Vera Marta Reolon-1
Somos os filhos da Revolução,
Somos burgueses sem religião,
Somos o futuro da Nação,
Geração Coca-Cola
Geração Coca-Cola, Legião Urbana
- - -
O outono toca realejo
No pátio da minha vida.
Velha canção, sempre a mesma,
Sob a vidraça descida.
Tristeza? Encanto? Desejo?
Como é possível sabê-lo?
Um gozo incerto e dorido
De carícia a contrapelo...
Partir, ó alma, que dizes?
Colher as horas, em suma...
Mas os caminhos do Outono
Vão dar em parte nenhuma!
Canção de Outuno, Mário Quintana
Cem Anos da Revolução Russa.
O que dizer sobre isso?
Como explicar a força de um povo que, mesmo com cinquenta graus Celsius
negativos se põe a guerrear, matar-se uns aos outros, por ideais de uma
liberdade (?) do jugo czarista (será que era tão ruim assim?).
Enfim se põem a guerrear em condições sub-humanas por questões políticas
(a maioria das guerras usam como mote o político, mas por o que guerreiam mesmo
é o econômico, por “jogos” de poder!).
Desde Alexander Nevsky, os russos mostram-se fortes, capazes de sobreviver
às baixíssimas temperaturas, capazes de lançar mão de estratégias de
conhecimento de seu território para defender o que pensam, sua gente.
Antes da Revolução de 1917, a Rússia já havia conhecido a união do povo
com os intelectuais em uma “revolução”, em 1905. Tal revolução abalou os
domínios feudais, elevando camponeses, com o intuito de reduzir a exploração e
melhorar condições de vida.
A ruptura que no oeste europeu se determinara diversos
anos antes, na Rússia manifestou-se com igual dramaticidade apenas depois da
Revolução de 1905. Nessa revolução, as forças populares intervieram com extrema
decisão, imprimindo-lhe um nítido caráter socialista. Foi um vasto movimento
social que sublevou operários e camponeses, abalando o regime feudal em suas fundações.
O poder czarista, todavia, resistiu ao ataque e dele saiu vitorioso. (DE MICHELI,
2004, p.232)
Provavelmente, então, a Revolução de 17 já se iniciara muito antes e,
mantendo-se a espreita estoura em 17 para não mais retornar. Para que tenham
certeza, exterminam a família do czar, a família imperial e tomam seus
castelos.
A Revolução é um marco e fonte de perguntas até hoje, pois como explicar
a força deste povo que vive e guerreia nestas condições já citadas, une
diferentes nações em uma grande força, a URSS, com poder férreo, extingue suas
diferentes línguas, assumindo uma língua comum, o russo, uma moeda,..., a
verdadeira globalização, muito antes de qualquer possibilidade ocidental pensar
nisso. Não à toa é de lá, da Rússia que
surgem os grandes estudiosos do pensamento e da linguagem, entre eles Jackbson,
Baktin, Vygotsky, Luria, e muitos outros.
Para buscarmos entender a Revolução, lançamos mão da arte, sempre a arte,
a estética, a nos mostrar os avanços (ou involuções) que damos em nossa luta de
sobrevivência (por vezes subserviência – inclusive aos “artistas”, em suas, por
vezes, loucuras, delírios alucinantes que só fazem involuir a humanidade). A
estética tem o dom de nos enlevar a universos não trilhados, na beleza de uma
evolução que nos conduz ao futuro em passos seguros, pois nos fazem refletir,
questionar, pensar em novas formas de retratar o real, neste recorte que a arte
nos proporciona. Se a estética vive momentos de destruição da beleza,
destruição do pensamento, dos atos que nos fazem humanos, destruição de ideais
de grandeza interna (não a paranóia da busca do poder exacerbado), ela nos faz
involuir, destruir o construído, morrer progresso, ideais, Vida.
Mas então, para entendermos a Revolução de 1917, buscamos na obra de
Boris Pasternak, Doctor Zhivago, em
uma produção de David Lean e Carlo Ponti, da MGM. Boris que é um russo falando
da Rússia, produzido por um americano e um italiano (certamente o mundo se
questiona o que e como aconteceu a revolução). Transformaram em filme como Dr. Jivago.
O contraponto se dá com um americano, John Reed, com sua obra Os Dez Dias que Abalaram o Mundo, estrelado, dirigido e produzido por Warren Betty,
para a Paramount. As duas obras da literatura para o campo das imagens, e não
simples imagens, mas para o cinema, com todas as suas possibilidades de
manipulação de som, imagem, luz, música, figurinos, cenários, a nos transportar
para o vivido na época, sem o sofrimento atroz dos que lá habitaram e agiram.
Interessante falar em Ação, já que, para Hanna Arendt, uma judia alemã,
novamente os alemães, nos lembra que a condição humana por excelência é a Ação,
o trabalho. Por quê será que nesses nossos tempos só pensamos no ócio, no
acumularmos recursos para a vida do ócio, se o que nos torna humanos é o
trabalho?.
A história em Dr. Jivago é um
romance, com pano de fundo ao processo revolucionário. Abre com o General
Petrov Yevgraf (bolchevique), irmão de Yuri (Zhivago) que procura a filha de
Yuri, entre os muitos camponeses e operários que voltam das trincheiras
soviéticas para Moscou e São Petersburgo em busca de melhores condições, ou
simplesmente voltar a suas terras. Petrov é o narrador da história. Tem
informações de que Tonya (2), filha de Yuri e Lara (provavelmente) está entre
os camponeses. Ele a chama, a questiona, ela não lembra de seu passado. Petrov
então inicia sua argüição e apresentação da vida de Yuri Zhivago. Inicia com a morte da mãe de Yuri, seu
enterro e a permanência de Yuri para criação com os Maximiovich, Alexander e
Anna e sua filha Tonya que, assim, cresce junto a Yuri. Tonya vai estudar na
Europa, enquanto Yuri permanece na Rússia estudando medicina. De crianças Yuri
e Tonya a cena os projeta a um futuro, onde já adultos, Tonya retorna de Paris
e Yuri está atuando na área da medicina, não sem escrever poemas que, enviados
a Tonya, fazem sucesso nos meios parisienses.
Lara, Larissa Antipova, outra personagem é filha de uma costureira da
aristocracia que mantém uma relação com um homem sem escrúpulos Victor
Kamarovsky. Lara está com 17 anos e possui uma beleza ímpar, é observada por
todos, inclusive por Kamarovsky. Kamarovsky era sócio do pai de Yuri e,
realizando o testamento, prejudica Yuri na partilha e herança de seu pai.
Kamarovsky, assim como os Maximiovich (Yuri também) freqüentam a corte imperial.
A mãe de Lara deseja que a filha ponha em prática os conhecimentos de etiqueta
e línguas e estudos adquiridos e freqüente a corte. Para tanto, encaminha Lara
a acompanhar Kamarovsky por aquele meio.
Lara é amiga de Pasha Antipov, um jovem idealista que, politicamente
engajado, distribui panfletos nas ruas e sofre com a repressão das forças
czaristas que tentam controlar os levantes populares.
Em uma ocasião quando a mãe de Lara está adoentada, esta pede que Lara
acompanhe Kamarovsky a um restaurante. Victor se surpreende com a educação e o
conhecimento de Lara, comem, dançam. Lara enlevada pelo clima criado, deixa-se
seduzir pelo homem experiente e sucumbe. A situação se mantém até que Lara,
provavelmente grávida, é descoberta pela mãe em suas “mentirinhas” para
encontrar-se com Victor. Isso faz com que a mãe tente o suicídio, o que traz
Yuri a acompanhar seu orientador em
medicina à casa de Lara, tome conhecimento da situação e os personagens
se encontrem, se conheçam. Yuri estava em casa, em uma recepção a Tonya, de
volta de Paris, reunidos ao orientador, quando este é chamado por Victor (que
pede sigilo da situação).
Victor busca “resolver” o imbróglio forçando Lara a um casamento com
ninguém menos que Pasha. Ele considera Lara uma promíscua que não vive sem ele,
suas riquezas, proteção e sexo. Pasha é levado a crer em uma Lara virgem, pura
e precisando da proteção de um casamento.
O processo revolucionário está em marcha, os operários e camponeses tomam
as ruas, a guarda czarista busca detê-los, atacando-os com armas, cavalos e
condições extremamente distintas do universo rural e pobre de recursos dos
revolucionários. Pasha é um líder, está à frente dos grupos, comanda o grupo. É
machucado e vê as tropas czaristas atacarem crianças, mulheres, todos que estão
em marcha, porém não se abala. Yuri, por sua vez observa de sua casa as ruas e
o processo de luta armada. Sofre com o horror presenciado e busca ir à rua
atender os feridos com seus conhecimentos médicos. A guarda imperial o destitui
e o manda entrar em casa. Ele resiste, mas sucumbe ao pedido de Maximiovich que
teme pela família e, especialmente, por Tonya que chega da Europa.
Petrov é um outro tipo de
revolucionário, em suas próprias palavras, ele é convocado pelo partido
socialista soviético a alistar-se, com o propósito de preparar, conduzir a perda na guerra (1ª Guerra Mundial), se
os russo perdessem a guerra, o poder do czar seria questionado pelo povo, isso
conduziria à Revolução interna. Só assim a Revolução se faria como uma
necessidade.
A população ia às ruas solicitando Solidariedade e Liberdade, mas o que
precisava era de alimentos. “Gente feliz não é voluntária” (Petrov). “Até Lenin
subestimou a angústia do front de 900 milhas e nossa capacidade de sofrer”
(idem). Quando começaram a voltar para casa se dá o começo da revolução. O czar
foi preso, Lênin está em Moscou. A guerra civil começa. A revolução se dá em
meio ainda à guerra, aliada a tudo, invasões de residências, falta de
alimentos, casa, o frio excessivo e o tifo. Invasão de propriedades privadas,
assim transformadas em comunidades. O
exército branco contra o exército vermelho liderado por Strelinikov (Pasha
renomeado). Na guerra civil entre brancos e vermelhos, que durou 2 anos, o czar
e toda sua família são mortos, com o
objetivo de mostrar a todos “que não há volta” (Petrov). Victor, neste novo arranjo se torna Ministro
da Justiça.
Yuri está casado com Tonya, vivem todo o processo revolucionário, sua
casa é invadida e seu espaço dentro dela é cada vez menor. Seus bens são
saqueados, falta-lhes tudo, desde alimentos, até madeira para queimar e
preparar os alimentos e mesmo aquecer a casa no rigor do inverno russo. Petrov
vê Yuri roubando madeira para queimar em casa, o segue e vê as condições em que
estão vivendo. Apresenta-se como irmão de Yuri e indica que devem sair dali
antes de as condições tornarem-se insuportáveis. Yuri se muda com Tonya, Sasha
(seu filho pequeno) e Alex (Anna já está morta) para uma casa no interior. São
transportados por trens superlotados, em precaríssimas condições de alimentação
e higiene. Observam e são observados por todos os demais. Olham as condições
das invasões às propriedades, a queima de bens dos que não se submetiam a um ou
outro lado. A morte sempre presente. Chegam à casa no interior, ela está
fechada por ordens. Não podem adentrar. Estabelecem-se em uma casa auxiliar,
depósito, de condições inferiores. Plantam alimentos para o consumo e
deslocam-se eventualmente a uma pequena cidade, vila, perto dali. Yuri é descoberto
pelo exército e convocado a atender doentes. Lara o auxilia como enfermeira.
Yuri volta e mantém-se com Tonya e seu pai (mais Sasha). Vai a vila
e reencontra Lara.Ali concretamente inicia-se o romance. Lara está
razoavelmente protegida, já que é casada com Strenilikov (e é observada). Yuri
vem e vai a esta vila para busca de alimentos. Num dos retornos é convocado
pelo exército vermelho para atender os doentes. Não sem que ironizem sobre sua
condição de “amante” da mulher de Strelinikov. Yuri permanece no atendimento
aos doentes, até que em dado momento decide desertar e volta para perto de
Lara. Victor reaparece e apresenta-ser
como Ministro de Justiça, buscando auxiliá-los a fugir dali. Lembra a condição
de Yuri de desertor, e Lara e Kathya (filha de Lara – provavelmente com Victor
– grávida quando de seu casamento com Pasha). Yuri e Lara decidem mudar-se para
a casa de campo dos Maximiovich (Tonya, Sasha e Alexander já saíram dali). Ali
vivem até que Victor volta e convence Yuri de que o melhor para Lara e Kathya é
que elas viajem com ele, sob sua proteção. Yuri não vai e não mais retorna na
história.
A cena retorna a Petrov e a sua conversa com Tonya (2). Esta ainda duvida
ser filha de Lara e Yuri, mas parece-se muito com eles. Isso é sinalizado por
Petrov. Petrov lhe entrega um caderno de poemas de Yuri (já um poeta famoso
entre os revolucionários – antes era proscrito) e observa que ela toca balalaika, sem jamais ter aprendido (a
mãe de Yuri tocava balalaika e deixou
o instrumento para Yuri de herança).
O que fica?
Apesar do romance e da beleza das imagens, mesmo da neve, dos casarões,
dos casacos, ..., o horror das situações, os jogos de poder, os interesses
pessoais acima dos ideais, a tentativa de não morrer, de não sucumbir aos
rigores do inverno, da falta de alimentos (presente em todas as guerras,
inclusive como forma de guerrear e controlar a vida dos oponentes) , os
interesses de atravessadores interessados em manter a guerra para obter
recursos e poder (Victor). O idealismo transformado em força controlada pelos
atravessadores com o intuito de destruir qualquer possibilidade de novos
levantes contra o poder instituído, na forma que se mantenha um jogo de
controle sobre recursos e pessoas.
A educação, os processos sociais, a família, a religião, as formas de
socialização – preconizadas como garantias de uma sociedade mais justa –
transformam-se em formas de controle do povo. São destruídas com o intuito de
que o poder central não seja questionado e seja derrubado. Ou seja, os ideais
são derrubados em função da necessidade de poder, campo inicialmente
questionado para derrubar o czarismo.
Outro filme REDS, baseado na
obra de John Reed, Os Dez Dias que
Abalaram o Mundo, inicia com Louise
Turllinger, jornalista casada com um dentista liberal. Ela deixa o marido e vai
a Nova York para entrevistar John Reed.
“Jack Reed queria armar confusão para os capitalistas e também queria
despertar nas massas trabalhadoras a necessidade de agir com uniformidade e
eficácia” (Louise Bryan, torna-se Louise Reed, em 1916).
Por quê os EUA queriam a 1ª Guerra Mundial?
Por lucro. J.P.Morgan Bank apoiava a Inglaterra e a França (a Alemanha
queria uma parte da economia mundial), emprestou 10 bilhões de dólares. Se a
Alemanha ganhasse, o J.P.Morgan não recuperaria o dinheiro e a economia
fracassaria no mundo. Logo, os aliados precisavam ganhar a guerra.
Reed escrevia para a revista As
Massas e vai a Seatle para levantar dinheiro para a revista. A edição da
revista se dava em sua casa.
Sobre a Guerra: 65 milhões entram na guerra. 10 milhões morrem. 10
milhões ficam órfãos. 20 milhões ficam mutilados, alijados ou feridos.
Catástrofe na Europa. Holocausto na Europa.
Reed está engajado no Partido Socialista americano. Ele diz:
“Meu nome é Jack Reed e esta não é
minha guerra e não quero ter nada a ver com ela”.
O Partido Socialista se opôs à
entrada dos EUA na Guerra e pensavam em ações contra a Guerra. Logo, se observarmos os dois filmes vemos que
o Partido Socialista americano ia contra as idéias e conluios que os socialistas
russos realizavam, pois estes (os russos) mobilizavam-se para que a guerra
surtisse os efeitos de perda e posterior Revolução.
Reed chega à Rússia no governo Kerensky (homem-pensamento), Trotsky (homem-ação),
(isso é afirmado no filme, porém sempre tive a noção clara que fosse o inverso,
ou seja, Trotsky era o intelectual da Revolução, e Lênin, o homem das ações). A
Rússia vive três governos provisórios em seis meses. A Revolução se dá na
primavera de 1917.
O Palácio de Inverno do Czar é a sede do governo de Kerensky. Há fila
para pães, para botas, para cartão (para pegar pães e botas). Entre a fila de
cartões e as filas propriamente ditas (de pães e botas) o intervalo é de seis
meses.
Reed escreve ao entrevistar Lênin:
“Lênin é um líder popular estranho,
meramente por seu intelecto insosso, sem senso de humor e intransigente, parece
precisar da forte personalidade de Trotsky, ou de sua habilidade oratória, sem
dúvida o arquiteto é Lênin”.
Situação difícil para um país conduzindo uma guerra (EUA), que um aliado
seu faça uma revolução e o governo seja mudado.
Para Jack o socialismo era uma religião. Seu grupo sai do Partido
Socialista (Chicago) por divergências e fundam o Partido Comunista Operário da
América. O partido envia Reed para a Rússia para oficializá-lo como Partido
Oficial, representante do socialismo na América. Os russos não só não
oficializam como pedem que os grupos se unifiquem. Paralelo a isso forçam Reed
a ficar na Rússia no Escritório de Propaganda. Reed quer voltar, não tem notícias
de Louise, nem dos companheiros, mas o forçam a ficar. Louise está nos EUA e
mantém um romance com Eugene O’Neil. Reed tenta entrar nos EUA pela Finlândia e
lá é preso. Louise vai à embaixada para que intercedam por ele. Eles negam.
Jack é solto, trocado por professores finlandeses presos na Rússia. Lênin diz que “o trocaria por 50 professores”.
Jack volta à Rússia, lá ele e comunistas americanos começam a se
desiludir com o partido e seus atos. O poder está centralizado e não representa
as massas. Não há mais autonomia local. O Estado Central detém todo o
poder. O poder está nas mãos de poucos, estão destruindo as esperanças do
comunismo na Rússia. Todos os jornais foram fechados. Quatro milhões de pessoas
morreram em 1919 por fome e tifo. Repressão de direitos humanos e liberdade.
“Se separar um homem do que ele mais quer, o que faz é tirar-lhe o que
ele tem de único. E se tira o que ele tem de único, lhe tira a dissidência ,
mata a revolução!”(Reed)
Revolução
é Dissidência (o homem torna-se assim um zumbi do nada!), digo eu!
Reed morreu em outubro de 1920. Era um Instigador.
À provocação de o que aconteceria se Reed permanecesse nos EUA, logo não
morreria (talvez) dos sintomas exacerbados pelo frio e pelas condições
decorrentes dele na Rússia, digo, com certa convicção que teria apenas evitado
sua morte prematura e vivido um pouco mais de tempo, escrito sobre o socialismo
e talvez sobre seu uso funesto para obter o poder, sem idealismos e enfim com a
morte deste idealismo. Talvez fosse mais feliz, quiçá!.
Zhivago mostra-nos mais o povo
e a guerra em si. Reds nos mostra
mais os processos políticos, os jogos de poder, isentando o povo de
participação nos processos políticos, sendo manipulado para obter os resultados
angariados apenas por um grupo menor.
Buscando fazer um contraponto estético a um texto quiçá excessivamente
político-econômico pretendo fazer um recorte ao processo de guerra e apresentar
um exemplo de vida, apesar da guerra. A de Wassily Kandinsky, o mentor e maior
nome do abstracionismo mundial, um russo de nascimento e que viveu nesta época.
Kandinsky nasceu em 22 de novembro de 1866, em Moscou. Filho de pai
siberiano, comerciante de chá e mãe moscovita. Família bem sucedida, Kandinsky
estuda línguas, música, pintura, forma-se em direito e economia. Seus avós são
transferidos para a Sibéria por razões políticas. É professor de direito na
Universidade de Moscou. Monta com Franz Marc, Paul Klee e Shoenberg a Der Blaue Reiter. Escreve e ministra
aulas sobre pintura, forma, espiritual. Seus textos estão em processo de
tradução (aos poucos) e transmitem seu pensamento e sua forma de ver a arte, a
pintura em especial.
No período revolucionário 1917, 1918 e a frente, é membro do departamento
de Belas-Artes do Comissariado para a Instrução Pública, faz parte do Bureau
Internacional e do diretório da seção teatro e filme, editor do jornal Iskssurvo. Em 1919 é membro do Comitê de
redação da Enciclopédia de Belas Artes, redige os artigos Do Ponto, Da Linha (publicados em Iskssurvo). Participa em 1920, da fundação do Inkhuk (Instituto de Cultura Artística) para o qual redige na
primavera um programa pormenorizado, esse programa será colocado em minoria, o
que provocará a demissão de Kandinsky. Em 1921 é Membro do Comitê encarregado
de estudar a criação de uma Academia da Ciência Geral da Arte. Dirige o
sub-comitê da seção de psicofisiologia. Em dezembro deixa a Rússia, por Berlim.
Em 1922 é chamado, como professor a Bauhaus de Weimar. Participa da grande
exposição de arte russa em Berlim. Em 1928 adquire nacionalidade alemã. Recebe
medalha de ouro das artes, concedida em Colônia. Em Paris permanece até sua morte em 1944.
Enfim o período revolucionário russo não é só guerra. Há vida, há arte,
há estética, há ética, apesar de todos os jogos de poder político-econômico e
apesar de toda morte, falta de recursos e destruição.
Até onde foi possível lutar por tê-la!.
A pergunta que fica para os marxistas (parece que um dia eu também fui
uma simpatizante) é: se a condição humana é a ação, o trabalho, como
chamar-se-ão os seres (?) num mundo sem trabalho?.
“Se você me esperar,
voltarei,
mas espere-me com muita
força.
Quando a chuva trouxer
a tristeza
espere que a neve se
dissipe.
Espere quando o verão
triunfar,
Espere quando esquecer
o passado,
quando de países
distantes
não vier mais
correspondência.
Espere quando cansarem
os que com você esperavam” (Simonoff) (eu espero...)
REFERÊNCIAS
DE MICHELI,
Mario. As vanguardas artísticas. São
Paulo: Martins Fontes, 2004.
KANDINSKY,
Wassily. Olhar sobre o passado. São
Paulo: Martins Fontes, 1991.
Dr. Jivago. Direção: David Lean.
Metro-Goldwin-Mayer, EUA/Itália, 1965.
Reds. Direção e Produção: Warren
Beatty. Paramount Pictures, EUA, 1981.
-1 Psicóloga (CRP 07/7654), Jornalista (MTb 16.069) e professora no Departamento
de Estudos Básicos (FACED/UFRGS). Doutora em Filosofia (PUC-RS), Doutora em
Educação (UFRGS), Mestre em Letras e Cultura Regional (UCS), Bacharel em
Psicologia (UCS) e Bacharel em Ciências Contábeis (UCS). Autora do ensaio mulheres para um homem... para O Homem, A
Mulher (Edipucrs, 2008). Co-editora dos blogs Folha das Artes e Mondo della
Arte, especializados em crítica de arte e pesquisa em (est)ética. E-mail: verareolon@terra.com.br.
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