Pesquisa apresentada à Área: Ensino de Filosofia – Ética
e Filosofia Política - Departamento de
Filosofia e também à Área: Filosofia – Departamento de Filosofia vinculadas ao
Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, da UFRGS.
PORTO
ALEGRE – RS
2016/2017
Resumo
O homem constituído pela marca desejante está
condenado à liberdade de escolha e, com ela, deve representar todos os homens e
o que de humano há neles, se é que possuímos humanidade. O Desejo como diferença. A racionalidade como disfarce de humano. O amor e o Outro
como funções estruturantes do sujeito. O Desejo como marca de liberdade. O Desejo
e a escolha. O homem e a liberdade. O homem e o Desejo. O homem e a escolha. A
ação humana. A Condição Humana. O trabalho, o labor, a vita activa. A escolha de um estilo de vida, conforme proposto por
Kierkegaard, o estilo de vida ético, o estilo de vida estético e o estilo de vida ético-estético (?).
As tecnologias. A falta de recursos advindos da falta de postos de trabalho. O
cuidado de si. A volta ao questionamento sobre o homem e quê homem temos, como e para onde vamos (se vamos!). A educação, e a filosofia em particular, como
passíveis e possíveis na busca por respostas (se é que as há!).
OBJETIVO
Objetivo Geral
Investigar como a filosofia como quadro norteador do pensamento humano, em
seus processos educativos, mas não só, pode (se pode) responder ao grande
questionamento da atualidade: Como gerar postos de trabalho em uma sociedade
gradativamente mais inserida em um mercado de uso de tecnologias, seguindo-se
com Hanna Arendt a grande idéia de que a condição humana por excelência é o
TRABALHO, enquanto AÇÃO, vita activa.
Objetivos específicos
Identificar o que é o homem, quem é o homem, como ele se constitui –
teoria psicanalítica – Freud, Lacan ,o que é humano, que tipo de homem temos
hoje no social, tendo como base as teorias existenciais de Kierkegaard, Sartre,
passando por Camus e Heidegger, como uma ontologia, uma antropologia filosófica
.
Investigar, a partir da obra A
Condição Humana de Hanna Arendt, o que ela propõe como sendo esta condição
humana por excelência e como isto se daria. Quais as propostas que ela
apresenta para tanto.
Observar, e investigar, a partir da obra de Kierkegaard, o que ele propõe
como escolha de vida para o melhor viver, atingir o eterno (ou não).
Desvendar, junto a Kierkegaard o que seriam os estilos de vida ético,
estético. Como seria escolher um (se é que se deve fazê-lo), qual o melhor (se
é que há um). Como seria optar por um estilo e que homem resultaria daí. Que
tipo de homem (se é que há um) escolhe um ou outro tipo. E, o que seria o
estilo de vida ético-estético que EU proponho como sendo o necessário.
Analisar, partindo de dados que já nos são fornecidos, estatisticamente
ou na bibliografia existente, quais as condições vigentes no mundo atual,
quanto a situação atual de trabalho,
oferta de postos, se as tecnologias propiciaram melhorias nestas condições e/ou
fizeram com que o homem se torne obsoleto (aqui já é uma hipótese!).
Propor, se for o caso, respostas, proposições, possíveis (ou impossíveis)
para quiçá um “novo” homem. De que tipo seria ele, é o mesmo da investigação
primeira, as soluções seriam pensadas nas academias, nas instituições
governamentais, pela sociedade, aleatoriamente?. A Escola nisso. Que tipo de
alunos temos, que tipo de alunos precisamos ter, que tipo de professores são
necessários para o homem. Que tipo de professores de Filosofia necessitamos?
Como implementar tal ensino? E o “cuidado de si” (Platão/Foucault), como
praticá-lo nestas novas propostas (se é que é possível!)?. Ou seria o “flaneur” (há diferença?) de Walter
Benjamin uma outra resposta possível?, já que a proposta, desde Nietzsche,
pensou-se em um retorno ao ethos
grego com a Bildung alemã?
De que Filosofia precisamos para o ensino de uma Filosofia que possa
propor-se transformadora?.
PROBLEMA
Partindo-se do pressuposto de que a
ação humana é o trabalho, que este é a condição humana por excelência.
Partindo-se dos dados que nos são fornecidos praticamente todos os dias de
queda de postos de trabalho. Partindo-se do dado de que muitos destes postos de
trabalho são perdidos em função da introdução das tecnologias em todos os
meios. Partindo-se de tudo o que se têm escrito sobre as idéias de homem, suas
necessidades, suas angústias e idéias do
bem viver, do compartilhar, do viver em sociedade, de “compaixão”.
Utilizando-se alguns autores e o que dizem sobre, que HOMEM temos hoje, ele é
diferente, ele VIVE, ou ele apenas sobrevive e o mundo está num “salve-se quem
puder” (ou seja, queda de toda e qualquer possibilidade social!)?.
Num tempo em que vivenciamos grandes demandas por novas respostas a tudo
o que nos ocorre no social, nem sempre com vontade e desejo de pensar sobre
elas, de muitas transições, imigrações, emigrações, transferências de pessoas
de cá para lá (nem sempre bem vindas!), de uma violência galopantemente
invasiva e sem possibilidades de soluções no mundo e na sociedade (não há
interesse, a não ser que os interesses sejam os de livrar-se do “problema”,
enjaulando, marginalizando, segregando, “matando”?), de um “parecer” ser, de um
ter mais do que qualquer possibilidade de busca de ser, de viver, de um mascarar-se para fingir ser algo e/ou alguém
(aqui “copiar” o outro deixa de ser o horror Frankenstein para “parecer” ser o
outro, sem qualquer possibilidade de identidade – DIFERENÇA - SINGULARIDADE -
própria, sequer do outro - já que jamais haverá qualquer possibilidade de ser O
outro!).
Num mundo em que não se sabe mais o
que é o homem, o que o diferencia de uma máquina, o que é uma máquina (alguns
chegam ao absurdo de pensar que as máquinas operam-se sozinhas, programam-se sozinhas,..,
são!).
Num tempo em que não se compreende o
que se tem para viver, como as relações homem –homem podem se dar, como viver
(já que tudo aparenta ser só “conexão”!) como escolher uma vida a viver, é
possível ainda “escolher “?. O que pensadores antes de nós acreditaram ser uma
escolha, uma boa escolha? Ainda é
possível “viver”, na forma como estes pensadores (alguns- ou todos?) pensaram,
propuseram, escreveram sobre?
Sem trabalho, não se tem o poder de
troca para pensar em “VIDA”, socialmente, pessoalmente, em família,.... Como,
há um homem sem trabalho, logo, sem o retorno desta condição?. Quem o sustenta,
o quê o sustenta, ele pensa, ele “rouba” (se ele rouba, ele tem a condição????
– ele é HUMANO??)?.
Se o homem, ou o ser que temos hoje
(se é “ser”), não tem a condição de seu sustento, quem o mantém respirando?? De
onde viriam recursos para tanto, que tipo de governos podemos pensar para
atender a essas demandas (é de “governo” que se precisa – de que tipo de
“governo” estes “seres” precisam?).
Estas são questões que urgem ser
pensadas, até mesmo para repensar sociedades, meios de sobrevivência, de
subsistência, de trocas, meios de relações, possíveis ou não, de seguir com o
que fazemos ou mudar os rumos. Logo, se há um lugar onde tais questões,
indagações JÁ DEVERIAM TER SIDO PENSADAS E OBTER ALGUMAS PROPOSTAS deveria ser
na FILOSOFIA.
URGE, para ONTEM, que a educação,
principalmente na FILOSOFIA, já estivesse com alunos “formados”, pensando sobre
tais questões, propondo novas pesquisas, mas com ÉTICA (não é na ACADEMIA que se deveria falar,
pensar, escrever, discutir, propor desta forma??? – se não for – onde mais
poderia ser – existe um outro lugar?????).
Derrida faz uma desconstrução
lingüística para chegar a um entendimento, que deseja que cheguemos com ele.
Com a psicanálise, há uma desconstrução lingüística do sujeito, para que ele se
“ache”, se compreenda efetivamente, enquanto estrutura psíquica. Desta forma, é
necessário, importante e relevante, investigar como a educação pode (e se deve)
fazer frente às desestruturas da contemporaneidade e a crueldade que advém delas.
Essa pesquisa propõe realizar uma profunda análise da psicanálise em
conjunto com a educação e a filosofia, no sentido de vincular uma reformulação
teórica e prática em seus pressupostos e contatos com os educandos, buscando
modificações nos paradigmas “estrutura psíquica, educação e ética”, para a
criação de políticas sociais e governamentais, inclusive (se for o caso!).
TEORIA OU QUADRO TEÓRICO
“Os discursos NÃO se apagam E SE fazem presentes
em CADA ação.
Cem linhas, COM linhas e sem linhas [...]”
O
SEGREDO: “fazer existir, não julgar” (Deleuze)
OUTRO
SEGREDO: “Não invadir a VIDA dos outros” (Vera Marta
Reolon)
Através do estudo de diferentes
autores propostos buscamos um referencial: que faz com que nos tornemos
humanos, o que nos diferencia como humanos?. O homem, em alguns momentos,
diz-se humano porque possui racionalidade, porque possui espírito, enfim
diferentes conceitos, construções teóricas que, na verdade, nada dizem, são
apenas palavras que não trazem respostas às nossas inquietações.
A psicanálise, como teoria interpretativa da realidade, serve para
analisar os fenômenos, no campo individual, através das manifestações do
inconsciente, presentes na linguagem dos diversos sujeitos, nos chistes, na
interpretação dos sonhos, etc. Pode, entretanto, interpretar os fenômenos
sociais, através da análise das manifestações da sociedade, das organizações e
instituições, dos grupos sociais. Aliando-se a filosofia, essencial para seu
desenvolvimento desde o início, a psicanálise, além de realizar interpretações,
reflete sobre os fatos, utilizando-se das teorias dos grandes pensadores.
Partindo-se, assim, da escrita desconstrutiva de Derrida, o discurso
psicanalítico é o que pode dar conta das questões contemporâneas: “Se há um
discurso que poderia, hoje em dia, reinvindicar a causa da crueldade psíquica
como assunto próprio, este é o que se chama, de mais ou menos um século para
cá, psicanálise” (DERRIDA, 2001, p.8-9).
Basta que eduquemos, que adestremos
os animais, mesmo que selvagens, para observarmos neles amorosidade, carinho,
dedicação. Se os tratarmos com amor, recebemos amor e dedicação para sempre. O
ser humano também precisa desta “amarragem” amorosa, sem esta estruturação, sem
esta dedicação ele fica perdido, como um objeto do Outro, este que o gerou. É
preciso que o ser humano, ao nascer, ou antes disso, seja desejado, seja marcado com a insígnia do desejo por alguém, que ele
tenha sido esperado, querido por alguém, mas não desejado
para completar este alguém, e sim que ele seja desejado para viver, ser feliz,
progredir, fazer-se. É um processo, e um projeto de humanização constante, que
se inicia com este Outro.
Para que sejamos marcados como
desejantes, tenhamos “voz plena de valor”, precisamos da marca primordial de
instituição narcísica, que denominamos Amor do Outro. Outro este que faz para
nós um papel materno, de mãe instituidora da marca amorosa que levaremos em
nossas vidas. Sem esta marca inicial não somos considerados estruturalmente
sujeitos, donos de uma identidade, estaremos sempre presos a alguém que nos
deve conduzir pela vida, pois esta marca é primordial, necessária em nossa
frenética luta pela libertação. Com a marca podemos nos libertar e seguir. Sem
a marca estamos presos ao desejo do Outro, às suas imposições.
Freud
via nos primórdios da experiência psíquica uma identificação primária que
consistiria na “transferência direta e imediata” do ego em formação para o “pai
da pré-história individual”, o qual possuiria as características sexuais de pai
e mãe e seria um conglomerado de suas funções. (KRISTEVA, 1987, p.36).
Diferentemente de Platão, que concebe o amor como movimento,
pulsão, vida, desejo de algo, busca por algo, Schopenhauer encontrou o a priori manifestando-se na Vontade.
Como coloca Dumoulié (2005), o nosso
conhecimento se acha encerrado no mundo dos fenômenos, portanto de
representação, mas nós temos a intuição imediata através do nosso corpo, da
essência íntima dos seres e do mundo. Para Schopenhauer, que sofreu influências
de Platão e Kant, o mundo é fenômeno, é representação. A Vontade estaria em um
mundo de idéias – platônico -, num mundo idealizado, superior, inalcançável,
que pode apenas ser simbolizado. A Vontade, entretanto, não é externa, para
Schopenhauer, ela está em nós:
A
coisa em si, que não podemos conhecer do lado de fora, nós a alcançamos
diretamente por dentro, pois ela está em nós. Esta Vontade, da qual a vontade
humana é apenas uma manifestação, é um princípio metafísico, sustentáculo de
tudo aquilo que é. [...] A expressão “coisa em si” deve ser entendida da
maneira mais concreta, como uma Coisa toda-poderosa que habita em cada um de
nós, que nos faz viver e nos vai devorando ao mesmo tempo. Por essência é um
desejo bruto, cego e insaciável. (DUMOULIÉ, 2005,p.101).
Schopenhauer estabelece uma dupla
lei relativa ao desejo: os contrários se atraem e cada um procura no outro
aquilo que lhe falta. Desta forma, procura-se um amado que possua aquilo de que
se é carente. Aqui há uma conexão com Platão e com Lacan.
Embora Lacan tenha aparentado uma
grande distância em relação a Schopenhauer, que ele quase não cita, seu
pensamento apresenta inúmeros pontos de contato com o filósofo. A noção de
Coisa, tão essencial à teoria lacaniana, cujas nobres origens kantianas e
heideggerianas são abertamente reconhecidas, tem ocultas e profundas ligações
com a Coisa em si de Schopenhauer, a Vontade de gozo cega e mortal.
Alain Juranville (1987) faz uma
diferenciação das estruturas neurose, psicose e perversão, no que concerne ao
desejo e ao amor de estrutura:
O psicótico não dá, não quer
a relação com o Outro, que suporia que ele entrasse na castração. “A psicose”,
diz Lacan, “é uma espécie de falência no que concerne à realização do que é
chamado ‘amor’”. Nela, o sujeito quer o gozo absoluto, o que ele efetivamente
conhece ao nível de seu corpo. Daí seu narcisismo. [...] [Na perversão] dá-se
apenas ao Outro simbólico, essencialmente ausente do mundo. Todos os “outros”
humanos, inclusive o próprio sujeito, são para esse Outro instrumentos de gozo.
[...] O neurótico precisa, pois, de um simbólico suplementar, ou seja, do
sintoma, onde o desejo se mantém como recalcado. (JURANVILLE, 1987, p.363-365).
O que nos torna humanos então, para
a psicanálise, não nos deixando objetivar, ou sermos objetivados, é este amor
de estrutura, que nos diferencia perante os demais, que nos torna desejantes,
desejantes de vida, de felicidade, de busca.
Sartre vai além deste conceito, ele
fala do existir humano, do processo da existência humana, como uma construção, construção
essa que parte da própria liberdade de ser
humano. O homem vai construindo sua existência, a partir da liberdade que
possui, liberdade de escolher, conforme seu desejo: “toda verdade e toda ação
implicam um meio e uma subjetividade humana” (SARTRE, 1970, p.01).
O humano é constituído pelo Outro. A
partir desta marcação estrutural, amorosa, ele pode nomear-se, determinar-se,
decidir por si. Inicialmente ele não é nada, é o resultado do desejo deste
Outro. Mas é somente através deste desejo que ele poderá desejar, para si, para
o mundo.
No
texto sartriano, há uma noção de humanidade que extrapola toda a
individualidade, todo egoísmo ou todo egocentrismo narcisista que o homem possa
carregar, pois ele expõe a liberdade existencial humana como uma
responsabilidade que inclui a humanidade inteira: “a nossa responsabilidade é
muito maior do que poderíamos supor, pois ela engaja a humanidade inteira”
(SARTRE, 1970, p.03).
Logo, em Sartre, toda nossa ação é
livre, a partir de nossas escolhas, toda nossa ação é uma construção livre de
nossa individualidade, uma marca individual de nossa existência, mas ela também
é uma responsabilidade sobre a marca que transmitimos como retrato da
humanidade toda e “sobre” toda essa humanidade. Essa responsabilidade carrega
muita angústia, e daí a afirmação de Sartre de que o “homem é angústia”
(SARTRE, 1970, p.04). Não há disfarces para a angústia, pois ela faz parte
deste existir humano, de escolhas e de responsabilidade.
Kierkegaard vai propor que o homem
deve/pode escolher/eleger como vai
conduzir sua vida. Propõe dois estilos de vida, de escolha: o estilo de vida
estético e o estilo de vida ético. Se o homem opta por seguir um estilo de vida
estético (que aqui nada tem de estética – arte ou o que hoje entendemos pelo
termo estética), ele é o que vive o INSTANTE (fronteira entre o antes e o
depois). Em princípio ele viveria em liberdade. Mas na crítica que Kierkegaard
faz a este “escolhedor”, dirá que esta liberdade é um engodo, já que a verdadeira liberdade só se dá na opção pelo
estilo de vida ético
o que vale é madurar a própria personalidade antes de formar o espírito. [..] desejarias
fortalecer tua alma [..] tem em cada ser uma potência capaz de desafiar o mundo
inteiro. [..] o principal da vida , reconquistar-te a ti mesmo , adquirir-te a
ti mesmo, com a condição de que possas, o mais bem que queiras poder a energia
necessária para fazê-lo. (KIERKEGAARD, 1966, p.9-11)..
O estilo de vida ético, à semelhança do que ocorria no mundo grego incorpora,
abarca o que entendemos por estético. Ao optarmos pelo estilo de vida ético,
incluímos em nossa opção a vida estética, incluímos a opção por nós mesmos, o
eterno. O sujeito que opta pelo estilo
de vida estético vive no desespero e nada tem de fato.
Tua escolha é uma escolha estética, mas uma escolha
estética não é uma escolha. Em verdade, o fato de escolher é uma expressão real
e rigorosa da ética [..] o único aut-aut (ou isto, ou aquilo) absoluto que existe
é a escolha entre o bem e o mal e essa escolha
também é absolutamente ética.
(KIERKEGAARD, 1966, p. 20).
O desespero não deve ser um inibidor de minha ação. Ao contrário, deve me
engajar na ação: “não é preciso ter esperança para empreender [...] não deverei
ter ilusões e que farei o melhor que puder” (SARTRE, 1970, p.08).
A realidade só existe a partir da
ação, o homem só existe à medida que se realiza na ação, o homem é o conjunto
de seus atos.
Para Hanna Arendt o homem não é um
ser de natureza, é um ser de condição. A condição humana é que o homem é um ser
de ação (arte) e discurso (político).
Hanna diferencia labor de trabalho, mas dirá que a condição humana, por
excelência é o trabalho, ação humana que nos diz quem e o quê somos.
Com a expressão vita
activa pretendo designar três atividades humanas fundamentais: labor,
trabalho e ação. [..] o labor é a atividade que corresponde ao processo
biológico do corpo humano [...] tem a ver com as necessidades vitais [..] a
condição humana do labor é a própria vida. O trabalho é a atividade
correspondente ao artificialismo da existência humana. [..] a condição humana
do trabalho é a mundanidade. A ação, única atividade que se exerce
diretamente entre os homens sem a
mediação das coisas ou da matéria, corresponde à condição humana da pluralidade.
(ARENDT, 2008, p.15).
Independentemente se tomamos cada
uma das atividades humanas ou se nos dedicarmos, abarcarmos o termo proposto
por Hanna, vita activa, as três
atividades referem-se ao que designa, distingue o homem como homem, à
durabilidade do mundo, já que o homem o habita.
o trabalho de nossas mãos, em contraposição ao labor
de nosso corpo – o homo faber que
“faz” e literalmente “trabalha sobre” os materiais, em oposição ao animal laborans que labora e “se mistura
com eles” – fabrica a infinita variedade de coisas cuja soma total constitui o artifício humano.
(ARENDT, 2008, p.149).
Outros autores também nos apresentam
a importância do trabalho na vida humana, para o seguir de sua existência: “No
trabalho, o homem satisfaz uma potência de criação que se multiplica por
numerosas metáforas” (BACHELARD, 2001, p.24). A própria Hanna vai nos conduzir,
em seu texto A Condição Humana, o que
faremos (ela já se questionava nos anos 60
do século XX), sem trabalho: “O que se nos depara, portanto, é a
possibilidade de uma sociedade de trabalhadores sem trabalho, isto é, sem a
única atividade que lhes resta” (ARENDT, 2008, p.13).
E ela mesma nos aponta o que pode
nos ter conduzido a esta “situação”:
[..] talvez o desejo de fugir à condição humana esteja
presente na esperança de prolongar a duração da vida para além do limite de cem
anos. [..] O problema tem a ver com o fato de que as “verdades” da moderna
visão científica do mundo, embora possam ser demonstrados em fórmulas
matemáticas e comprovadas pela tecnologia,
já não se prestam à expressão normal da fala e do raciocínio. [..]Se realmente
for comprovado esse divórcio definitivo entre o conhecimento e o pensamento,
então passaremos, sem dúvida, à condição de escravos indefesos, não tanto de
nossas máquinas quanto de nosso know-how, criaturas desprovidas de raciocínio,
à mercê de qualquer engenhoca tecnicamente possível, por mais mortífera que
seja. (ARENDT, 2008, p.11)
. Nunca, em nenhuma outra época de nossa história, esteve o homem tão só
em meio à multidão. Os ideais que o sustentavam caíram, a felicidade não
depende mais da harmonia de vínculos sociais, mas de objetos adquiridos e
ofertados incessantemente pela mídia e os instrumentos gerais do marketing. Há
uma oferta de gozo total. A foraclusão da Lei da vida é paga com dízimos. O
sujeito é transformado, através do seu assassinato, em objeto submisso do gozo
do Outro. Não há nada mais psicotizante do que isso. Nas doenças da
modernidade, anorexia, bulimia, toxicomanias, e a conseqüente violência advinda
delas, o que se tem são sombras que o
mundo das luzes não ilumina. A modernidade nos oferece um mundo iluminado (de
uma iluminação artificial, mascarada) pelos outdoors plenos de ofertas, mas nosso
eu, quem sou, para onde vou, o que desejo (?), não há resposta. Há muita “luz” de
LED e a luz interior é apagada!.
A oferta que temos é de pulsão de morte em todo tempo. O mercado demanda ofertas onde o consumidor
precisa e não vive sem a mercadoria. Este
é o modelo de paradigma que abarca
as toxicomanias, é causa e conseqüência delas. O que vem antes, um mundo
que facilita as toxicomanias, ou elas originam o mundo? Não sabemos, devemos
pensar sobre isso. As doenças modernas remetem à morte do sujeito, uma segunda
morte que vem antes da primeira (interrupção da vida), pois esta segunda é a
morte do sujeito no Simbólico. São estas “doenças modernas”, anorexia, bulimia,
toxicomanias, resultados destas desestruturas psíquicas?
Hanna Arendt e a questão do totalitarismo => as perversões.
As confusões público-privado, câmeras e os excessos de invasões sobre a
vida das pessoas, ao mesmo tempo que tais invasões em nada auxiliam no cessar
da violência (já que o são por si) e
nada provam, quando exigidas pela justiça penal. Esta violência (invasão)
produz uma violência virtual que, sob pressão, desencadeia violência física.
As FEBEM’s e a falsa educação do ECA na prática. As falas dos meninos da
FEBEM: “eu quero ficar com os grandões no presídio, depois dos 18, quando zera
minha ficha policial” (sic).
Leis iguais para todos, mas como fica, por exemplo, o Complexo do Alemão,
lei igual?
Hanna e o caso Eichmann e a forma “judaica” de conduzi-lo.
Conceito de autonomia => Bildung,
a partir da Paidéia grega e de Rousseau e Hobbes.
Nietzsche: “nunca se precisou tanto de educadores morais” (sic)
Michel Foucault em seus Seminários sobre o Governo de Si e dos Outros e
sobre a Hermenêutica do Sujeito aborda e discorre sobre o cuidado de si, como
uma questão ampla de uma busca de saúde que vai de encontro com o conhecimento
de si, com o saber de seu corpo, com o saber de suas necessidades, de seus
desejos, com vistas a uma ampla busca de felicidade, não mais como uma busca
utópica, subjetiva, inalcançável (talvez como ideal demais!) mas, através desse
conhecimento de si, uma felicidade possível, palpável, vivenciável: “A
filosofia está assimilada ao cuidado com a alma (o termo é precisamente médico:
hugiainein), e esse cuidado é uma
tarefa que deve ser seguida ao longo de toda a vida”. (FOUCAULT, 1997, p.120).
Hermenêutica de si => epimeléia heautou (grego) – cura sui (latim) – princípio
de ocupar-se de si => cuidar de si mesmo => conhecer a si mesmo =>
obscurecido pelo brilho do Gnôthi
seauton. (FOUCAULT, 1997,p.119).
.Que fazer de nossas vidas, quem
somos, para onde vamos, tudo depende de nós: “o destino do homem está em suas
próprias mãos” (SARTRE, 1970, p.09).
METODOLOGIA
Através da leitura das obras dos
autores indicados, analisar como a ética, a psicanálise, a estética, a educação,
a filosofia confluem e podem interligar-se no sentido de buscar respostas às
demandas contemporâneas, ampliar e conceituar ontologicamente o homem, suas
buscas, suas necessidades para a vida em sociedade e sua própria existência.
Estabelecer como um professor de
Filosofia no ensino médio pode trabalhar com os alunos as questões filosóficas
que propomos.
Procedimentos e hipótese de trabalho
1. Realizar um
estudo do conteúdo das obras indicadas, delimitando seus enfoques na Ética, Filosofia,
Educação.
2. Após a
delimitação dos enfoques, interpretar quais as confluências entre a filosofia, educação,
ética, estética nos temas propostos da busca do que é o homem, da ação humana,
das escolhas humanas, do “novo” homem (se o há!).
3. Estudar a
contextualização do trabalho nas relações humanas. O ingresso das tecnologias,
seus usos e abusos. O homem sem o trabalho, o que resulta daí.
4. Introduzir ao estudo, conhecimentos
provenientes de outros pensadores,e outros campos acerca de suas teorias sobre
o tema.
5. Interpretar,
sob as perspectivas da filosofia, da antropologia filosófica, educação, da ética,
da educação e das diferentes
transdisciplinas os resultados das análises, dos estudos.
Resultados
pretendidos
Preparação de bolsistas,
pesquisadores, professores, formação de professores para o ensino médio, material
de pesquisa (publicações de artigos e livro).
Alunos
vinculados, material bibliográfico a ser adquirido/utilizado, custos
operacionais diversos: dependentes da dotação orçamentária destinada pela
CAPES, CNPq e/ou outros órgãos de fomento, UFRGS e curso de Filosofia,
especificamente.
REFERÊNCIAS
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