VERA MARTA REOLON
Pesquisa apresentada ao
Deparetamento de Ensino e Currículo,Psicopedagogia e Educação Infantil da
Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul..
PORTO
ALEGRE – RS
Junho/2016
APRESENTAÇÃO
Os resultados da tese de doutorado “O PROFESSOR NO LUGAR DO OUTRO”,
defendidos por esta autora, no PPG em
Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, apontaram que as
estruturas psíquicas contemporâneas se configuram, psicanaliticamente, em
psicose e perversão – não mais em neurose, tal como na época do nascimento da
psicanálise, com Sigmund Freud – e que a
educação, nesse sentido, tem papel fundamental frente às demandas
contemporâneas: o professor atuando como Outro, Lugar Materno por excelência,
campo de inscrição de significantes no Sujeito. Este projeto visa aprofundar
tal temática, visualizando as possíveis contribuições para a prática
psicopedagógica no panorama antes estudado.
OBJETIVO
1.Objetivos
Gerais
Investigar como a educação como Política Pública pode (e se pode) atender
às demandas estruturais dos sujeitos
educandos frente às estruturas psíquicas que vigem no mundo contemporâneo.
2.Objetivos
específicos
Identificar o lugar do professor frente às demandas psíquicas
contemporâneas a partir da teoria psicanalítica de Jacques Lacan. Analisar como a psicopedagogia e sua atuação
contribuem e auxiliam para atingir objetivos educacionais neste caso.Contrapor
os dados coletados à teoria lacaniana do desejo e, por conseguinte, da ética da
psicanálise.
Identificar as confluências educação e psicanálise, analisando os
pressupostos das duas áreas do conhecimento visando reflexões e práticas
psicopedagógicas e soluções frente aos impasses da pós-modernidade, visando atender
às necessidades contemporâneas, especificamente à realidade brasileira..
Analisar, como apêndice, a obra O
Anti-Édipo: Capitalismo e Esquizofrenia, de Gilles Deleuze e Felix
Guattari, com o objetivo de refletir sobre a questão do desejo, tendo em mente
que a psicanálise centra seus estudos e sua teoria no Complexo de Édipo. Se a
cultura humana é calcada, formada, na interdição do incesto originada no mito
edípico, de Sófocles, como pensar a cultura, o desejo e o homem a partir do
Anti-Édipo deleuziano?
Partindo do pressuposto de que a ética da psicanálise é a ética do
desejo, constituído a partir do amor, e acreditando na tese de que a ética da
psicanálise necessita de uma reversão em “desejo de ética”. Acreditando, ainda,
que este desejo de ética seria possível através da educação, investigar como se
daria este processo no meio educativo: se ele é possível de ser conquistado, se
é possível a educação sem esta constituição primeira( família – socialização
primária; escola – socialização secundária : para Peter Berger) nos sujeitos e
como a educação pode (se deve) fazer esta passagem.
Formulação
do Problema
Seria o educador como Outro uma forma de fazer frente às grandes questões
que nos afligem, a violência, a crueldade, as toxicomanias e, enfim, o que
resulta e resta de e com os sujeitos contemporâneos nas psicoses e perversões?
O que vem antes, um mundo
que facilita as toxicomanias, ou elas originam o mundo?
São estas “doenças
modernas”, anorexia, bulimia, toxicomanias, resultados destas desestruturas
psíquicas? . => estruturação saudável como PP de Saúde.
Como a psicopedagogia pode atuar ,neste sentido, visando uma escola mais
saudável?
Pode a educação fazer frente a essas questões? Pode ela isentar-se disso?
Como educar sem fazer essa passagem? É possível fazer a educação sem essa
constituição primeira?
Em tempos pós-modernos, com suas tão singulares características, é de
extrema importância que se proponha uma pesquisa, com limites entre ética,
desejo, psicanálise e educação, à medida que presenciamos uma crise de valores
e uma estagnação, em alguns aspectos, da psicanálise no final do século XIX e
início do século XX.
A sociedade evoluiu (?) e a psicanálise, me parece, está ainda centrada
na neurose, estrutura clínica que já não se enquadra em grande parte na
sociedade. Atualmente, as estruturas vigentes são a psicose e a perversão, e
cabe à psicanálise, juntamente com a educação e as Ciências Sociais, propor uma reformulação de pensamento e de
práticas nesse sentido.
Derrida faz uma desconstrução lingüística para chegar a um entendimento,
que deseja que cheguemos com ele. Com a psicanálise, há uma desconstrução
lingüística do sujeito, para que ele se “ache”, se compreenda efetivamente,
enquanto estrutura psíquica. Desta forma, é necessário, importante e relevante,
investigar como a educação pode (e se deve) fazer frente às desestruturas da
contemporaneidade e a crueldade que advém delas.
Essa pesquisa propõe realizar uma profunda análise da psicanálise em
conjunto com a educação e as ciências sociais e PP’s, no sentido de vincular
uma reformulação teórica e prática em seus pressupostos e contatos com os
educandos, buscando modificações nos paradigmas “estrutura psíquica, educação e ética”, para a criação de políticas
sociais e governamentais.
QUADRO TEÓRICO
Segundo J. Derrida, em seu Estados-da-alma
da psicanálise: o impossível para além da soberana crueldade (2001), “se há
um discurso que poderia, hoje em dia, reivindicar a causa da crueldade psíquica
como um assunto próprio, este é o que se chama, de mais ou menos um século para
cá, psicanálise” (p.09). E, ainda, “onde a questão do mal radical ou de um mal
pior que um mal radical não estaria mais abandonada à religião ou à metafísica,
nenhum outro saber estaria disposto a se interessar por algo como a crueldade –
salvo o que se chama psicanálise” (p.09).
Por que falar em crueldade? Porque,
na pós-modernidade (ou modernidade líquida, segundo Bauman, ou ainda, tempos
hipermodernos, segundo Lipovetsky) observamos um social com estruturas
psíquicas singulares. Se, à época de Freud, o que vigia, no social, era a
estrutura da neurose, em nossos tempos, poder-se-ia dizer (se tivéssemos um
afastamento temporal maior) que o que vige é a psicose e a perversão. Logo, estruturas
em que o determinante é a crueldade. Partindo-se, assim, da escrita
desconstrutiva de Derrida, o discurso psicanalítico é o que pode dar conta das
questões contemporâneas.
A psicanálise, como teoria
interpretativa da realidade, serve para analisar os fenômenos, no campo
individual, através das manifestações do inconsciente, presentes na linguagem
dos diversos sujeitos, nos chistes, na interpretação dos sonhos, etc. Pode,
entretanto, interpretar os fenômenos sociais, através da análise das manifestações
da sociedade, das organizações e instituições, dos grupos sociais. Aliando-se a
filosofia, essencial para seu desenvolvimento deste o início, a psicanálise,
além de realizar interpretações, reflete sobre os fatos, utilizando-se das
teorias dos grandes pensadores.
Mas a psicanálise, segundo Derrida “O mundo, o processo de globalização
do mundo, tal qual vai [...]. Ele resiste de maneira desigual e difícil de
analisar” (p.16), não consegue mais dar conta dessas questões ligadas à
crueldade de nosso tempo, porque a ética da psicanálise centra-se na ética do
desejo. Como atender às necessidades desse social emergente e cruel com a ética
da psicanálise respondendo com a ética do desejo, a partir, por exemplo, da
perversão?
De que forma o sujeito realiza sua identidade (sexual)? Ela ultrapassa a
castração, pois implica na dimensão do terceiro. Inicialmente, o sujeito está
com o Outro, numa relação de dependência, de cuidado. Este Outro é a mãe, não
necessariamente a mãe biológica ou uma mulher. O Outro, aos poucos, vai
introduzindo um terceiro, o pai, não necessariamente o pai biológico ou um
homem. Este Outro, ao desejar o parceiro, Lugar de Desejo da Mãe, institui no
filho o desejo por outro que não este filho. Assim, se determina o lugar
paterno na estrutura, lugar do terceiro. Este lugar terceiro constitui uma lei
interna ao sujeito, a lei da interdição (‘tu podes todas, menos esta, que é
minha!’), a Lei do Nome do Pai. Conforme o sujeito se identifica com a mãe, ou
com o pai, menino ou menina, esta identificação determina sua escolha de
objeto, decisão do lado masculino ou feminino em sua escolha sexual.
A realização sexual depende da desvinculação com o Outro. O Outro é
imortal, ele permanece na estrutura enquanto amor, instituição do desejo. Não
há significante cultural que dê conta desta morte. O desejo é indestrutível, o
desejo é imortal. O desejo que nos constitui é o nosso diferencial ético
perante o mundo. Buscando-o nos diferenciamos dos demais, nos tornamos únicos.
Mas como conciliar o desejo do analisando (na maioria das vezes, perverso
e psicótico) e o mundo exterior, a sociedade como um todo? A psicanálise
estaria sendo ética perante o social, à medida que tem sua ética calcada na
ética do desejo? Minha tese (fruto dela e resposta às questões lançadas à
mesma), junto ao Doutorado em Filosofia (PUC-RS), é que devemos fazer uma
reversão da ética da psicanálise e buscar o desejo pela ética. Como chegar-se a isso? Lanço uma hipótese de que
os processos educativos é que podem propiciar uma resposta a essa grande
questão contemporânea, apresentando o professor como Outro, este Outro que está
em falta para com o sujeito educando. Seria o educador como Outro uma forma
de fazer frente às grandes questões que nos afligem, a violência, a crueldade,
as toxicomanias e, enfim, o que resulta e resta de e com os sujeitos
contemporâneos nas psicoses e perversões? Pode a educação fazer frente a essas
questões? Pode ela isentar-se disso? Como educar sem fazer essa passagem? É
possível fazer a educação sem essa constituição primeira?. Como pensar essas
questões, tendo em vista a educação e a saúde como PP’s?
Nunca, em nenhuma outra época de nossa história, esteve o homem tão só em
meio à multidão. Os ideais que o sustentavam caíram, a felicidade não depende
mais da harmonia de vínculos sociais, mas de objetos adquiridos e ofertados
incessantemente pela mídia e os instrumentos gerais do marketing. Há uma oferta
de gozo total. A foraclusão da Lei da vida é paga com dízimos. O sujeito é
transformado, através do seu assassinato, em objeto submisso do gozo do Outro.
Não há nada mais psicotizante do que isso. Nas doenças da modernidade,
anorexia, bulimia, toxicomanias, o que se tem são sombras que o mundo das luzes
não ilumina. A modernidade nos oferece um mundo iluminado pelos outdoors plenos
de ofertas, mas nosso eu, quem sou, para onde vou, o que desejo (?), não há
resposta. Há muita “luz” NEON e a luz interior é apagada!.
A oferta que temos é de pulsão de morte em todo tempo. O mercado demanda ofertas onde o consumidor
precisa e não vive sem a mercadoria. Este
é o modelo de paradigma que abarca
as toxicomanias, é causa e conseqüência delas. O que vem antes, um mundo
que facilita as toxicomanias, ou elas originam o mundo? Não sabemos, devemos
pensar sobre isso. As doenças modernas remetem à morte do sujeito, uma segunda
morte que vem antes da primeira (interrupção da vida), pois esta segunda é a
morte do sujeito no Simbólico. São estas “doenças modernas”, anorexia, bulimia,
toxicomanias, resultados destas desestruturas psíquicas?
Através da leitura de obras de Lacan, Derrida, Deleuze, Guattari, Rawls,
Platão e Aristóteles, pretende-se responder a essas questões.Hanna Arendt e a
questão do totalitarismo => as perversões.
As confusões público-privado, câmeras e os excessos de invasões sobre a
vida das pessoas, ao mesmo tempo que tais invasões em nada auxiliam no cessar
da violência (já que o são por si) e
nada provam, quando exigidas pela justiça penal. Esta violência (invasão)
produz uma violência virtual que, sob pressão, desencadeia violência física.
As FEBEM’s e a falsa educação do ECA na prática. As falas dos meninos da
FEBEM: “eu quero ficar com os grandões no presídio, depois dos 18, quando zera
minha ficha policial” (sic).
Leis iguais para todos, mas como fica, por exemplo, o Complexo do Alemão,
lei igual?
Hanna e o caso Eichmann e a forma “judaica” de conduzi-lo.
Conceito de aurtonomia => Bidung, a partir da Paidéia grega e de
Rousseau e Hobbes.
Nietzsche : “nunca se precisou tanto de educadores morais” (sic)
METODOLOGIA
Através da leitura das obras dos
autores indicados, analisar como a ética, a psicanálise, a educação, a
psicopedagogia confluem e podem interligar-se no sentido de buscar respostas às
demandas sintomático-estruturais contemporâneas, para a criação de práticas
psicopedagógicas eficientes.
Procedimentos
metodológicos:
Estudo do conteúdo das obras indicadas, delimitando seus enfoques na
Ética, no Desejo e na Educação.
Após a delimitação dos enfoques, interpreta-se quais as confluências
entre a psicanálise, a educação, e a psicopedagogia sob o prisma ético.
Estuda-se a contextualização da psicanálise desde o seu surgimento até a
pós-modernidade, identificando suas mudanças em relação a sua ética e em
relação ao seu enfoque perante o desejo do sujeito.
Introduz-se ao estudo, conhecimentos provenientes de outros pensadores, a
cerca de suas teorias sobre ética e constituição amorosa-desejo.
Interpreta-se, sob as perspectivas da educação como prática
psicopedagógica e da psicanálise os
resultados das análises.
Texto Final Proposto:
1. Introdução
2. Capítulo I –
Estruturas Psíquicas Contemporâneas
3. Capítulo II –
Ética da Psicanálise versus Desejo de
Ética: filosofia, ética e psicanálise na pós-modernidade
4. Capítulo III
– Psicanálise , Educação e Práticas Psicopedagógicas: reflexões para práticas
educativas contemporâneas
5. Conclusão
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