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quinta-feira, 25 de junho de 2020

HISTÓRIAS DA CLÍNICA POSSÍVEIS APRENDIZADOS A PARTIR DAS TOXICOMANIAS

VERA MARTA REOLON
Pesquisa apresentada no Departamento de Psicanálise e Psicopatologia, do Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul ,ao Departamento de Ensino e Currículo da Faculdade de Educação e ao Departamento de Psicologia do Desenvolvimento e da Personalidade, ,do Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, sub-área Desenvolvimento Psicossocial, Vulnerabilidade e Intervenção Comunitária ao Departamento de Psicologia Social e Institucional ,do Instituto de Psicologia. e também no Departamento de Ciências Administrativas, da Escola de Administração da mesma Universidade.


PORTO ALEGRE – RS
2016/2017


RESUMO
Buscar um referencial teórico que responda a questionamentos culturais, sociais e antropológicos sobre o homem utilizar complementos para viver como ser-no-mundo, a partir da clínica psicanalítica. Investigar se o uso de entorpecentes é individual ou resultado de questões sociais que impulsionam o sujeito à utilização de substâncias psicoativas. Analisar as estruturas clínicas vinculadas ao uso dessas substâncias. Investigar as relações entre as fraturas com a Lei e a dependência química, e a religião/espiritualidade, estabelecendo vinculações entre as estruturas clínicas nas toxicomanias e a sociedade. Como objetivos: investigar as questões com a Lei Paterna e o uso de substâncias químicas. Relacionar os sistemas culturais e sociais vinculados às adicções; buscar pressupostos individuais e familiares, talvez sociais, que elucidem a necessária busca de um complemento/droga. Problema-chave: a dependência química é produzida por uma estrutura clínica singular?  

Os possíveis aprendizados com a clínica das toxicomanias.

A partir de referencial bibliográfico da clínica psicanalítica (Calligaris, Melman, Magno, Santiago e outros) e a da prática clínica, depreendemos que vivemos um ambiente social de características toxicômanas. A manipulação de dados, a corrupção na política, as instituições que já não conseguem se manter e responder às necessidades da sociedade, a família em desestruturação (não somente sob o prisma da tradição, de sua constituição, mas uma família sem valores morais que a sustentem, que mantenha seus membros unidos), mentiras, objetivação do outro, uso dos animais, dos seres vivos, como se objetos fossem, objetivação da vida como droga. Estas são características utilizadas pelos dependentes químicos em sua relação com as drogas, que eles repetem, mesmo que “recuperados”, a partir de grupos de entre-ajuda, de amor-exigente, de AA, com suas famílias, com suas namoradas, com suas esposas, com seus maridos, com seus filhos, com os objetos que detém, com as pessoas que se relacionam, no trabalho, ..., na vida. Assim, compreender o que podemos abstrair da clínica com as toxicomanias, com o intuito de teorizar sobre e propiciar trabalhos com a violência, com políticas públicas, com redução de danos (não só pessoais, mas no nível coletivo, na saúde, na assistência social, no trabalho, nas relações, nas instituições, etc.) torna-se imprescindível para que a sociedade ainda possa pensar em viver em coletividade.
Muitas são as questões que permeiam o ambiente dos que trabalham com a dependência química, mas não só estes, como toda a sociedade busca reduzir os danos causados pelo uso indiscriminado de drogas e álcool. A violência decorrente do uso extrapola o ambiente familiar das toxicomanias, abarca toda a sociedade quando a segurança pública já não consegue dar conta da violência social, do aumento da mendicância nas ruas (os abrigos sociais não os atendem, pois para ficar naquele ambiente têm de abandonar o vício, o que não fazem, preferem permanecer nas ruas), mesmo os que estão empregados, as empresas não conseguem responder a processos que demandam atendimentos especializados e políticas mais abrangentes. Nas famílias, sabe-se que um dependente químico influencia outro (ou outros) membro da mesma para o vício.
O que fazer? As respostas só conseguem ser respondidas se tivermos um caminho seguro por onde transitar que venha de dentro do ambiente. Respostas que tenhamos obtido na observação (mas não só), na escuta das toxicomanias, do dependente, de suas famílias, de seu entorno.
Penso que a clínica psicológica, com uma escuta do ego, visando mudar comportamentos não responde suficientemente, pois o dependente químico para de usar droga, mas segue com suas atitudes “dependentes” em todas suas relações. Creio que apenas pensando em uma estrutura clínica das toxicomanias e tratamentos que propiciem uma abordagem mais profunda das problemáticas (algumas distintas e singulares, é claro, como toda subjetividade, mas outras coletivamente semelhantes) chegaremos a alguma possibilidade de realmente reduzir danos coletivos e individuais, quiçá pensarmos em possibilidade de “cura” (palavra proibida no meio, já que os tratamentos existentes “pensam” em um dia por vez e curas impossíveis).

Problema de pesquisa
            Pode-se pensar em uma estrutura clínica específica nas toxicomanias? E se existe(m) tal estrutura(s), qual(is) seria(m) ela(s)?

Objetivos
1. Objetivo geral
Buscar, através da escuta na clínica das toxicomanias, observar e teorizar se há uma estrutura clínica específica  que responda pela singularização da problemática da dependência química e, se existe tal estrutura, ou mais de uma, como seria sua manifestação e possibilidades de entendimento e atendimento com vistas a reduzir danos individuais e coletivos do uso abusivo de drogas.          

2. Objetivos específicos
Escutar a clínica das toxicomanias, documentá-la como especificidade estrutural, com o fim de buscar respostas a indagações de toda uma coletividade que já não consegue lidar com a imensa gama de drogas existentes e de sintomáticas que forjam seres “zumbicos” nos ambientes sociais e familiares.
Delimitar a clínica das toxicomanias sob o prisma da psicanálise.
Descrever e analisar sintomáticas e procedimentos dos dependentes com vistas a obter uma direção de cura nas toxicomanias.

Referencial teórico
Vivemos um momento particular no social, quando percebe-se afrouxamentos com a lei, nas estradas está determinado um limite de velocidade que sempre é ultrapassado e só é seguido se temo pela multa que me será infligida caso seja “pega”; quando não devo usar o celular ao dirigir e uso, mesmo arriscando minha vida e a de outrem; quando marcamos determinada hora com alguém que nunca é cumprida; quando busca-se, e até ensina-se (o que é pior!) aos filhos, o “jeitinho” para sair ganhando. Se alguém  “ganha” é porque outro “perde”, isso é um “jogo”. Quando vivemos a lei, vivemos o respeito ao outro, assim todos ganham, pois todos têm o limite que é imposto pela existência do outro.
Este social impregnado de tentativas de tirar vantagens pessoais a qualquer custo (e muitas vezes não são tentativas!) faz-nos pensar em uma estrutura social particular, diferenciada, algo como nomeia Contardo Calligaris de “estrutura social toxicômana”, a partir de Melman (1992).

Não basta que um grande número de indivíduos em uma comunidade seja atingido por algo para que isso se transforme em sintoma social [...] mas pode-se falar em sintoma social a partir do momento em que a toxicomania é, de certo modo, inscrita, mesmo que seja nas entrelinhas [...] no discurso que é o discurso dominante de uma sociedade em uma época dada. (MELMAN apud CALLIGARIS, 1992, p.9).

Não é por acaso que vivemos, neste nosso mundo globalizado, o flagelo das drogas de forma exacerbada. As drogas evidenciam uma forma particular de transgressão, a transgressão à lei paterna, pois a marca paterna presente no sujeito é uma marca de respeito à lei familiar, à lei social, à lei do Desejo. Não o desejo, como ele se apresenta na linguagem popular, mas o Desejo que nos constitui como sujeitos, de crescer, não só externamente, de tamanho, mas de crescer em seu ser, progredir, conhecer-se e conhecer o mundo, fazer sua diferença.
Nestes tempos, junto à transgressão às leis interna e social, observamos momentos de uma violência ímpar, que difere muito da violência das guerras primitivas. É uma violência que se faz por vezes silenciosa, coercitiva, escravagista, fingindo-se de libertadora. Vemos, então, crimes bárbaros, que nos chocam pela frieza, pela falta de afeto, pelo distanciamento do humano.
Penso que muito temos a estudar sobre estes fatos, mas urgente se faz conscientizar da necessidade de mudanças, de uma busca de passagem de inscrições significantes na geração dos filhos, de cuidados primordiais para a estruturação destas crianças, para que sejam adultos melhores.
Diz-se das drogas que elas são um flagelo social. Flagelo pela degradação que ocasionam nos usuários e suas famílias e flagelo pela violência que desencadeiam, pois para ter acesso às drogas muitos precisam praticar roubos, assaltos, destruição e morte. Estuda-se muito e quanto mais se avança nas teorias existentes, ao aliá-las a uma prática, percebe-se que muito há ainda a estudar para que possamos de fato causar algum efeito realmente eficaz e duradouro. Algo tem se evidenciado ao tratar usuários de drogas: problemas com a “lei”. Não somente a lei jurídica, a lei constitucional, mas percebe-se  algo mais profundo, anterior, o que se constata é que nesta facção social os pontos de convergência têm a ver com o enfraquecimento da lei estrutural, da marca primeira que é a do “Nome do Pai” – significante básico e necessário para qualquer atendimento às normas, condutas e leis sociais.      Trabalhar com a recuperação na drogadição implica necessariamente fazer valer esta inscrição, quer fortificando-a (quando existente ou enfraquecida), quer buscando “costurá-la” a uma estrutura psíquica parcializada. Nisso percebe-se grandes avanços trabalhando a espiritualidade destes “doentes”, trazendo a figura de Deus como um Pai amoroso e disciplinador (que tem leis para ser cumpridas).
Para que sejamos marcados como desejantes, tenhamos “voz plena de valor”, precisamos da marca primordial de instituição narcísica, que denominamos Amor do Outro. Outro este que faz para nós um papel materno, de mãe instituidora da marca amorosa que levaremos em nossas vidas. Sem esta marca inicial não somos considerados estruturalmente sujeitos, donos de uma identidade, estaremos sempre presos a alguém que nos deve conduzir pela vida, pois esta marca é primordial, necessária em nossa frenética luta pela libertação. Com a marca podemos nos libertar e seguir. Sem a marca estamos presos ao desejo do Outro, às suas imposições: “Freud via nos primórdios da experiência psíquica uma identificação primária que consistiria na ‘transferência direta e imediata’ do ego em formação para o “pai da pré-história individual”, o qual possuiria as características sexuais de pai e mãe e seria um conglomerado de suas funções.” (KRISTEVA, 1987, p.36). Lacan, estudioso e tradutor dos textos freudianos na França, amplia e sustenta o pensamento freudiano a partir da filosofia, da arte, da cultura, e da clínica, substituindo, inclusive, o termo pênis, utilizado por Freud e abrangendo mais, a partir da idéia de falo

[...] se a palavra pênis fica reservada ao membro real, a palavra falo, derivada do latim, designa esse órgão mais no sentido simbólico [...] o adjetivo “fálico” ocupa um grande lugar na teoria freudiana da libido única (de essência masculina), na doutrina da sexualidade feminina e da diferença sexual e, por fim, na concepção dos diferentes estádios [...] o falo é um atributo divino [...] Lacan faz do falo o próprio significante do desejo. (ROUDINESCO; PLON, 1998, p.221).

                Antígona (que vai contra a lei moral e segue a sua ética, o seu desejo), representada nas obras de Sófocles, é portadora de Desejo. Desejo enquanto marca instituidora de diferença, enquanto singularidade do sujeito. Desejo que provém do amor transmitido pelo Outro, que é energia vital, pulsão de vida. Platão, em O Banquete, nos fala de Eros, enquanto amor, desejo, vida. É Platão que melhor retrata e descreve, na literatura e na filosofia, o amor, enquanto instituidor de desejo, instituidor de busca, instituidor de diferença:

Por que começar com uma leitura deste texto platônico? Em primeiro lugar, porque toda a filosofia está contida, em potência, em Platão. Tanto aquela que pertence à grande história da metafísica ocidental como aquela que procurou inverter ou desconstruir o platonismo. Mas nem todo o Platão está na filosofia. Ele a excede pelo recurso aos mitos, à encenação de um carnaval literário e aos efeitos dialógicos de escrita. Em segundo lugar, por se tratar de um texto fundador para a concepção ocidental do amor, sempre de novo resgatado e comentado, de Plotino ou Marsílio Ficino a Freud ou Lacan. (DUMOULIÉ, 2005, p.15).

Como podemos entender e interpretar a ética, a partir da filosofia, desde a antiguidade até a pós-modernidade? Para a psicanálise, o que é Desejo? Pensar a teoria psicanalítica e a psicanálise, enquanto psicoterapia, a partir da ética é essencial quando nos remetemos à pós-modernidade, período caracterizado pela perversão e pela psicose. Lacan (1998), em seu Seminário 7, já esboçava a ética da psicanálise, e seu axioma. “Não ceder de seu desejo”:

O que faz com que possa haver desejo humano, que esse campo exista é a suposição de que tudo o que ocorre de real é contabilizado em algum lugar. Kant pôde reduzir a essência do campo moral à sua pureza, mas em seu ponto central resta que é preciso haver, a certa altura, lugar para a contabilização. [...] É na medida em que o sujeito se situa e se constitui em relação ao significante, que nele se produz essa ruptura, essa divisão, essa ambivalência em cujo nível se situa a tensão do desejo. (LACAN, 1991, p.380)

Este estudo busca analisar também, como apêndice, a obra O Anti-Édipo: Capitalismo e Esquizofrenia (1966), de Gilles Deleuze e Felix Guattari, com o objetivo de refletir sobre a questão do desejo, tendo em mente que a psicanálise centra seus estudos e sua teoria no Complexo de Édipo. Se a cultura humana é calcada, formada, na interdição do incesto originada no mito edípico, de Sófocles, como pensar a cultura, o desejo e o homem a partir do Anti-Édipo deleuziano?
Com a psicanálise, há uma desconstrução lingüística do sujeito, para que ele se “ache”, se compreenda efetivamente, enquanto estrutura psíquica. Desta forma, é necessário, importante e relevante, investigar como Derrida desconstrói a psicanálise, especialmente na e com a obra Estados-da-alma da psicanálise (2001), para que cheguemos a uma nova concepção de sociedade-sujeito desejante:
Quem sofre e se lamenta? Quem sofre do quê? Qual a queixa da psicanálise? Que livro de condolências abre ela? Quem assina? O que é que não marcha a bom passo de acordo com as marcações prevalentes de seu discurso, de sua prática, de sua hipotética ou virtual comunidade, de suas inscrições institucionais, de suas relações com o que se chamava, outrora, sociedade civil e Estado, na perturbação de sua sociologia, e se maneira diferente em cada país, na mutação que afeta a figura dos pacientes e dos praticantes, na transformação da demanda, da cena e do que ainda ontem de chamava “situação analítica” – sobre a qual eu me lembro de ter falado, há decênios, de sua precariedade e artificialidade histórica? (DERRIDA, 2001, p.15)
 
A psicanálise, como teoria interpretativa da realidade, como “hermenêutica”, serve para analisar os fenômenos, no campo individual, através das manifestações do inconsciente, presentes na linguagem dos diversos sujeitos, nos chistes, na interpretação dos sonhos, etc. Pode, entretanto, interpretar os fenômenos sociais, através da análise das manifestações da sociedade, das organizações e instituições, dos grupos sociais. O desejo que nos constitui é o nosso diferencial ético perante o mundo. Buscando-o nos diferenciamos dos demais, nos tornamos únicos: “[...] o desejo seria o único ‘universal ético’ de que dispomos; e a novidade da prática revolucionária de Freud consistiu em colocar essa questão trágica no centro de nosso pensamento ético, prometendo-nos algo novo nas possibilidades de nossos almores”.(RAJCHMAN, 1993, p.98).     
O desejo, que nos estrutura como seres humanos e nos induz à busca da vida no decorrer de nossa existência, nos é “transmitido” no desejo do Outro, desejo daquele que um dia nos desejou (antes de nossa geração, por nossos pais) e que, mais tarde, nos “olhou” com um Olhar de possibilidades para viver e ser feliz. Esse desejo inicial, estrutural, lançado pelo Outro, é o que denominamos, em psicanálise, amor, amor de estrutura. Juranville (1987) faz uma diferenciação das estruturas neurose, psicose e perversão, no que concerne ao desejo e ao amor de estrutura:

O psicótico não dá, não quer a relação com o Outro, que suporia que ele entrasse na castração. “A psicose”, diz Lacan, “é uma espécie de falência no que concerne à realização do que é chamado ‘amor’”. Nela, o sujeito quer o gozo absoluto, o que ele efetivamente conhece ao nível de seu corpo. Daí seu narcisismo. [...] [Na perversão] dá-se apenas ao Outro simbólico, essencialmente ausente do mundo. Todos os “outros” humanos, inclusive o próprio sujeito, são para esse Outro instrumentos de gozo. [...] O neurótico precisa, pois, de um simbólico suplementar, ou seja, do sintoma, onde o desejo se mantém como recalcado. (JURANVILLE, 1987, p.363-365).

            Em termos topológicos, a partir do nó borromeano proposto por Lacan, Juranville elabora as três estruturas dessa forma: 


           
Amar é ver no outro o desejo por mim que me constitui. Mas é um engodo, porque o que efetivamente vejo é, na verdade, reflexo do meu desejo pelo outro. Sócrates, na voz de Platão, em O Banquete, usando Diotima como interlocutora, diz que amar é desejar o que ainda não se tem, o de que se é carente, o que se quer conservar consigo. Amor é amor de algo. Amar é o desejo do que é bom e de ser feliz, é o desejo da imortalidade.
            Diferentemente de Platão, que concebe o amor como movimento, pulsão, vida, desejo de algo, busca por algo, Schopenhauer encontrou o a priori manifestando-se na Vontade. Como coloca  Dumoulié (2005), o nosso conhecimento se acha encerrado no mundo dos fenômenos, portanto de representação, mas nós temos a intuição imediata através do nosso corpo, da essência íntima do seres e do mundo. Para Schopenhauer, que sofreu influências de Platão e Kant, o mundo é fenômeno, é representação. A Vontade estaria em um mundo de idéias – platônico -, num mundo idealizado, superior, inalcançável, que pode apenas ser simbolizado. A Vontade, entretanto, não é externa, para Schopenhauer, ela está em nós:

A coisa em si, que não podemos conhecer do lado de fora, nós a alcançamos diretamente por dentro, pois ela está em nós. Esta Vontade, da qual a vontade humana é apenas uma manifestação, é um princípio metafísico, sustentáculo de tudo aquilo que é. [...] A expressão “coisa em si” deve ser entendida da maneira mais concreta, como uma Coisa toda-poderosa que habita em cada um de nós, que nos faz viver e nos vai devorando ao mesmo tempo. Por essência é um desejo bruto, cego e insaciável. (DUMOULIÉ, 2005,p.101).

           
Schopenhauer coloca que, se o desejo nasce da carência, sua origem é um sofrimento. Tanto na origem como no fim, segundo Schopenhauer, o desejo é sempre sofrimento; e como ele é a própria essência da existência, “o sofrimento é o fundo de toda a vida”.
Schopenhauer se apresenta como o primeiro filósofo que abordou o tema do amor até então abandonado pelos poetas. Somente Platão, antes dele, teria abordado essa questão. A base da “metafísica do amor”, de Schopenhauer é “física”. Como precursor da psicanálise, ele coloca que toda paixão tem sua raiz no instinto sexual ou é um instinto sexual individualizado: “Aquilo que acreditamos ser o nosso desejo é somente a manifestação da Coisa em si, infinita, cega, e que não visa outra coisa a não ser a perpetuação da Vontade pela procriação das espécies” (DUMOULIÉ, 2005, p.103).           
            Para Lacan, o desejo é o desejo do Outro. Não sei nada de meu desejo, a não ser o que o Outro me revela. Assim, o objeto do desejo é o objeto do desejo do Outro. Através do Olhar do Outro é que o meu desejo se constitui. É através deste Olhar que me constituo, enquanto sujeito. J.-D. Nasio coloca que “uma definição correlata do desejo nos é dada: o desejo é, acima de tudo, uma seqüela dessa constituição do eu no Outro”(1995, p.267), realizada no Estádio do Espelho. 

Lacan nos opôs uma filosofia do desejo a uma biologia das paixões, mas utilizou um discurso filosófico para conceituar a visão freudiana, que julgou insuficiente. Assim, estabeleceu um elo entre o desejo baseado no reconhecimento (ou desejo do desejo do outro) e o desejo inconsciente [...] Através da idéia hegeliana de reconhecimento, Lacan introduziu, entre 1953 e 1957, um terceiro termo, ao qual deu o nome de demanda. Esta é endereçada a outrem e, aparentemente, incide sobre um objeto. Mas esse objeto é inessencial, porquanto a demanda é demanda de amor. [...] A necessidade, de natureza biológica, satisfaz-se com um objeto real (o alimento), ao passo que o desejo [...] nasce da distância entre a demanda e a necessidade. (ROUDINESCO; PLON, 1998, p.147).

            Assim, parece-me que ética e desejo entram em conflito quando pensamos em pós-modernidade e em tempos das estruturas: perversão e psicose. Jacques Derrida (2001), da mesma forma, em Estados-da-alma da psicanálise, aponta para a existência de uma dupla resistência em curso: uma, do mundo à psicanálise e outra, da psicanálise a ela mesma bem como ao mundo, ou seja, da psicanálise para a psicanálise como ser-no-mundo. Derrida detecta, na psicanálise, uma crise. Uma crise em relação ao papel, ao lugar do analista. 
            Derrida afirma que o caráter da sessão analítica seria revolucionário. O que critica, entretanto, é que a psicanálise se coloca numa posição superior ao analisando, adotando uma postura intelectualizada, que pretende “normatizar” o sujeito, ao invés de transformar suas pulsões, no sentido do desejo. 
            O pensador nos coloca acerca da psicanálise:

A psicanálise, acho eu, ainda não empreendeu e, portanto, ainda menos conseguiu pensar, penetrar e mudar os axiomas da ética, do jurídico e da política, notadamente nos lugares sísmicos onde tremula o fantasma teológico da soberania e onde se produzem os mais traumáticos acontecimentos geopolíticos, digamos ainda, confusamente, os mais cruéis destes tempos. [...] É sobretudo aí que o conceito de crueldade [...] na psicanálise e fora dela, pede análises indispensáveis para as quais deveríamos nos voltar. [...] A psicanálise é indelével, sua revolução é irreversível – e, no entanto, como civilização, ela é mortal. (DERRIDA, 2001)

             Derrida, então, questiona se há relação entre psicanálise e ética, direito e política. E responde que a psicanálise, em si, não produz, nem causa, nenhuma ética, direito ou política, mas trata-se de responsabilidade, nesses três domínios, de levar em conta o saber psicanalítico. Se a psicanálise não produz, nem causa nenhuma ética, que relação há entre analista-analisando? Como se estrutura o encontro entre o psicanalista e o paciente? A transferência não se configura a partir de uma ética pré-estabelecida entre ambos? 
Se a psicanálise não leva em conta essa mutação, se não se engaja nisso, se não se transforma nesse ritmo, ela será – e já o é, em larga medida – deportada, ultrapassada, deixada à beira da estrada, exposta a todas as derivas, a todas as apropriações, a todas as amputações; ou, então, inversamente, ela continuará enraizada nas condições de uma época que foi aquela do seu nascimento, ainda afásica em seu berço centro-europeu. (DERRIDA, 2001, p.20).

            Tais questionamentos, juntamente com outros, que virão durante o percurso da pesquisa, serão respondidos, ou ao menos elucidados, desmembrados em outros. Ao final deste trabalho, que provavelmente permanecerá inacabado, sempre em construção, pretendo contribuir para uma possível reformulação de idéias e teorias, que permaneceram estanques durante o percurso da psicanálise, desde sua origem no final do século XIX até a pós-modernidade.            
             
Metodologia
            a) Revisão bibliográfica da literatura comparada entre as principais correntes contemporâneas de ética aplicada, das toxicomanias, da clínica psicanalítica, especialmente da clínica freudo-lacaniana.
            b) Sistematização das análises clínicas realizadas no campo das dependências químicas a partir da escuta clínica dos toxicômanos e de suas famílias, em trabalho realizado com estes, em Comunidades Terapêuticas e Instituições de atendimento a dependentes químicos.
            c) Confronto qualitativo dos itens a e b.
d) Elaboração teórico-conceitual dos resultados e possível aplicação destes conceitos na prática psicanalítica e nas políticas públicas, vinculadas à ética aplicada e à clínica das toxicomanias.  


Referências
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BIRMAN, Joel. Mal-estar na atualidade: a psicanálise e as novas formas de subjetivação. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005.
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DERRIDA, Jacques. Estados-da-alma da psicanálise. São Paulo: Escuta, 2001.
DUMOULIÉ, Camille. O desejo. Petrópolis: Vozes, 2005.
FERREIRA, Nadiá Paulo; et al. Tóxicos e manias: o mal-estar na contemporaneidade. Rio de Janeiro: UERJ, 1995.
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MELMAN, Charles. Alcoolismo, delinqüência, toxicomania: uma outra forma de gozar. São Paulo: Escuta, 1992.
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NASIO, J.D. Introdução às obras de Freud, Ferenczi, Groddeck, Klein, Winnicott, Dolto, Lacan. Rio de Janeiro: Zahar, 1995.
NOGUEIRA FILHO, Durval Mazzei. Toxicomania. São Paulo: Escuta, 1999.
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RAJCHMAN, Jonh. Eros e Verdade – Lacan, Foucault e a questão da ética. Rio de Janeiro: Zahar, 1993.
RINALDI, Doris. A ética da diferença: um debate entre psicanálise e antropologia. Rio de Janeiro: Zahar, 1996.
ROUDINESCO, Elisabeth. A família em desordem. Rio de Janeiro: Zahar, 2002.
_______. Filósofos na tormenta. Rio de Janeiro: Zahar, 2007.
_______; PLON, Michel. Dicionário de psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.
SANTIAGO, Jésus. A droga do toxicômano: uma parceira cínica na era da ciência. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.
SCHOPENHAUER, Arthur. O mundo como vontade e representação. Rio de Janeiro: Contraponto, 2004.

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