Pesquisa apresentada ao
Departamento de Comunicação, da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação, da
Universidade Federal do Rio Grande do Sul
PORTO ALEGRE – RS
2016
RESUMO
A reportagem é uma narração da
atualidade. Distingue-se da literatura por seu compromisso com a objetividade
informativa. Contemporaneamente, o ciberjornalismo, apresentando novas
possibilidades do “contar histórias”, acaba também por transformar a prática do
jornalismo impresso e seus gêneros. Diante deste cenário, esta pesquisa
investiga a ética da imprensa, o fazer jornalístico e a função do jornalista, a
partir de uma análise do livro-reportagem Eichmann
em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal, da filósofa Hanna
Arendt, correspondente da revista The New
Yorker. Investiga-se, implicitamente, em que sentido o ciberjornalista é
ainda um jornalista, indispensável à sociedade, ou se transformou em
“fofoqueiro virtual”.
A reportagem e a ética jornalística
O
jornalismo sempre viveu em constante transformação. Ora de forma, ora de
conteúdo, a narrativa jornalística fundou estilos, influenciou a literatura,
divulgou fatos, informou, formou a opinião pública, provocou polêmicas, acirrou
disputas, transformou o mundo se transformando. É a reportagem – onde se conta,
se narra a atualidade – um gênero jornalístico privilegiado. É uma narrativa –
com personagens, ação dramática e descrição de ambiente – separada da
literatura por um compromisso com a objetividade informativa. Este laço
obrigatório com a informação objetiva lembra que, qualquer que seja o tipo de
reportagem, impõem-se ao redator o “estilo direto puro”, isto é, a narração sem
comentários, sem subjetivações. A isenção da subjetividade, ou a suposta
neutralidade, mostra-se cada vez mais utópica, inalcançável, quase impossível.
O
ciberjornalismo, com plataformas exponencialmente expandidas, espaços ilimitados
e as possibilidades do hipertexto, transformou o jornalismo e,
conseqüentemente, a narrativa jornalística. Afinal, o ciberjornalismo não se
configura apenas como uma transposição de textos e imagens impressos descolados
para o ambiente da Internet. O fazer jornalístico acaba diferente, com
singularidades e particularidades a esse novo “contar histórias”. O
ciberjornalismo, numa “competição” pelo leitor, assim, modifica também o
jornalismo impresso e os seus gêneros, especialmente a notícia e a reportagem. Nesse
sentido, refletir sobre a ética jornalística, a ética da imprensa, mostra-se
tarefa indispensável a todo aquele que se inscreve neste campo de trabalho,
tarefa essa que se reflete no próprio fazer da profissão. A análise do papel do
jornalista, da formação deste profissional, diante deste cenário, mostra-se
relevante.
Problema
de pesquisa
A
partir das transformações do fazer jornalístico, fato que se apresenta mais
nítido diante das modificações das mídias, uma vez que uma acaba impondo modos
de operar às outras – especialmente após o surgimento do ciberjornalismo – qual
o papel do jornalista na atualidade, e portanto sua ética: ele continua
indispensável à sociedade, ou transformou-se apenas em “fofoqueiro virtual”, em
que a realidade acaba submergindo em uma “sobrerealidade” de “fatos”, na qual o
real é apenas o veiculado pela mídia, distorcido ou mesmo inventado?
Objetivos
1.
Objetivo geral
Investigar,
qualitativamente, a partir de livro-reportagem “Eichmann em Jerusalém”, de
Hanna Arendt, o fazer jornalístico e a ética jornalística implicada neste,
especialmente no que tange à narrativa jornalística, especificamente a
reportagem.
2.
Objetivos específicos
Analisar,
num âmbito teórico-prático, a narrativa jornalística, especificamente a
reportagem.
Analisar, teoricamente, a
ética jornalística ou a ética da imprensa, a sua manutenção ou transformação, a
partir do surgimento de novas mídias.
Analisar,
de forma aplicada, o fazer jornalístico implicado no livro-reportagem citado
acima, comparativamente às teorias fundamentais de ética teórica e aplicada e
ao Código de Ética do Jornalista.
Referencial
teórico
Se os séculos XVII e XVIII
foram os do jornalismo publicista e o século XIX o do jornalismo educador e
sensacionalista, o século XX foi o do jornalismo-testemunho (LAGE, 2003). Não
quer dizer que todos (cidadãos, jornalistas, empresários da imprensa) os
entendessem assim. Representações sociais perduram além das condições que as
fizeram nascer: tanto quanto a visão publicística do jornalismo, sobreviveram às
visões sensacionalista e educativa, bem como práticas jornalísticas que se
enquadram em cada uma dessas categorias.
O fato, segundo Lage
(2003), porém, é que a informação deixou de ser apenas ou principalmente fator
de acréscimo cultural ou recreação para tornar-se essencial à vida das pessoas.
Para o planejamento
de qualquer atividade prática – da escolha de carreira profissional a uma
compra a prazo, investimento financeiro ou ida a uma casa de espetáculos – as
pessoas necessitam de informações que estão nos veículos de comunicação ou
podem ser inferidas a partir do que eles noticiam. (LAGE, 2003, p.21)
A informação, assim, torna-se,
matéria-prima fundamental e o jornalista um tradutor de discursos. O repórter, em
suma, além de traduzir, deve confrontar as diferentes perspectivas e selecionar
fatos e versões que permitam ao leitor orientar-se diante da realidade.
O direito do público à
informação é regra fundamental para os jornalistas, não para muitos de seus
interlocutores, ainda que liberais. É também (cf. Lage, 2003) a base de
qualquer ética aceitável pelos jornalistas: “no entanto, o que se informa ao
público é o que é de seu interesse real, nem sempre o de sua curiosidade”
(p.94-95).
No que concerne,
eticamente, às fontes, seu direito é o de ter mantido o conteúdo (não a forma)
do que revela. Isso significa não apenas o respeito ao valor semântico do que é
informado, mas também às inferências que resultam da comparação entre o que foi
informado e o contexto da informação.
Ao jornalista cabe
perseguir a verdade dos fatos para bem informar o público. Nesse sentido, a
atividade jornalística cumpre uma função social antes de ser um negócio.
Eugênio Bucci (2000) acrescenta, ainda, que a objetividade e o equilíbrio são
valores que alicerçam a boa reportagem. A discussão do fazer jornalístico, a
partir de uma ética aplicada, ética da imprensa ou ética do jornalista, assim,
é essencial à prática da notícia e da reportagem:
O problema ético é um
problema estrutural e sistêmico. [...] O único interessado na discussão ética –
não os proprietários dos órgãos de imprensa, não os jornalistas, não os
governantes (que também são cidadãos mas se encontram investidos de condições
que os diferenciam dos demais) – é o cidadão como outro qualquer, aquela pessoa
comum que consome as notícias e que, no fim, é o beneficiário final do
jornalismo de qualidade – ou a vítima do jornalismo vil. É por isso que essa
discussão vale a pena, faz sentido e, mais que isso, é urgente. (BUCCI, 2000, p.35-36).
Na
discussão sobre ética e imprensa, Bucci (2000) cita Paul Johnson, um pensador
influente no pensamento liberal contemporâneo. Historiador, ensaísta e
jornalista, Johnson é autor de artigos na revista britânica Spectator, que têm servido de referência
ao debate sobre ética na imprensa no mundo inteiro. Não pelo que pontificam,
mas pelos problemas que apontam. Ele propõe uma grade de análise para os erros
mais freqüentes do jornalismo: listou sete pecados capitais e, como antídotos,
dez mandamentos.
O primeiro dos sete
pecados capitais, apontados por ele, é “Distorção, deliberada ou inadvertida”,
talvez o mais crasso, seguido do culto das falsas imagens: “Quando o jornalismo
emociona mais do que informa, tem-se aí um problema ético, que é a negação de sua
função de promover o debate das idéias no espaço público”. (BUCCI, 2000, p.144-145).
Umas das principais funções éticas da imprensa – cuja obrigação é reportar
criticamente os acontecimentos – passou a ser criticar o culto das falsas
imagens, função da qual ela raramente dá conta. (p.147). Ainda, na lista dos
pecados capitais, Johnson relaciona a invasão de privacidade, o assassinato de
reputação, a superexploração do sexo, o envenenamento das mentes das crianças e
o abuso de poder.
Contra
as mazelas e as falhas, o jornalista lista dez mandamentos: 1. desejo dominante
de descobrir a verdade; 2. pensar nas conseqüências do que se publica; 3. contar
a verdade não é o bastante – pode ser perigoso sem julgamento informado; 4. possuir
impulso de educar; 5. distinguir opinião pública de opinião popular; 6. disposição
para liderar; 7. mostrar coragem; 8. disposição
de admitir o proprio erro; 9. equidade geral; 10. respeitar e honrar as
palavras. Listas como essa, de Paul Johnson, estão presentes em estudos de ética
e imprensa, alicerçadas de outras formas, a partir de outros referenciais, ou
mesmo reformuladas. Marcelo Leite, ex-ombudsman
da Folha de São Paulo, e Ciro Marcondes Filho, em A saga dos cães perdidos, por exemplo, criaram outras listas,
visando orientar o jornalista em seu fazer.
Bucci
(2000) destaca que é o direito de acesso à informação (e à cultura) que
justifica democraticamente a existência de toda forma de comunicação social.
Quando a confiança na
informação jornalística é prejudicada pelo barateamento do jornalismo, a
pretexto de encobrir sob o timbre de “reportagem” atrações puramente
apelativas, todos saem perdendo; uma instituição social esta se enfraquecendo.
Por isso, faz sentido que se considere a ética dos meios de comunicação pelo ângulo
da ética da imprensa. Vista desse ângulo, a comunicação social como um todo é
beneficiária do princípio da liberdade de imprensa e deve portar-se à altura
dessa sua condição (BUCCI, 2000, p.187)
A ética está presente em
toda decisão que busque qualidade de informação. Debater abertamente as
questões éticas, à luz de episódios reais, é um serviço de utilidade pública:
educa o espírito crítico dos cidadãos e ajuda a melhorar a imprensa. Bucci
(2000) lembra da importância de diferenciar o que é interesse público do que é
curiosidade perversa do público (que pede o escândalo, doa a quem doer). Sem
dúvida, ninguém consegue traçar a fronteira universal entre um e outra: “não
existe uma receita abstrata que seja válida para todas as situações, mas a
simples lembrança dessa cautela já traz mais elementos para uma boa decisão
sobre os casos concretos que se apresentam” (p.155).
Essas
questões podem ser melhor analisadas, interpretadas e explicitadas com exemplos
práticos, buscando-se identificar, a partir desses referenciais e de outros
(filosóficos, sociológicos, psicanalíticos), como a ética aplicada à imprensa
está implicada. Bons exemplos podem ser encontrados no que se convencionou
chamar “livros-reportagem”, reportagens mais extensas, contextualizadas, e que
permitem ao leitor, por vezes, analisar não só o conteúdo explicitado, como a
própria prática jornalística, a exemplo de Truman Capote, em “A sangue frio”.
No Brasil, Os sertões, de Euclides da Cunha, talvez
seja nosso primeiro livro-reportagem; as crônicas de João do Rio fornecem ao
leitor de hoje, não só a visão do Rio Antigo, como também o estilo jornalístico
da época. Isso sem falar em Machado de Assis. [...] O livro-reportagem pode ser
a simples compilação de textos já publicados em jornal (que mantenham uma
organicidade temática ou narrativa) ou o trabalho feito para o livro, mas
concebido e realizado em termos jornalísticos. (SODRÉ; FERRARI, 1986, p.94).
Lage
(2003) afirma que “o que acontece com celebridades e personagens-tipo chama a
atenção não apenas dos jornalistas, mas de qualquer pessoa” (p.97). Assim, “Eichmann
em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal”, livro-reportagem de Hanna
Arendt, apresenta-se como caso sui
generis para o intuito desta pesquisa, no que tange aos pilares: prática
jornalística, ética aplicada e função do jornalista. Principalmente pelo fato
de ser quase desconhecido, ou pouco estudado, como reportagem, por estudantes e
estudiosos de comunicação social.
Adolf
Eichmann, um dos arquitetos da “solução final” nazista é raptado num subúrbio
de Buenos Aires, por um comando israelense em maio de 1960. Na Casa da Justiça
de Jerusalém, o palco estava montado para um espetáculo de magnitude histórica:
as vítimas de ontem alçadas à condição de juízes do antigo carrasco. Mais que
um julgamento, uma lição e uma advertência: nada frearia a determinação do
Estado judeu em capturar gente como Adolf Eichmann.
Tudo seria seguido como
planejado, se ao menos o curso do
processo não tivesse produzido a mais bizarra desproporção: quanto mais inflada
a retórica da acusação, quanto maior o horror dos testemunhos, tanto mais se
apagava e apequenava a figura do “monstro” na cabine de vidro. O fato não
escapou aos olhos da filósofa Hanna Arendt, que assistiu ao julgamento como
correspondente da revista The New Yorker.
Esquivando-se à paixão reinante, ela pôde ver Eichmann em toda a sua
mediocridade: um arrivista de pouca inteligência, uma nulidade pronta a
obedecer a qualquer voz imperativa, um funcionário incapaz de discriminação moral
– em suma, um homem sem consistência própria, em quem os clichês e eufemismos
burocráticos faziam as vezes de caráter.
Uma vítima, portanto? Arendt
mostra que, longe disso: não há sofisma capaz de apagar seu papel na deportação
de milhões de judeus para os campos de extermínio nazistas. O problema é que
Eichmann descobre na própria mediocridade seu último trunfo: como condenar um
funcionário honesto e obediente, cumpridor de metas, que não fizera mais do que
agir conforme a ordem legal vigente na Alemanha de então?
Arendt, a partir daí,
fundindo o jornalismo político à reflexão histórica e filosófica, explora as
implicações do caso Eichmann: o que fazer das noções de culpa e
responsabilidade do Estado burocrático moderno? Em que medida a tragédia do
Holocausto deve servir para reformar o conceito usual de soberania e as
relações entre os Estados? Como se vê, questões que não perderam a cadência e
que, magistralmente, seguindo os preceitos jornalísticos comuns, não só às
teorias ético-filosóficas, como também aos códigos de ética, cânones da classe
e cartas de princípios, Hanna Arendt narrou.
O relato de um
julgamento só pode discutir as questões que foram tratadas no curso do
julgamento ou que, no interesse da justiça, deveriam ser tratadas. Se a situação
geral de um país em que o julgamento ocorre é importante para a condução do
julgamento, ela também deve ser levada em conta. Este livro, portanto, não
trata da história do maior desastre que se abateu sobre o povo judeu, nem é um
relato sobre o totalitarismo, nem uma história do povo alemão à época do
Terceiro Reich, nem é, por fim e sobretudo, um tratado teórico sobre a natureza
do mal. O foco de todo julgamento recai sobre a pessoa do acusado. [...] Tudo o
que vai além disso, [...] só afeta o julgamento na medida em que forma o pano
de fundo e as condições em que o acusado cometeu seus atos. Todas as coisas com
que o acusado não entrou em contato, ou que não o influenciaram, devem ser
omitidas dos trabalhos de um tribunal e conseqüentemente da reportagem sobre
ele. (ARENDT, 1999, p.308-309).
No Pós-escrito ao
livro-reportagem, Arendt, respondendo aos questionamentos de judeus que
interpretaram sua obra quase como uma “defesa” a Eichmann, analisa exatamente a
prática jornalística implicada no relato, no qual ela não agiu nem em defesa,
nem em acusação, mas na condição de correspondente, e mesmo pensadora:
jornalista e não militante.
Posso também imaginar
muito bem que uma controvérsia autêntica poderia ter surgido do subtítulo do
livro; pois quando falo da banalidade do mal, falo num nível estritamente
factual, apontando um fenômeno que nos encarou de frente no julgamento. [...]
Para falarmos em termos coloquiais, ele [Eichmann] simplesmente nunca percebeu o que estava fazendo. [...] Ele não era
burro. Foi pura irreflexão – algo de nenhuma maneira idêntico a burrice – que o
predispôs a se tornar um dos grandes criminosos desta época. (ARENDT, 1999, p.310).
Questões
como essa e questões fundamentais à prática, logo à ética jornalística,
apresentam-se urgentes na atualidade, essenciais para a manutenção da
credibilidade da imprensa.
Metodologia
a)
Revisão bibliográfica de literatura comparada entre as principais correntes
contemporâneas de ética aplicada, destacando-se as tendências neoaristotélicas,
a ética da alteridade (Levinas), a ética da finitude (Heidegger), o
utilitarismo, a teoria ético-política da justiça (Rawls), a ética do discurso
(Habermas) e a ética da responsabilidade (Hans Jonas), e a ética jornalística, destacando-se,
nacionalmente, os princípios éticos recomendados pela Associação Nacional de
Editores de Revistas (publicado em dezembro de 1997), os preceitos da
Associação Nacional de Jornais, o Código de Ética do Jornalista (aprovado em 29
de setembro de 1985 pela Federação Nacional dos Jornalistas), e,
internacionalmente, os cânones do jornalismo adotado pelo Comitê de Ética da
American Society of Newspapper Editors (ASNE, em 1922), o Código de Ética dos
Editores-chefes da Associated Press (revisto e adotado em 1995);
b)
Revisão bibliográfica de elementos-chave da teoria e técnica da reportagem e da
pesquisa jornalística, tais como anunciar/enunciar, pronunciar/denunciar,
reportagem e verdade, fontes, personagem-indivíduo, personagem-tipo, perfil;
c)
Análise dos elementos constitutivos do livro-reportagem “Eichmann em
Jerusalém”, de Hanna Arendt, especialmente no que concerne às fontes, conforme
explicitado pela autora, e outros, a partir da estrutura narrativa: o ambiente
do acontecimento, o personagem-indivíduo ou personagem-tipo, o fato, seguidos
de epílogo e pós-escrito;
d)
Confronto qualitativo dos itens a, b, c;.
Seguido de e) elaboração
teórico-conceitual dos resultados e possível aplicação destes conceitos na
prática jornalística, no fazer-reportagem e na ética implicada nestes.
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