaboração teórico-conceitual dos resultados e possível aplicação
destes conceitos na prática psicanalítica e nas políticas públicas, vinculadas
à ética aplicada e à clínica das toxicomanias.
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