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George Orwel

quarta-feira, 27 de maio de 2020

LIVRO: mulheres para um homem....para O Homem, A Mulher



VERA MARTA REOLON








mulheres para um homem.....

para O Homem, A Mulher






CAXIAS DO SUL - RS

2006     

LIVRO EDITADO PELA EDIPUCRS , sob ISBN 978-85-7430-777-0



Agradeço e dedico este trabalho:

-          Ao meu orientador professor Dr. Jayme Paviani que, à falta de meu pai, foi um pai, permitindo e favorecendo meu progresso gradativo e sem imposições;
-          Ao meu filho Guilherme, um grande presente de Deus poder conviver com ele;
-          Aos dois Josés: um que me trouxe de volta ao prazer das  letras, perdida que estava no campo teórico; outro, pela sua presença e carinho em tudo;
-          À Brigith que, como diz Nietzsche, é mais racional e especial que muitos “animais racionais”. 



Sumário

Introdução

25
Capítulo I – Região e Identidade Cultural
34
1.1. Povo – Identidade, Singularidade
34
1.2. Região e Gênero – Uma apresentação
38
Capítulo II – Masculino/Feminino – O que é isso?
47
2.1. Contexto Histórico-Antropológico
47
2.2. Contexto Psíquico-Estrutural
55
2.3. Masculino/Feminino: Arte e Literatura
64
Capítulo III – Transposição do Velho e do Novo – A Cocanha
72
3.1. O Mito Fundador – América: A “Cocanha”
72
3.2. O “Negócio do Século: venda de gente”
77
3.3. O Observador
80
3.4. Os Políticos
81
3.5. As “rondinèle”
86
3.5.1. Betina
86
3.5.2. Marieta
87
3.5.3. Gema
89
3.5.4. Giulieta
91
3.5.5. Rosa
93
Capítulo IV – Exaltação à Força do Amor – O Quatrilho
96
4.1. Personagens Centrais
96
4.2. Personagens Masculinos
101
4.3. Personagens Femininos
107
4.4. Caxias e o Trabalho
109
4.5. Vozes da Repressão e Moral
4.5.1. Voz da Repressão – Padre Gentile
4.5.2. Voz da Moral – Padre Giobbe
110
110
111
Capítulo V – Metaforização da Vida – Mapa de Viagem
114
5.1. Declaração de Amor
115
5.2. Quando o Amor
118
5.3. Os Retratos na Sala
120
Conclusão
Glossário
127
140
142
Referências Bibliográficas
147


Introdução

            Muito se tem estudado sobre a questão feminina, sobre as questões de gênero, sobre as diferenças entre o masculino e o feminino na sociedade, nas relações e no pensamento ocidental. Esta pesquisa, entretanto, pretende, talvez de forma pretensiosa, pensar e discutir sobre as origens da identidade feminina em suas relações com a cultura.
            Tem-se, como objetivo geral, investigar a questão da mulher, o feminino, como ou em que se diferencia do masculino na cultura, a partir do imigrante italiano da Serra Gaúcha, na perspectiva das obras O Quatrilho (1996), A Cocanha (2000a) e Mapa de Viagem (2000b), de José Clemente Pozenato. Especificamente, pretende-se investigar, nessas obras, as formas de comparecimento das figuras masculina e feminina, delimitando-as sob diferentes perspectivas (culturais, religiosas, sexuais, sociais, etc.) e buscar transpor as informações coletadas para a realidade da mulher e do homem da região de imigração italiana no Rio Grande do Sul e no âmbito global.
            Propõe-se descobrir como se desenvolveu, na literatura, o processo de aculturação em relação à mulher na região da Serra Gaúcha, além de observar, a partir das obras literárias em questão, a visão de mulher que a sociedade tinha. 
            De que forma agiam os imigrantes, o que falavam, como eram suas relações sociais, afetivas, pessoais, o que pensavam, como viviam, tudo isso pode ser observado à luz das obras de Pozenato, observador da cultura em que vive e que consegue retratar em seus textos o pensamento desta cultura, regionalizada, porém universal.
            Com isso, aspira-se demonstrar como o evento literário, no entrelaçamento das personagens nos enredos, expressa nas dimensões culturais, particulares, idéias, valores, comportamentos, que caracterizam o feminino e o masculino nos seus objetos universais e particulares.
            Algumas questões são levantadas:

1.                           Como comparece e se apresenta a figura feminina nas obras literárias de José Clemente Pozenato, enquanto identidade feminina? 
2.                           A figura feminina difere da masculina?
3.                           É inerente a uma natureza feminina, à organização da mulher, sua forma de estruturação física e psíquica (se há uma)?
4.                           Homens e mulheres têm apresentações sociais, pessoais, coletivas ou individuais semelhantes?
5.                           Estas apresentações de diferenças, se existem, se dão por que razões?
6.                           Estas razões são externas ou internas de cada ser humano?

Destaca-se, ainda, a questão-chave: em que a mulher, enquanto estrutura – organização física e psíquica – se diferencia do lugar masculino, no processo cultural da Serra Gaúcha?
Penso que muito da visão que temos da mulher vem do campo religioso, que nos estrutura enquanto sociedade. À época da colonização, o pensamento vigente e que ordenava os passos da sociedade era o da Igreja Católica, em suas diferentes conexões.
Este trabalho indaga a origem de nossa aculturação com relação às questões do que é a mulher e tem como hipótese a idéia de que a identidade feminina traz incluída diferentes visões de mundo, religiosas, sociais, psíquicas, etc. desta mulher e homem, recortados em uma época de nossa história.
Estudar o feminino significa estudar gênero, as construções de identidade culturalmente determinadas e resultantes das relações sociais localmente situadas. A mulher imigrante que vem da Europa e se instala nesta região é uma mulher que trabalha na colônia com o homem, auxilia-o nos trabalhos da terra, cuida da casa, dos filhos, da família. Está sujeita ao “comando” do homem da casa, embora sua jornada de trabalho seja superior a dele.
Desde os primórdios, o homem conduz os meios sociais (de comando) e à mulher cabe um lugar subalterno (de ser comandado). Esta relação hierárquica é tão forte que, frente à perda deste nas conduções da casa (ligadas aos bens materiais) pela sua morte ou afastamento, a mulher, obrigada a assumir este lugar, “traveste-se” de masculino, torna-se forte, agressiva, destruidora até.        
Pretendo com o olhar da psicanálise de Sigmund Freud e Jacques Lacan, após a leitura de teóricos como Antônio Candido e Pierre Bourdieu, analisar através das obras de Pozenato, o comparecimento do feminino e do masculino e interpretá-los no contexto cultural da região, chegando a conclusões sobre a apresentação do que é a mulher.
A investigação de base psicanalítica baseia seus estudos em categorias como o falo, falo este absolutamente simbólico, não atento ao lugar masculino, mas a um lugar de pulsão, Real, da ordem de um “insimbolizável”, mas também hipoteticamente vinculado à idéia do pênis masculino, desde Freud (1987) e suas vinculações masculino/feminino em Além do Princípio do Prazer, Diferença Anatômica entre os Sexos, etc.
Lacan, em seu Seminário 20, Mais Ainda (19--), coloca que a mulher é da ordem do Real, impossível de ser simbolizada, à semelhança do inconsciente, só possível de ser dita a partir de seus efeitos.
Antônio Candido, em um estudo sobre a personagem do romance, coloca que “a personagem vive o enredo e as idéias, e os torna vivos” (CANDIDO, 1972, p. 54). Complementa que, em nossas relações sociais, observamos o outro e não conseguimos apreendê-lo em sua totalidade, porque ele está em mutação e sempre algo é inapreensível: “os seres são, por sua natureza, misteriosos, inesperados” (CANDIDO, 1972, p. 56).
Com as pesquisas da psicologia sobre o subconsciente e o inconsciente, teríamos algumas explicações sobre este “insólito” nas pessoas. A literatura, para Candido, se beneficiou dos resultados da psicologia e transpôs para as obras este conhecimento que, antes destas pesquisas, era intuitivo nos escritores. A intuição dos escritores com relação à montagem dos personagens permanece, mas se torna mais rica, fazendo-nos aventurar mais no conhecimento do outro nas obras que lemos:

[...] na vida, a visão fragmentária é imanente à nossa própria experiência; é uma condição que não estabelecemos, mas a que nos submetemos. No romance, ela é criada, é estabelecida e racionalmente dirigida pelo escritor, que delimita e encerra, numa estrutura elaborada, a aventura sem fim que é, na vida, o conhecimento do outro. (CANDIDO, 1972, p. 58).

As construções do lugar feminino e masculino na literatura, nesse sentido, possibilitam diferentes enfoques:
-          A Mulher e a esposa
-          A Mulher e a mãe
-          A Mulher e a avó
-          A Mulher e a filha
-          A Mulher viúva
    Pode-se assim, nestas aberturas do lugar da mulher, estudar estas possíveis delimitações de lugar, com algumas categorias como: a religiosa, a social, a simbólica, o trabalho, a pulsão sexual, a repressão sexual, a família, os pensamentos e os sentimentos individuais.
A análise interpretativa, de inspiração psicanalítica, permite apresentar aspectos relevantes do feminino e do masculino, enquanto estudo de gênero na cultura da Serra Gaúcha.
A linguagem utilizada na elaboração da obra, os personagens, as construções simbólicas dizem e remetem-nos a lugares, formas de comparecimento, cultura, tipo de sociedade, que nos conduzem a um lugar para pesquisa:
           
A linguagem tem função constitutiva do homem e o inconsciente tem suas próprias leis de tal modo que o homem não domina a ordem do significante, ao contrário, existe uma certa autonomia da função simbólica em relação ao sujeito. Portanto, para a literatura a questão do inconsciente, da função simbólica ou da fé perceptiva coloca-se duplamente: primeiro na linguagem e depois na noção da obra... A obra enquanto processo de racionalização fundado na racionalidade assume o processo do inconsciente. A racionalidade não é uma substância ou entidade pré-existente. Engloba todas as formas de consciência. Compreende o inconsciente enquanto processo que se manifesta formalmente na linguagem e na linguagem literária de um modo especial. Em vista disso, Freud e Lacan transformam a obra literária num lugar privilegiado de pesquisa. (PAVIANI, 1991, p.97). 


            Anatol Rosenfeld, analisando literatura e personagem, diz deste uso da palavra, nas obras literárias, como construções simbólicas particulares:

[...] aspectos esquemáticos, ligados à seleção cuidadosa e precisa da palavra certa com suas conotações peculiares, podem referir-se à aparência física ou aos processos psíquicos de um objeto ou personagem (ou de ambientes ou pessoas históricas, etc.), podem salientar momentos visuais, táteis, auditivos, etc. (ROSENFELD, 1972, p.14)

            Jayme Paviani corrobora Rosenfeld na literatura e a une à psicanálise na compreensão dos processos inconscientes existentes nas obras, utilizados por seus autores para enriquecê-las, que nos enlevam, na leitura, a lugares inimagináveis, externos ou internos, dos personagens que aí se apresentam:

Decisiva é a contribuição de Lacan à compreensão do processo do inconsciente na literatura. Exemplar é a análise do conto de Edgar Allan Poe, A Carta Roubada, onde mostra o domínio do significante sobre o sujeito, e o inconsciente como linguagem. Ao contrário da linguagem científica que é dominada pelos códigos e leis do conhecimento lógico, a linguagem literária, próxima da linguagem comum, deixa-se determinar pelas formulações inconscientes e, assim, verdades, normalmente censuradas em outros tipos de discurso, têm livre trânsito [...] Agora a questão é a linguagem como discurso, o discurso da obra, o mundo do texto. O inconsciente na literatura possui características diversas do inconsciente na terapia, mas nem por isso, nas obras literárias as personagens são postas na obra como pacientes do divã. É que o processo de elaboração da obra pode ser vista como uma forma de psicanálise, de busca crítica – crítica porque a obra é distanciamento reflexivo- de algo que transcende o autor e o leitor, pois ambos sabem, no mínimo, que há um significado não manifesto que sustenta suas relações através da obra. (PAVIANI, 1991, p.99)


Assim, observando estes personagens, estudando-os sob a luz da psicanálise e da forma magistral apresentada por seus autores, temos como transpor esta “verdade” ficcional para a realidade e fazer estudos de cultura, de gênero, etc. Rosenfeld nos confirma esta idéia quando nos fala do problema lógico existente nas obras:

Os enunciados de uma obra científica e, na maioria dos casos, de notícias, reportagens, cartas, diários, etc., constituem juízos, isto é, as objectualidades puramente intencionais pretendem corresponder, adequar-se exatamente aos seres reais referidos. [...] Há nestes enunciados a intenção séria de verdade. (ROSENFELD, 1972, p.18)

A cultura em que vivemos, judaico-cristã em sua base, pensa a sociedade e suas relações a partir do que a estrutura religiosa propõe. O pensamento ocidental foi, e é, extremamente influenciado pelos conceitos e propostas da Igreja Católica (enquanto igreja que dita o modus-vivendi religioso desde o “império greco-romano”). Este estudo pode investigar se isso corresponde ou não a esse modo de pensar, demonstrar que conseqüências ou efeitos têm ainda hoje.
Como a Igreja Católica dita os procedimentos, as relações, os preceitos da sociedade, estes não se isentam do olhar daquela. As relações pessoais e sociais são, assim, conduzidas pelo “olhar” do padre da igreja que se freqüenta, da freira que dirige e ensina na escola do filho, da freira que faz as “lidas” religiosas na paróquia, etc. Assim, é necessário, importante e relevante realizar a investigação aqui proposta para desenhar o lugar do feminino, diferente ou não do masculino nesta região delimitada.
Também é de suma importância o estudo das questões de gênero na Serra Gaúcha, já que este é um assunto debatido em todas as esferas do pensamento na atualidade e aqui, em nossa região, as mulheres, e os homens, são singulares em suas relações com o trabalho, no simbólico, na sexualidade, na vida.
Dar voz a mulheres que se mantiveram à margem de seus maridos e, mesmo na falta destes, assumiam seus lugares nos diferentes contextos sociais, sem assumir seus próprios nomes, usando o nome deles. Por quê isso era assim? Nos dias de hoje é diferente, e se é, em que difere? O que homens e mulheres pensam disso, refletem sobre essas questões? Como as obras literárias propostas apresentam essas questões?
A psicanálise como teoria interpretativa da realidade serve para analisar os fenômenos, no campo individual, através das manifestações do inconsciente, presentes na linguagem dos diversos sujeitos, nos chistes, na interpretação dos sonhos, etc. Mas também a psicanálise pode interpretar os fenômenos sociais, através da análise destas manifestações sociais na linguagem utilizada, na literatura disponível, etc.
 A psicanálise segue, desde sua criação até os dias de hoje, ampliando seu campo de ação, cada vez mais, do campo individual (análise do sujeito) para o campo social (o sujeito inserido na cultura). Cultura aqui entendida como sociedade, não apenas conjunto de pessoas, mas meio cultural, centro de idéias, crenças, tradições, etc.
Sigmund Freud, em seu trabalho escrito, além de inserir-nos no campo literário, ainda nos remete, enquanto escritores, no campo dos estudos da mente e auxilia-nos a elucidar as obras e seus personagens:

O trabalho de Sigmund Freud, nascido das disciplinas especializadas de Neurologia e Psiquiatria, propõe uma concepção de personalidade que surtiu efeitos importantes na cultura ocidental. Sua visão da condição humana, atacando violentamente as opiniões prevalecentes de sua época, oferece um modo complexo e atraente de perceber o desenvolvimento normal e anormal. Freud explorou áreas da psique que eram discretamente obscurecidas pela moral e filosofia vitorianas. Descobriu novas abordagens para o tratamento da doença mental. Seu trabalho contestou tabus culturais, religiosos, sociais e científicos. Seus escritos, sua personalidade e determinação em ampliar os limites de seu trabalho fizeram dele o centro de um círculo de amigos e críticos em constante mudança. (FADIMAN; FRAGER, 1986, p.03)

            Lacan, estudioso de Freud e de outros campos do saber, une a psicanálise à lingüística e, definitivamente, insere os estudos psicanalíticos ao campo das letras, da literatura:

Passados dez anos da morte de Lacan, colocar a questão da articulação entre a Lingüística e o campo psicanalítico convoca eticamente o cumprimento de um dever que se resume em duas operações: 1) O tratamento de Lacan como significante e a referência a suas letras, trabalhando as conseqüências da distinção entre os dois termos; 2) Como conseqüência deste passo, o reconhecimento de uma dívida para com a teoria. O contato ou a aproximação da Lingüística e da Psicanálise se faz sobre aquilo que permanece irredutível, não-nomeável, não-simbolizável, não-articulável entre Freud e Saussure. (QUINET, 1993, p.139)

  Como procedimentos aplicados:
-          realizou-se um estudo das obras propostas, separando as figuras femininas e masculinas aí apresentadas e suas participações no contexto das situações e vivências contidas nas obras;
-          estudou-se as mulheres e homens nas obras, as visões de sociedade da época retratada, o modo de vida, a cultura e a estruturação social e pessoal das pessoas da época, as idéias e o contexto geral;
-          aplicou-se, na análise, conceitos e categorias como o ‘religioso’, o ‘simbólico’, o ‘sexual’, o ‘trabalho’ e outros;
-          interpretou-se, com recursos literários e psicanalíticos, os resultados das análises.
Para refletir em torno da problemática lançada, divide-se o estudo nos seguintes capítulos: I. Região e Identidade Cultural, onde se busca uma abordagem dos conceitos de região, identidade, cultura, trazendo estes conceitos a recortes das obras de Pozenato para fazer-lhes introdução; II. Masculino/Feminino – O que é isso?, onde há uma delimitação do masculino e do feminino, iniciando a contextualização numa visão histórico-antropológica, após introduzindo o leitor na diferenciação masculino/feminino no campo psicanalítico e também no contexto artístico-literário, sempre fazendo recortes do texto de Pozenato. A partir do Capítulo III, Transposição do Velho e do Novo, entra-se no estudo das obras, objeto desta pesquisa: neste a obra A Cocanha. No Capítulo IV, Exaltação à Força do Amor, a obra estudada é O Quatrilho. E, no Capítulo V, Metaforização da Vida, busca-se uma “amarragem” das duas obras, anteriormente estudadas e citadas, com a obra poética, Mapa de Viagem, buscando algumas conexões. 

Capítulo I
Região e Identidade Cultural

... E tudo resumido, nada há aqui de atraente
a não ser a visão da terra,
a qual é lindíssima,
de tal forma que se houvera
nascido alguém cá nesta esfera
mais cedo que nós viajaria,
tanto se afigura deste longe um paraíso
o planeta em que tanto choramos.
(POZENATO, 2000b, p.74)


1. Povo - Identidade, Singularidade:

Que tipo de homem habita a região de colonização italiana no Rio Grande do Sul, quem é este homem, e suas mulheres, seus filhos, sua gente? O imigrante europeu que aqui chegou: como era, tinha peculiaridades, particularidades em relação ao que habitava as terras?
O Rio Grande do Sul é ocupado mais tardiamente, em relação ao restante do Brasil. No princípio estas terras não interessavam ao governo português/espanhol, a não ser para determinação de divisão de território de um e outro. Com o advento das Missões jesuíticas, da gradativa ocupação de espaços, extração de riquezas, estas terras passam a interessar e ser fonte de lutas de um e outro, para determinar sua propriedade. Assim, iniciam as discussões políticas, o espaço sendo forjado nas guerras e na paz. Nosso contorno é delimitado, passamos a pertencer a Portugal.
Aos poucos, com a necessidade de povoar estas terras, para que outros não o façam, é incentivada a imigração de colonos europeus. Assim, chegam levas de imigrantes açorianos, alemães, italianos, entre outros, que se instalam gradativamente neste território e buscam seu espaço. Açorianos ficam mais perto do mar; alemães buscam os espaços de planície; italianos chegam mais ao planalto, em terras mais difíceis ao trabalho, basálticas, inóspitas.
Se formos pensar no tipo humano que habita estas terras, perceberemos a diferença do homem que habita o calcáreo ao que se instala no basalto. O ser “basáltico” é um ser embrutecido, rude, sólido, como a terra que habita, difícil no contacto. José Clemente Pozenato, em suas obras, retrata o homem “basáltico”: Ângelo Gardone, em O Quatrilho, aparece como um homem que vive para o trabalho, para acumular. Em A Cocanha, o autor relata que Ângelo apanhava muito do pai, Aurélio, porém não chorava, mantinha-se como se nada sentisse. Isso fazia com que o pai ficasse irado e batesse com mais força, logo ele se satisfazia se sentisse a pancada mais forte, porque estaria irando o pai, vingando-se portanto:

Ele mesmo perdeu a conta de quantas vezes apanhou, às vezes sabendo por que, outras vezes apanhando sem entender, mas sem abrir a boca. Sabe que o pai bate ainda com mais fúria por ele não chorar ou gritar de dor, mas é assim que mostra o seu desgosto. (POZENATO, 2000a, p.361)


Ângelo é um homem embrutecido pela vida, pelo trabalho difícil com a terra, pelo enfrentamento das dificuldades, à semelhança do homem retratado por Euclides da Cunha, em seu belíssimo Os Sertões (2003). O homem que habita o sertão, que lida com as dificuldades com a terra que nela vive e aí se instala:

[...] É a paragem formosíssima dos campos gerais, expandida em chapadões ondulantes – grandes tablados onde campeia a seriedade rude dos vaqueiros [...] Transmuda-se o caráter topográfico, retratando o desapoderado embater dos elementos, que ali reagem há milênios entre montanhas derruídas, e a queda, até então gradativa, dos planaltos, começa a derivar em desnivelamentos consideráveis. (CUNHA, 2003, p.16)


            Ainda:

[...] Ali reina a drenagem caótica das torrentes, imprimindo naquele recanto da Bahia fácies excepcional e selvagem [...] lá tem um claro expressivo, um hiato, Terra ignota, em que se aventura o rabisco de um rio problemático ou idealização de uma corda de serras [...] Apenas naquele último rumo se avantajou uma vila secular, Jeremoabo, balizando o máximo esforço de penetração em tais lugares, evitados sempre pelas vagas humanas, que vinham do litoral baiano procurando o interior[...] Nenhuma lá se fixou. Não se podia fixar. (CUNHA, 2003, p.17)    

          
O imigrante italiano que chega ao Rio Grande do Sul, especialmente à terra do planalto, já é um ser diferente, pois sofre os revezes do clima e do solo em terras européias, solo este muito semelhante ao que aqui encontra. Vive ele as mesmas dificuldades, mas anseia por fazer-se dono da terra que trabalha. Este homem determina sua região, ao mesmo tempo que por ela é determinado. A região e seu habitante são construções, o solo difícil determina o tipo de homem que agüentará permanecer nele e trabalhá-lo. Assim, também, o habitante determina sua terra, trabalhando-a, cultivando-a, transformando-a para obter dela o que deseja, como bem nos diz Pozenato: “[...] tanto o conceito de região quanto a definição de uma determinada região no plano da realidade são construções” (1995, p.18).
E, mais, sobre região:


[...] Ela deixa de parecer um espaço isolado entre fronteiras e dependente de um centro para se tornar simplesmente um lugar de onde, como de qualquer outro, é possível a integração numa rede ampla e complexa de relações [...] um conceito mais flexível de região. (POZENATO, 1995, p.24)  


O homem riograndense, distante do centro político do país, torna-se um ser forte, guerreiro, eternamente em busca de uma identidade própria, de uma marca significante para si mesmo, de um nome que possa dizer seu. Diferentemente do brasileiro, que não consegue uma identidade nacional coesa, o riograndense e o homem regional brasileiro identificam-se a seus pares, fortalecendo identidades regionais singulares. Em Idéia do Brasil (2001), Gilberto de Mello Kujawski, nos diz da identidade nacional, que ela “requer a identificação subjetiva do povo com a totalidade do seu país, o que no Brasil não ocorre por força dos problemas de auto-estima” (p.60).
Há muito tenta-se criar uma identidade nacional, constituí-la, determiná-la, mas a dificuldade perpassa exatamente esta questão, uma nação não se faz pela força, não se cria. Uma nação se constrói a partir de suas bases, de cada ser que nela habita, com suas particularidades, com sua especial singularidade.
Em A Identidade Nacional (2000), Carmem Backes, coloca sobre a identidade do povo brasileiro, como uma construção entre o velho e novo, a memória e as possibilidades do futuro construído, da diferença individual e das constituições sociais:

[...] Uma identidade é compósita e em constante composição: inclui o velho e o novo, o mesmo e o Outro. Assim, inclui também uma espécie de alteridade que a faz conter também algo do ficcional, está relacionada ao rememorar e, portanto, é composta por lembranças estas que vão tomando novos contornos, formando novas figuras, figuras inventadas da memória, como diz Benjamim. As imagens do passado se modificam desde o presente, numa dinâmica que, por outro lado, modifica ambos os tempos. (BACKES, 2000, p.18).


E, sobre a imigração:

[...] A memória, conforme afirmado, tem um caráter múltiplo: uma certa dinâmica que envolve o vivido individual, a experiência, mas também as imagens compartilhadas e a relação ao Outro. As imagens dispersas do passado são recolhidas para serem oferecidas à atenção do presente, numa dialética que modifica ambos. O ato mesmo de lembrar aparece indissociado do esquecimento na memória. Os imigrantes, por exemplo, constroem aqui o Novo retirado da memória, com tudo o que a memória tem de apagamento e encobrimento. É o que permite afirmar que os imigrantes não trazem, na sua mala de viagem ao novo continente, os manuais de instrução para confecção do mobiliário colono, por exemplo. A forma de fazê-lo é retirada da memória [...] (BACKES, 2000, p.21). 


Quem somos, portanto, é resultado de um passado, das memórias constituídas deste passado, aliadas ao presente vivido, com projeções de um futuro que há por vir, sempre em construção, uma vida nunca pronta, mas em contínua evolução.

Os sapatos, seres viajantes

distantes, descansam,
e eu viajo em meu sono,
abandono os pesados
pés nos sapatos
e ando torres e ventos
dentro do tempo e além.
Não necessito cidades,
sapatos e pés. Além
é a viagem. (POZENATO, 2000b, p.43)


2. Região e Gênero – Uma Apresentação:

            Este item pretende apresentar aspectos das relações de gênero, na região nordeste do estado do Rio Grande do Sul, a partir do estudo das personagens nas obras de José Clemente Pozenato, A Cocanha (2000a), O Quatrilho (1996) e Mapa de Viagem (2000b).
            O escritor consegue fazer, em suas obras, uma leitura dos tipos físicos, dos tipos psicológicos, da dor, da alegria, do trabalho, enfim das diferentes manifestações da cultura da região, quer seja na Itália, quando da obra A Cocanha, quer seja no Brasil, na obra O Quatrilho.
            Na obra A Cocanha, o autor traz as mazelas do povo italiano, no final do século dezoito e a busca de seus sonhos, individuais e coletivos, na viagem a “L’América”, onde encontrariam “A Cocanha”, o paraíso terrestre, a terra da promissão, com promessas de que seus problemas se resolveriam, a fome cessaria e seria saciada, a dor se dissiparia, haveria somente alegria, felicidade. A idéia de paraíso também se consolida, pois a viagem de navio para os imigrantes poderia trazer doenças e a morte, logo transpor as dificuldades do mar traz um “renascer para uma nova vida”, melhor do que esta.
            Em O Quatrilho, o autor mostra a região a que estes imigrantes chegam e a busca empreendida por eles para transformar a região de chegada em uma pequena Itália, porém renovada.
            Quando da transposição da obra literária para o cinema, a obra “ganhou o mundo”, apresentou-se em Hollywood, no Oscarâ de Cinema Mundial, mostrando este regional e transpondo barreiras mundiais. Se observarmos a obra O Quatrilho e a obra cinematográfica Parente é Serpente, de Mário Monicelli, percebemos que os imigrantes conseguiram trazer e “fazer” a Itália neste território, mantendo uma identidade cultural, apesar das barreiras territoriais e além-mar.
            Para compreendermos a idéia de região, fazemos a seguir um estudo da teoria de Pierre Bourdieu. A sociologia de Bourdieu está centrada no conceito de habitus construído sobre a história individual e coletiva para fundamentar as práticas individuais e coletivas. Ele atrela os conceitos de campo e de capital ao de habitus, os quais constituem o núcleo de sua sociologia. Para Bourdieu, o campo social, diferente do que apregoa Marx, não se restringe ao campo econômico. Formação social, para ele, é um “sistema de relações de forças e de sentido entre grupos ou classes” (BONNEWITZ, 2003, p.22). “Objeto social encerra um conjunto de relações internas, um sistema de relações cujo funcionamento a análise permitirá explicar” (p.38). E, campo social como “espaços estruturados de posições (ou postos), cujas propriedades dependem de sua posição nestes espaços e que  podem ser analisados independentemente das características de seus ocupantes (em parte determinados por elos)” (p.38). “O “espaço social” assinala uma ruptura com as representações tradicionais da hierarquia social fundadas sobre uma visão piramidal da sociedade. Esta atribui a cada classe uma posição na escala social em função de suas condições materiais de existência. (p.52).
            Bourdieu diz, então, do mundo social:
                       
Assim, pode-se representar o mundo social sob a forma de um espaço (com várias dimensões) construído sobre a base de princípios de diferenciação ou de distribuição constituídos pelo conjunto das propriedades que agem no universo social considerado. (BOURDIEU, p.03)


Sobre os agentes e os grupos que vivem neste mundo social:

Os agentes e os grupos de agentes são assim definidos por suas posições relativas neste espaço. Cada um deles está situado numa posição ou numa classe precisa de posições vizinhas (isto é, numa região determinada do espaço) e não se pode ocupar realmente, mesmo que seja possível fazê-lo em pensamento, duas regiões opostas do espaço. (p.03)


            Bourdieu, então, descreve o espaço social como um espaço de múltiplas posições:

Pode-se descrever o espaço social como um espaço multidimensional de posições tal que toda posição atual pode ser definida em função de um sistema multidimensional de coordenadas, cujos valores correspondem aos valores de diferentes variáveis pertinentes. Assim, os agentes se distribuem nele, na primeira dimensão, segundo o volume global do capital que possuem e, na segunda, segundo a composição do seu capital - isto é, segundo o peso relativo das diferentes espécies no conjunto de suas possessões. (p.03)


Assim, sociedade, para Bourdieu, é um conjunto de campos sociais, atravessados por lutas de classes, diferenciados progressivamente. Na evolução das sociedades surgem campos sociais produzidos pela divisão de trabalho nesta sociedade. Estes espaços socialmente construídos, que constituem um campo social determinam uma rede de relações objetivas entre as posições. Estas posições são diferenciadas por relações de poder definidas conforme a capacidade dos agentes ou instituições de domínio sobre os objetos de interesse que dão forma ao campo, bem como sobre o capital envolvido nestas relações.
            Campos sociais são espaços sociais constituídos de agentes, capital e status. A sociedade é constituída de diferentes campos interseccionados. Os campos têm leis de funcionamento e têm suas especificidades. O interesse sobre o campo define sua especificidade. Os campos não são espaços com fronteiras rígidas, nem são independentes. Articulam-se entre si, cada um se interliga conforme determinados elementos para conhecimento um do outro e da estrutura do espaço social. Um campo articula-se com o outro e com o “geral” social numa relação de conhecimento inter e intra-subjetivo.
            A sociologia bourdieusiana constitui as idéias de campo social, sociedade, espaço social com a idéia de habitus. A análise do indivíduo e da sociedade passa pelo conceito central de Bourdieu: o habitus. O habitus é composto por ethus (designa os princípios ou valores em estado prático) e hexis (corresponde às posturas interiorizadas inconscientemente pelo indivíduo ao longo de sua história). Nesse sentido, o habitus é a forma pela qual a realidade é percebida como produto da posição e da trajetória social do indivíduo e está em constante reestruturação. O habitus estrutura a sociedade segundo o perfil individual e sua relação com o grupo e o campo social. A relação entre o habitus e o campo é antes de tudo uma relação de condicionamento, mas é também uma relação de conhecimento ou construção cognitiva, o habitus contribui para constituir o campo como mundo significante, dotado de sentido e de valor, no qual vale a pena investir energia.
            Bourdieu estuda o sujeito enquanto sujeito socializado, seu papel nesta convivência socializada. O habitus seria um conjunto de elementos comportamentais incorporados pelo sujeito para viver determinadas situações sociais e para manter-se socialmente inserido a este mundo social. Os indivíduos que constituem um campo social determinado compartilham interesses comuns que garantem a existência deste campo. Os diferentes campos assumem uma identidade própria, que permite o funcionamento do campo com suas regras e intercâmbio simbólico e material. Aqui entra a idéia de capital, que diz de um valor que mantém o campo articulado, definido. O possuidor do capital, de acordo com as regras estruturais de funcionamento do campo social, estabelece sua posição no campo, conforme a quantidade e a qualidade do capital que possui. Campo, habitus e capital representam expressões específicas de uma cultura, que constitui conjunto de indivíduos, grupos ou instituições que assumem uma posição em um espaço social e que compartilham interesses comuns.
            O conceito de cultura regional abarca a idéia de região enquanto “constituída de acordo com o tipo, o número e extensão das relações adotadas para definí-la, de onde ser possível que as fronteiras se desloquem conforme seja utilizado, com maior ou menor ênfase, um ou outro critério para a sua delimitação” (POZENATO, 1995, p.19).
            Região, portanto, não é vista apenas como divisão político-geográfica, mas como uma construção simbólica, constituindo uma rede de relações, como um espaço político-geográfico socialmente construído. É um espaço periférico em relação ao centro.
            Nas obras de José Clemente Pozenato, A Cocanha e O Quatrilho, o regional refere-se à imigração italiana no nordeste do estado do Rio Grande do Sul e tem características singulares. A construção da identidade extrapola fronteiras, traz o território italiano para o contexto brasileiro, sem deixar de ter uma singularidade ímpar com a terra que habita, o solo brasileiro.
            Pierre Bourdieu anuncia sobre a idéia de região:

A ‘régio’ e suas fronteiras não passam do vestígio apagado do ato de autoridade que consiste em circunscrever a região, o território, em impor a definição legítima, conhecida e reconhecida, das fronteiras e do território, em suma, o princípio de divisão legítima do mundo social. Este ato de direito que consiste em afirmar com autoridade uma verdade que tem força de lei é um ato de conhecimento, o qual, por estar firmado, como todo poder simbólico, no reconhecimento, produz a existência daquilo que enuncia [...] (BOURDIEU, 1989, p.114).
           

            As idéias de região, tanto de Pozenato, quanto de Bourdieu, não constituem idéias acabadas de uma realidade concreta, são realidades em construção, influenciadas pelos valores simbólicos desenvolvidos em seus contextos.
            Assim, penso que as idéias de região e as idéias de campo social, desenvolvidas por Bourdieu, em sua sociologia, se interligam. Ambos, campo e região são construções sociais determinadas a partir das relações que se desenvolvem em seu interior e produzem maior ou menor peso, em relação ao centro, conforme o capital, “valor”, que possuem em suas características próprias, determinadas pelos outros campos ou regiões, por um outro que a observa ou determina. Região é hoje um feixe de relações em uma rede sem fronteiras.
            Diversos são os aparatos ideológicos que tornam um sujeito pertencente a determinado grupo pelos processos de socialização: família, escola, religião, partidos políticos, exército, etc. Estes aparatos ideológicos estão relacionados às formações ideológicas vinculadas a diferentes formações discursivas: estas se reportam a um discurso específico, que está inserido em uma linguagem vinculada a uma ideologia.
            A partir do enunciado, depreendem-se as noções do discurso. O sujeito da enunciação é um sujeito instituído na Análise do Discurso, a partir da linguagem. Através do signo, se apresenta o modo como o discurso marca o sujeito. O sujeito da Análise de Discurso está constituído na linguagem. No livro Cinq Leçons sur la Théorie de Jacques Lacan, de Nasio (1992), Saussure é uma vítima, quando ele reconhece “a ordem lingüística do significante” (p.24). Mas logo acrescenta que este só é determinado por “três critérios não lingüísticos” (p.24). Atribui a Lacan, post mortem, afirmações surpreendentes sobre Saussure (p.93), e diz que “Lacan respeita a diferença estabelecida por Saussure entre língua e linguagem: a língua é a linguagem falada” (p.73).  Saussure nunca fez esta afirmação.
            Em psicanálise, o “inconsciente está estruturado como linguagem”, segundo Lacan, e “significante é o que representa o sujeito para outro significante”. Logo, as formações discursivas, os contatos de uns com os outros, se dão através de significantes lingüísticos, representantes da “coisa” no inconsciente. Kant diz que “a coisa é incognosível em si mesma”. Lacan, leitor de Freud, afirma que a coisa é representada, simbolizada. O inconsciente é da ordem do Real, registro que não diz de si mesmo, só é representado no registro do Simbólico. O inconsciente está no registro do Real. A língua seria uma das formas que o Simbólico utiliza para fazer as representações inconscientes, transformadas na linguagem.  
            A língua falada seria o conjunto dos signos utilizados por determinado grupo para que possam se compreender, interagir. Mas a língua, neste contexto, não seria só uma forma de comunicação. Além de transformação do inconsciente em símbolos, ela passa a ser uma marca distintiva de um povo, de um grupo, uma marca identitária, que identifica este grupo para outro, que o diferencia dos demais. Quando passagem de representação simbólica do inconsciente, para marca identificadora de um grupo, a língua, a meu ver, muda de registro, ela passa do registro Simbólico (representação significante), para registro Real (marca primordial de um sujeito, no caso, o grupo ao qual pertence). Torna-se, então, uma marca primordial de identidade social, cultural:

[...] o conceito de cultura é operacionalizado e definido de diferentes modos pela Psicologia e em especial pela Psicologia Social. [...] As condições epistemológicas que permitem operar com o conceito de cultura nesses campos de conhecimento partem de uma abordagem construcionista, em oposição a uma abordagem representacionista. [...] A abordagem construcionista oferece-nos a idéia de uma desnaturalização da realidade, ao entender que a realidade é uma proposição explicativa, através da qual o mundo não estaria anterior à experiência que fazemos dele, mas a de que construímos conhecimentos acerca desse mundo. (BERNARDES; GUARESCHI, 2004, p.199)


            Pensando desta forma, e provando-se desta teoria, seria extremamente complicado para um imigrante, portanto, deixar seu país, um grupo, com suas marcas, Reais e Simbólicas, e inserir-se em outro grupo, formando novas marcas. Seria, em psicanálise, nascer de novo, ser um outro sujeito, com outras marcações. Daí as formações dialéticas, talvez, as transposições de letras, a tentativa de juntar duas representações lingüísticas e criar uma nova, sua, à semelhança do bebê que aprende a caminhar, a viver, experimentando novas situações, conforme vai aprendendo-as (pensando na teoria da assimilação, acomodação, equilibração de Piaget) vai sabendo de si, vai se constituindo.
            Daí talvez, as muitas dificuldades em “traduzir” uma palavra para outra língua, pois carrega muitas outras representações, Simbólicas, mas também constitui marcas Reais, não passíveis de serem ditas, só representadas. Exemplo disso está na dificuldade dos imigrantes, retratados na obra O Quatrilho, quando misturam o português ao italiano e sempre deixam escapar uma palavra ou outra em italiano, em suas falas.
            Falar outra língua, ter uma língua, é constituir uma identidade social e (ou) cultural, é ter um sentido de pertencimento a determinado grupo, é uma marca identificatória pessoal e grupal.
            As questões de gênero, à semelhança das questões lingüísticas, são singulares em cada cultura, não deixando de ser universais enquanto situação no mundo. Muito se tem estudado sobre a questão feminina, sobre as questões de gênero, sobre as diferenças do masculino e do feminino na sociedade, nas relações, no pensamento ocidental; mas pouco ou quase nada se tem pensado sobre as origens da identidade feminina em suas relações com a cultura. Penso que muito da visão que temos da mulher vem do campo religioso que nos estrutura enquanto sociedade. À época da colonização, o pensamento vigente e que ordenava os passos da sociedade era o da Igreja Católica em suas diferentes conexões.
 Como agiam os imigrantes, o que falavam, como eram suas relações sociais, afetivas, pessoais, o que pensavam, como viviam, tudo isso pode ser observado à luz das obras de José Clemente Pozenato, observador da cultura em que vive e que consegue retratar em seus textos o pensamento desta cultura, regionalizada, porém universal.
Este trabalho indaga a origem de nossa aculturação com relação às questões do que é a mulher e tem como hipótese a idéia de que a identidade feminina traz incluída diferentes visões de mundo, religiosas, sociais, psíquicas, etc. desta mulher e homem, recortados em uma época de nossa história.    
Estudar o feminino significa estudar gênero, as construções de identidade culturalmente determinadas e resultantes das relações sociais localmente situadas. A mulher imigrante, que vem da Europa e se instala nesta região, é uma mulher que trabalha na colônia com o homem, auxilia-o nos trabalhos da terra, cuida da casa, dos filhos, da família. É uma pessoa que não pára, pois parar o trabalho é coser, tricotar, preparar um doce para a família, enfim manter a família. Esta mulher está sujeita ao “comando” do homem da casa, embora sua jornada de trabalho seja superior a dele (aqui o valor não está nas condições de produção, está em outra relação, uma relação de “lugar”, pré-determinada, vinculada a uma cultura, à cultura que nos constitui).
            A região de colonização italiana, no nordeste do estado do Rio Grande do Sul é, pois, um campo simbólico, um habitus em que se pode estudar determinado tema, desenvolvê-lo e procurar abarcar uma sociedade. Pode-se determinar o que é singular para aquela cultura em particular, no caso, a cultura da imigração italiana no nordeste riograndense. Assim, partindo-se dos conceitos de feminino e masculino, questões de gênero, e tendo como base de estudo as obras A Cocanha e O Quatrilho, além da obra poética, de José Clemente Pozenato, realiza-se neste trabalho, especificamente nos capítulos três e quatro, uma análise do comparecimento das figuras masculina e feminina nas obras e o que se pode deduzir a partir disso com os estudos de gênero.


Capítulo II
Masculino/Feminino – O que é isso?

O leve cheiro do pasto cortado

dava-lhe a breve melancolia
de um desejo sem objeto preciso:
um desejo de exalar-se em doçura
igual à do pasto cortado
murchando ao sol.
(POZENATO, 2000b, p.24)


            Para entender os conceitos de masculino e feminino, presentes nas análises das obras de José Clemente Pozenato, que são apresentadas nos capítulos posteriores, torna-se necessário elaborar, a seguir, uma introspecção sobre o comparecimento das diferenças sexuais em nossa cultura ocidental. 
    
1. Contexto Histórico-Antropológico:

            Em um estudo realizado por Leonardo Boff e Rose Marie Muraro, em Feminino e Masculino, Uma Nova Consciência para o Encontro das Diferenças (2002), colocam os autores que, no início do estabelecimento do homem na Terra, as relações entre os grupos eram de solidariedade, partilha de bens e de vida. Havia a necessidade um do outro para proteção e compartilhamento. Com a descoberta do fogo e do conforto gerado por ele, as relações se estreitam, buscando utilizar deste recurso para a alimentação, aquecimento, etc. Antes do fogo, as armas utilizadas para a defesa e a caça eram rudimentares. O ser humano vivia da coleta do que existia na natureza.
            Com a invenção do machado de pedra lascada e a descoberta de sua utilidade, introduzem-se as sociedades de caça, instaurando-se assim as primeiras relações de violência. Os mais fortes começam a dominar e a ter privilégios, portanto o masculino (mais forte) passa a ser o gênero predominante. Da consciência de solidariedade, a humanidade passa à consciência da competição.
            As relações de poder, senhor e escravo, se solidificam com o início da história numa rotina de invasões, expansões, enfim lutas e mortes. Atualmente, a história segue deste modo, trazendo, no seu bojo, as relações de violência com o meio ambiente. O que, no início, era solidariedade e partilha, passa a ser competição e destruição. Na ignorância primitiva, o homem vivia em relações de partilha de bens e de vida, desconhecia a agressão com a natureza. Outros autores contestam esta teoria e já admitem que nunca houve não-agressão, a agressão estaria na essência do homem.
            Será que são as descobertas que fazem com que o homem lute pelo poder, se esqueça quem é, siga a lei do mais forte? Certamente as descobertas não trazem em si este conteúdo. Será que, paralelamente à evolução cerebral da espécie, existe um tipo de involução? As relações de poder seguem com o mais forte, em clãs. Seria somente a luta pela sobrevivência a geradora da ambição pelo poder e privilégios?  Neste momento, iniciam-se as diferenças psíquicas e coletivas. Na evolução, o homem deixa de ser nômade e passa a formar aldeias, estados e impérios. As relações agora são de proteção ao seu território e a sua gente. Será este o período em que as relações homem/mulher se modificam e a mulher passa a viver no privado, enquanto o homem vai a luta para a defesa de seu território, vive pois no público?
            Dando um ‘salto no tempo’, nos remetemos à civilização grega, ‘precursora do pensamento ocidental’. Entre os gregos, os homens compartilhavam o conhecimento, enquanto as mulheres mantinham-se à margem, administrando os lares. As chamadas cortesãs eram ricas, podiam assistir às aulas, freqüentar as bibliotecas e participar dos simpósios. Uma terceira categoria de mulheres desta época era a das estrangeiras, as chamadas prostitutas. A base do pensamento grego era o conhecimento. Enquanto nos simpósios discutiam-se questões filosóficas, morais, políticas, enfim da vida, a um nível superior talvez jamais alcançado pelo homem, que veio depois deles, os gregos continuam a viver uma relação de poder do mais forte (sem a necessidade da força física), o que prevalece é o poder intelectual. As relações homossexuais, que naturalmente se dão nesta fase, são as que visam a transmissão do “conhecimento”, via líquido espermático, permitidas e desejadas pelas famílias dos “jovens rapazes”.
            Os romanos, que por largo tempo dominaram todo o ocidente, tiveram sua decadência iniciada pelas facilidades, confortos e regalias geradas por suas grandes conquistas, acostumaram-se com isso e enfraqueceram na acomodação. Deixaram de lutar com a determinação de antes. A classe detentora do poder passou a privilegiar o luxo, a ostentação e prazeres físicos. Conseqüentemente, enfraquecendo sua unidade, que era principalmente baseada em determinadas diretrizes sociais do âmbito da religião, da disciplina militar e fundamentalmente da valorização da ordem familiar. Concorrem também para a derrocada do Império Romano as lutas internas pelo poder, a extensão dos territórios a serem administrados e a constante ameaça dos outros povos.
            Os romanos não dominavam apenas o ocidente, mas todo o mundo conhecido da época. Surge no oriente uma nova ordem na história, começando o nosso tempo, com o nascimento de Jesus Cristo e, com ele, o cristianismo. A antiga ordem, lei de talião, determinava “olho por olho, dente por dente”. A nova ordem, trazida por Cristo, é a lei do amor-solidariedade. Seria estabelecido este fundamento da doutrina cristã? Veremos que não.
A doutrina cristã ameaçava o poder religioso dos líderes hebreus. Estes tentaram fazer crer aos romanos que os cristãos também promoviam a desordem pública e pretendiam desautorizar o poder político romano. Cristo é morto pelos hebreus e pelos romanos, detentores do poder. Os primeiros cristãos buscam seguir os ensinamentos de Cristo em pequenas comunidades clandestinas, sempre perseguidos pelos romanos que os acreditavam ateus. A prática cristã representava a subversão da ordem estabelecida. No oriente, as relações em família se dão no sentido do homem mantendo o poder no grupo familiar, tendo diversas mulheres, que não têm poder de mando, que são submissas ao poder patriarcal do chefe da família.  
Além dos judeus, o cristianismo podia seduzir não judeus (gentios), pela promessa de vida eterna e também para fazer parte de uma comunidade extremamente unida e solidária, valores perdidos no império romano. As conversões se multiplicaram rapidamente nas cidades da parte oriental do império romano, com o apoio fervoroso de Paulo - fariseu convertido e antigo adversário do cristianismo. Paulo, aliado a alguns apóstolos de Cristo, determina, ou tenta determinar, a doutrina cristã, através dos evangelhos, sedimentando as normas que regeriam o mundo religioso ocidental, através da Igreja Católica. Espelhariam os evangelhos o pensamento de Cristo, ou haveria uma certa manipulação de Paulo? Quando, de que forma e com que intuito foram adulterados os ensinamentos de Jesus?
À crença judaica de um deus único, o cristianismo acrescenta a divindade de Jesus e do Espírito Santo. Com o tempo, a Igreja deixou de ser uma rede de pequenas comunidades, nas quais os membros mais ricos recebiam os fiéis para as reuniões. Ela tornara-se uma organização bem estruturada, que possuía igrejas e cemitérios, com uma hierarquia de bispos, padres e diáconos.
Na Idade Média, a Igreja Católica passa a ditar o modus-vivendi e torna-se “primeiro poder”. As mulheres, aqui, conforme determinação dos evangelhos, devem submeter-se a seus maridos, caladas, com a cabeça coberta, etc. A Igreja Católica controlava a vida das pessoas e perseguia os que não seguissem seus ensinamentos através da Santa Inquisição. Os inquisidores determinavam que deveriam morrer na fogueira aqueles que não praticassem suas determinações. Mulheres que seduzissem eram consideradas bruxas e, por isso, queimadas.
Alguns teóricos como Thomas Laqueur, professor de história na UCLA, em Berkeley, onde realiza pesquisas sobre história social e história da medicina, coloca, no livro Inventando o Sexo - Corpo e gênero dos gregos a Freud (2001), que até o século XVIII, acreditava-se que havia um só sexo, que as mulheres eram homens “virados para dentro”:
           
Neste mundo, a vagina é vista como um pênis interno, os lábios como o prepúcio, o útero como o escroto e os ovários como os testículos [...] A linguagem marca essa visão da diferença sexual. Durante dois milênios, um órgão que no início do século XIX se tornou uma comparação da mulher, não tinha nem mesmo um nome específico (LAQUEUR, 2001, p.16)


No período das Luzes, pensava-se na diferença feminina, mas uma diferença sempre marcada pela inferioridade. Segundo Rousseau, a mulher mantém-se perpetuamente na infância, ela é incapaz de ver tudo o que é exterior ao mundo fechado da domesticidade que a natureza lhe legou. A inferioridade da mulher trata de conferir a ela papéis sociais, de esposa, mãe, etc. Existe nisso, para o sexo, uma necessidade. À mulher não é reconhecido estatuto político. O homem é a causa final desta mulher. Isso se modifica ao final do século XVIII:

Por volta do final do século XVIII, para usar o artifício de Virginia Woolf, a natureza sexual humana mudou. Neste ponto, pelo menos, os acadêmicos tão distantes teoricamente uns dos outros, como Michel Foucault, Ivan Illich e Lawrence Stone concordam. Por volta de 1800 todos os escritores determinaram-se a basear o que insistiam ser as diferenças fundamentais entre os sexos masculino e feminino, entre o homem e a mulher, em distinções biológicas constatáveis e expressá-las em uma retórica radicalmente diferente. (LAQUEUR, 2001, p.17)


Começa-se a perceber as diferenças entre homens e mulheres. A mulher passa, gradativamente, a habitar o espaço público, antes só reservado ao homem: inscreve-se nas artes, nas ciências, no político. 
Chega-se ao século XIX e, com Freud e a criação da psicanálise, as mulheres ganham os divãs e passam a ser estudadas em suas diferenças estruturais, psíquicas, emocionais.
Dá-se a revolução feminista, período em que a mulher vai às ruas em busca do reconhecimento e da igualdade de direitos. Passeatas, queima pública de soutiens e outras formas de manifestação fazem parte do cotidiano de “pioneiras” que abriram espaços para que hoje as mulheres possam competir com uma melhor (não total) igualdade, principalmente no mercado de trabalho.
 De Freud a Lacan, ganha força, em nossos dias, o estudo das diferenças entre homens e mulheres e o que é a mulher. Este tempo é o de que a mulher, de tão exposta ao espaço público, torna-se objeto nas mãos da mídia e do mercado. Na busca frenética pelo estrelato, pelo reconhecimento e pela eterna juventude, a mulher deixa-se seduzir e mais uma vez, talvez, perde sua identidade.
            Na obra Feminino e Masculino - Uma nova consciência para o encontro das diferenças (2002), Leonardo Boff vai além e traz o feminino e o masculino habitando o mesmo corpo, independente do sexo biológico que portam:
                       
A humanidade não é simples, é complexa e biforme. Para onde quer que orientemos a análise, vemos a diferença dentro da unidade. Os estudos transculturais de fenomenologia sexual, de antropologia cultural, de psicologia diferencial e outros levantam um sem-número de dados a esse respeito. Em todos eles, o ser humano aparece sexuado masculina e femininamente, seja no seu corpo que jamais é uma coisa, mas uma situação no mundo com os outros e diante dos outros,seja fenomenologicamente emergindo como ser-homem e ser-mulher – duas maneiras não exclusivas de ser dentro da realidade. Uma maneira de ser aparece como trabalho, agressão e transformação – atribuída ao masculino, mas pertencendo também ao feminino -, e outra, como cuidado, coexistência e comunhão com a realidade – referida ao feminino, mas fazendo parte também do masculino.Todas as diferenças remetem sempre a uma constante antropológica, comum a homens e mulheres. A diferença resulta da elaboração sociocultural desta base comum. (BOFF; MURARO, 2002, p.45-46).


            Joel Birman, em seu apêndice ao livro O Corpo do Diabo entre a Cruz e a Caldeirinha: Um estudo sobre a mulher, o masoquismo e a feminilidade (2000), condensa o antropológico e o psicanalítico, dando as razões, a seu ver, que conduziram o feminino ao lugar que ocupa até os dias de hoje:
                       
O Feminino no horizonte? – As relações entre as figuras da mulher e do masoquismo são marcadas pela complexidade. Não se iniciaram nem se concluíram com a psicanálise. Pelo contrário, o discurso psicanalítico foi o herdeiro de uma longa história, que podemos rastrear nas suas diferentes inflexões, na dependência estrita da extensão temporal que queiramos conferir à construção arqueológica da feminilidade na tradição ocidental. Assim, se a instauração do patriarcado na Grécia Antiga delineou a posição hierarquicamente inferior da mulher em relação ao homem, foi o cristianismo, sem dúvida alguma, que teceu em outras bases éticas o masoquismo feminino, ao separar em termos absolutos as funções de reprodução e de gozo presentes na experiência erótica da mulher (BIRMAN, 2000, páginas de orelha).


            Diz então Joel Birmann, que o cristianismo coloca a mulher em um patamar de reprodução, em que o desejo é recalcado. A Igreja controla o “pecado”, através das confissões:

[...] Com isso, o desejo feminino foi culpabilizado no seu fundamento e as obrigações matrimoniais passaram a se centrar na procriação. O gozo e o desejo femininos seriam fontes permanentes de ligações perigosas, com desdobramentos imprevisíveis. Por isso mesmo, deveriam ser interditados e controlados pela prática confessional. (BIRMAN, 2000, páginas de orelha).


            A Revolução Francesa e seus ideais mudam um pouco o cenário e iniciam uma arrancada de mudanças para as mulheres:

[...] Contudo, a exigência de igualdade entre os cidadãos, oriunda dos ideais emancipatórios da Revolução Francesa, tornou possível a construção de um modelo de sexualidade centrado na diferença sexual que encontramos na modernidade. A mulher, neste contexto, foi destinada inexoravelmente à maternidade, sendo esta então a marca essencial e insuperável de sua natureza frente à do homem. (BIRMAN, 2000, páginas de orelha).


            Freud e seus estudos sobre a sexualidade, o advento da psicanálise, mudam o olhar da cultura na modernidade, desculpabilizando o desejo, liberando traumas e vida, para ambos os sexos:
[...]O discurso freudiano sobre a sexualidade feminina se constituiu neste último horizonte antropológico e manteve uma relação de ambigüidade em face da sua emergência histórica. Com efeito, a psicanálise enunciou em linguagem libidinal uma versão materna do ser da mulher, reproduzindo ipsis litteris o modelo da aurora do século XIX  ao mesmo tempo que revelou as bases impossíveis em que se inscrevia a figura da mulher. (BIRMAN, 2000, páginas de orelha).


            O discurso psicanalítico como ressonância das ansiedades femininas, não esquecendo que a psicanálise foi criada, estruturada, no discurso das histéricas:

[...]O discurso psicanalítico seria assim, a caixa de ressonância da condição feminina na nossa tradição, refundando a seu modo a versão essencialista recente da diferença sexual, mas indicando ao mesmo tempo o preço a pagar por essa perversão do corpo feminino. O masoquismo seria a condensação maior desse infortúnio, o destino implacável a que são fadadas as mulheres nessa leitura essencialista.
Portanto, inscrevendo-se entre a cruz e caldeirinha, entre o diabo e o capeta, a psicanálise é um dos sintomas maiores que revelam a condição da mulher na nossa tradição. Se a psicanálise foi constituída a partir da materialidade explosiva do corpo da histeria, acolhendo efetivamente a demanda de dor presente nas entranhas das mulheres e decifrando a passionalidade erótica de seus males, ela nem sempre soube enunciar destinos outros para o dilaceramento revelado pela feminilidade. Pode-se afirmar, sem pestanejar, que se a psicanálise se constituiu pela delicadeza que marcou a sua escuta do feminino, os seus destinos dependem de maneira inexorável de sua possibilidade de romper definitivamente com o modelo essencialista da diferença sexual e se encaminhar radicalmente para uma interpretação do erotismo centrada na feminilidade. (BIRMAN, 2000, páginas de orelha).


            Os gêneros masculino e feminino convivem no mesmo ser. A mulher castra a riqueza de sua feminilidade no afã da competição, de buscar um espaço social e equiparar-se ao homem em poder, reconhecimento e prestígio. O homem despreza e desconhece a riqueza do feminino que o habita, de certa forma cego pela ambição de poder, prestígio social e reconhecimento. A mulher tem se tornado mais masculina, ao invés de valorizar seus atributos e buscar um espaço que é o seu, desde sempre, apenas não lhe era permitido utilizá-lo, ou ela não o via. Hoje ela está, verdadeiramente, competindo pelo espaço masculino, que já pertencia ao homem, daí as dicotomias e as agressões que vivenciamos:

Como se tem chamado o indivíduo humano de homem, e como se representa o homem como um ser masculino, foi necessária muita criatividade para inventar a mulher como um sujeito autônomo. (COLLING, 2004, p.13).

            Principalmente, pois os historiadores:

[...] escreveram a história dos homens, apresentada como universal, e a história das mulheres desenvolveu-se à sua margem. [Os historiadores foram] os responsáveis pelas construções conceituais, hierarquizaram a historia, com os dois sexos assumindo valores diferentes; o masculino aparecendo sempre como superior ao feminino. (COLLING, 2004, p.13).


2. Contexto Psíquico-Estrutural:

A psicanálise, como teoria interpretativa da realidade, serve para analisar os fenômenos, no campo individual, através das manifestações do inconsciente, presentes na linguagem dos diversos sujeitos, nos chistes, na interpretação dos sonhos, etc. Mas a psicanálise pode interpretar os fenômenos sociais, através da análise destas manifestações sociais na linguagem utilizada, na literatura disponível, etc.
 A psicanálise segue, desde sua criação até os dias de hoje, ampliando seu campo de ação, cada vez mais, do campo individual (análise do sujeito) para o campo social (o sujeito inserido na cultura):

Se a cultura se manifesta através de obras culturais claramente visíveis, ela possibilita que se pense a presença do humano nesses eventos. Aliás, é o próprio homem que compreende e atribui significado a essas manifestações. [...] Cultura é a ação humana e também a reflexão sobre a ação humana. Daí a relevância do estudo dos aspectos éticos e estéticos nos processos culturais. (PAVIANI, 2004, p.75).


 Cultura aqui entendida como sociedade, não apenas conjunto de pessoas, mas meio cultural, centro de idéias, crenças, tradições, etc...
Desde os primórdios, o homem conduz os meios sociais (de comando) e à mulher cabe um lugar subalterno (de ser comandado). Esta relação hierárquica é tão forte que, frente à perda deste homem nas conduções da casa, como condução dos bens materiais, pela morte ou afastamento deste homem, a mulher, obrigada a assumir este lugar, “traveste-se” de masculino, torna-se forte, agressiva, destruidora até.
A investigação de base psicanalítica baseia seus estudos em categorias como o falo, falo este absolutamente simbólico, não atento ao lugar masculino, mas a um lugar de pulsão:

Segundo a teoria psicanalítica, é pela comparação com o órgão masculino que a organização fálica se institui: o falo é o pênis, na medida em que o concerne, ainda que seja a título de elemento parcial.O falo não é o pênis, na medida em que se trata de uma organização e, portanto, o transcende. (ESCOLÁSTICA, 1995, p.139).

O falo está no registro do Real, um insimbolizável, mas também hipoteticamente vinculado à idéia do pênis masculino, desde Freud e suas vinculações masculino/feminino em Além do Princípio do Prazer, Diferença Anatômica entre os Sexos, entre outras obras:

No ensino de Lacan, o Imaginário remete a problemática da imagem no espelho, imagem de um pequeno outro ao qual a criança se identifica numa ‘precipitação’ que assinala sua entrada no simbólico. Trata-se de uma modulação dos três registros. Nessa imagem a criança reconhece o objeto de desejo de sua mãe. Ela se identifica com ela, se veste com ela e por esse meio, se põe a consistir o furo simbólico ao qual equivale a falta que presentifica o olhar da mãe. (LAFONT, 1990, p.141).


E o Real:

[...] o Real, por definição, é aquilo que não é simbolizado, que está fora do que faz sentido. No entanto, ele situa o que é concebível: a existência não se define se não por apagar todo o sentido. (LAFONT, 1990, p.141).

Ficamos nos perguntando sobre as diferenças entre masculino e feminino e Serge André (1998) nos dá algumas pistas:

Se a feminilidade aparece a Freud como um enigma, é que ela não é um dado a priori, ao menos a nível do inconsciente e de suas representações. [...] A anatomia pode bem distinguir dois sexos, mas nem por isso deixa de ficar muda quanto a determinação daquilo que faz a virilidade ou a feminilidade. Quanto à psicologia, esta utiliza os termos masculino e feminino para significar a oposição entre atividade e passividade. (ANDRÉ, 1998, p.190).
           
            A feminilidade deve ser fabricada, constituída, construída, não é acabada, pronta:

A feminilidade, da qual Freud faz o objeto de sua conferência se apresenta assim como um vir-a-ser e não como um ser. [...] Isso significa que, para Freud, um certo número de meninas jamais se tornam mulheres, mas são, ou permanecem, homens, simplesmente, no campo psíquico. A mulher deve ser praticamente fabricada através de um longo trabalho psíquico. (ANDRÉ, 1998, p.191).


Lacan, em seu Seminário 20, Mais Ainda (1985), coloca que a mulher é da ordem do Real, impossível de ser simbolizada, à semelhança do inconsciente só possível de ser dita a partir de seus efeitos:
           
[...] a mulher justamente, só que A mulher, isto só se pode escrever barrando-se o a. Não há A mulher, artigo definido para designar o universal. Não há A mulher pois- já arrisquei o termo, e por que olharia eu para isso duas vezes? - por sua essência ela não é toda[...] A prova é que ainda há pouco, falei de o homem e a mulher. É um significante, este a[...] Não há mulher senão excluída pela natureza das coisas que é a natureza das palavras[...] (LACAN, 1985, p.98-99).


Feminino e Masculino não são determinados aqui pelo biológico, o biológico existe sim, mas a questão que se faz para a psicanálise é como o indivíduo inscreve o biológico na estrutura. Para Freud, o masculino estava vinculado à atividade, o feminino à passividade.
Freud propunha que as questões de gênero atinham-se na determinação de ter ou não o pênis. Quem tem o pênis, no caso o menino, é masculino. A menina não tem o pênis, logo é feminino:
O feminino passou, por vezes, pelo inominável, termo que evoca com demasiada facilidade o horror da castração, com quanto ele tenha sobretudo a vantagem de dar um indicação topológica: ‘A Mulher’ é indizível porque ocupa o lugar daquilo que resiste às palavras na fala. Ela ocupa esse lugar vazio que as palavras deslocam e não atingem, a causa mesma de um desejo inacessível, do qual seu corpo constitui o mito. (POMMIER, 1991, p.55).

Nossa cultura, segundo Levi-Strauss, se funda numa interdição. Para Freud, a interdição é a do incesto. O menino teme perder o pênis, ficar igual à menina, então estrutura a castração, a interdição de ter a mãe (pois ela é do pai e este pode castrá-lo). A menina, percebendo a diferença sexual, já se sente castrada, não tem o pênis, já lhe foi tirado, é diferente do menino.
Para Lacan, em sua leitura do texto freudiano, o significante cultural é o falo, que na estruturação infantil pode ser representado no pênis, no ter ou não ter o pênis, mas o falo é mais do que isso, ele é da ordem da energia pulsional do sujeito.
No plano cultural, a questão sexual está do lado do ideal de eu, como vai se apresentando este ideal na evolução cultural e que efeitos subjetivos porta. Então, ser masculino ou feminino depende do que opera como falo simbólico na cultura, o que na cultura adquire um valor. Nos dias de hoje, o falo simbólico estaria provavelmente representado na palavra e em suas manifestações culturais. Para Cervantes, o falo simbólico estava na dama, no desejo à dama. No amor cortês, a dama é a representação do falo.
 A forma como o sujeito realiza sua identidade sexual é de outra ordem, ultrapassa a castração, ela implica na dimensão do terceiro. Inicialmente o sujeito está com o Outro, numa relação de dependência de cuidados. Este Outro é a mãe, não necessariamente a mãe biológica ou uma mulher. O Outro, aos poucos, vai introduzindo um terceiro, o pai, não necessariamente o pai biológico ou um homem. Este Outro, ao desejar um parceiro, Lugar de Desejo da Mãe, institui ao filho o desejo por outro que não este filho. Assim, se determina o lugar paterno na estrutura, lugar do terceiro. Este lugar terceiro constitui uma lei interna ao sujeito, a lei da interdição (“tu podes todas, menos esta, que é minha!”), a Lei do Nome do Pai. Conforme o sujeito se identifica com a mãe, ou com o pai, menino ou menina, esta identificação determina sua escolha de objeto, decisão do lado masculino ou feminino em sua escolha sexual.
A realização sexual depende da desvinculação ao Outro. O Outro é imortal, ele permanece na estrutura como amor, instituição de desejo. Não há significante cultural que dê conta desta morte. O desejo é indestrutível, o desejo é imortal. Para Spinoza: “a essência do homem é o desejo”. Hegel, com sua Dialética do Senhor e do Escravo, diz que “o desejo é o desejo do reconhecimento”. Para Lacan, a dialética se resolve no reconhecimento do desejo.
Com o Pai, sua morte representa-se na cultura pelo progresso pessoal do sujeito. Auxiliando esses avanços pessoais do sujeito em sua estruturação, encontramos o Imperativo Categórico de Kant, Fundamentação da Metafísica dos Costumes: “Age de tal modo que a máxima da tua vontade possa valer sempre como princípio de uma legislação universal”. Enunciado este que orienta o agir do sujeito e o protege do desamparo, fonte de eticidade moral.
Nossa cultura, sociedade cultural, está centrada no masculino, a figura masculina “criou” esta sociedade, montou-a, orientou-a, fez descobertas, escreveu sobre ela; enfim, vivemos uma sociedade “masculina”. O que caracteriza o masculino, diferentemente do outro ser (o feminino), é o pênis, sua presença na anatomia masculina. Desde Freud, o estudo da libido, da energia sexual, centraliza-se na idéia do falo. E, desde então, confundimos falo com pênis, daí nossa sociedade crer que o portador do pênis, diferença anatômica masculina, é o portador do falo. A cultura como um todo baseia-se nesta diferenciação e nesta ilusão. Mas o falo é de outra ordem, ele é de ordem psíquica, é energia vital, é força, está no masculino, mas também no feminino:
           
[...] Freud, ao perceber um fundo enigmático – além da procriação – no ‘ser mulher’, não se contenta com essa solução. Já para Lacan, este enigma isolado por Freud apontaria para a feminilidade não como uma questão de ter ou não ter o falo, mas sim de ‘ter’ o falo – como o que define o homem – e de ‘ser’ o falo – como a condição da mulher. Assim, a mulher fabrica seu ser, sua identidade, a partir do nada, criando uma máscara ao se fazer de ‘falo’ para o homem. (MAIA, 1999, p.08).

Existe um lugar feminino, diferente do masculino? Existe um lugar feminino que exceda a ordem fálica? O lugar do feminino ultrapassa as máscaras do senso comum, surge no que fascina, espanta, transgride, surge no apelo suplicante de Camile Claudel, na obra depressiva e plena de poesia de Virgínia Woolf, no gozo inalcançável representado no filme de Kubric, De Olhos Bem Fechados.
Feminilidade está relacionada aos termos fêmea, feminino, em contraposição a macho, masculino. As diferenças étnicas são posteriores ao aparecimento da humanidade, ao passo que a diferença sexual precede a humanidade. Pertencendo à ordem do subjetivo, a feminilidade não possui forma. Possui, outrossim, qualidade semelhante à da água, ela é fluida. Ela está aí, em tudo e em todos. “Feminino”, nesse sentido, não significa apenas a pertinência do sexo feminino, indo além, onde Lacan propõe diferenciar sexo biológico e sexuação. O sexo biológico não consegue diferenciar os sexos no inconsciente. Há, nas mulheres, para Lacan, uma natureza “antifálica”.
Jerzuí Tomaz (2001), trilhando o feminino, justapõe a condição feminina e a literatura como um interdito: “A fala feminina e a literatura, ao bordejarem o interdito, esclarecem que elas sabem o que dizem, mas de uma outra forma, com um outro saber”(p.77).
E que esta mulher, como sintoma do homem, ao gerar filhos, quer sejam de carne ou de palavras, institui o desejo:

O feminino, indissociável, da origem revela a fratura primeva entre desejo e interdição, entre a horda e a tentativa de disciplinar o caos pulsional. Se a mulher pode ser pensada como um sintoma do homem, por outro lado, ela representa uma certa peculiaridade de engendrar filhos – da carne e do símbolo – e palavras, e assim incorporar o poder de Eros, força abstrata do desejo. (TOMAZ, 2001, p.85).

           
José Clemente Pozenato, sem ser psicanalista, faz interpretações em suas obras, que parecem extraídas de compêndios de psicanálise:

[...]Ninguém se enrede em dizer
o que quer a mulher
           escondida numa serra Cantareira
           trancada numa área de serviço
           no duro asfalto sentada
           ou nesse escritório espremida
                       com cadeira de estofo água gelada
                       e uns códigos
                       que ninguém melhor decifra.” (POZENATO, 1998, p.34).
    

O lugar feminino escapa, para Lacan, à ordem fálica, escapa à ordem do todo, mas também não deixa de ter relações com este todo. O falicismo das mulheres está presente na mascarada, na maternidade, nas realizações mais variadas da existência, nos objetos, nas posses. A feminilidade seria, inversamente, marcada por um estado de “possuída”. Aqui, como duplo sentido, como “possuídas pelo demônio”, as “bruxas” de outrora.
A mulher, num lugar materno, lança-se a um gozo de despossessão, amor para além do falo, semelhante a um voto de pobreza, gozo que vai além do gozo fálico. Assim, a mulher encarna um não-humano.
Lacan coloca que nossa civilização está calcada na linguagem. Ele, assim, situa a linguagem no campo fálico, humano. A mulher, estando fora da norma fálica, como pode-se conceber que fale, que esteja atenta a linguagem , à cultura, então? Esse “fora da lei” atento às mulheres, faz com que ela nunca esteja lá onde se julga encontrá-la, ela é impossível, não-localizável. E, mesmo assim, ela volta sempre, como mascarada, fingindo existir. Ela se faz pela procura de suas ausências. Na maternidade, ela apresenta uma presença inquestionável que também se dilui quando do crescimento da criança. Talvez, por esta razão, quando a mulher não tinha outras formas de “aparecer”, com seu trabalho, seu corpo, suas aparições, como nos dias de hoje, elas gerassem tantos filhos, um após o outro (aqui não era só a questão da não existência de métodos anticoncepcionais!):
           
Nesse campo relacional fálico aberto pelo Outro (a mãe), o bebê vem no lugar de uma equivalência, ou seja, vem no lugar de algo que faz falta para a mulher. Ele é investido narcisicamente como um objeto que supre esta falta na medida em que a preenche. (ESCOLÁSTICA, 1995, p.145).


A mulher se constitui a partir do olhar do homem, cuja perda representa a morte, enquanto que o homem se estrutura pelo olhar do mundo. As mulheres se adaptaram ao desejo dos homens e acreditaram encontrar nessa adaptação sua verdadeira natureza. O homem conseguiu que seu desejo se cumpra por meio do domínio e da anulação do outro desejo: o da mulher. A mulher não podia desejar, senão ser desejada. Assim, a mulher começa a ser pensada desde o desejo do outro: o homem. Nasce, a partir do homem a noção de mulher e ele a distingue como algo inacabado, inferior e excluído.
Para Lacan, a busca empreendida para encontrar um significante para o sexo feminino é nula, para ele não existe significante do sexo feminino, a mulher não existe como significante (como impossibilidade de colocá-la em um registro universal). Diz ele que só existe um único significante da sexualidade, o falo. Significante, aqui, definido como aquilo que representa o sujeito para outro significante. O falo é definido como aquilo que aparece no lugar de uma falta (de uma entidade desde a qual todos ficam situados como simbolicamente castrados). O feminino se posiciona para além da rede significante e excede a organização fálica: seu gozo é suplementar, inatingível, a mulher não entra na relação sexual senão como mãe, enfim a feminilidade é uma experiência mística. Para Lacan, a relação sexual não existe (relação e não ato sexual), relação essa que sempre resulta de um encontro caracterizado pela ausência do outro, não há complementariedade, a posição feminina se define para além do registro fálico:
           
Na medida em que o inconsciente aí está implicado, há duas vertentes que a estrutura, ou seja, a linguagem fornece. A vertente do sentido, do senso, que se acreditaria ser o da análise nos despejando sentido aos borbotões para o barco sexual. É surpreendente que esse sentido se reduza ao não-sentido: ao não-sentido da relação sexual desde sempre patente nos ditos do amor. (LACAN, 1993, p.21).

            Maria Rita Kehl (1998) explica o estudo lacaniano, apresentando-nos o falo simbólico:

O sexo, para os seres de linguagem, será sempre o sexo pensado, representado, imaginado; organizado pela dimensão imaginária do falo e barrado, delimitado, pelo falo simbólico. Isso não foi o que Freud escreveu, evidentemente, mas o que Lacan fez avançar a partir de uma mudança de orientação no pensamento freudiano proposta no texto que estou citando: a substituição do conceito de primazia dos genitais pelo de primazia do falo. (KEHL, 1998, p.240).


O ser humano vive marcado pela falta, nasce incompleto, e vive uma busca da plenitude, de suprir esta falta. Assim, nos perguntamos quem sofre mais esta falta, a mulher, sentindo-se castrada, o homem com seu temor pela castração, ou os transexuais que vivem a própria castração? A falta é que nos permite o acesso ao humano, lugar daquele que pode lograr da plenitude, através da busca, do desejo. O desejo humano é da ordem da insatisfação. A mulher sente a maternidade como a via principal de acesso a uma identidade feminina, vivendo assim, imaginariamente a completude, a não-falta.
A diferença existente entre os sexos é produto de uma construção simbólica, em corpos anatomicamente diferentes produz efeitos imaginários. Esses efeitos imaginários constituem o que definimos feminino e masculino.
O ser humano não pode prescindir do outro, para ser homem ou mulher. O outro é sempre uma prioridade, até a morte. Esta prioridade do outro é a possibilidade de vir a ser. O futuro do laço social contemporâneo, responsável pela humanidade do mundo depende da mulher, depende que o feminino, que o que faz objeção à lei fálica, não esteja esmagado pelos imperativos do discurso existente. O amor renovado pela alteridade, feminino/masculino, dessa dimensão feminina, levar-nos-á a uma dimensão incomum, de novos laços sociais.
É Lacan quem confirma o lugar da mulher, como possuidora do homem: “As mulheres se atêm, qualquer uma se atém por ser não-toda, ao gozo de que se trata e [...] de qualquer modo são elas que possuem os homens” (LACAN, 1995, p.99).

   
3 - Masculino/ Feminino: Arte e Literatura:

A arte retrata a sociedade em que o artista está inserido, a cultura em que vive, os sentimentos que possui e que deseja passar, mas, primordialmente, a arte retrata uma época, mostra e demonstra uma história, a história do artista (estória) e a história social.
Jayme Paviani, em sua obra Estética Mínima (2003), coloca do lugar da arte, como social: “[...] O lugar da arte é o social, mas o social, por sua vez, é a consumação do encontro humano no mundo, na história” (p.16).
Ainda:

Se é verdade que a arte expressa a vida, não podemos explicar as virtualidades de formas, a relação entre os efeitos estéticos e os modos de sentir e pensar neles contidos, apenas com o uso de elementos lógicos e formais. Se na arte podemos encontrar a formulação de uma nova concepção do homem e da sociedade, uma nova proposta ética, precisamos alargar nossos instrumentos de compreensão. Cada forma, cada expressão simbólica é um desafio à nossa capacidade interpretativa. (PAVIANI, 2003, p.17).
           

            Muitas são as formas de manifestação dos artistas/escritores em suas obras. E estas obras retratam a realidade em que vivemos, mostram-nos nossa história, estruturam nossas vidas.
            Atendo-nos a figuras femininas na arte e na literatura, na história mundial, temos, por exemplo, Frida Khalo, Camille Claudel, Virgínia Woolf, Coco Chanel e outras que, mais que fazerem sua história, deixando marcas profundas no contexto cultural, extrapolaram questões pessoais e deixaram marcas de um feminino que achou seu lugar na cultura. Mulheres que marcaram para sempre a história do pensamento artístico. Apesar de fortes, não deixaram de ser femininas, não precisaram esconder-se atrás de um modelo masculino de agir, acharam seu ponto de equilíbrio e mostraram a que vieram. Frida venceu a dor do corpo dilacerado e transmitiu, em sua obra, uma visão feminina de seu país, o México, como nenhum homem antes dela havia feito. Camille Claudel, já pronta como artista no campo da escultura, insegura, engajou-se na escola de Rodin, iniciando sua ruína emocional, mas sua obra apresenta toda esta paixão e loucura, nas formas perfeitas, nas curvas marcadas em bronze ou em pedra, na dor e na força. Coco Chanel revolucionou os costumes, a moda, transformou o mundo, desviando o olhar social para mais um campo de arte, abrindo um novo espaço para a mulher, que não apenas aquele de objeto, “cabide” que carrega as roupas dos grandes estilistas. Virgínia Woolf revolucionou a literatura, criando uma escrita marcadamente feminina, presentificando a mulher e seu lugar na sociedade:

No contato com artistas criativos e, especialmente, com Kahlo, Claudel e Chanel, ingressamos num espaço compartilhado. Neste espaço, surge a possibilidade de um brincar envolvendo a comunicação e a não-comunicação. Isto é, vemo-nos, frente a essas artistas, numa situação paradoxal: buscamos desvendá-las, mas são justamente os seus mistérios que nos fascinam. (OUTEIRAL; MOURA, 2002, p.18).



            No Brasil, no Rio Grande do Sul, temos grandes nomes também nos mais diversos campos da arte. Pode-se dizer que existe uma poesia feminina no Rio Grande do Sul? Como é essa poesia, ela se difere da masculina? Que é poesia feminina?
            O Rio Grande do Sul, à semelhança dos outros estados brasileiros e mesmo do mundo, tem poetas mulheres, em número reduzido ao de homens, mas as tem, quer seja em nomes como os de poetisas ligadas à Academia Literária Feminina do Rio Grande do Sul, quer em nomes como o de Lila Ripoll.
            Diferente das acadêmicas de literatura, Lila Ripoll, nascida em 1905, falecida em 1967, de câncer, percorreu caminhos da poesia ocidental contemporânea, em temas como a morte e o amor, reminiscências da infância, perdas e na luta politicamente engajada do Partido Comunista. Inicialmente dedicada à música, Lila passa a publicar seus poemas e a lecionar no magistério estadual em Porto Alegre. Integra-se ao grupo de escritores denominado Geração de 30. Em 1939, é convidada a trabalhar na Secretaria de Educação. Com a morte de seu primo Waldemar da Silva Ripoll, de forma violenta, Lila inicia sua militância política no Partido Comunista. Seu primeiro livro, De Mãos Postas, editado pela Livraria do Globo, em 1938, dedicado à memória de Waldemar, marca tristeza e solidão, como nos versos do poema Vim ao Mundo em Agosto:
           
            [...]Sou triste de nascença e sem remédio.
            Vim ao mundo no triste mês de agosto: -
            O mês fatal das chuvas e do tédio, -
            E nasci quando o sol estava posto.
            [...]
            Sou triste. É irremediável este mal.
            E eu não quero curar minha tristeza.
            Só ela para mim tem sido leal
            Na minha via-sacra de incerteza![...]” (RIPOLL, 1998, p.29).


            Lila publicou mais livros: Por quê?, em 1945 (vem a público em 1947); Novos Poemas, primeiro da trilogia da Revista Horizonte, do Partido Comunista, em que se verifica um engajamento a uma poesia de caráter social; o poema Primeiro de Maio, poema extenso dividido em quatro partes (Festejo, Passeata, Amanhã e Angelina); o terceiro da trilogia da Horizonte, Poemas e Canções, de 1957 que, segundo o Correio do Povo, contém a seleção dos melhores versos dos últimos anos; o último livro antes de sua morte, o melhor na opinião da crítica, O Coração Descoberto; e ainda, um livro póstumo, Águas Móveis, em que no prefácio de Walmir Ayala consta:

[...] Lila é uma mulher rodeada de mortos, e inesquecida. É uma mulher voltada para o escuro silêncio dos bens perdidos. Uma mulher em lágrimas, em permanente pranto convulsivo, visível, nobre [...]. (RIPOLL, 1998, p.250).


            Lilá, além de concertista, poetisa, trabalhadora, política engajada, ainda escreveu uma peça teatral, Um Colar de Vidro, peça em três atos, encenada no Theatro São Pedro, em Porto Alegre, em 1958.
            Diferente das poetisas da Academia Literária Feminina do Rio Grande do Sul, que se mantinham isoladas em um “gueto” feminino, Lila freqüenta o mundo masculino, o grupo Geração de 30, o funcionalismo público, o mundo político, a dor.
            Mas o que é feminino, masculino? Ethel Person e Lionel Ovesey, em seu artigo sobre Teorias Psicanalíticas da Identidade de Gênero, dizem:

De maneira geral, definimos a identificação de gênero como composta de duas categorias: identidade de gênero nuclear e identidade da função de gênero. Neste contexto, identidade de gênero nuclear – a polaridade fêmea/macho – reflete uma auto-imagem biológica e pode ser definida como a autodesignação por um indivíduo da sua qualidade de fêmea ou macho. É o senso de pertencer biologicamente a um sexo ou a outro: isto é, a convicção: “Eu sou fêmea” ou “Eu sou macho”. Em contraste, a identidade da função de gênero, a polaridade feminino/masculino reflete uma auto-imagem psicológica e pode ser definida como a auto-avaliação do indivíduo da feminilidade ou masculinidade psicológicas. É a percepção da feminilidade ou masculinidade: isto é, a crença: “Eu sou feminino” ou “Eu sou masculino”, comparativamente aos padrões sociais para o comportamento feminino ou masculino. (PERSON; OVESEY, 1999, p.124).


Retomando as idéias de Leonardo Boff e Rose Marie Muraro, do Capítulo I deste estudo, para este contexto, tem-se que, na espécie humana, as primeiras culturas foram as de coleta e, nelas, o primata/humano toma a posição ereta e começa o seu desenvolvimento do córtex cerebral com as suas primeiras conquistas tecnológicas. Um segundo “ponto de mutação” teria ocorrido quando o ser humano inventa o machado e inicia-se o período de caça, criando, com isso, novas estruturas psíquicas coletivas. Há dez mil anos, a fundição de metais e a agricultura instauram um terceiro “ponto de mutação”, com a formação de aldeias e o fim do estado nômade. Um quarto “ponto de mutação” ocorre há pouco mais de trezentos anos, com o advento da civilização industrial, possibilitando avanços científicos e tecnológicos, especializando a urbanização, onde se observa uma organização social mais individualizada da consciência. Hoje vivemos um novo “ponto de mutação”, com a aceleração dos processos tecnológicos, com a informatização galopante. Este processo é forte, violento, à semelhança do primeiro, em que o animal transformou-se em homem (adquirindo a forma ereta).
As relações entre os grupos, inicialmente de solidariedade, passam a ser regidas pela violência, pela caça, pela competição. Hoje, também, de uma forma mais sutil, mais “tecnológica”, as relações humanas são violentas, agressivas, de competição extrema, de subjugação, em que a Dialética do Senhor e do Escravo, de Hegel, torna-se extremamente atual. Num momento em que vale o “matar ou morrer”, a objetivação total do humano, parece transparecer um mundo masculino, forte, trágico, de dor e solidão.
Um mundo feminino seria onde as relações fossem regidas pela vida, pela solidariedade, pelas noções de cuidado, de preservação de si e do outro, de compartilhamento de vida e dos bens da natureza, mas também de perfídia, de deslealdade, traição, infidelidade.
O masculino e o feminino puros carregam estigmas de bem e de mal. Deveriam conviver dentro do homem (como ser) e da sociedade como tal, a complementaridade das duas estruturas, a força convivendo com a vida, o equilíbrio. Evoluir como ser é buscar este equilíbrio de forças, esta convivência pacífica consigo mesmo, com os outros e com o mundo. Isso pode ser observado na arte e na vida.
Na poesia de Lila Ripoll, observa-se uma dor e uma solidão que não pedem solidariedade, que se bastam, que são absolutas. Sente-se o trágico em cada linha, como que um “gostar de sentir dor”, à semelhança de Baudelaire (sangue... vinho tinto). É uma poesia masculina, com todas as suas características de destruição.
            Podemos encontrar mulheres fortes, com espírito masculino como Lila Ripoll e homens com “alma” feminina, dizendo, na poética ou não, de si ou de mulheres.
Chico Buarque de Holanda carrega as características do feminino em seu trabalho (na forma de um gênio em sua área) equilibrando a força masculina com a leveza e a independência femininas, como na belíssima canção composta em parceria com Tom Jobim, A Violeira:
                       
            Desde menina
            Caprichosa e nordestina
            Que eu sabia a minha sina
            Era no Rio vir morar
           
            Em Araripe
            Topei com o chofer de um jipe
            Que descia pra Sergipe
            Pro serviço militar
           
            Esse maluco
            Me largou em Pernambuco
            Quando um cara de trabuco
            Me pediu pra namorar
            [...]
            Não tem carranca
            Nem trator nem alavanca
Quero ver quem é que arranca
Nóis aqui desse lugar!


Na verdade, o que importa mesmo é que tenhamos poetas, homens ou mulheres, masculinos, femininos, equilibrados em suas estruturas narrativas ou não (e talvez a arte se faça deste desequilíbrio!) e possamos, cada vez mais, lê-los e nos deliciarmos com seus escritos:

Olha o céu, azul, disseste.
Olho o céu: está grisalho
como um velho encapotado;
de azul, mal uma nesga.

E só então me dou conta,
o azul estava em tua voz:
e num milagre, eu, meus olhos
e o dia fulguram sol. (POZENATO, 2000b, p.22).


Ou ainda,

Faço o percurso dos pássaros

O céu é imenso
e longa é a distância                                   
entre o deserto e o mar
           
            Sozinho,
            migro em minha própria direção.  João Cláudio Arendt


  
Capítulo III
Transposição do Velho e do Novo

A Cocanha



“Tu nada explicas, ó poeta, mas por ti todas as coisas se tornam explicáveis”.
Claudel


3.1. O Mito Fundador – América: A “Cocanha”:

            O romance A Cocanha, de José Clemente Pozenato, narra a vinda dos imigrantes italianos à América, território caracterizado como paraíso terrestre, terra prometida, fértil e duradoura. A obra, apesar de publicada após O Quatrilho, o antecede como episódio narrativo, formando um conjunto: 
                       
A parcela desses aventureiros [os imigrantes italianos] que se fixou no extremo sul do Brasil teve sua história resgatada por José Clemente Pozenato nas páginas de O Quatrilho, saga que, transposta para as telas, tornou-se nacionalmente conhecida.
Com A Cocanha, José Clemente Pozenato volta no tempo e vai buscar, na Itália, os antecedentes da saga O Quatrilho. (POZENATO, 2000a, páginas de orelha).


A narrativa expressa a realidade do imigrante italiano: suas vicissitudes, suas dores, sua busca. Descendentes de imigrantes, que viveram com seus parentes italianos e vivenciaram suas dores, vêem refletido na obra o que ouviram de seus antepassados, com clareza e emoção.
Contardo Calligaris, no artigo Brasil, País do Futuro de Quem?, para a obra Um Inconsciente Pós-Colonial (2000), faz um estudo de razões geo-topográficas do Brasil como um Éden e nos prova que o Brasil, como Éden, estaria no nível do Paraíso Terrestre para a cultura ocidental:
           
[...] parece que a América do Sul, e mais propriamente o Brasil, quando descobertos, vêm preencher um espaço desde sempre aberto na cultura ocidental: o espaço reservado à nostalgia de um gozo supostamente perdido (observação, aliás, que poderia ser de alguma utilidade para entender a mistura de fascinação e desconfiança que espera o brasileiro que volta hoje a Portugal...) (CALLIGARIS, 2000, p.161). 

Contardo coloca também da relação entre colonizador e colonizado como interdependente e que um já estava no inconsciente do outro antes do encontro:

Não só os índios levavam na sua cultura a marca do seu futuro colonizador, mas também os colonizadores levavam na sua cultura o lugar de um sonho edênico pronto e feito para que os selvagens o ocupassem. Estes outros, aparentemente tão outros, talvez fossem, para os descobridores, o mais íntimo de seus sonhos. (CALLIGARIS, 2000, p.161).


            Ou seja: “Se o conquistador já estava na cultura indígena antes de que ele chegasse, o índio também já estava na cultura européia antes da ‘conquista’.” (CALLIGARIS, 2000, p.162).
José Clemente Pozenato (2004), em uma crônica publicada no Jornal Pioneiro, afirma que um autor precisa de modelos. Em todas as profissões, o profissional precisa de um modelo para espelhar-se.
 Fala então de um autor-modelo, que foi referência em sua vida, porque escrevia como falava, escrevia de uma forma simples, que parecia uma conversa.[1] Se o modelo era o da simplicidade, clareza, sabedoria, José Clemente Pozenato aprendeu bem o “segredo”.
Fica-se, com sua obra, com a sensação de estar ouvindo as histórias contadas pelos “nonos” e “nonas” de nossa infância, falando de sua vida e de sua trajetória. Ainda, se, como leitora, abstraí corretamente, o personagem José Bernardino, retratado em A Cocanha, é um alter-ego do autor. Pozenato coloca, como José Bernardino, sua obra acima de si mesmo, já que José Bernardino, na obra, morre, sem que se saiba exatamente porque se transferiu para o interior, tendo família e melhores recursos na capital. Ele observa e, a seu modo, ajuda os imigrantes, sem aparecer. Com seu trabalho, supera-se e faz a obra transpor a si mesmo:

Bento tentou mais uma vez interromper aquela difícil despedida, mas foi inútil. José Bernardino desatou a falar de sua vida de menino, nos campos de Cima da Serra, das suas alegrias e contendas no Partenon Literário. Bento deixou-o ir [...] José Bernardino passou a falar das horas de camaradagem que tinha tido no meio daquela floresta, o quanto aprendera sobre a vida observando a luta dos colonos [...] Bento abanou a cabeça. Era bem o gênero do amigo. Um estóico, não mostrava nunca o que sentia. Até hoje Bento estava sem saber por que diabos ele saíra da capital, deixando mulher e filha, para vir embrenhar-se nestes matos [...] Que segredo ele escondia atrás daqueles olhos apertados, daquelas duas frestas por onde observava o mundo?. (POZENATO, 2000a, p.309-310).


Na obra A Cocanha, fica claro que a nomeação do texto literário, terra da promissão, coloca os imigrantes italianos e sua vinda a América, como a corrida em busca do paraíso terrestre, da terra da opulência.
A idéia de que a América, mais especificamente o Brasil, é um paraíso terrestre é defendida por Marilena Chauí, em Brasil: O Mito Fundador (1995). Chauí afirma que a América sempre foi, para viajantes, evangelizadores e filósofos, uma construção imaginária e simbólica. A autora também diz que o Brasil é alicerçado em seu mito fundador através de quatro constituintes e que nosso país é fruto da realização de profecias. É a história consumada:
                       
[...] quatro constituintes principais se combinam e se entrecruzam, determinando não só a imagem que possuímos do país, mas também nossa relação com a história e a política. O primeiro constituinte, para usarmos ainda uma vez a expressão de Sérgio Buarque de Holanda, é a ‘visão do paraíso’; o segundo é oferecido pela história teológica, elaborada pela ortodoxia cristã, isto é, a perspectiva providencialista da história; o terceiro provém da história teológica profética cristã, ou seja, do milenarismo de Joaquim di Fiori, e o quarto é proveniente da elaboração jurídico-teocrática da figura do governante como ‘rei pela graça de Deus’. (CHAUÍ, 1995, p.23). 


            Na Descrição do País da Cocanha, onde quem menos trabalha mais ganha (2000), introdução à obra de Pozenato, Cleodes Piazza Ribeiro faz uma breve descrição do que era a promessa estabelecida aos imigrantes italianos para a sua vinda à América. Afirma que o ouro e a comida eram marcas primordiais da “substância” da opulência, e que o trabalho era visto como marca para chegar o dia de não trabalhar e gozar a vida, pois não era possível, no país da Cocanha, gozar e trabalhar ao mesmo tempo.
                       
[...][Paese di Cuccagna[2] dominado por um] vulcão, que expele, continuamente, moedas de ouro. Quando chove, nesse país, chovem pérolas e diamantes, mas podem chover também raviólis... A topografia se completa com uma colina na qual está a prisão destinada aos infratores da única lei que vigora no país: não trabalhar e gozar a vida.” (RIBEIRO, 2000, p.07).


            O autor faz uma transposição, uma divisão entre o velho e o novo mundos, quando cita a passagem pelo Estreito de Gibraltar, divisor do mar, intermediário entre o mar europeu e o mar da América:

- Passamos o estreito de Gibraltar. Estamos no mar da América.
Era um mar cor de cinza e o navio parecia uma casquinha boiando dentro dele. A América ainda estava longe, se é que chegariam lá. (POZENATO, 2000a, p.53).


            Na primeira parte de seu primeiro capítulo, Pozenato apresenta a personagem da saga A Cocanha: Domênico, um alfaiate, que corre ao longo de um cortejo em Roncá, Verona, agitando os braços e gritando sem parar “Viva la Mérica!”[3]. Para muitos habitantes de Roncá, este seria um momento de despedidas. Um bom número de italianos recorre à sua última missa, onde o padre benze e entrega aos que partem um quadro com a efígie de Virgem Maria, para que ela os acompanhe na viagem “e os faça lembrar sempre da fé católica e romana de seus pais” (POZENATO, 2000a, p.12). Com essa passagem, confirma-se um traço característico do povo que aqui se instalou: a forte religiosidade. Neste mesmo capítulo, quando os que partem e os que ficam trocam as últimas palavras, abraços e lágrimas, firma-se outro aspecto: mesmo sabendo que não voltariam, os que partem mostram o desejo de retornar a sua terra: “Cada um sabe, mas não quer mostrar, que as promessas de encontro, arrivedersi[4], nunca serão cumpridas.” (POZENATO, 2000a, p.12).
            A vinda dos imigrantes é novamente confirmada, sob a perspectiva de que o Brasil era visto como “terra prometida”, neste capítulo. A América é interpretada como um lugar onde tudo é perdoado, onde se pode começar “do zero”, renascendo sob um novo contexto. A morte, que separa a vida que os imigrantes tiveram na Itália, da vida que estes viveriam no Brasil, pode ser simbolizada pelo oceano, separador de continentes, separador de mares e, neste momento, símbolo de morte e de um nascer de novo, porém renovado, perdoado: “Eles vão para a América e pensam estar agora livres dos senhores e da polícia, dos contratos não cumpridos, da miséria e da fome.” (POZENATO, 2000a, p.13).
É o fim de novembro de 1883. O início da busca de uma nova história. Jayme Paviani, em sua obra Estética Mínima, diz que o romance O Quatrilho é a primeira obra que alcança valor literário, sobre a imigração italiana no Rio Grande do Sul:

[O Quatrilho] é a primeira obra de valor literário sobre a colonização e a imigração italiana no Nordeste gaúcho. As demais tentativas não alcançaram o nível literário. Somente na poesia já há algum tempo isso acontece. (PAVIANI, 2003, p.111).


Com A Cocanha, vamos ao começo de tudo, dos estudos das questões de gênero a que nos propusemos, de nossa história, da constituição da nossa região.

3.2. O “Negócio do Século: venda de gente”:

Aurélio Gardone e Rosa, junto aos demais vindos de Roncá, iniciam sua caminhada em busca da “Terra Prometida”, aguardando o trem, que os levará até o porto em Gênova e, de lá, para a América por mar. Os casais constituíam-se Aurélio e Rosa, Cósimo e Marieta, Giulieta e Antônio, Gema e Bépi, Domênico, que ia sozinho, sem Caterina e os filhos, e os solteiros: Roco[5], Betina, Francesco Betiato e Ambrósio Batiston. Deixam todos uma terra sem possibilidades, em que são espoliados, taxados, enganados e massacrados pelos poderosos e sonham com a América que lhes vendem, onde poderão viver e constituir suas famílias com dignidade. São todos pessoas simples, pobres, que têm idéias e ideais, buscando uma vida melhor, sem tantas dificuldades, onde possam falar de si, o que pensam, sem perseguições ou opressões, extremamente religiosos, católicos, lutadores: “Estavam acostumados a ter paciência [...] Quem estivesse de fora, fora tinha de ficar. Como no juízo final. Ou paraíso, ou inferno.” (POZENATO, 2000a, p.14).    
No trem que os leva a Gênova, são “empilhados”, uns sobre os outros, com suas bagagens: cestas, sacos, embrulhos, baús e caixas. Muitos venderam tudo o que tinham, para começar uma nova vida, outros constituíram suas famílias para viajar, casaram e se inscreveram para a viagem, alguns deixaram parte da família para, depois de se instalarem na América, mandarem dinheiro para que os parentes que ficaram viessem sem as dificuldades iniciais de instalação. A maioria, porém, deixa na Itália suas famílias, pais e mães, partindo em busca da aventura da promissão, com a certeza da morte: de que não mais veriam a Itália nem aos seus. Assim, os cônjuges que vêm para a América, sabem que a “família” que possuem é o grupo que constituem, e a esposa ou marido que carregam consigo. Procuram todos ficar juntos, unidos em seus ideais.
Muita gente se beneficiou da imigração: as hospedarias de Gênova, as casas de pasto, os vendedores de terras, de viagens, da idéia da América... os ladrões de bagagem nos portos e estações de trem:

[...] todos viviam de chupar sangue dos emigrantes [...] Nem o governo nem os padres faziam nada para pôr fim à exploração, feita de modo escandaloso. Todos sabiam dela e todos calavam. (POZENATO, 2000a, p.32). 


A Itália está retaliada, faminta. Precisa, deve, mandar alguns embora, para que os que ficam possam sobreviver. Porém muitos se beneficiam deste “comércio”, deste “negócio”, como bem diz um personagem:

A Itália sangra pelo porto de Gênova [...] É uma sangria que ninguém está preocupado em estancar... E no sangue que se esvai, no corpo doente e à beira da morte, operam os vermes sôfregos para não perder o negócio do século: a venda de carne humana dos compatriotas, das bocas que gritam e consomem nossa pouca polenta, para os confins do mundo. (POZENATO, 2000a, p.33). 


Os emigrantes pensam buscar seu paraíso, mal sabendo das dificuldades que enfrentarão. Estão iludidos, enganados pelos poderosos e todos que querem usurpar-lhes algo. Foi-lhes vendida uma idéia de nova vida, mas, na verdade, são praticamente expulsos de suas casas, deixados à mercê da sorte, por aquela que devia defendê-los, a pátria em que nasceram:

[...]Vocês são os que não ganham, amontoados no porto como pus na borda de uma ferida. Vocês são expulsos e ninguém sente a dor que vocês sentem. E vocês, no entanto, sonham. (POZENATO, 2000a, p.34).


O que alguns pensam que ficará, no campo histórico, é que os emigrantes serão esquecidos. Talvez a Itália realmente tenha banido de seus livros a verdadeira história da emigração de italianos para a América, como uma forma de recalque, de algo insuportável, a dor de uma mãe que precisou “vender” seu filho, para que ele pudesse se alimentar e para que os filhos que ficassem pudessem ter algum alimento também:

O que está acontecendo é uma vergonha muito grande para a Itália guardar na memória. Não vai ficar nem nos livros de história. Vocês são expulsos e serão esquecidos. Como o sangue tirado do corpo [...] A volta de vocês jamais será bem-vinda. (POZENATO, 2000a, p.34-35).


Como poderiam ser bem-vindos, se a mãe os envia, os vende e recalca seu ato? Ela precisa esquecer o que fez. Só esquece se os pensar mortos (“jamais voltarão, não poderão voltar, porque assim reabririam as feridas da mãe, sua culpa, sua responsabilidade pela venda!”). Ela “precisa” acreditar que morreram, para esquecer-se do que fez. O autor retrata magistralmente esta condição da Itália, como mãe e pai que vendem seus filhos, para alimentar aquele que vai e o que fica, na história da personagem Chiara, imigrante de família miserável, que vem para a América. A família traz a avó cega, quase inválida, que morre na viagem de navio. Chiara, uma menina adolescente, tem sua menarca no navio e é amparada por Rosa Gardone, num papel de mãe substituta, e por esta é ouvida em suas confidências e angústias. Chiara, no Brasil, conta a Rosa que os pais a entregarão para trabalhar em casa de uns “brasileiros”. Ela sabe que foi “vendida” à família para trabalhar em troca de alimento e para que sobrasse mais comida em sua casa, para os pais e irmãos. Assim como a Itália entregou seus filhos para trabalhar por uma nova pátria, uma nova terra: o Brasil:

-Minha mãe disse que tem uma família que quer uma, assim como eu, para trabalhar na casa deles. São brasileiros.
-Tua  mãe o que diz?  
-Ela acha bom.
-E teu pai?
-Também. Uma boca a menos, ele disse. (POZENATO, 2000a, p.128).



3.3. O Observador:

            O observador da vida na localidade apresenta-se na figura de José Bernardino, um homem com prestígio e família na capital, que aceita um modesto trabalho de escriturário no interior, em meio à floresta. O autor passa uma idéia de que José Bernardino se muda para o interior, talvez em razão de alguma doença, resignado a aceitar o sofrimento de ali estar. Ele faz anotações da vida na localidade e nomeia estas anotações como Anotações para um Romance Realista. Observa nessas anotações os tipos que aqui chegam, sua língua, seus costumes, suas lutas, seus sofrimentos e dificuldades:

Sou às vezes atacado de um sentimento premonitório: parece-me adivinhar, num simples lance de olhos quais deles irão submergir e afundar e quais irão sobreviver e, mesmo, enriquecer [...] Será preciso ser cruel para vencer no meio de tanta adversidade. Cruel nesse sentido: não ter piedade dos outros, dos que vão sendo derribados e pisoteados pelos corcéis do destino. (POZENATO, 2000a, p.195).


            José Bernardino fazia contatos e observações no salão de bilhar, no que chamavam ‘sarau literário’, que, na verdade, eram conversas sobre os acontecimentos locais e, destas conversas, cada um tomava partido, defendendo um ou outro lado. Têm-se a idéia da vida social e política locais através das observações de José Bernardino: as moradias dos colonos, o desejo de buscar sempre mais, as lutas frente às dificuldades, o ímpeto em busca da civilização. Mas também as jogadas políticas, o não atendimento, por parte do poder local, às necessidades dos colonos frente a tudo, inclusive às doenças.
            É também através da figura de José Bernardino que se tem a notícia das mudanças no poder político no Brasil, a transformação da nação em uma república:

A impressão de José Bernardino era a de uma estranha insignificância do acontecimento. O poder mudava de mãos na maior nação do continente e era como se nada tivesse acontecido. [...] Era como se todos fossem hoje republicanos como eram ontem monarquistas. (POZENATO, 2000a, p.266).   


            José Bernardino também nos traz o ato de nomeação da colônia:

Assim, alguns meses depois da república, esta freguesia transforma-se na Vila de Santa Teresa de Caxias. O general Candido José da Costa assinou o decreto agora, a 20 de junho. (POZENATO, 2000a, p.274).


            José Bernardino morre como chega na localidade: em silêncio, de pneumonia.

3.4. Os Políticos:

            Neste segmento, procurarei analisar os personagens solteiros, ou que são apresentados pelo autor de uma forma mais solitária em suas ações. Neste contexto, aparece Afonso Amábile como alguém de quem se fala na localidade, com história de que chefiava um bando de salteadores e assassinos na Itália, porém, na verdade, ele é um lutador por melhorias para o povo e para si mesmo. É um homem com coragem e desenvoltura, além de ter perspicácia e inteligência para lidar com os políticos locais. Nascera em uma aldeia da Calábria, numa família de muitos irmãos, passara fome e foi muito chicoteado pelo pai. Daí lançar-se às estradas do mundo. Ele se considerava um combatente da liberdade. Seu lema poderia ser: ‘quem se mete contra os poderosos tem que estar pronto para tudo.’ (POZENATO, 2000a, p.192).
            É através de Afonso Amábile que Roco envolve-se com a política na busca de liberdade e melhorias para o povo. Eles se conhecem no salão de bilhar em que Roco vai beber. Todos temem a Afonso Amábile, Roco não.
            Roco nos traz a idéia do imigrante italiano que chega à América com uma profissão, já que, na Itália, ele trabalhava como ferreiro fazendo foices para roçar, foicinhas, enxadas, facões, pás, machados. Era dos melhores na têmpera, tinha um trabalho “de primeira”. O chefe gostava muito de seu trabalho, mas não gostava de seus envolvimentos com Afonso Amábile. Roco conhece uma ‘brasileira’, Delfina, filha do tropeiro João Neves. Passa a freqüentar a casa deles, namorando Delfina:

Ainda sentia o sopro quente no rosto e, no lábio, uma sensação de coisa doce e macia. A Nina. Tinha agora certeza de que não ia mais viver sem ela. Tudo nele pedia a Nina, como se ela fosse uma parte do seu corpo que estava faltando. (POZENATO, 2000a, p.224).

           
Por não aceitar as imposições dos chefes, de que deveria se afastar de Afonso Amábile e das confusões políticas que esse armava, Roco sai do emprego na ferraria. Pensa em ter sua própria oficina. Roco torna-se muito amigo de Cósimo, sendo, por este, convidado para ser o padrinho de seu filho, nomeado Sétimo.
            A colônia sofre um surto de varíola. Delfina acaba adoecendo e morrendo:

-Está morta. [...] Roco saiu para avisar a família dela e voltou. Quando a carreta saiu com o corpo, ele seguiu atrás, de chapéu na mão, sentindo toda a sua vida indo junto para ser sepultada. (POZENATO, 2000a, p.295).

           
            Roco é preso por seus envolvimentos políticos. Fica pouco tempo preso. Dá-se conta de que os jogos políticos são resolvidos nos bastidores. Na saída da prisão passa a se colocar mais à margem destas questões: “-Não me meto mais nisso. Acabou. Não se pode confiar em ninguém” (POZENATO, 2000a, p.315).
            A casa que havia construído para morar com Delfina, Roco transforma em pensão. Nesta pensão, há uma funcionária, Marieta, que Roco contrata para os serviços. É desta forma, dono de pensão e casado com Marieta, que ele aparece em O Quatrilho, recebendo Ângelo e Teresa quando vão a Caxias. 
Domênico é o personagem que abre a história, ao gritar nas ruas de Roncà, em Verona: ‘Viva la Mérica!’ (POZENATO, 2000a, p.11). Domênico aparece apenas na obra A Cocanha, mas sua presença não deixa de ser sentida na obra O Quatrilho, já que ele é o pai biológico de Teresa (ela nunca fica sabendo disso). Ele é aquele que, junto a Giulieta, dá sentido à busca de Teresa pelo seu “desejo”. Desejo esse constituinte e estruturante do ser, pelo amor, pelo “a mais” da vida. Domênico, não à toa, é um alfaiate, um artesão, aquele que “veste” as pessoas, que lhes dá forma, é o “vendedor” da América aos emigrantes. Bonpiero Domênico sabia-se um serviçal cortejado pelos senhores, para ele tudo era um negócio. Domênico enxergava um pouco além. Era um homem de visão, sabia tirar proveito das situações, para seu progresso, mas não era um homem mau:
                       
[...] Até remédios sem nenhum efeito contra o enjôo do mar acabavam comprados pelos mais desprevenidos, ou mais assustados. Domênico alertara cada um deles sobre essa quantidade de perigos. Estava com a consciência tranqüila. Mas a boa-fé e a ignorância ainda assim faziam estragos. (POZENATO, 2000a, p.32).    


            Domênico é o homem que olha as mulheres, que as conhece, que sabe abstrair-lhes o que lhes vai na alma. Talvez, por essa razão, Teresa é uma mulher que sabe ser mulher:

[...] Na praça encontraram Gema, Rosa e as outras mulheres sentadas nos bancos. É o que sempre acontece, pensou Domênico quando se tenta fugir delas. Tinham um ar de conspiração, mas quando as mulheres não têm esse ar se estão sozinhas? (POZENATO, 2000a, p.35).


            Quando a questão era dinheiro, todos buscavam em Domênico um amparo, uma proteção, uma indicação do que fazer. Sua decisão de emigrar nada tinha a ver com contratos ou desavenças com proprietários de terras na Itália. Muito menos estava na miséria. A alfaiataria foi herdada do pai. Com a miséria reinante na Itália, o trabalho era escasso. Domênico buscava, então, novos rumos: encontrar-se na América. Para ele, a América era a busca de uma identidade, a saída de uma condição adolescente, de herança paterna, para a condição de fazer a própria vida, construir a própria história, longe da família. Pensa em continuar a alfaiataria, que é o que sabe fazer, mas pensa em fotografar e em outros caminhos, que vão se constituindo até mesmo na viagem de navio.
            Domênico deixa na Itália a mulher Caterina e os filhos, para depois de instalar-se (e aproveitar um pouco a liberdade) mandar buscá-los.
            Domênico se aproxima de Giulieta no navio, vindo da Itália, interessa-se por ela. Conversam, ele se sente atraído por aquela mulher inteligente e, a seu ver, solitária, deixando-o curioso para conhecê-la mais.
            Aprende a arte da fotografia em Porto Alegre com Grasselli, que não lhe cobra pelo ensinamento. Domênico é um homem que busca muito os bordéis, para divertir-se com as mulheres. No Campo dos Bugres, Domênico conhece Gaetano Padovan. De sua conversa com Gaetano, Domênico lembra-se de Giulieta:

Era um prazer ser admirado pelas mulheres. Só menor que o prazer de admirá-las. Giulieta lhe tinha chamado a atenção desde o começo da viagem. Não podia esquecer a conversa à noite no convés do navio, quando mostrou a ela o Cruzeiro do Sul. Ela estava esquiva, mas isso ele compreendia. Precisava era compreender o que o atraía nela. [...] Seria ela uma mulher infeliz? Teria vindo contrariada, forçada pelo marido? Não era difícil descobrir. (POZENATO, 2000a, p.105).  


            Domênico aproxima-se de Agostinho Dallaosta, um comerciante bem sucedido que o coloca em contato com a maçonaria e seus ideais. A vida para Domênico, na colônia, estava uma maravilha, tinha uma vida de solteiro. “A América é uma festa” (POZENATO, 2000a, p.226): a alfaiataria abria as portas junto aos figurões e homens de dinheiro, a fotografia dava mais lucro, ninguém resistia à sua foto na cartolina; e a banda, onde tocava como músico, conduzia-o às festas e às mulheres, que tanto gostava. Caterina surpreende-o, acabando com tanta ‘folga’, chegando da Itália com os filhos, apanhando-o completamente desprevenido:

Quis perguntar como ela conseguira o dinheiro para as passagens, mas era evidente. Ele próprio o havia remetido, mês por mês, achando que com isso ela o deixaria em paz. Ela fora mais esperta, e era claro que estava saboreando a vitória. Melhor era nem beirar o assunto. (POZENATO, 2000a, p.251).


            Domênico se envolveu com Giulieta e, deste envolvimento, nasce Teresa. Giulieta leva Teresa para que ele a conheça, mas ele se propõe a afastar-se. Afinal, já é motivo de chacota no povoado, depois que Caterina chega surpreendendo-o:

Giulieta trouxera a pequena Teresa para ele ver. Estava contente, parecia ter remoçado, e continuava muito atraente. Ele porém já decidira, era muito arriscado seguirem com o romance, as mulheres sempre querem o braço depois de levarem o dedo. Giulieta era como o império, tinha ficado para trás. Teria saudades dela mas o trono continuaria vazio. A república com que tinha de se haver era Caterina, que já esperava mais um filho. (POZENATO, 2000a, p.271). 

            Domênico segue seus envolvimentos com Dallaosta e a maçonaria. Ele fotografa revolucionários, mas, na berlinda, apóia Júlio de Castilhos. De seus envolvimentos com mulheres casadas, o autor registra uma surra que levou:

Ele parecia nervoso, e Domênico sentiu fugir-lhe o sangue. Teria o Vitório descoberto que sua mulher o traia e vinha cobrar satisfações? [...] Não percebeu de onde veio a primeira pancada que o pôs de joelhos. Tentou pegar a navalha no bolso, mas outro golpe de porrete lhe atingiu o braço. A dor foi tão forte que lhe parecia ter quebrado um osso. Curvou-se no chão, protegendo a cabeça, e suportou a surra, enquanto tentava adivinhar se eram dois ou três os que batiam, sem uma palavra para que ele pudesse reconhecer a voz. Acordou com um cachorro lhe lambendo o rosto. Devia estar sangrando. (POZENATO, 2000a, p.314-315).
           
Para fugir de novas confusões amorosas, Domênico decide mudar-se para a Argentina:

Da primeira vez escapara, mas por pouco. Na segunda não o deixariam vivo. Por isso era obrigado a se refugiar em outro país. Voltaria quando a tempestade tivesse passado. (POZENATO, 2000a, p.317).

3.5.As “rondinèle”:

As “rondinèle”, as andorinhas, são as cinco amigas: Rosa, Gema, Giulieta, Marieta e Betina. Cinco mulheres que determinam seu destino e, a partir dele, o de seus maridos. Na visão do autor, elas determinam a história.

3.5.1 Betina:

Betina é a sonsa, aquela de quem as demais fazem troça, riem, brincam. Betina é solteira, as demais brincam que ela não conseguiu marido e, na verdade, isso determina seu destino no romance, já que, em Gênova, ela anuncia que permanecerá ali, não mais irá para a América, que tem namorado e este é um gendarme[6] que trabalha no porto. Betina era irmã de Antônio Besana, casado com Giulieta.
Em Gênova, ela sai da história e depois só é lembrada pelas demais como alguém que se “perdeu”, que pode ter se dado bem ficando na Itália, mas provavelmente se deu mal e transformou-se em uma “putana”[7]. Sua história não deixa de ser importante e constituir uma marca, já que ao pensarem que ela se “perdeu”, lança uma fagulha na família, mais tarde determinando o destino de Teresa, já que esta é filha de Giulieta e Antônio (?).
Betina é decidida, não segue com os outros, não “vai com a maré”, ela muda as regras e fica na Itália, mesmo sabendo que enfrentará as dificuldades de não mais ter o grupo para ampará-la. Ela assume seu destino com os riscos que ele apresentar.
A marca que ela lança na história familiar é de ser uma mulher que não se afeta com as opiniões, que não teme o futuro e isso passará, na família, como uma força para Teresa buscar sua felicidade, mesmo que às custas de ir contra as leis sociais da época.
Também fica, no imaginário familiar, a possibilidade de que Betina tenha se transformado em uma “putana”, isso também irá perseguir Teresa no romance O Quatrilho, já que a marca de sua força é uma marca sexual, forte. Em Teresa, esta marca vem como aquela que dá valor ao amor e às possibilidades advindas dele. Aquela não se afeta com as convenções: de buscar um marido, com ele enriquecer, de não se perder no trabalho, para fugir da vida.

3.5.2 Marieta:

Marieta é a mais velha de todas, passa experiência às demais, experiência com os homens, de mulher casada. Na viagem tem vinte e oito anos, é considerada velha pelas demais, pois já tem quatro filhos e está grávida de outro. Velha porque, na realidade dessas mulheres sofridas, já teve muita caminhada de dor e solidão, além de trabalho árduo e cuidado com a prole numerosa. Ela dá as regras para ser uma boa esposa, uma boa mulher, à época da imigração, no texto e na transmissão às amigas:

[...] elas tinham na Marieta uma amiga experiente, com quem aprendiam coisas sobre os homens e a vida da mulher casada. Riam quando ela vinha com as suas regras e explicações, que aprendera de uma amiga, e esta de outra, [...] era pecado não atender o marido quando ele quisesse. Não procurar o marido, mesmo tendo o corpo ardendo, para o homem não pensar que casou com uma putàna. Dar de mamar enquanto tivesse leite, porque, [...], enquanto se dá de mamar não se pega filho. Não deixar nunca aparecer os joelhos, porque [...] só o marido pode ver a mulher para cima dos joelhos. (POZENATO, 2000a, p.23).


Marieta tem uma presença virtual na obra, mas é dela que nos vêm a noção do que é esperado da mulher e do que vige na época. Efetivamente, aparece como a esposa de Cósimo: o líder do grupo, aquele que decide onde o grupo se instalará e quem nomeia a localidade como Santa Corona. Marieta só volta a ter presença na obra quando Rosa, grávida, sente as dores do parto e Aurélio vai buscar Marieta, a “parteira”, para trazer seu primeiro filho, Ângelo Gardone, à vida. Ali, Marieta demonstra sabedoria e tranqüilidade, necessários à sua função de “obstetra” da localidade (já que o governo não disponibilizava médicos). No romance, ela tem a missão de trazer Ângelo à vida, anunciar sua chegada ao pai e ouvir do pai, Aurélio, a determinação do destino do filho: o filho fará a América de verdade: “-Este não deu trabalho [...] -É um belo toso [...] -Esse vai fazer a América, de verdade. Não como nós.” (POZENATO, 2000a, p.212).   
Ângelo efetivamente fará a América, ele será aquele que enriquece na obra O Quatrilho, o que progride, que constrói duas famílias, além de cuidar, assumir a família de seu pai.
Marieta é a mulher que diz como é uma mulher. É a anunciadora das normas para ser uma boa mulher. A parteira, aquela que traz as pessoas à luz da vida, da verdade. Ela irá ensinar às outras o que elas não sabem, simbolizar para as demais o que é uma mulher, para que elas saibam como se portar, já que ninguém sabe das mulheres, elas são insimbolizáveis. Não à toa, ela traz as pessoas à luz, dá luz ao saber que está escondido. Ela se mantém à distância, para que Cósimo assuma o lugar de homem, portador do falo na comunidade, determinador dos destinos do grupo e do local.

3.5.3 Gema:

Gema aparece na história, quando do anúncio de Cósimo sobre quem se decidira a ir para a América. A forma como vem o anúncio é determinante de uma marca na vida de Gema:
           
A cada vez, Cósimo chegava anunciando o nome de mais um que se decidira. Antônio Besana, casado com a Giulieta. Bépi, aquele casado com a Gema, irmã da Giulieta [...] (POZENATO, 2000a, p.19).   


Bépi, o marido da Gema: quem porta o “falo” simbólico familiar aí é a Gema. Bépi é nomeado como o marido da Gema. Gema é aquela que compreende as coisas da vida e as resolve, ela “vai e faz”. Quando é preciso que se brigue por algo, ela briga, quando o que o grupo precisa é de brincadeiras para ter alguma alegria, é ela que traz. Sua efetiva entrada na história vem como um anúncio de sua função frente ao grupo: aquela que acorda as pessoas da letargia, aquela que abre os olhos para a realidade (seja ela qual for!):

Na cama ao lado, Gema despertou. Espichou os braços nus e fortes com um grunhido. Levantou-se de um salto e, como era do seu feitio, não deixou mais ninguém dormindo. –Acordem, levantem, preguiçosas. O dia está grande. Está na hora de tirar o leite. Su, su. Olha que vão perder o navio. (POZENATO, 2000a, p.23).

Gema questionava as regras das mulheres que a Marieta trazia. Se as mulheres tinham regras a seguir, queria saber quais eram as regras dos homens. Ela rivalizava com os homens, eles eram para ela um ideal. Ao invés de buscar o caminho das mulheres (que ela não sabia qual era, mas também sabia não ser o que Marieta ensinava), ela queria para si o lugar de homem. Ela se colocava em pé de igualdade com os homens, não admitia a diferença sexual entre homens e mulheres. No campo psicanalítico, ela nega a diferença sexual, ela é uma mulher fálica, aquela que não aceita que as mulheres não possuam o símbolo infantil do falo: o pênis. Esta condição, a da mulher masculinizada, que nega sua feminilidade, determinará o destino de Pierina, em O Quatrilho, já que Pierina é filha de Gema.
Pierina, à semelhança da mãe, identificada com esta, masculiniza-se, traveste-se do masculino e mostra uma força, uma garra fálicas, à beira do narcisismo, isso até precisar ‘transformar-se’ em mulher, assumir o feminino em si, seduzindo Ângelo, deixando-se amar e amando verdadeiramente:

É como se a herança, o legado das gerações, mais do que a tradição e as determinações simbólicas, acaba-se por ser o imperativo de se fazer por si mesmo, um ideal de autonomia, caracterizando o sujeito contemporâneo como individualista e narcísico. (RAMALHO, 2001, p.39).  

Pierina, sendo uma excelente trabalhadora, cuidadora da casa e dos filhos, “atendendo” o marido quando “ele” quer, sem ligar para seus desejos, sem cuidar muito de si, sem “espelhar-se”, mostra estar sempre com os “olhos” na mãe, absolutamente identificada a esta mãe masculina. Pierina só avança em busca do “seu” desejo, quando toma um susto, quando Máximo foge com Teresa, quando ela percebe que os homens olham para as mulheres, ficam com as mulheres “femininas”.
Gema, não à toa, é casada com Bépi, um homem apagado. Bépi não sabe sua origem, foi abandonado, deixado à própria sorte. Sem referências estruturais e, casando com Gema, que conduz as coisas da casa, ele assume um lugar feminino na relação marital.

3.5.4. Giulieta:
           
Giulieta é uma mulher inteligente, que não aceitava ser mandada por todos de sua família. Buscando libertar-se, aceita a indicação da mãe de ir para o convento. Vendo que lá teria outra gaiola para aprisionar-se, volta para casa, não sem ter aprendido algo no convento: geografia, história, além de culinária. Com as leituras realizadas ficou mais esperta. Mas Giulieta, diferente de Gema, sua irmã, acredita no amor, busca algo mais. Ela se casa com Antônio Besana, na Itália. Antônio chama sua atenção quando a defende de injúrias que recebeu, junto às amigas, de transeuntes das ruas por onde passam. Ela vem à América nesta condição, como mulher de Antônio, irmão de Betina. Giulieta aprendeu as funções das mulheres, na casa de Antônio: servir aos homens, em ordem de autoridade, e após sentar-se na escada com as outras mulheres e crianças, com o prato na mão para comer, atenta se os homens não chamassem para atendê-los em alguma necessidade. Antônio garantiu-lhe que na América teriam sua própria casa, onde ela poderia mandar, sem sogro nem outros parentes de “trombeta na mão” (POZENATO, 2000a, p.43), o que a animou a vir.
            Giulieta é atraída por Domênico, desde a viagem no navio. Ela é uma romântica, extremamente solitária, crente no amor. Ela tem em Domênico um homem que a entende, que entende sua solidão e suas necessidades, que lhe dá atenção, fácil então envolver-se com ele, principalmente quando o marido, Antônio, enlouquecido por não terem filhos homens para ajudá-lo na colônia, vendo que ela só lhe dá filhas mulheres, culpando-a e responsabilizando-a por isso, começa a bater-lhe, a machucá-la:

Quando nasceu Giovanna, Antônio Besana ficara desgostoso. Queria muito começar a família com um filho homem para ajudá-lo no trabalho. Mas quando veio Égide, depois dela, a vida de Giulieta virou um inferno. Quase não passava dia que ele não achasse modo de dizer quanto estava infeliz de só ter mulher em casa. [...] Giulieta não era o que ele tinha pensado, que ela era um castigo de Deus, jamais iriam para frente se ela não lhe desse filhos homens. (POZENATO, 2000a, p.262).


            Ela, cansada de ouvir que era culpada pela prole, passa a dizer a Antônio que o defeito era dele. Isso o deixa fora de si e ele então a esbofeteia. Daí em diante passa a ofendê-la com as piores palavras, ou bater nela para descarregar a raiva. Antônio é um homem que se casa sem amor e vê nas mulheres um objeto apenas para chegar ao objetivo que é o de gerar filhos homens para o trabalho e para o progresso. Para ele, as mulheres não são seres humanos e sim máquinas de procriação. Talvez essa visão maniqueísta advenha da falta de um sentimento maior que o faça ter afeto, perceber o outro, essa mulher, como ser, além de, provavelmente, vir de uma família em que as relações entre homens e mulheres se dão neste nível, objetal, levando-o a identificar-se com eles. Giulieta não é assim e não aceita uma relação sem afeto, sem respeito, enfrenta a situação corajosamente e, quando tem oportunidade, quando Gema consegue afastá-la da colônia, mandá-la para Caxias para que ela, Gema, dê um jeito em Antônio, ela se envolve com Domênico, que a vê como mulher e como ser humano. Ela, assim, solitária e infeliz, carente de afeto e de reconhecimento, se deixa seduzir. Desta relação nasce Teresa:

Ao cabo de um mês descobriu que estava grávida. [...] Pensou em lhe dar o nome de Eugênia, para lembrar os dias felizes passados na casa da amiga. Acabou dando o nome de Teresa, em honra da santa a quem rezara na igreja, e para que ela conseguisse perdão para o seu pecado. É nisso que pensa Giulieta, enquanto embala a pequena Teresa. (POZENATO, 2000a, p.264-265).


            Na paixão, Giulieta resolve seus problemas internos, que são, especificamente, os maus-tratos do marido, acostumado em família a maltratar as mulheres, e ela querendo ser amada e respeitada no lugar de mulher. Com Domênico, mesmo não ficando com ele, mesmo não efetivando esta relação, voltando para Antônio, Giulieta, tendo sido vista como mulher e amada neste lugar, pode voltar para casa e continuar vivendo numa relação sem amor:

Na paixão, a mulher, mais do que o homem, ou mais exatamente, o feminino, mais do que o masculino nos dois sexos, impõe-se a evidência, como que para melhor buscar nas dobras dos discursos e dos atos aquilo que permanece problemático, e até mesmo enigmático, e a distância do visível. Mas esta ação corre sempre um risco, pois a sua volta ronda esta ‘loucura no feminino’, da qual a erotômana revela-se ser o mártir: a verdade da paixão. (GORI, 2004, p.78).



Quando Giulieta volta de Caxias, não sem antes Gema lhe garantir que “amansara” Antônio, que ele nunca mais iria bater nela, pelo resto da vida, que ele aprendera bem a lição, Giulieta sentia-se curada:

Sentia-se curada. Sabia também como ia viver daí por diante, com o corpo à disposição do marido e a mente cheia da lembrança dos passeios à cascata. Não precisava mais da história de Lúcia e Renzo. Tinha agora a sua própria história. (POZENATO, 2000a, p.264).


3.5.5. Rosa:

            Rosa é a quinta ‘rondinèle’. Juntamente com Aurélio, eles são os personagens centrais do romance. Ela já está casada com Aurélio quando vem da Itália. Os dois decidem emigrar para fugir das dificuldades financeiras, para fugir da morte, da falta de recursos. Aurélio decidiu ir para a América, principalmente porque desejava fazer de Rosa uma signora[8]:

Por ela é que estava tendo coragem de ir para a América. Queria fazer dela uma signora, se Deus o ajudasse com anéis nos dedos e camisas de rendas. Todos falavam que a América era o país da Cocanha. Ele não era bobo de acreditar em salame pendurado nas árvores, em pedras feitas de queijo, em fontes de vinho moscatel. Mas ao menos teria a sua terra e toda colheita seria dele, sem ter que repartir com o patrão. Quando fosse velho, poderia ter mais do que uma tabaqueira vazia para deixar para os filhos. (POZENATO, 2000a, p.16-17).


            Quando saiu da Itália, Aurélio e Rosa deixaram suas famílias, e Aurélio recebeu de seu pai, como lembrança, uma tabaqueira de rapé, que mais tarde perdeu. Aurélio sentia raiva de ter que sair da Itália para não passar fome. Para Rosa, o que importava era que tivessem um teto só deles, mesa farta para os filhos, o resto ‘entregava para Deus’: “Bastava terem um teto só deles e mesa farta para os filhos. O resto entregava nas mãos de Deus. Tristeza por tristeza, melhor com pão na mesa” (POZENATO, 2000a, p.22).
            As demais ‘rondinèle’ achavam que Rosa tinha sorte de estar casada com Aurélio, porque ele era sério e trabalhador, não saia à noite, não ia às vilas vizinhas para dançar e namorar como os outros. Diziam que ele deveria ter algum defeito. Rosa sabia qual era: ele tinha “fraqueza na alma” (POZENATO, 2000a, p.25), ele ficava sofrendo com as coisas antes de elas acontecerem.
            Aurélio era um sonhador, trabalhador, mas um fraco para as coisas e dificuldades da vida. Não tinha forças internas para lutar e vencer o que se apresentasse. Tem o que, mais tarde, é evidenciado na obra, uma estrutura de alcoolista. Quando aparecem as dificuldades, ao invés de enfrentá-las, ele usa um recurso externo, o álcool, como forma de iludir-se, de que as dificuldades se resolverão automaticamente, sem uma ação sua. O álcool funciona, para o alcoolista, como um substituto da virilidade:

A reputação de saber beber é particularmente apreciada no período da virilidade iniciante. Quando a potência sexual se extingue, com a idade, o homem recorre naturalmente ao prazer do álcool, substituto da virilidade que se esvai. O homem apega-se ao álcool, que aumenta seu sentimento de potência, pois aguça seu complexo de virilidade.(ASSOCIAÇÃO PSICANALÍTICA DE PORTO ALEGRE, 2003, 117).


Rosa não percebe essa situação, acredita na força masculina de Aurélio, inexistente ou negada por ele. Como ela não é uma mulher de ação, fálica, como Gema, vai enfraquecendo, deprimindo-se, desistindo. Rosa é a mulher que acredita que o falo está no lado masculino, acredita na fórmula “falo=pênis”. Ilude-se, espera e sofre com isso.
Rosa e Aurélio são pessoas boas, preocupadas com os outros. Ajudam os demais, além de amarem-se e buscarem a constituição da família. Porém, em função dos fatos apresentados acima, das falhas estruturais, não conseguem progredir. O que falta a Aurélio, para completar sua masculinidade apagada, Rosa não dá. Ela é uma mulher feminina e ele é um homem feminilizado. Aurélio sofria com a dor que via estampada no rosto de Rosa, mas nada podia fazer, não tinha forças para isso. Rosa é a boa mãe, atenta às necessidades dos filhos e amigos, como Chiara Esta é uma menina que Rosa encontra no navio, orienta, educa, auxilia. Rosa, não à toa, é mãe de Ângelo, que apesar de sua fragilidade inicial, tem forças estruturais (recebidas dessa mãe), para buscar o progresso pessoal e familiar e vencer as dificuldades.  





Capítulo IV
Exaltação à Força do Amor
O Quatrilho


“A palavra ‘paixão’ é vasta, às vezes devastadora.
Seu sentimento ultrapassa a própria descrição.”
Jayme Paviani


Diferentemente de A Cocanha, que pode ser distinguida como uma obra estrutural  e estruturante das famílias que se formam na nova terra, além de ser uma obra que estrutura a própria terra, com seu novo habitante branco, o romance O Quatrilho, de José Clemente Pozenato, é uma ode ao amor, um louvor à força do amor, a busca frenética pelo amor, que dá vida, que enleva a alma.

4.1.Personagens Centrais:

No livro, diferentemente do filme homônimo, em que o enfoque maior se dá na personagem de Pierina, a personagem de Teresa é central. Teresa é a mulher que busca as respostas, que deseja saber mais sobre a vida, que não se satisfaz com a vida sofrida das mulheres da localidade, que aceitam a estrutura do trabalho, da dor, do aceitar uma condição de inferioridade e de insatisfação. Teresa não quer a vida do calar-se e aceitar o que vem, que Pierina e as outras acatam como norma. Teresa quer mais. Teresa quer amar, quer conhecer o amor, vivê-lo, vivenciá-lo, quer ser feliz. Ela se casa, é alegre, brinca, resolve os problemas que surgem, é inteligente, luta por melhorias de vida, independente dos ditames sociais, das imposições da lei social hipócrita e mentirosa. Teresa é aquela que escancara a verdade e a assume com todas as suas conseqüências. Não é à toa que a obra de José Clemente Pozenato conseguiu a repercussão que teve e tem até os dias de hoje, no nível internacional.
Teresa personifica a pessoa que todos desejamos ser: verdadeiros, assumidos em nossas verdades, sem nada esconder, vivendo nosso desejo e sendo aceitos por ele. Daí a obra, e Teresa em especial, serem sempre atuais porque mostram como o amor (quer seja pessoal, dual ou social) deveria ser, enquanto constituinte do próprio ser, de cada um de nós.
O desejo que nos constitui é nosso diferencial ético perante o mundo. Buscando-o nos diferenciamos dos demais, nos tornamos únicos:

[...] o desejo seria o único ‘universal ético’ de que dispomos; e a novidade da prática revolucionária de Freud consistiu em colocar essa questão trágica no centro de nosso pensamento ético, prometendo-nos algo novo nas possibilidades de nossos almores. (RAJCHMAN, 1993, p.98).

Teresa nos apresenta o lugar feminino da cultura, forte, que sabe o que quer e vai em busca deste querer, carinhoso, sedutor:

Lacan afirma que, na dialética falocêntrica, a mulher representa o Outro absoluto. Há uma divisão do gozo feminino em uma parte que a do homem encarnando o falo para a mulher e uma parte de gozo relativa ao próprio sexo feminino como aquilo que falta no Outro como significante. A mulher é o Outro absoluto, é Deus, para ela e para o homem. Porém, para adorar a si mesma, ela se vale do homem como conector. (MAIA, 1999, p.33).

Pierina, diferente de Teresa, personifica a mulher masculinizada, embrutecida, que se traveste de homem para enfrentar os problemas. Pierina faz uma grande identificação com Gema, uma mãe forte e masculina; mas também pode ter se travestido de homem, para repor aos pais a perda do primeiro filho que tiveram, um menino: “-Fala, Pierina, diz o teu nome. Parece que perdeu a língua. – É a mais velha? – O mais velho eu perdi, antes de nascer. Quase fui junto, por pouco” (POZENATO, 2000a, p.334-335).
Pierina e Teresa são o resultado da família que as constitui, identificam-se com os pais, como todos os filhos, e estruturam-se para enfrentar a vida:

A teoria freudiana ensina que os destinos da sexualidade emergem a partir do desejo. E como se sabe que todo vivente um dia amou um homem e uma mulher, é lícito entrever na bissexualidade o eixo fundamental do erotismo. (TOMAZ, 2001, p.65).


Teresa enfrenta os problemas que aparecem sem sair do lado feminino. Pierina precisa ser masculina para resolvê-los (até que leva uma “chacoalhada” da vida e precisa assumir seu lugar).
De onde vêm essas marcações? Teresa é filha de Giulieta, mulher que vai em busca de melhorias. Giulieta, como foi visto no capítulo anterior, queria sair de casa, “sair da gaiola”, então primeiro aceita a oferta dos pais de ir para o convento, não por vocação religiosa, mas como uma oportunidade de sair desta gaiola, sair do jugo familiar e conhecer outros lugares, outros ambientes, aprender. Quando percebe que, no convento, as coisas não são tão diferentes, retorna a casa paterna, mas não sem ter abstraído noções de história e geografia, de culinária, entre outras. Volta à casa paterna, mas não desiste de sua busca, agora em outras formas de viver o mundo. Casa-se e vem para a América. Aqui chegando, sofre com o marido, que a culpa por não terem filhos homens, que a machuca, a agride, a maltrata. Com a ajuda da irmã, vai descansar e vive um romance com Domênico. Este amor escondido, fugidio, a ajuda a viver o resto de seus dias, na volta para o marido. Deste romance fugaz nasce Teresa, que, por ironia, é a mais amada do “pai”:
           
As irmãs sempre a invejaram. Diziam que o pai gostava mais dela, a mais virada de todas. Bobagem, o pai não fazia diferença. Nunca se queixara de não ter um filho homem [...] Mas devia ser fingimento. Bastava ver o modo como ele tratava os netinhos homens. (POZENATO, 1996, p.29).


A mãe tinha ciúmes dela, à semelhança das irmãs:

Mamma[9] Giulieta resmungava, achava que isso era agarramento demais. As irmãs zombavam dela, chamavam-na de queridinha do papai. Teresa pouco se importava. Fazia o que lhe dava gosto. (POZENATO, 1996, p.30). 


Teresa era a mais amada do pai, porque ela fez a diferença em sua vida. Com a vinda dela para a família, ele assume um lugar de homem na família e assume, completamente, o casamento com Giulieta:

[...] o amor depende da ‘história pessoal’ e não da ‘biologia’. E por ‘história pessoal’ entenda-se a relação afetiva da criança com o adulto que não é determinada pela natureza da satisfação sexual dependente da excitação ou do prazer ligados a estimulação das zonas erógenas. (COSTA, 1998, p.107).



Antônio Besana e Giulieta assumem, verdadeiramente, seu casamento e sua relação conjugal com a chegada de Teresa, pois Giulieta pára de olhar para outros olhares, de buscar outros olhares masculinos, para olhar para Antônio e assumí-lo como seu homem, como seu marido. Antônio, assim, sente-se desejado, o senhor desta família. Daí a relação de Teresa com o desejo, de assumir seu desejo, de buscá-lo, pois ninguém melhor que ela sabe como ele é, ela é a personificação do desejo, a personificação do amor que institui desejo em todos os seres.
Pierina é o resultado de uma identificação com a mãe, está perdida na busca pelo falo, pelo poder emanado da ilusão de que o falo é o pênis masculino. Gema é forte, nega o sexo, nega sua feminilidade, se identifica aos homens com a ilusão de que sendo como eles terá a força fálica, estrutural. Gema é o homem da casa, comanda a estrutura familiar com mãos de ferro. Pierina identifica-se totalmente com a mãe, é a personificação do lugar masculino, mas escondido, porque Mássimo é forte, é diferente de seu pai. Bépi se complementa com Gema, ele é um homem feminino, enfraquecido, abandonado, sem família, um “bastardo”, maltratado pela vida, pelos colegas de escola. Ter uma mulher que resolva e comande sua vida é uma benção, já que ele nunca teve pais, a mulher assume este lugar. Mas Pierina se casa com um homem diferente de seu pai. Mássimo sabe o que quer, e Mássimo quer mais. Pierina é servil para ele, ela não se mostra em toda sua força, porque, caso contrário, competiriam todo o tempo pelo falo, pelo poder. Pierina percebe que se mostrar o seu verdadeiro eu, perderá Mássimo, então se acomoda e finge não ser o que é.
Ângelo é um homem feminino, mimado por Rosa, identificado a Aurélio, um homem que sofre “dos males da alma”. Aurélio é um homem sem iniciativa, que se perde na bebida, que não consegue controlar-se. Ângelo faz esta identificação com o pai nas questões amorosas, mas sabe bem o que quer e mostra sua masculinidade nos negócios, no trabalho. Ângelo consegue converter a dívida paterna em trabalho, está bem resolvido com a questão paterna, mas não demonstra a mesma resolução emocional positiva de vida com a dívida materna, ele se submete às mulheres, à Igreja (como uma personificação feminina). A dívida materna mal resolvida, aliada a uma identificação com um pai enfraquecido, o leva a um campo de dificuldades com as questões amorosas, e com seu casamento em particular. Ângelo e Pierina conseguem descobrir sua verdadeira sexualidade, sua libido, só mais tarde, na obra, quando deixados pelos seus cônjuges, sentindo-se abandonados. Eles bebem, sob a indução de Pierina (com medo de ficar sem homem) e, sob os efeitos do vinho, perdendo então a timidez, entregam-se à paixão. Descobrem, assim, o amor:

-Não vou te deixar para outra.
Sentiu a cabeça girando e mordeu o lábio para não cair no choro. O tempo lhe parecia parado. Só ouvia o vento assoviar no telhado, sem apagar o calor que sentia. Depois de uma eternidade, sentiu a mão dele pousando na sua. Excitada, desesperada, apertou-lhe os dedos, com toda a força de que era capaz. Levou a mão dele aos lábios e, fora de si, a conduziu para dentro da blusa e a apertou contra o seio nu, em fogo.Ele então se levantou e a tomou nos braços. Sentiu que ele lhe machucava a boca e, quando viu, estava deitada sobre o banco, ofegante, amassada, rasgada. (POZENATO, 1996, p.268). 


De Mássimo não se sabe muito da estrutura familiar, a não ser que é sobrinho do padre Giobbe, que freqüentou o seminário, que viajou e é um excelente artista no fabrico de móveis. É justo, honesto, leal, esperto e bom trabalhador, além de perspicaz e sábio, de boa conversa, e sedutor. A personificação do homem, aquele que atrai todas as mulheres. Certamente que atrairia a personificação feminina na obra: Teresa.   

4.2. Personagens Masculinos:
           
Aurélio Gardone recebeu Teresa em sua casa e em sua vida. Ela reaviva a presença feminina em sua vida, já que as filhas vivem para o trabalho, para as “lidas” da casa e para atender aos irmãos. Ele vê em Teresa a “sua” Rosa, o retorno de Rosa em sua vida: “Alguma coisa morta, bem no fundo dele, parecia dar sinal de vida. Sem se dar conta, ficou esperando que ela apontasse de novo na porta do quarto” (POZENATO, 1996, p.37).  
            Ele, ao perder a mulher, Rosa, deixou-se levar pela vida, sem ânimo, desolado. Os filhos que assumissem a condução da casa e do trabalho:

Aurélio Gardone sentia-se como um peixe fora d’água, em sua própria casa... Mas ninguém mais lhe perguntava a opinião e, mesmo que perguntassem nada teria respondido. Os negócios da casa lhe davam incômodo, e ele queria paz [...] ninguém se importava mais com o que fazia ou deixava de fazer. (POZENATO, 1996, p.38).


            Aurélio é um homem sonhador, idealista. Apaixonara-se por Rosa na Itália e viera para a América para fugir da pobreza enfrentada em sua casa, mas também para dar melhores condições à amada. Desiludiu-se com as dificuldades que surgiram. Talvez tenha acreditado, além das medidas, nas histórias que contavam sobre o novo mundo. Ao poucos, percebendo que as ilusões iam caindo, enfraqueceu, jogou-se na bebida, ao invés de lutar e vencer as dificuldades. Aurélio personifica em Teresa, em seu sorriso, em sua alegria, as possibilidades perdidas por Rosa, além das dele convivendo com a mulher feliz e realizada ao seu lado, como a idealizara. No paiol, no dia do casamento de Teresa, ao lado de um garrafão de vinho, tem uma visão da mulher. Rosa, travestida de Teresa: uma mulher da família que se tornou “signora”, mostras de que a família estava finalmente melhorando:


Aurélio Gardone estende a mão para tocar nos cabelos negros de Teresa, uma bela signora. Seus dedos não tocam em nada, Teresa desaparece e ele cai pesadamente sobre as palhas. (POZENATO, 1996, p.43).


            Com a chegada de Teresa, e da “vida” para Aurélio, sua Rosa revivendo na nora, ele volta ao trabalho na roça, volta a sentir-se útil, volta a ser percebido:

O pupà[10], mais atrás, estaria certamente calado. Como ele estava ficando diferente! Há quantos anos não ajudava na poda do parreiral? Sorriu sozinha ao lembrar o espanto dele quando ela se ofereceu, da primeira vez para acompanhar no chimarrão. (POZENATO, 1996, p.90).


            Na verdade, era o “olhar de vida” em Teresa, que dava vida verdadeira ao Aurélio, fazia-o sentir-se vivo: “Teresa estava certa e podia dizer sem mentir: ela é que transformara o pupà.” (POZENATO, 1996, p.90).
            Teresa trazia os homens a uma condição vital, libidinal. Agostinho, irmão de Ângelo, apaixonara-se pela mulher diferente que entra em sua casa. Ele é um adolescente, no auge de sua virilidade, Teresa mexe com esta condição, ele se apaixona pela mulher que existe nela. Teresa não se afeta com isso, percebe as dificuldades do rapaz e busca resolver esta questão longe de Ângelo e da família. Acerta com Agostinho, orienta-o em seu namoro e, mais tarde, em seu casamento com Adelaide. Teresa assume o lugar de Rosa, de orientadora da família, de dona da casa:

-Estás pensando que não sou a tua mãe para te falar assim. Eu estou no lugar dela, entendeu? E tu vais me obedecer. Tu não queres que eu conte nada para o Ângelo. Não conto, não vou contar. Então vamos acertar nós dois. Tu vais casar com a Adelaide. E pronto. (POZENATO, 1996, p.94).

            Cósimo é outro personagem masculino, que, em seus oitenta anos, continua firme em suas convicções. Cósimo é um líder nas duas obras, ele dá o “tom” na localidade, é alguém respeitado e seguido. Em O Quatrilho, Cósimo está mais apagado, mas sua figura não deixa de chamar a atenção na localidade como alguém de respeito, orientador. Também, apesar de velho, alguém que não se deixa enganar:

- Ladrões em Caxias, ladrões em Nova Vicenza e ladrões em Santa Corona. Todos ladrões [...] O velho Cósimo se acalmara. Os olhos espertos riam no meio das rugas. Sabia que o saco não pesava tanto. O comerciante havia aumentado o peso para amansá-lo. (POZENATO, 1996, p.111).


            Cósimo é quem aconselha Ângelo a ir a Caxias e lhe indica falar com Roco. Cósimo faz um papel de pai para Ângelo, já que este afasta-se do pai desde a morte da mãe. Para Ângelo, o pai, Aurélio, é responsável pela morte da mãe, de tristeza, dor e solidão e identifica-se a Cósimo, um líder bom, esperto, honesto e trabalhador.
            Cósimo indica Caxias para Ângelo:

Mas em Caxias é mais fácil aparecer algum negócio, alguma colônia perto [...] tenho um compadre em Caxias. Ele se chama Roco [...] Posso falar com ele, mandar um bilhete. Vocês podem ficar morando com ele, ao menos no começo. (POZENATO, 1996, p.112).


            Desta forma, entra na história outro personagem de suma importância no desenrolar da trama, que é Roco, dono de uma pensão em Caxias. Roco tem uma visão diferenciada da vida e influencia o pensamento de Teresa, ou melhor, conduz suas idéias, inicialmente confusas, na busca da elucidação, na descoberta de si mesma. Roco, em A Cocanha, é um lutador libertário do jugo dos políticos, solteiro. Em O Quatrilho, vem casado, da Itália, com Marieta, que não pode lhe dar filhos e que, para resolver este problema, aproxima-se da Igreja com mais intensidade, afastando-se mais ainda da condição de casada e de mulher de Roco. Roco e Marieta não têm mais relações sexuais. Roco percebe a “loucura” da situação: onde Marieta deve negar-se ao sexo, para poder engravidar, mas não consegue convencer Marieta, fazê-la refletir sobre o absurdo da situação. Roco resigna-se, afastando-se ainda mais da Igreja Católica. Porém, com Teresa, Roco toma ares paternos e a orienta na busca de sua “verdade”, a conduz em suas descobertas da vida, do amor, das possibilidades: “-Hoje vou fazer feriado. Tenho que ficar consolando uma menina chorona. [...] Consolando não, explicando como é a vida.” (POZENATO, 1996, p.142).
            Roco percebe a inteligência de Teresa e sua não conformação com a hipocrisia reinante, percebe que ela sofrerá e tenta apaziguar-lhe a dor, prepará-la para o futuro:

- Sabe, eu simpatizei com a senhora. É uma moça esperta, aprende ligeiro. A senhora vai sofrer muito com isso, também, mas não deve desistir. Não deixe nunca que lhe pisem em cima. A liberdade é a coisa mais importante do mundo. (POZENATO, 1996, p.143). 


            Teresa aprende sobre a vida com Roco, enquanto Mássimo aprende com Scariot. Ela compara Mássimo a Roco, em suas idéias sobre liberdade:

- Me lembrei de ti muitas vezes [...] Todas as vezes que eu conversava com o velho Roco, o compadre do nono Cósimo, me lembrei de ti [...] Por causa das idéias dele. São tão diferentes [...] Não sei [...] Não entendi metade do que ele disse. O que ele mais fala é contra os padres. (POZENATO, 1996, p.149).


            Toni Scariot é um político, anarquista, contra a Igreja Católica e suas imposições dogmáticas na localidade. Ele se faz de bêbado (bebendo verdadeiramente, mas não um alcoolista!), para observar a vida sem tirar muito partido. Mássimo faz diferença em sua vida, já que, com Mássimo, Scariot se mostra, se identifica. Tornam-se confidentes a partir do momento em que Scariot fala da relação entre Mássimo e Teresa, mostrando ter percebido. Inteligentemente, Scariot, como um pai, conduz Mássimo à sua verdade, à busca de seu desejo. Ele leva Mássimo a ignorar as hipocrisias sociais e viver a liberdade do amor. Scariot é visto por todos como um homem de idéias esquisitas, ninguém o entende, é uma pessoa que está além de seu tempo. Enquanto todos são conduzidos pelo pensamento da Igreja Católica e suas imposições, Scariot tem um pensamento anarquista, libertário, renovador.  Mássimo percebe a inteligência de Scariot, ele faz a diferença, em comparação com os demais, pois ele entende Scariot. Isso faz com que Scariot se mostre, efetivamente, a ele: “Scariot bebeu o café, fixando-o com os olhinhos espertos. Mássimo sentiu-se em desconforto. O sujeito parecia estar lendo dentro dele.” (POZENATO, 1996, p.181). 
            Scariot, diferentemente dos demais, não liga para o que os outros pensam, vive suas idéias em sua particularidade. Para Mássimo ele se mostra:

Me livrei através da cachaça. Tomo os meus tragos e estou livre para dizer o que eu quero. E também para fazer o que eu quero. Mandei à merda família, lavoura, negócios. A mulher e os filhos, se quiserem, que lidem com isso. Estou cagando e andando. Tanto me faz dormir em casa, na estrada ou numa meda de palha. Não pensa que isso é fácil. Foi uma luta para conseguir isso. A gente tem que engolir muito desaforo. Até aprender que não importa o que os outros pensam. (POZENATO, 1996, p.187).


            Na verdade, Roco com Teresa, e Scariot com Mássimo, fazem papéis paternos, de orientação, de vivência verdadeira, eles é que conduzem Teresa e Mássimo à consolidação de seu desejo. Ambos fazem papéis de analistas, ouvindo, sem julgamentos, levando-os à busca da liberdade, caminho difícil e praticamente impossível aos demais, extremamente vinculados ao pensamento da Igreja. Scariot, depois, conduz Ângelo e Pierina, da mesma forma, e antevê, assim, o “quatrilho”, a resolução do amor.
Scariot também é quem apresenta a Mássimo as diferenças sociais vivenciadas pelas mulheres. Ele orienta Mássimo como agir com Teresa:

[...] é a propaganda. As mulheres têm mais dificuldade de se livrar da propaganda. Se tu não estás conseguindo, imagina ela, que nunca viajou, nunca viu nada. Tu vais ter que ajudar. Ela é inteligente, vai acabar achando o caminho da liberdade. E tu também, basta ter paciência. Com paciência e palha até as nêsperas amadurecem, como se diz. (POZENATO, 1996, p.200).


            Scariot antevê a resolução do “quatrilho”:

- O meu faro revolucionário não me engana. Eu não te disse que o Gardone dava um bom capitalista? Mas, se é assim, as coisas não estão se complicando. Estão é ficando mais claras. Vai se resolver tudo ao natural. Nem esquenta a cabeça. (POZENATO, 1996, p.200).

            Scariot fala de seu sonho revolucionário a Mássimo:

[...] Eu tinha pensado: Scariot, chegou a tua hora; vais poder te reabilitar da tua traição; esse Mássimo Boschini pode ser o líder da revolução em San Giusepe; quando ele falar, vai ser levado a sério, porque não é um boca-suja, um beberrão; os dois juntos, tu como o teórico e o Mássimo Boschini como o condutor, vamos fazer de San Giusepe um exemplo de ordem revolucionária para a América. (POZENATO, 1996, p.215).


            Scariot também conduz os membros da localidade a aceitar e a pensar em uma resolução para o sofrimento de Pierina e Ângelo: “-Não dou dois meses para o Gardone estar casado com a Pierina. Ou juntado. Enfim, fazendo filhos nela. Jogo um barril de cachaça.” (POZENATO, 1996, p.253).
            Vai, assim, “na brincadeira”, preparando o terreno para que a vida se dê para todos.
            É também Scariot quem apresenta a solução para Ângelo, quando ele é massacrado pela população, que deixa de negociar com Gardone, orientados pelo padre Gentile, como retaliação da Igreja: por Ângelo e Pierina se posicionarem contra as imposições do padre de não se aproximarem sexualmente. Como eles se negam a fazer o que o padre diz e impõe, este força a comunidade a não negociar com Ângelo. Scariot então propõe a Ângelo:

- Só tem um jeito [...] Se não dá para negociar aqui, vai ter que negociar fora... Fica morando aqui e procura negócios fora. Afinal de contas, que tipo de capitalista tu és? Todo capitalista é imperialista, quer sempre voar mais longe. (POZENATO, 1996, p.278).


4.3. Personagens Femininos:

            Os personagens femininos se apresentam extremamente servis. Não há lugar para as mulheres, elas são as que servem a todos, as que se alimentam por último, atentas ao chamado dos homens a interromper-lhes o momento da refeição, se assim o desejam e necessitam. Elas são as que atendem a todos os desejos dos homens, quer sejam do trabalho, das necessidades do trabalho, do asseio, da vida e, à noite, às necessidades sexuais. Não há o interesse, por parte deles, da satisfação delas, se têm prazer, se têm necessidades. São como que objetos sem vida própria, sem desejos a serem saciados. Assim se apresentam: Dosolina, irmã de Ângelo; Santina, esposa de Nane Mondo e vizinha de Pierina, Mássimo, Ângelo e Teresa; Marieta, esposa de Roco. Todas tentam dar uma visão da mulher para Pierina e Teresa, e para o leitor. Interessante que, tanto Pierina, quanto Teresa, seguem caminhos distintos das mulheres da localidade e, cada uma da sua forma, dão vida diferenciada a seus personagens, constituindo uma mulher que faz a diferença, que vive, efetivamente.
            O personagem feminino de destaque é Gema, que, à semelhança de Scariot, dá um tom cômico, porém individual, à sua história. Gema mostra a condição da mulher fálica, forte que, na falta de um homem a sua altura, para conduzí-la aos prazeres da vida, resigna-se, porém achando uma singularidade própria para conduzir seus dias: “-Quem não me obedece eu empurro para debaixo da chuva. Quem não ajuda também não estorva.” (POZENATO, 1996, p.37).  
            Gema também dá o tom, quando e como lidar com os homens:

[...] Primeiro: nunca deixa o homem falar sem dar resposta, na hora. Se ele gritar, grita mais alto. Os homens têm medo de perder a mulher. Bota isso na cabeça. Onde mais eles iam arrumar alguém que trabalhe de graça para eles? Segundo: não faz tudo o que ele pede. Nem na cama. Inventa uma dor qualquer. Nada de erguer a camisa sempre que ele quer. (POZENATO, 1996, p.53). 


            Na verdade, tia Gema (tia para Teresa) fala de suas frustrações com o sexo masculino, de sua impossibilidade de lidar com eles, de compreendê-los. Ela diz aqui de sua dor por não ter vivido o amor.

4.4. Caxias e o Trabalho:

            O romance mostra as dificuldades de trabalhar a terra, as diferentes imposições para achar a melhor terra, o melhor meio de vencer a batalha diária com a falta de recursos. Mostra a necessidade de ser trabalhador, mas também apresenta a extrema necessidade de ser o mais esperto, o que vê além do que é mostrado, para progredir.
Ângelo precisa descobrir-se talentoso para os negócios, para não se deixar enganar pelos vendedores de terra, inicialmente. Depois, pelas dificuldades do terreno, dos contatos. Ao final do romance, fazendo um esforço extremo para livrar-se da dor da traição da mulher, ultrapassá-la, vencendo os padres, a Igreja e toda sua crença nos mesmos, buscar assim novos caminhos para o progresso pessoal e profissional, tornando-se um nome de respeito na localidade Caxias, mas, mais do que isso, chegando a um lugar de destaque local.
            Roco dá o tom da idéia de Caxias que permanece até nossos dias:

[...] Depois dizem que Caxias é a terra do trabalho. Não nego, duvido um lugar onde se trabalha tanto. Mas quem enriquece são dois ou três, que ficam sentados cuidando do dinheiro dos outros, inventando modos de ficar com ele. Caxias vai para a frente, eu sei [...] O suor de quem trabalha não conta. (POZENATO, 1996, p.139).


            No romance, aparecem Batiston, o negociante de terras, temido pelos colonos; Miro, o dono da venda, comerciante (“todos os comerciantes são ladrões” (POZENATO, 1996, p.109)); e claro, o comerciante central, depois sócio de Ângelo, Vito Stchopa, que atende às necessidades mais imediatas dos colonos, inclusive de cachaça, sendo sua venda um ponto de encontro dos homens e um centro para as fofocas locais.

4.5. Vozes da Repressão e Moral:
           
            As vozes da repressão e da moral, em Santa Corona, estão representadas em dois personagens padres, o padre Gentile e o padre Giobbe.

4.5.1. Voz da Repressão – Padre Gentile:

            Padre Gentile gosta do poder emanado por sua figura de religioso e a usa na localidade. Ao invés de orientar os colonos de uma forma solidária e justa, ele dá o tom de seu próprio poder. Usa a batina de padre para mostrar o falo simbólico do poder, a Igreja, buscando recursos junto aos colonos mais endinheirados para a construção de nova igreja, além de usar o poder para execrar Pierina e Ângelo em sua busca da felicidade. Julga o proceder e as tentativas dos dois de vencer a dor da solidão e da “traição” de seus cônjuges. Tenta, como padre, não orientá-los na busca da resolução dos problemas, mas comandar suas vidas, tentando fazê-los seguir o seu desejo (do padre). Como não consegue seu intuito, lança-se em absurdas imposições, aos colonos da localidade, coloca os colonos contra Pierina e Ângelo, tornando suas vidas quase que insuportáveis, se não fossem ambos fortes, mas, principalmente, se não estivessem fortificados por seu amor, descoberto a duras penas, bem como se não tivessem (principalmente Ângelo) a voz amiga e orientadora de Scariot.
            Pierina não gostava de padre Gentile, via suas colocações e imposições como dogmáticas, diferentes de padre Giobbe: “Esse padre Gentile não era muito certo. Até parece que não teve mãe, que nunca pegou num seio.” (POZENATO, 1996, p.207).
            Pierina, inteligentemente, percebia os erros e dificuldades de padre Gentile e, desde o princípio, questionara suas atitudes, diferentemente das outras mulheres e homens locais, que acatam o que ele diz sem refletir sobre suas imposições e colocações.
            Pierina enfrenta o padre, em seu próprio território, na frente de todos, antes da missa, levando os filhos de testemunhas de sua ação, sem medo:

Padre Gentile, o senhor vai para o inferno. O senhor é que é o demônio. Só porque eu sou mulher eu não sou o demônio, como o senhor disse. [...] se o senhor não fosse padre eu tinha vindo com uma espingarda. Olha essas crianças. Não podem sair de casa, porque todos dizem: Varda i fioi de la putana![11] E quem é que ensinou isso? O senhor, padre Gentile. O senhor tem raiva de mulher, é isso. Tem raiva porque não pode. E ninguém me garante que o senhor é santo. Quem é que me garante que o senhor não tem uma putana? (POZENATO, 1996, p.282).


            Pierina enfrenta o padre à sua maneira, enquanto Ângelo o enfrenta de seu jeito, negociando fora de Santa Corona. Ambos conseguem vencê-lo e atingem o lugar de respeito local que merecem.

4.5.2. Voz da Moral – Padre Giobbe:

            A voz moral, na verdade a voz da observação dos acontecimentos, está com padre Giobbe. Ele aparece, no início da obra, realizando o casamento de Teresa e Ângelo. Faz observações da alegria e graça de Teresa e do que espera, pela experiência na observação das mulheres, como futuro para aquela bela e alegre mulher.
            Padre Giobbe é procurado, mais tarde, por Ângelo, que busca informações,  orientações sobre como proceder, o que fazer diante dos acontecimentos. Padre Giobbe sabe não ter respostas prontas. Ele, diferentemente do que o povo de Santa Corona pensa dele, sabe não ter as respostas divinas, ele não é o porta-voz da vontade divina, as pessoas é que o colocam neste lugar. Ele, por vezes, até queria livrar-se desta incumbência de ser o confidente das desgraças, sem ter solução para minorá-las. Sentia cansaço de estar neste lugar difícil.
            Padre Giobbe também conseguia fazer uma crítica dos tratados teológicos, via-os distante da realidade. É ele que recebe o bilhete de Mássimo com a notícia de sua partida com Teresa e Rosa. Conversa com Cósimo para entender o ocorrido que, para ele, é inicialmente incompreensível. Após compreender, faz uma análise e antecipa os julgamentos que se farão sobre o fato. O bem e o mal não andam separados, nem são estanques, eles convivem e ao mesmo tempo se manifestam, para que não possamos fazer julgamentos precipitados. Padre Giobbe se propõe a uma tarefa:

O que cabia a ele, ministro humano de Deus, nessa circunstância, era tão-somente o exercício da misericórdia [...] Por isso tudo, precisava evitar que o fato assombroso, que acabava de conhecer, chegasse aos seus fiéis já previamente julgado. Com vítimas e inocentes claramente indigitados. Nisso estaria o verdadeiro mal. (POZENATO, 1996, p.258). 

           
Padre Giobbe também nos apresenta a verdadeira lei vigente no local:

Era como se houvesse dois códigos de moral. Um, rígido, governava os costumes públicos, à luz do dia. O outro, oculto e silencioso, desembocava no confessionário e nas conversas de domingo, de homens e mulheres. (POZENATO, 1996, p.260).  


            Havia uma lei que determinava o que era permitido fazer às ocultas. Isso não era possível fazer publicamente. Mássimo e Teresa transgrediram a lei vigente: assumiram seu amor sem mentiras, sem esconder-se, às claras. Essa situação enfureceu os falsos moralistas do lugar. A Igreja acabava favorecendo que se formassem cristãos fariseus, nas palavras do padre Giobbe: o farisaísmo.
            Mais tarde, na obra, também é com o padre Giobbe que temos notícias de Teresa e Mássimo, quando o padre recebe uma carta com fotos dos dois em sua nova vida. Padre Giobbe percebe sinais de prosperidade na foto. Aqui também consegue-se fazer uma ligação com A Cocanha, pois Giulieta está com o padre e fala de seu “pecado”, vivido com Domênico. Ela relaciona sua relação extra-conjugal com a fuga de Teresa e Mássimo, se culpa pelos acontecimentos, responsabilizando-se aos olhos de Deus. Era em função do seu “pecado” que Teresa se “perdera”. Ela assume a responsabilidade pela transgressão da filha. Aparece, aqui também, a hipocrisia vivida pelas pessoas: o que vem de um pecado não pode resultar em felicidade. Pensar que Mássimo e Teresa estejam felizes é cometer uma blasfêmia.
            É com Padre Giobbe que podemos estudar poemas de amor, aceitá-los, sem prejuízos morais e religiosos, pois ele nos abre, ao final da obra, a possibilidade da reflexão e da aceitação, sem julgamentos, do jogo “demoníaco” (POZENATO, 1996, p.264) do quatrilho:

Enquanto os olhos corriam maquinalmente pelos salmos em latim, que ele já trazia mais do que decorados, seu pensamento inaugurava uma confusa disputa teológica, em que fé, graça, pecado, amor, giravam em sarabanda. (POZENATO, 1996, p.308).


            Temos, ainda, com Padre Giobbe, um ensinamento, de ordem divina:

De repente cresceu diante dele, saltando de um salmo, a palavra ‘misericórdia’. E pensou entender que Deus tem misericórdia quando julga os homens com coração humano. Isto é, com coração de pecador miserável. (POZENATO, 1996, p.308).


              

Capítulo V
Metaforização da Vida

Mapa de Viagem



“Sentir-se vivo, manancial humano ao toque de outro ser humano
que não teme explorar a áspera profundeza.”
J.S.Martins



                O intuito, neste capítulo, é fazer uma amarragem das obras do autor, os romances e a poética, com vistas aos estudos de gênero propostos inicialmente, sem deixar de se ater para outros detalhes da obra completa. Obviamente que a poética é uma metaforização dos romances, do pensamento do autor e de sua arte.
Porém, como diz Rosenfeld, em seus estudos sobre literatura e personagem, analisando o problema epistemológico (a personagem) na ficção, a personagem torna a obra patente. Na poesia, o “Eu lírico” não pode ser confundido com o “Eu empírico” do autor:

É porém a personagem que com mais nitidez torna patente a ficção. [...] Isto é pouco evidente na poesia lírica, em que não parece haver personagem. [...] Costuma manifesta-se no poema um ‘Eu lírico’ que não deve ser confundido com o Eu empírico do autor. (ROSENFELD, 1972, p.21).

E, sobre os estados psíquicos: “O poema não é uma ‘foto’ e nem sequer um ‘retrato artístico’ de estados psíquicos; exprime uma visão estilizada, altamente simbólica, de certas experiências.” (ROSENFELD, 1972, p.22).
Será, portanto, uma interpretação muito pessoal, o mais isenta possível, do trabalho de José Clemente Pozenato.
Foram escolhidos três poemas da obra Mapa de Viagem, não de forma tão aleatória, pois a meu ver eles fazem analogias aos romances, daí a escolha.

5.1.            O primeiro poema escolhido é Declaração de Amor (p.25), que, penso, traz a vinculação do Amor, de suas manifestações com a água. Aqui, à semelhança da consumação primeira do amor entre Teresa e Mássimo, em O Quatrilho, o autor vincula o amor à água. Em O Quatrilho, Pozenato relaciona as modificações na vida à semelhança das águas do rio; coloca, através de uma metáfora, que uma represa pode deter as águas por um tempo em sua caminhada, mas o destino das águas é o mar. Mássimo fora represado um tempo por Pierina, mas seu destino era Teresa:

As coisas se modificavam, para melhor ou para pior, independente do esforço que se fizesse. Como as águas de um rio. Uma represa poderia deter, por instantes, a sua caminhada. Mas o seu destino continuaria sendo o de correr até o mar. Não fora assim com Teresa? Pierina havia sido apenas uma represa, finalmente submergida. Teresa era a água solta, correndo sem obstáculos, em alegre liberdade. (POZENATO, 1996, p.229). 


            Também, no poema, o amor está relacionado à água, ao seu movimento ou modificações realizadas com o seu curso, aparecendo, desaparecendo, surgindo do nada, modificando-se à presença dos amantes:

DECLARAÇÃO DE AMOR

Do meu poço enferrujado
soubeste a chave e o cadeado.
Para a escura profundeza
desce o teu balde sonoro.
E, surpresa, havia água
no poço encaliçado.
(Havia água, ou brotou ela
ao toque do balde mágico?)
Em minhas horas há agora
um canto de corda e roldana.
Está vivo o morto poço
um canto irrompe da entranha.
(Canta, ou é teu canto
que nele desce repercutido?)
O poço vivo ressoa
ao canto da aguadeira. (POZENATO, 2000b, p.25).

            No poema, o que se abstrai é que o homem e a mulher, seus lugares, não tão determinados, como a realidade, se dão e se misturam quando juntos, quando misturados. Não havia vida antes do encontro. Foi a partir do encontro, da junção, da presença de um ao outro, que a vida se deu, que a vida brotou das profundezas.
            Como mágica, um e outro só existem juntos, separados, um está enferrujado e sem água, o outro é só canto, ou só balde a buscar água onde não existe.
            Teresa e Mássimo também viviam suas vidas em caminhos separados, perdidos em suas vivências meio que sem sentido, “viviam por viver”. A partir do encontro, da certeza do outro, adquirem vida, esperança, força para a vida: “O desejo, sendo o outro lado da Lei, está na mesma moeda corrente: a Lei da diferença é o limite que garante o desejo.” (REVISTA DA PRÁTICA FREUDIANA, 1985, p.135).
            Platão, em O Banquete, falando sobre o amor, na voz de Aristófanes, maior autor de tragédias gregas e crítico de Sócrates, coloca que, no início de tudo, eram três os gêneros: o masculino, descendente do sol; o  feminino, descendente da terra; e o andrógino, junção do feminino e do masculino, descendente da lua, pois esta traz parte dos dois, o sol e a terra. Os três gêneros tinham a forma de um círculo. Como os três queriam escalar até o céu para investirem contra os deuses, Zeus, para que os homens continuassem a existir sem intemperança, cortou cada um em dois e fez com que eles andassem sobre pernas. Desde que a natureza se mutilou em duas, ansia cada um por sua metade e a ela se une. Aristófanes, então, afirma que o amor é o restaurador da nossa antiga natureza, em sua tentativa de fazer um só de dois e de curar a natureza humana. Os homossexuais derivam do masculino e do feminino, pois buscam a sua metade: não é por despudor que fazem isso, mas por audácia, coragem e masculinidade, porque acolhem o que lhes é semelhante. Os heterossexuais derivam do andrógino, dividido em dois e em busca de sua metade.
            Os homens não percebem o poder do amor, pois se percebessem lhe preparariam os maiores templos e altares e lhe fariam os maiores sacrifícios. O amor é o deus mais amigo do homem, protetor e médico dos males, cujas curas dependem da maior felicidade.
            Os homens, amigos do deus e com ele reconciliados, descobrem e conseguem o próprio amado. Nossa raça, conclui Aristófanes, se tornaria feliz se plenamente realizássemos o amor e o seu próprio amado cada um encontrasse, tornado à sua primitiva natureza.
            Pozenato, no poema e no romance, parece transpor o pensamento de Aristófanes e propõe o amor como a solução e a busca da vida.


5.2.           O segundo poema escolhido é Quando o Amor (p.94). Parece fazer uma seqüência ao primeiro poema proposto neste estudo, pois, após a descoberta do amor, os corpos se descobrem, se revelam, um se mostra ao outro, sabe-se do outro e de si mesmo através do olhar que lanço ao olhar do outro:

QUANDO O AMOR

Quando o amor nos descobre
em descoberto ficam as raízes antigas,
emerge o rumor das águas ancestrais
orvalhando os pêlos despidos,
e sob o seio da almada ressoa
o galopar dos cavalos da vida insaciável.

Ah os abismos e a vertigem da carne
obscura e luminosa.
Ah a morte desafiada com o andar ousado
à orla dos precipícios.

Quem poderá deter o entusiasmo e o pavor
que há no abraço convulso dos amantes
um ao outro entregados, abdicando
a luz para o mergulho numinoso?

Eles receiam essa hora
e dançam um frente ao outro
e jogam-se flores e despedem
beijos fugidios,
até que o fascínio a ambos submete
e unidos descem ao reino escuro.

O teu corpo, diz o amante, eu o retiro da treva
e o conduzo ao alto sol transbordante
onde nu se revela, para além do corpo, o ser.
E então fascinado, mudo e sem forças
desdenha a morte de sua própria carne. (POZENATO, 2000b, p.94).

            Os corpos se revelam, o sujeito se revela ao outro e, por outro lado, descobre-se para si mesmo, revela-se mais para si. Quando ama, o sujeito acaba sabendo mais de si do que do outro, pois está mais atento a si mesmo.
            Teresa e Mássimo, como no poema, tornam-se mais fortes em sua individualidade, após a descoberta do amor. Têm mais coragem para enfrentar as adversidades, lutam contra a opressão social e a hipocrisia da moral imposta pela cultura local. Transgridem, mas a sua transgressão não é a que destrói suas almas e sua vida, ao contrário os impulsiona à vida:

Se existe uma cura para as mulheres, isto é, para a Penisneid, ela passa pela (re)conquista daquilo que, sendo dos homens, não tem por que não ser das mulheres também. Não um pênis, mas uma ou algumas das infinitas faces do falo. Fazer-se feminina e sedutora a partir da castração é apenas uma delas, da qual as mulheres sabem e podem gozar. (KEHL, 1998, p.330).



            Amar é ver no outro o desejo por mim que me constitui. Mas é um engodo, porque o que efetivamente vejo é, na verdade, reflexo do meu desejo pelo outro.
            Sócrates, na voz de Platão, em O Banquete, e usando Diotima como interlocutora, diz que amar é desejar o que ainda não se tem, o de que se é carente, o que se quer conservar consigo. Amor é amor de algo. O amor está entre os extremos, entre a beleza e a feiúra, entre o bom e o mau, entre o mortal e o imortal. Completa aos homens e aos deuses. É companheiro de Afrodite e nasceu no dia em que nasceu Afrodite. É filho do Recurso e da Pobreza. É sempre pobre, longe de ser delicado e belo, duro, seco, descalço e sem lar, sempre vivendo com a precisão (características maternas). É traiçoeiro com o que é belo e bom. É corajoso, decidido, energético, caçador terrível, sempre a tecer maquinações, cobiçoso de sabedoria e cheio de recursos, a filosofar por toda a vida. Terrível, mago e feiticeiro, não é mortal, nem imortal, está no meio da sabedoria e da ignorância (características paternas). É filósofo, porque está entre o sábio e o ignorante, e é filho de pai sábio e rico e de mãe não sábia e pobre. São felizes os que adquirem e amam o bom e o belo. Amar é o desejo do que é bom e de ser feliz, é o desejo da imortalidade. Estar sob os efeitos do amor é ser capaz de driblar todos os perigos, gastar fortunas, sofrer privações e sacrificar-se.
            Nos personagens do poema e do romance, o autor nos mostra esta leitura do amor, da vivência do amor, no contexto pessoal e social.

5.3.      O terceiro poema, para mim, traz o retrato da mulher imigrante apresentado pelo autor, que aparece nas duas obras de Pozenato:     

OS RETRATOS NA SALA

Os retratos na sala
Não são cegos nem surdos.

O sorriso peralta
desse avô de bigodes
está agora contando
sem sombra de incerteza
que é o talhe delgado
com seu cheiro de flor
de sua noiva e mulher
que agora ressuscita
no corpo de sua neta.

Ao lado a avó severa
finge não ver o riso
do velho libertino
que em noites muito antigas
incendiava-lhe o corpo
com plumas e urtigas:
é preciso que agora
em quadro de parede
esteja recatada
e esconda de sua neta
o fogo que a queimava.

E não por pudor, sim
para que essa menina
não se meta a imaginar
que seja isento de susto
de amargura e de dor
o dar-se toda a um homem
que a alisa e pisoteia
que a chama de senhora
tendo-a antes escrava.

Por nada esse rosário
enrolado nos dedos
contando as duras horas
entre tão curtos momentos
de flor extasiada.

Não vá agora a menina
repetir sua loucura
de lançar-se sem medida
nos braços daquele
com quem sonha à janela.

Ouve a menina os ralhos
dessa avó empoeirada. (POZENATO, 2000b, p.186).

            A mulher, que aqui aparece, à semelhança daquela que se apresenta nos dois romances de Pozenato, é a mulher que vem da Itália, junto ao marido, muitas vezes imposto (por ela mesma), para realizar a travessia ao Novo Mundo e fugir da miséria e do poder familiar. Coloca-se assim, ilusoriamente, sob o jugo de um só, o marido. Esta mulher nos é apresentada em diferentes personagens nas obras, mas principalmente na figura de Gema (em ambos os romances). Em A Cocanha, Gema é alegre, forte, brincalhona, sempre a criar situações que alegram e distraem a dor dos momentos de dificuldade: “Gema dizia o que todos pensavam, mas não tinham coragem de falar. Só ouviam e riam, doidas.” (POZENATO, 2000a, p.24).
            É Gema quem distrai as mulheres e crianças no barracão, enquanto os homens saem em busca das terras para negociar. Gema faz festas, brinca, “joga as tristezas e os pensamentos ruins para o lado”, traz vida ao grupo: “-Vamos  fazer  uma  festa  hoje  à  noite.  Aproveitar  que  os homens não estão [...] É festa e pronto. Uma festa só de nós, mulheres. Vamos cantar, falar besteiras.” (POZENATO, 2000a, p.127).
            Ainda é Gema quem nos dá a idéia da mulher que não carrega grandes ilusões, ou daquela descrente do amor:

Pois ela é que devia fazer festa. Já fez os filhos, já veio para a América, não precisa mais de marido. E está livre dele, coisa que ainda não conseguimos. Me diz, não devia fazer festa? (POZENATO, 2000a, p.127).


            Gema assume uma postura masculina, não de isolamento do afeto, característica feminina, pois é extremamente afetuosa, mas afasta a delicadeza da mulher, para ser forte, como um homem, resolver, fazer, agir, na falta do homem que faz (Bépi é um homem perdido em seus referenciais estruturais). Ela carrega as dores da mulher solitária e machucada pela vida de dificuldades. Esta situação é bem colocada na voz do padre Giobbe, quando de seus pensamentos, na obra O Quatrilho:

Mais do que fome ou irritação, o que o tocava agora, enquanto a mula trotava firme, era uma vaga tristeza. E sabia muito bem a razão [...] Não, a tristeza que lhe vinha não tinha nada a ver com inveja. O que lhe causava mal-estar era o brilho de esperança que via nos olhos dos noivos. Uma esperança que ele sabia destinada a durar muito pouco tempo. Tinha pena principalmente das noivas, atraentes, risonhas como uma rosa desabrochada de manhã, que ele voltaria a ver daí a alguns anos, envelhecidas, feias com o sofrimento e a resignação escondidos no fundo dos olhos tristes, revelados com lágrimas no confessionário. Por isso é que lhe fazia tanto mal celebrar um casamento. (POZENATO, 1996, p.32).


            Os pensamentos de padre Giobbe, comprovados na fala de Gema, mais adiante na mesma obra:

-Eu era boba. Sabe, essas coisas tontas que as moças têm na cabeça. A gente acha que depois de casar tudo fica bem: a casa só nossa, a galinha, a vaca do leite. Sem mãe para gritar, sem pai para bater. Sem ter que trabalhar como escrava para os irmãos. E então a gente costura um lençol, depois borda uma toalha e faz rendas para a saia de baixo. E vai enchendo o casson[12], até que a tampa não fecha mais direito. E todo o domingo na igreja, na estrada, de olho, fingindo que não se quer nada para catar el moros[13] .Que nem precisa ser bonito. Basta que seja um homem com calças nas pernas. (POZENATO, 1996, p.51).


            Segue Gema falando sobre a vida de casada, onde a dor impera e as expectativas românticas se perdem já na igreja, ao casar:

E quando a gente veste o vestido de noiva e entra na igreja, pensa que está entrando no céu. Mas o céu termina justo ali, isso eu garanto [...] E então começa tudo pior do que antes. Trabalhar, trabalhar. Trabalhar em casa, antes do nascer do sol, e depois trabalhar na roça. E de noite, arrebentada, tem que abrir as pernas para ele. Aí a barriga cresce, e se continua trabalhando, como se nada fosse. Nasce uma criança, e outra, e outra e o trabalho só aumenta [...] E aí a gente já está um trapo, uma velha, e não teve satisfação nenhuma. (POZENATO, 1996, p.52).


            Gema, decepcionada com o casamento, com o amor, com a vida, desiludida, fala do sexo e do alívio com a chegada da menopausa:

A cama, para a mulher, é um sacrifício. Deus não devia exigir essa obrigação da gente. Graças a Deus já passei da idade. Não tenho mais obrigação nenhuma de esfregar as pernas. O Beppe que se arrume. A minha parte eu já fiz, graças a Deus. (POZENATO, 1996, p.53).


            E é ainda Gema quem dá a solução para esta mulher desesperançada, para que não morra de tristeza e dor: “-Se a gente não leva na brincadeira, acaba ficando louca de verdade.” (POZENATO, 1996, p.52).          
O poema Os Retratos da Sala (POZENATO, 2000b, p.186), além de trazer a idéia de que as novas gerações fazem a reciclagem do velho, quando coloca do retrato saudoso que o avô faz da mulher à neta, dizendo do passado com a esposa jovem, retratado na figura da neta, como se fosse a mulher rejuvenescida, traz também a dor e amargura da avó com as dificuldades enfrentadas na vida. Traz, principalmente, as diferenças vivenciadas pelos homens e mulheres, estas submetidas a seus mandos e desmandos, às suas agressões e escravidões sem sentido. Pede a avó que a neta escolha melhor, saiba buscar um homem que não a maltrate. Nas obras não fica claro se isso é possível, a não ser na possibilidade da vivência do amor, com Teresa e Mássimo, que o autor manda para longe, sem sabermos a seqüência de sua história.
            Fica-se com uma certeza, a de que as mulheres canalizam sua libido e sua dor na religiosidade, nas orações, na igreja, evidenciado no poema, no “rosário enrolado nos dedos” (POZENATO, 2000b, p.187).

Conclusão

“Tocar no corpo
mergulhar no rio
andar nos bosques
distâncias tangíveis.

As mãos precipitam
espaços intactos.

A palavra se toca
em sua mudez
multiplicando formas
ardentemente.

Tanta é a pureza
que unge os corpos
como nas queimadas
troncos em brasas.

Tem vastos caminhos
o corpo da amada
percorrê-lo requer
uma alma de menino.”
(PAVIANI, 1979, p.39)


            Este trabalho busca delimitar os modos de comparecimento das figuras masculina e feminina nas obras de José Clemente Pozenato, A Cocanha, O Quatrilho e Mapa de Viagem, além de observar as relações que estas diferentes figurações têm com a cultura, na região de colonização italiana no Rio Grande do Sul. Que visão de mulher tinha a sociedade da época da imigração e à época retratada nas obras literárias em questão?
            As figuras masculina e feminina diferem, são singulares, mas em que contexto o são? Apresentam-se apenas na forma de vestir, de falar, de trabalhar, no social ou, além de todas as questões apresentadas, ainda diferem na forma psíquico-estrutural de cada um?
            A mulher imigrante veio da Itália, como os homens, fugindo da miséria e da morte e buscando melhores condições de vida para si e para sua família, quer esta estivesse constituída ou não. Sofrem, homens e mulheres, os mesmos transtornos na viagem, nos trens, nos navios, na imigração, nos portos e alfândegas. São roubados, espoliados em seus pertences, nas informações que tinham até então (já que o que recebem nem sempre é o prometido!), em suas convicções sociais, psíquicas, enfim, em sua capacidade física e emocional.
            As obras A Cocanha, O Quatrilho e Mapa de viagem, de Pozenato, mostram como as relações entre homens e mulheres se davam, não só no contexto social, mas no contexto particular de suas vidas, em seus lares, no trabalho, em suas relações com a Igreja, com os padres, especificamente a Igreja Católica.
            Inicialmente esta terra não tinha dono, os que aqui habitavam eram seres livres, que transitavam igualitariamente por estas terras, viviam e se alimentavam do que aqui era processado, plantado, colhido. Os brancos, que colonizam a terra, impõem sua cultura de forma dominadora. Ignoram a cultura existente ou mesmo negam que o que existia era cultura. O diferente era extinto, massacrado. O branco se adona das terras, toma posse, instala-se, espalha-se pelo território, registra seu nome nas terras, no fazer, no plantar, no colher, na vida. O Rio Grande do Sul é ocupado mais tardiamente que o restante do país. Inicialmente, no estado, chegam alemães e portugueses, que se instalam nas terras mais planas. O italiano que aqui chega, na falta de melhores terras nas regiões que foram povoadas antes, buscam os espaços de planalto. Instalam-se então e aqui trazem sua cultura, seu sistema de plantio, de construções, sua alimentação, enfim, seus modos e costumes.
O solo de planalto do Rio Grande do Sul é parecido com o que os imigrantes viviam na Itália, daí também suas preferências na escolha das terras e instalação. Daí também, a singularidade do imigrante, de seus descendentes, que se estabelecem nesta região. Parece que, mais do que manterem uma identidade italiana, eles desenvolveram uma identidade do imigrante de origem italiana, na região serrana riograndense.
Região não apenas vista como divisão político-geográfica, mas como construção simbólica, constituindo uma rede de relações, como um espaço político-geográfico socialmente construído.
Nas obras de José Clemente Pozenato, o regional tem características singulares. A construção da identidade extrapola fronteiras, traz o território italiano para o contexto brasileiro, sem deixar de ter uma singularidade ímpar com a terra que habita, o solo brasileiro. As idéias de região não constituem idéias acabadas de uma realidade concreta, são realidades em construção influenciadas pelos valores simbólicos desenvolvidos em seus contextos e no decorrer da vivência do imigrante e de seus descendentes nesta terra.
Para Lacan, o “inconsciente está estruturado como linguagem” e “significante é o que representa o sujeito para outro significante”. Assim, os estudos do comparecimento do masculino e feminino, nas obras A Cocanha, O Quatrilho e Mapa de viagem e o estudo das formações discursivas presentes nas obras, dos contactos de um e outro personagem, se dão através dos significantes lingüísticos, representantes da “coisa” no inconsciente.
Mais do que determinar o lugar feminino ou masculino num contexto histórico-antropológico, este trabalho busca ir mais além, determinando-o ou tentando determiná-lo num contexto discursivo, lingüístico-estrutural, além do campo histórico-antropológico.
Somos herdeiros de uma ‘civilização greco-romana’, daí carregamos, estruturalmente, o lugar de inferioridade da mulher atribuído pelos gregos, além de termos a moral cristã impregnada em nossos fazeres e pensares, herdando-nos o masoquismo feminino, ao separar em termos absolutos as funções de reprodução e de gozo, presentes na experiência erótica da mulher. O cristianismo coloca o desejo feminino em um patamar de reprodução, em que o desejo é recalcado e a Igreja controla o “pecado”, através das confissões e orientações do padre.
A Revolução Francesa e suas idéias iniciais de liberdade, depois ampliadas em outras lutas na busca de liberdade, principalmente a feminina, tornam possível a construção de um novo modelo de sexualidade, centrado na diferença sexual, encontrado na modernidade.
A maternidade é uma marca inexorável da natureza feminina.
A psicanálise, centrada no discurso da histérica, precisa romper com o modelo essencialista da diferença sexual e se encaminhar para uma interpretação do erotismo centrada na feminilidade.
A arte retrata a sociedade que o artista está inserido, a cultura em que vive, os sentimentos que possui e que deseja passar, mas, principalmente, a arte retrata uma época, mostra e demonstra uma história, a história do artista e a história social. Muitas são as formas de manifestação dos artistas em suas obras. E estas obras retratam a realidade em que vivemos, mostram-nos nossa história, estruturam nossas vidas.
Antônio Candido nos fala das diferenças entre a vida e a obra:

[...] na vida tudo é praticamente possível; no romance é que a lógica da estrutura impõe limites mais apertados, resultando, paradoxalmente, que as personagens são menos livres, e que a narrativa é obrigada a ser mais coerente do que a vida. (CANDIDO, 1972, p.76).

Diz, ainda, da necessidade de que o autor construa a obra, para que esta funcione, como critério de coerência interna:

Se nos capacitarmos disso – graças à análise literária – veremos que, embora o vínculo com a vida, o desejo de representar o real, seja a chave mestra da eficácia de um romance, a condição do seu pleno funcionamento, e portanto do funcionamento das personagens, depende dum critério estético de organização interna. Se esta funciona, aceitaremos inclusive o que é inverossímil em face das concepções correntes. (CANDIDO, 1972, p.77).

A obra A Cocanha retrata a vinda dos imigrantes italianos à América, fugindo da miséria e da morte, fazendo uma travessia do Velho ao Novo Mundo, em busca da terra da promissão, da terra da opulência, do paraíso terrestre.
No início da obra, há todo um simbolismo do mito fundador, a travessia marítima, as dificuldades, a calmaria, as crianças negras que se jogam ao mar e nadam livremente, sem temor ou dificuldade.
O imigrante carrega, porque também lhe é vendida esta idéia para que emigre, de que a América é esta terra da promissão, da opulência, de que, aqui chegando, ele poderá gozar a vida.
No texto literário, fica-se com a certeza de que o que foi vendido ao imigrante mostrou-se falho e falso, já que, ao chegar, ele e suas famílias enfrentaram todas as dificuldades possíveis e os problemas inimagináveis.  
            Através dos diferentes personagens apresentados pelo autor, solteiros ou casados, todos enfrentaram dificuldades em sua instalação, na aquisição das terras, no trabalho nessas terras, em manter-se e sobreviver.
No personagem Domênico, tem-se a visão do imigrante que vem com alguma posse financeira, além de trazer alguma arte. Domênico, no caso, toca em banda e é alfaiate. A figura de Domênico é singular porque ele será o pai biológico de Teresa, na obra O Quatrilho, além de que Domênico encontra-se com Giulieta, mãe de Teresa, em encontros furtivos, nas águas do rio. Teresa, também em encontros fugidios, encontra-se com Mássimo no rio.
O rio, a metáfora utilizada pelo autor para retratar o amor na obra Mapa de Viagem, é a água, aqui águas de um poço.
É por Domenico, também, na obra A Cocanha, que temos as noções dos esquemas políticos vigentes na época, além da presença da maçonaria, já à época da colonização, nos meios sociais.
Os personagens centrais de A Cocanha fixam-se em torno das ‘rondinèle’, as cinco amigas ‘andorinhas’ de Roncá, em Verona, na Itália. Elas moram próximas, em Santa Corona, juntamente com seus maridos. Betina, a quinta ‘rondinèle’, a única solteira do grupo, não vem ao Brasil, ficando na Itália.
Os grupos de imigrantes que se formam acabam constituindo as famílias, relações de amizade, pois suas famílias de origem ficaram na Itália, e os casais casaram-se para emigrar.
Além das ‘rondinèle’ e seus esposos, aparece uma figura singular, a de Roco, ferreiro, solteiro e dono da pensão, que se envolve na política, depois a abandona, casa-se com Marieta, uma auxiliar na pensão, e vive uma vida mais tranqüila. Roco é quem, mais tarde, em O Quatrilho, irá conversar com Teresa e apresentar-lhe uma vida diferente da vigente, mostrada pela Igreja Católica, o que propiciará que ela viva o amor com a intensidade que deseja.
Betina é a ‘rondinèle’ decidida, que não segue com os outros, não ‘vai com a maré’. Ela lança na história familiar, a marca de ser uma mulher que não se afeta com as opiniões, que não teme o futuro.
Marieta é a ‘rondinèle’ mais velha, que já tem filhos, a parteira do grupo, aquela que ‘dá o tom’ da vida das mulheres, de como elas devem ser e agir. Ela é casada com Cósimo, o líder do grupo, aquele que nomeia a localidade como Santa Corona. Marieta e Cósimo, então, fazem os papéis de mãe e pai do grupo.
Gema é a mulher forte, decidida. Gema carrega uma figura masculina em um corpo de mulher. Ela é uma mulher fálica, que nega sua feminilidade, para suprir as necessidades de um homem na família, já que Bépi, seu marido, é um homem feminino.
Giulieta é uma mulher inteligente, que não aceita ser mandada por todos na casa, que tem o desejo estrutural da busca da liberdade. Ela, como mãe de Teresa, irá levar à filha este desejo em sua busca pelo amor.
Rosa, a outra ‘rondinèle’, é casada com Aurélio. Os dois são os pais de Ângelo. Ambos casam-se por amor, sendo essa sua importância, apesar das dificuldades enfrentadas. Este amor dará forças a Ângelo para buscar o progresso pessoal e profissional.
A obra O Quatrilho é uma ode, um louvor ao amor, na busca pelo amor e a conciliação entre os casais. Teresa, inicialmente, é casada com Ângelo, e Pierina, com Mássimo. No decorrer da história, vemos Teresa, uma mulher feminina, aproximar-se de Mássimo, um homem masculino. Os dois se apaixonam e vão embora da localidade, para viver o seu amor.
Pierina, filha de Gema, e identificada com esta, apresenta-se uma mulher fálica, que inicialmente vive o casamento como uma imposição social. Casar para auxiliar nos trabalhos da casa e gerar filhos para o trabalho na colônia. Com a traição do marido, ela acaba descobrindo a sua força feminina, seu poder de sedução e, aparentemente, descobrindo o amor, aproxima-se de Ângelo. Pierina e Ângelo, assim, progridem numa boa  sincronia, formando uma família forte na localidade.
Os personagens de Roco e Scariot são os ‘iluminadores’, um para Teresa, outro para Mássimo, quanto à busca da liberdade e do amor. Os padre Gentile e Giobbe nos trazem, enquanto leitores, as vozes da repressão e da moral vigente na localidade: padre Gentile usa da prepotência e do poder que a Igreja Católica lhe outorga, enquanto seu representante, para ditar as normas e condutas, fazendo julgamentos nem sempre corretos e justos; padre Giobbe, ao contrário, é o padre justo, reflexivo dos acontecimentos e da vida, ele nos traz a visão do narrador, através da percepção dos fatos que ocorrem em Santa Corona.
Em Mapa de Viagem encontramos três poemas significativos: Declaração de Amor, um poema onde se abstrai que os lugares masculino e feminino, como a realidade, não são tão determinados, muitas vezes andam juntos, misturados; Quando o Amor, que parece fazer uma seqüência ao primeiro, pois, após a descoberta do amor, os corpos se descobrem, se revelam, um se mostra ao outro, sabe-se do outro e de si mesmo através do olhar que lanço ao olhar do outro; e Os Retratos na Sala, que mostra o casal já mais velho revivendo sua vida nos descendentes, mostra também a visão da mulher mantida sob o jugo do marido, canalizando sua libido e sua dor na religiosidade.
Um estudo, nas palavras do professor Jayme Paviani, “é um abrir horizontes, um propor novos caminhos. O decisivo é fazer o caminho”. (PAVIANI, 2005, p.23). O presente estudo, dos lugares masculino e feminino, na cultura da região de colonização italiana no Rio Grande do Sul, propõe isso, um novo olhar sobre esses lugares.
Antônio Candido nos ensina sobre a composição da estrutura do romance e sobre o sentimento de realidade que uma obra porta:

O trabalho de compor a estrutura do romance, situando adequadamente cada traço que, mal combinado, pouco ou nada sugere; e que, devidamente convencionalizado, ganha todo o seu poder sugestivo. Cada traço adquire sentido em função de outro, de tal modo que a verossimilhança, o sentimento da realidade, depende, sob este aspecto, da unificação do fragmentário pela organização do contexto. Esta organização é o elemento decisivo da verdade dos seres fictícios, o princípio que lhes infunde vida, calor e os faz parecer mais coesos, mais apreensíveis e atuantes do que os próprios seres vivos. (CANDIDO, 1972, p.79).
  
Através da análise das obras literárias, na figura de seus personagens, se chega a uma idéia de que os lugares masculino e feminino não são estanques, além de não estarem vinculados a um corpo biológico. Um homem, biologicamente masculino, pode ser emocional, psíquica e estruturalmente feminino; assim como uma mulher, biologicamente feminina, pode ser masculina no campo estrutural. Os casais se constituem e acabam se completando em suas diferenças estruturais, de tal forma que se estabilizam, formando uma família regular.
 Na região de colonização italiana, no estado do Rio Grande do Sul, a mulher não difere da mulher “universal”, sua estruturação e aspectos psíquico-emocionais que a estruturam como ser, mas esta mulher porta características singulares que fazem “marca cultural”, como comprovado pela sua apresentação nas obras estudadas. 
 Temos, tradicionalmente, pensado nas mulheres, desde a sociedade grega, fazendo chá e servindo aos homens, mesmo entre os apóstolos de Jesus, para citarmos a tradição cristã que, junto a civilização grega, nos constitui como estrutura histórico-antropológica. Quer seja apenas literatura, ou não, muitos historiadores têm dedicado suas vidas, provando que Maria Madalena era mais do que uma serva, estava ao lado de Jesus e seus apóstolos como membro efetivo do grupo. Se os evangelhos esqueceram-se dela, ou deliberadamente a ignoraram, não sabemos, não temos a certeza ainda. O que sabemos é que a mulher, enquanto membro de uma sociedade, tem crescido e buscado seu espaço na modernidade. Isso tem feito com que homens e mulheres saiam de uma visão apenas biológica de masculino e feminino para estudos mais amplos e mais corretos do que é ser um homem ou uma mulher. A cultura vigente apenas sedimenta os lugares tradicionalmente existentes. O que fica é um grande desejo de mudanças estruturais que busquem respostas mais condizentes com a realidade e com o desejo de cada um. Desejo esse estrutural, primeiro, marcadamente amoroso.
A obra literária é um tipo de conhecimento que representa aquilo que a psicanálise enquanto teoria, a sociologia, a antropologia, entre outras teorias enquanto ciências, já revelam. A leitura da obra traz uma forma de conhecimento que a realidade já traz. A obra de Pozenato consegue retratar a realidade e nos dá a impressão de seres vivos. Antônio Candido diz da importância de que:

a personagem deve dar a impressão de que vive, de que é como um ser vivo. Para tanto, deve lembrar um ser vivo, isto é, manter certas relações com a realidade do mundo, participando de um universo de ação e de sensibilidade que se possa equiparar ao que conhecemos na vida. (CANDIDO, 1972, p.64).

Assim, as obras de Pozenato confirmam a vida das imigrantes italianos, sua dura realidade, de muita dor e trabalho, além de confirmarem o lugar da mulher na sociedade vigente, de inferioridade, de objectualização aos desejos do homem.
A constituição do feminino extrapola o regional. O feminino, enquanto especificidade de gênero, extrapola o regional e apresenta-se como universal, em suas diferentes abordagens. O que observamos, como especificidade regional, na região de imigração italiana, marcadamente vinculada ao fazer, ao trabalho, é que a mulher, enquanto esposa, enquanto lugar social feminino, se apresenta como uma “esposa/trabalho”, quero dizer, com isso, que a mulher, em sua maioria, vincula o lugar feminino, no casamento, como uma “tarefa para gerar filhos”, para auxiliar na produção, nos trabalhos nas colônias. Quando ela chega à menopausa, há um libertar-se, um viver mais espontâneo, desvinculado do “trabalho” de atender ao marido. Ela passa a ser uma mulher mais solta e, aparentemente, mais feliz, talvez mais feminina. Mas este lugar feminino é um engodo, porque ela só se apresenta mais fálica, mais “poderosa”, mais masculinizada. Observa-se esta condição “travestida” também nas viúvas, “mãezonas”, porque carregam em si o lugar de mãe e pai, poderosas.
O verdadeiro feminino, se é que há, é da ordem de um ultrapassar o falo, aceitar a castração e ultrapassá-la, viver com intensidade o seu lugar em qualquer momento.  
A análise do texto literário, também uma arte, faz os personagens ganharem vida. Tem-se a sensação, ao analisá-los, de que estão vivos, presentes entre nós, o que dá força ao texto analítico. Analisar uma obra, deixando-se levar pelas personagens, traz uma riqueza de detalhes, enriquecendo o saber teórico, aprofundando-o como nos confirma Rosenfeld:

Somente quando o apreciador se entrega com certa inocência a todas as virtualidades da grande obra de arte, esta por sua vez lhe entregará toda a riqueza encerrada no seu contexto. Neste sentido pode-se dizer com Ernst Cassirer que afastando-se da realidade e elevando-se a um mundo simbólico o homem, ao voltar à realidade, lhe apreende melhor a riqueza e profundidade. Através da arte, disse Goethe, distanciamo-nos e ao mesmo tempo aproximamo-nos da realidade. (ROSENFELD, 1972, p.49).

A palavra sexo, secare, em latim, significa cortar, separar. Masculino e feminino são divisões de um mesmo ser. Um termo só faz sentido em contraposição, em comparação ao outro. Para que haja sexuação, é necessário que o sujeito se inscreva na função fálica, independentemente de sua anatomia. A diferença sexual é um recorte simbólico, que é resultado de movimentos psíquicos que permitem ao sujeito uma referência a seu sexo anatômico, que o designará homem ou mulher.
Ricardo Timm de Souza, em seu artigo Identidade e diferença: da mera identificação ao diferencial de gênero, para a obra As Mulheres e a Filosofia (2002), nos apresenta uma bela conclusão quando diz que gênero é uma “construção”, um “constituir” diferença, ato ético, humano por excelência:

‘Construir’ gênero – ou seja, ‘constituir’ diferença - é um ato humano por excelência, um ato ético que supera as determinações da identidade ao assumir a contingência do “ainda não”, ao ser no tempo e apostar na construção do tempo- do novo tempo: o tempo da diferença . Mas diferença real, para além do jogo de espelhos da racionalidade tradicional e das infinitas gradações de violência que ela comporta e justifica em sua hipertrofia tautológica. (SOUZA, 2002, p.242).


Em março de 2005, chega-se ao término deste trabalho, não com respostas estanques, e sim com mais perguntas, mas o que importa é que a arte, novamente, nos dá uma solução parcial, porque a vida não é final, é sempre parcial. Na voz de Antônio Carlos Jobim, em seu belo poema/canção Águas de Março, sempre ouvido em não menos nome do que o de Elis Regina, tem-se o masculino e o feminino novamente simbolizados e presentes:
                       
É pau, é pedra, é o fim do caminho 
É um resto de toco, é um pouco sozinho
É um caco de vidro, é a vida, é o sol 
É a noite, é a morte, é um laço, é o anzol 
É peroba do campo, é o nó da madeira 
Caingá, candeia, é o Matita Pereira
É madeira de vento, tombo da ribanceira 
É o mistério profundo, é o queira ou não queira 
É o vento ventando, é o fim da ladeira 
É a viga, é o vão, festa da cumeeira
É a chuva chovendo, é conversa ribeira 
Das águas de março, é o fim da canseira 
É o pé, é o chão, é a marcha estradeira 
Passarinho na mão, pedra na atiradeira 
É uma ave no céu, é uma ave no chão 
É um regato, é uma fonte, é um pedaço de pão 
É o fundo do poço, é o fim do caminho 
No rosto o desgosto, é um pouco sozinho 
É um estrepe, é um prego, é uma ponta, é um ponto 
É um pingo , pingando ,é uma conta ,é um conto
É um peixe, é um gesto, é uma prata brilhando 
É a luz da manhã, é o tijolo chegando 
É a lenha, é o dia, é o fim da picada 
É a garrafa de cana, o estilhaço na estrada 
É o projeto da casa, é o corpo na cama 
É o carro enguiçado, é a lama, é a lama 
É um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã 
É um resto de mato, na luz da manhã 
São as águas de março fechando o verão 
É a promessa de vida no teu coração 
É uma cobra, é um pau, é João, é José 
É um espinho na mão, é um corte no pé 
São as águas de março fechando o verão 
É a promessa de vida no teu coração 
É pau, é pedra, é o fim do caminho 
É um resto de toco, é um pouco sozinho
É um passo, é uma ponte, é uma sapo , uma ra
É um Belo Horizonte, é uma febre terçã
São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração
É pau, é pedra, é o fim do caminho
É um resto de toco, é um pouco sozinho
É um caco de vidro, é a vida, é o sol
É a noite, é a morte, é um laço, é o anzol 
São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração
 
               Apesar das pedras, dos paus, das dificuldades, chega-se ao fim do caminho, um pouco, não de todo, sozinhos, com mistérios profundos a desvendar, quer queiramos ou não.
               É a luz da manhã iluminando o caminho na promessa de vida em nossos corações. [...] São as águas (amor) de março fechando o verão e fechando um “início” de trabalho.  


Glossário[14]


castração, complexo de: Termo derivado do latim castratio e surgido no fim do século XIV para designar a operação pela qual um homem ou um animal é privado de suas glândulas genitais, condição de sua reprodução. Sendo assim, é sinônimo do termo emasculação, mais recente, que o uso contemporâneo tende a privilegiar para designar a remoção real dos testículos. A palavra ovariectomia é empregada para designar a retirada dos ovários. Sigmund Freud denominou complexo de castração o sentimento inconsciente de ameaça experimentado pela criança quando ela constata a diferença anatômica dos sexos.

desejo: Termo empregado em filosofia, psicanálise e psicologia para designar, ao mesmo tempo, a propensão, o anseio, a necessidade, a cobiça ou o apetite, isto é, qualquer forma de movimento em direção a um objeto cuja atração espiritual ou sexual é sentida pela alma e pelo corpo.

erotômano: o que sofre de erotomania (mania amorosa, sensual).

falo: Foi Jacques Lacan, nietzschiano de cultura católica, quem reatualizou a palavra falo, na mais pura tradição de um anticristianismo que ia buscar suas fontes no amor místico e na filosofia platônica. Muito diversamente de Freud e dos kleinianos, portanto, Lacan afastou-se o máximo possível da concepção biológica da sexualidade, interessando-se mais pela perversão do que pela neurose, pelo gozo do que pelo prazer, pelo desejo do que pela necessidade, e pelo objeto (pequeno) a do que pela pulsão. Fascinado por todas as formas de transgressão, mas habitado pela certeza de que o falo é um atributo divino, inacessível ao homem, e não o órgão do prazer ou da soberania viril, Lacan fez dele, a partir de julho de 1956, o próprio significante do desejo, aplicando-lhe uma maiúscula e o evocando, antes de mais nada, como o “falo imaginário”, e depois como o “falo da mãe”, antes de passar finalmente à idéia de “falo simbólico”. Foi assim que ele revisou a teoria freudiana dos estádios, da sexualidade feminina e da diferença sexual, mostrando que o complexo de Édipo ou de castração consiste numa dialética “hamletiana” do ser: ser ou não ser o falo, tê-lo ou não o ter.

gozo: Raramente utilizado por Sigmund Freud, o termo gozo tornou-se um conceito na obra de Jacques Lacan. Inicialmente ligado ao prazer sexual, o conceito de gozo implica a idéia de uma transgressão da lei: desafio, submissão ou escárnio. O gozo, portanto, participa da perversão, teorizada por Lacan como um dos componentes estruturais do funcionamento psíquico, distinto das perversões sexuais. Posteriormente, o gozo foi repensado por Lacan no âmbito de uma teoria da identidade sexual, expressa em fórmulas da sexuação que levaram a distinguir o gozo fálico do gozo feminino (ou gozo dito suplementar).

Imaginário: Termo derivado do latim imago (imagem) e empregado como substantivo na filosofia e na psicologia para designar aquilo que se relaciona com a imaginação, isto é, com a faculdade de representar coisas em pensamento, independentemente da realidade. Utilizado por Jacques Lacan a partir de 1936, o termo é correlato da expressão estádio do espelho e designa uma relação dual com a imagem do semelhante. Associado ao Real e ao Simbólico no âmbito de uma tópica, a partir de 1953, o Imaginário se define, no sentido lacaniano, como o lugar do eu por excelência, com seus fenômenos de ilusão, captação e engodo.

incesto: Chama-se incesto a uma relação sexual, sem coerção nem violação, entre parentes consangüíneos ou afins adultos (que tenham atingido a maioridade legal), no grau proibido pela lei que caracteriza cada sociedade: em geral, entre mãe e filho, pai e filha, irmão e irmã. Por extensão, a proibição pode estender-se às relações sexuais entre tio e sobrinha, tia e sobrinho, padrasto e enteada, madrasta e enteado, sogra e genro, sogro e nora.

libido: Termo latino (libido=desejo), inicialmente utilizado por Moriz Benedikt e, mais tarde, pelos fundadores da sexologia, para designar uma energia própria do instinto sexual, ou libido sexualis. Sigmund Freud retomou o termo numa acepção inteiramente distinta, para designar a manifestação da pulsão sexual na vida psíquica e, por extensão, a sexualidade humana em geral e a infantil em particular, entendida como causalidade psíquica (neurose), disposição polimorfa (perversão), amor-próprio (narcisismo) e sublimação.

Outro: Termo utilizado por Jacques Lacan para designar um lugar simbólico – o significante, a lei, a linguagem, o inconsciente, ou, ainda, Deus – que determina o sujeito, ora de maneira externa a ele, ora de maneira intra-subjetiva em relação com o desejo. Pode ser simplesmente escrito em maiúscula, opondo-se então a um outro com letra minúscula, definido como outro imaginário ou lugar da alteridade especular. Mas pode também receber a grafia grande Outro ou grande A, opondo-se então quer ao pequeno outro, quer ao pequeno a, definido como objeto (pequeno) a.

pulsão: Termo surgido na França em 1625, derivado do latim pulsio, para designar o ato de impulsionar. Empregado por Sigmund Freud a partir de 1905, tornou-se um grande conceito da doutrina psicanalítica, definido como a carga energética que se encontra na origem da atividade motora do organismo e do funcionamento psíquico inconsciente do homem.

Real: Termo empregado como substantivo por Jacques Lacan, introduzido em 1953 e extraído, simultaneamente, do vocabulário de filosofia e do conceito freudiano de realidade psíquica, para designar uma realidade fenomênica que é imanente à representação e impossível de simbolizar. Utilizado no contexto de uma tópica, o conceito de Real é inseparável dos outros dois componentes desta, o Imaginário e o Simbólico, e forma com eles uma estrutura. Designa a realidade própria da psicose (delírio, alucinação), na medida em que é composto dos significantes foracluídos (rejeitados) do Simbólico. 

significante: Termo introduzido por Ferdinand de Saussure (1857-1913), no quadro de sua teoria estrutural da língua, para designar a parte do signo lingüístico que remete à representação psíquica do som (ou imagem acústica), em oposição à outra parte, ou significado, que remete ao conceito. Retomado por Jacques Lacan como um conceito central em seu sistema de pensamento, o significante transformou-se, em psicanálise, no elemento significativo do discurso (consciente ou inconsciente) que determina os atos, as palavras e o destino do sujeito, à sua revelia e à maneira de uma nomeação simbólica.

Simbólico: Termo extraído da antropologia e empregado como substantivo masculino por Jacques Lacan, a partir de 1936, para designar um sistema de representação baseado na linguagem, isto é, em signos e significações que determinam o sujeito à sua revelia, permitindo-lhe referir-se a ele, consciente ou inconscientemente, ao exercer sua faculdade de simbolização. Utilizado em 1953 no quadro de uma tópica, o conceito de Simbólico é inseparável dos de Imaginário e Real, formando os três uma estrutura. Assim, designa tanto a ordem (ou função simbólica) a que o sujeito está ligado quanto a própria psicanálise, na medida em que ela se fundamenta na eficácia de um tratamento que apóia na fala.

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Vera Marta Reolon de Oliveira nasceu em novembro de 1959, em Caxias do Sul, Rio Grande do Sul. Graduou-se em Ciências Contábeis, em 1988, e Psicologia, em 1995, ambos pela Universidade de Caxias do Sul. É mestre em Letras e Cultura Regional pela mesma instituição. Atualmente, é doutoranda em Filosofia (Ética e Psicanálise), pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Dentre seus muitos interesses, dedicou-se às ciências humanas, especialmente à psicanálise lacaniana (em formação desde 1989) e suas relações com a filosofia. Em seu mestrado, quando produziu esta obra, na forma inicial de dissertação, dedicou-se aos estudos de gênero, investigando a identidade feminina na RCI do RS. Atua no tratamento e na prevenção da Dependência Química, desde 1997. Atualmente, coordena o curso de Psicologia, da Faculdade da Serra Gaúcha, de Caxias do Sul, onde também leciona as disciplinas de Introdução à Psicologia e Processos de Investigação Psicológica e Psicossocial e orienta pesquisas de alunos do curso. Publicou, entre outros, artigos em jornais e revistas especializadas. Pesquisa, atualmente, sob o enfoque filosófico, a ética da psicanálise, centrada no desejo, a partir de Lacan e Derrida.    
  
Feminino, Masculino
Que são?
M(m)ulheres, H(h)omens?
Nem sempre...
Imigrante Italian?
Que gente é essa?
Família
Coragem
Trabalho
Amores! – Qu4trilho? Heresia?!?
Viagem: Cuccagna – Onde estaria a abundância?
Respostas?
Freud, Lacan – NÃO!
Bakthin – Imagina!
Vera!
Psicanálise:
Amor
Transmissão
Filosofia:
Admiração
Compreensão
Literatura?
... humm
Sentir
Viajar
Quem sabe... interpretar?
Ensino:
Paixão!
E o Outro?
Inconsciente, Linguagem?
Objeto a, Nome-do-Pai?
Não!
Sensibilidade

Guilherme Reolon de Oliveira



[1] “Entre os modelos que a vida colocou em meu caminho houve um que teve papel relevante na minha formação, ou formatação, para lidar com as palavras e as letras [...] Era João Mohana [...] O que me deixava pasmo nesse colega – alguns anos mais maduro – era o fato de escrever do mesmo modo que falava. Vou ser mais claro. Lia-se um texto dele e ficava a impressão de que era um texto tão simples que parecia uma conversa. Ouvia-se a conversa dele e ficava a impressão de que era uma conversa tão bem torneada que parecia um texto escrito. Daí o meu assombro. E daí minha curiosidade em descobrir qual era o segredo”.
[2] País da Abundância, Terra Prometida, Paraíso.
[3] Viva a América!
[4] até a vista!, até logo!, até a próxima!
[5] Aqui, talvez, se encontre uma das únicas falhas de seqüência, enquanto trilogia das duas obras publicadas e neste texto analisadas: Roco, em A Cocanha, sai da Itália e chega à América solteiro, enquanto que, na obra O Quatrilho (se figuram como a mesma personagem), ele veio da Itália casado e monta a pensão em Caxias.  
[6] policial, guarda.
[7] prostituta.
[8] senhora. Fig. patroa, dona, dama, nobre, fidalga, esposa.
[9] mamãe.
[10] papai.
[11] Olhe os filhos da prostituta!
[12] caixão.
[13] encontrar o namorado.
[14] Baseado em ROUDINESCO, Elizabeth; PLON, Michel. Dicionário de Psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003.