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"UMA FOTO É UM SEGREDO SOBRE UM SEGREDO.

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"EM TEMPOS DE M E N T I R A UNIVERSAL,

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George Orwel

quinta-feira, 25 de junho de 2020

“FANTASMATA” – ENTRE MOVIMENTOS: A EDUCAÇÃO EM DANÇA E AS DEMANDAS CONTEMPORÂNEAS

VERA MARTA REOLON

Pesquisa apresentada à Área: Dança – Subárea: Estudos sócio-histórico-culturais em Dança vinculada a ESEFID – Escola de Educação Física, Fisioterapia  e Dança..

PORTO ALEGRE – RS
2015

OBJETIVOS
1.Objetivo Geral
Investigar como a arte-educação em dança pode contribuir para aprimorar elementos e processos do próprio fazer dança, e em que o “fantasmata” se insere neste contexto e como ele acontece.

2.Objetivos específicos
Identificar o “fantasmata” (se é que é possível!) do “entre” movimentos, no “processo” do dançar. Qual o lugar deste “fantasmata” – em que ele favorece (se o faz) o fazer dança. Esse não-ser sendo altera os princípios do dançar e se faz como se daria?
Identificar o TEMPO em Dança. Como seria, como ele se daria, em que influencia o dançar?. Existe TEMPO, ou poder-se-ia dizer que podemos dançar sem tempo – alguém já o fez, historicamente falando (HISTÓRIA É TEMPO!), alguém já tentou, alguém já o conseguiu?
Identificar e analisar em quê estes estudos, o dançar e seus processos facilitam o aprendizado nas diferentes aberturas educativas e mesmo nos próprios processos artístico-estético-culturais, seu aprimoramento e avanços .
Identificar e sistematizar (se possível!) em que a Dança contribui para o “cuidado de si” conforme proposto por Michel Foucault.

PROBLEMA
A essência da dança não é o movimento, mas o TEMPO. “Fantasmas” vigem entre o movimento e o seu cessar. Este não movimento que é movimento é que é essencial à dança. Aquilo que a torna intocável, o que ela é e não é (sendo!), o pleno do ser e o vazio do ser, potência e impotência, ato e não ato.
O que é isso? Que tipo de vazio é? É vazio? De que tempo se fala? O tempo relógio? O tempo marcado, o tempo medido? Se não, que tipo de tempo é?
Qual a essência da música? Música é essencial à Dança?
Dança é arte? – Parece não haver dúvidas com relação a esta premissa básica, mas porque razão as escolas não consideram a dança como parte de um grande processo educativo, que vise a uma educação ampla?
Como implementar uma nova formulação em dança na Academia que vise profissionais professores, licenciandos marcados com a arte da dança, mas a arte de ENSINAR DANÇA?
Como seria ensinar dança e aprender mais sobre a ARTE  da dança?
Como ver a dança – arte e aprofundar seus conceitos e elementos?

A partir da LDB 9694/96, as aulas de Educação Artística deveriam trazer a arte – linguagem-dança para seus currículos, alunos e professores como agentes de suas próprias práticas, através de Projetos Interdisciplinares via Tema Gerador.
Isto basta para ver a dança como uma arte importante nos processos de aprendizagem?. Digo, que ela, a dança seja “inserida” nas escolas via tema gerador e, especificamente, como LEI, para que ela seja absorvida pela população escolar como ARTE? Como arte necessária? .
A dança como um tema transversal e não como um campo de importância fundamental no desenvolvimento de processos cognitivos superiores de movimento, equilíbrio, técnica, desenvoltura, postura, trabalho do corpo – não apenas nos movimentos contemporâneos de uma busca de corpos perfeitos, mas em uma busca de saúde global, à semelhança do mundo grego em que a ética no viver não se desvinculava da estética, dos cuidados da saúde corporal, do bem viver, da arte no e do  viver.
Ter um professor em Dança, em Licenciatura em Dança (que é muito diferente, ser um professor de dança e um professor de licenciandos em dança!) que tenha conhecimentos interdisciplinares, das diversas subjetividades e necessidades de estudo de abordagens dessas subjetividades é primordial para atingir objetivos que todos nós criticamos quando falamos da arte da dança, da arte da dança como necessidade de conhecimento em arte, em estética, desde a escola, não apenas como mero auxiliar nas diferentes educações artísticas, mas como desenvolvimento de habilidades superiores, inclusive de avaliações culturais e sobre a cultura, de desenvolvimento de uma cultura dita ampla, que não se detenha em fragmentos, mas vá em direção de uma EDUCAÇÃO, em seu mais amplo sentido.
Abordar e ampliar as noções do CUIDADO DE SI, como conhecimento de si, como busca de uma cultura ampla, de educação, de saúde, de arte de si, parece ser primordial para atingir o que os gregos acreditavam ser a ÉTICA, centro de ethos existencial.
Implementar estas idéias nos aprendizados em dança, na formação de licenciandos engajados em um novo olhar sobre a vida, sobre a arte, sobre o viver com arte, me parece fundamental para que a relevância da dança na escola ganhe ares de uma verdadeira interdisciplinaridade, quiçá transdisciplinaridade. Discorrer sobre a diferença de ambos os conceitos também parece importante para a Academia do hoje!. 
Os estudos do movimento, o mover-se e o seu cessar (que também é movimento) estão intimamente ligados a todo um fazer em dança, quando não são o próprio dançar. Que o digam todos os grandes coreógrafos em dança moderna e contemporânea, Isadora Duncan, Marta Graham, Merce Cunninghan, Pina Bausch, entre outros. Mas não só os de Dança Moderna e Contemporânea, mas todos os bailarinos.
Os estudos do movimento requerem um “observador” atrelado a saberes múltiplos, que implicam conhecimentos em física, matemática, corpo, biologia, inconsciente, história, sociologia, filosofia, psicanálise, saberes que nem sempre estão envolvidos em um mesmo fragmento de escola, em um mesmo fragmento e segmento dentro da academia. Inclui passagens, caminhos que já foram e devem ser traçados por observador interessado em movimentos inter e transdisciplinares.
É relevante e justificado que se avance em direção a novos estudos em dança, uma arte milenar, mas ainda envolvida em véus de ignorância quanto a seus pressupostos.

TEORIA OU QUADRO TEÓRICO

     A psicanálise, como teoria interpretativa da realidade, serve para analisar os fenômenos, no campo individual, através das manifestações do inconsciente, presentes na linguagem dos diversos sujeitos, nos chistes, na interpretação dos sonhos, etc. Pode, entretanto, interpretar os fenômenos sociais, através da análise das manifestações da sociedade, das organizações e instituições, dos grupos sociais. Aliando-se a filosofia, essencial para seu desenvolvimento deste o início, a psicanálise, além de realizar interpretações, reflete sobre os fatos, utilizando-se das teorias dos grandes pensadores.
Partindo-se, assim, da escrita desconstrutiva de Derrida, o discurso psicanalítico é o que pode dar conta das questões contemporâneas: “Se há um discurso que poderia, hoje em dia, reinvindicar a causa da crueldade psíquica como assunto próprio, este é o que se chama, de mais ou menos um século para cá, psicanálise” (DERRIDA, 2001, p.8-9).
 Lanço uma hipótese de que os processos educativos é que podem propiciar uma resposta às grandes questões contemporâneas. Pode a educação fazer frente a essas questões? Pode ela isentar-se disso? Como educar sem fazer essa passagem?
Nunca, em nenhuma outra época de nossa história, esteve o homem tão só em meio à multidão. Os ideais que o sustentavam caíram, a felicidade não depende mais da harmonia de vínculos sociais, mas de objetos adquiridos e ofertados incessantemente pela mídia e os instrumentos gerais do marketing. Há uma oferta de gozo total. A foraclusão da Lei da vida é paga com dízimos. O sujeito é transformado, através do seu assassinato, em objeto submisso do gozo do Outro. Não há nada mais psicotizante do que isso. Nas doenças da modernidade, anorexia, bulimia, toxicomanias, o que se tem são sombras que o mundo das luzes não ilumina. A modernidade nos oferece um mundo iluminado pelos outdoors plenos de ofertas, luzes de néon, que não chegam a iluminar a necessária busca do homem e de si mesmo. Nosso eu, quem sou, para onde vou, o que desejo (?), não há resposta. A oferta que temos é de pulsão de morte em todo tempo. O mercado demanda ofertas onde o consumidor precisa e não vive sem a mercadoria. Este é o modelo de paradigma que abarca as toxicomanias, é causa e conseqüência delas. O que vem antes, um mundo que facilita as toxicomanias, ou elas originam o mundo? Não sabemos, devemos pensar sobre isso. As doenças modernas remetem à morte do sujeito, uma segunda morte que vem antes da primeira (interrupção da vida), pois esta segunda é a morte do sujeito no Simbólico.
Michel Foucault em seus Seminários sobre o Governo de Si e dos Outros e sobre a Hermenêutica do Sujeito aborda e discorre sobre o cuidado de si, como uma questão ampla de uma busca de saúde que vai de encontro com o conhecimento de si, com o saber de seu corpo, com o saber de suas necessidades, de seus desejos, com vistas a uma ampla busca de felicidade, não mais como uma busca utópica, subjetiva, inalcançável (talvez como ideal demais!) mas, através desse conhecimento de si, uma felicidade possível, palpável, vivenciável: “A filosofia está assimilada ao cuidado com a alma (o termo é precisamente médico: hugiainein), e esse cuidado é uma tarefa que deve ser seguida ao longo de toda a vida”. (FOUCAULT, 1997, p.120).

Hermenêutica de si => epimeléia  heautou (grego) – cura sui (latim) – princípio de ocupar-se de si => cuidar de si mesmo => conhecer a si mesmo => obscurecido pelo brilho do Gnôthi seauton. (FOUCAULT, 1997,p.119).

A psicanálise, especialmente a lacaneana, quando aborda a Lógica do Fantasma, conceito importante que estabelece a diferença entre fantasia – de cunho vinculado à neurose, estruturalmente falando – como sintoma, ou melhor apresentação, forma de manifestação do sintoma da neurose, diferente da forma de manifestação da perversão, inclusive presente na máxima “lá onde o neurótico fantasia, o perverso faz”; e fantasma (“fantôme”), marca, identificação na subjetividade de cada sujeito, ao imaginário do Outro ( “sua” Mãe!), que de imaginário do Outro fica como marca Real na estrutura subjetiva do ser falante.
                       
Como, depois disso, definiremos realidade ao que chamei a pouco o pronto para carregar o fantasma, isto é, o que faz seu quadro e veremos então que a realidade, toda a realidade humana, não é nada mais que montagem do Simbólico e do Imaginário – que o desejo, no centro desse aparelho, desse quadro que chamamos realidade, é também, para falar propriamente, o que ocorre, como eu o articulei desde sempre, o que importa distinguir da realidade humana e que é para falar propriamente o Real, que não é nunca senão entrevisto; entrevisto quando a máscara, que é aquela do fantasma, vacila. A saber, a mesma coisa que o que Spinoza apreendeu, quando ele disse: “o desejo é a essência do homem”  (LACAN, 2008,p.19)

Porquê a obra de arte tem a ver com elementos socio-culturais?: “A obra de arte encerra elemento histórico e sociais que a estética tem a tarefa de explicitar. A obra não somente “julga” a sua maneira a história e a sociedade, mas ela própria é candidata, à apreciação e à avaliação do público”. (JIMENEZ, 1999, p.374).
Segundo Walter Benjamim, a aura é um  veículo de desaceleração que parece diluir-se ou ser incompatível com as experiências de “choque da modernidade” e com os sonhos de consumo imediato do capitalismo. A arte, para Benjamim, ela o é através de sua “Aura”, do que a define como arte, daquilo que faz a diferença entre um objeto comum e o que o institui como obra de arte.
Segundo Deleuze, o acontecimento não é o que acontece (acidente), ele é NO que acontece, o puro expresso que nos dá sinal e nos espera. O acontecimento não mostra como se forma o sentido, mas como ele deriva de um estado de coisas. O acontecimento é o próprio sentido, sentido produzido. O acontecimento instala-se diretamente no tempo. Para Deleuze o nonsense não é o sem sentido, mas onde está o total do ser, sua potência, ou seja, onde o SENTIDO é MÀXIMO.

Parar => possibilidade de ato que critica a ação. Ato parado, ato de resistência.

Agambem faz relações entre tempo e imagem. Agambem discorre em seu texto sobre a questão do tempo e do fantasmata em dança.
Aristóteles afirma sobre a dignidade da dança => Dança é tanto intelectual, quanto prática. Arte composta de seis elementos: medida, memória, agilidade, maneira, medida do terreno e “fantasmata”. “Somente os seres que percebem o tempo recordam, e com a mesma faculdade da imaginação...” Domenico De Piacenza retoma de Aristóteles o conceito do movimento em dança:

 danzare per fantasmata” => muitas coisas que não se podem  dizer.


Fantasmata => presteza corporal – impedimento improvisado – demora entre dois movimentos. Dele surge a imagem como um cabelo de Medusa, que se move e que não podemos olhar.
 
 Daí surgiria a tensão interna entre a medida e memória na série completa da coreografia.

Este não movimento que é o movimento é o que me parece ser essencial à dança. Aquilo que a torna intocável.
É ao fantasma que se chega ao tocar essências: “A dança é esta arte que, ao tocar na essência do movimento cessa de ter sentido e só se recupera no ato parado, na PARAGEM” (TIBURI;ROCHA, 2012, p.96-97).

Relações espaço-temporais contidas nas danças tradicionais e nas produções artísticas estão diretamente relacionadas à pluralidade cultural, pois expressam e comunicam conceitos e vivências de diferentes épocas e espaços geográficos.
Quem pode dançar? Quem pode dançar o quê? Quais os diferentes conceitos de corpo?
Um professor pode enfatizar os corpos que dançam e os corpos NA dança.
Aprender dança significa incorporar valores e atitudes. Como a dança pode, e pode, alterar todo um estado de violência que vige no social, através de vivências e aprendizados de e na arte. 

SER UM PROFESSOR DE DANÇA É MAIS DO QUE SER UM BAILARINO, É SER ALGUÉM QUE COMPREENDE O MOVIMENTO EM DANÇA! E O TRANSMITE.

Espero o dia em que serei juiz de mim  mesmo e saberei se tenho a virtude sobre os lábios e no coração (SÊNECA, carta 26, apud FOUCAULT, 1997, p.134).

Sua descrição é modulada e equilibrada artisticamente. Isso se chama ESTILO. Isso é ARTE. Isso é a única coisa que interessa nos livros. (NABOKOV sobre FLAUBERT).

METODOLOGIA
            Através da leitura das obras dos autores indicados, analisar como a ética, a psicanálise, a estética e a educação confluem e podem interligar-se no sentido de buscar respostas às demandas contemporâneas, ampliar e conceituar o “fantasmata” em dança e o estudo do movimento como um todo.

Procedimentos
1. Realizar-se-á um estudo do conteúdo das obras indicadas, delimitando seus enfoques na Ética, Educação, Movimento.
2. Após a delimitação dos enfoques, interpretar-se-á quais as confluências entre a educação, ética, estética, arte, movimento.
3. Estudar-se-á a contextualização da dança desde o seu surgimento até a pós-modernidade, identificando suas mudanças em relação a sua estética e em relação aos seus enfoques, com vistas a delimitar os estudos do movimento, mais especificamente o entre-movimentos.
4.  Introduzir-se-á ao estudo, conhecimentos provenientes de outros pensadores,e outros campos acerca de suas teorias sobre o tema.
5. Interpretar-se-á, sob as perspectivas da educação, da estética, da dança e das diferentes transdisciplinas os resultados das análises, dos estudos.

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