HISTÓRIA DA ARTE
Guilherme Reolon de Oliveira – MTb 15.241
De
maneira geral, pode-se afirmar que as preocupações da História da Arte,
enquanto disciplina ou área do conhecimento, são identificar, classificar,
interpretar, descrever e pensar as obras de arte.
Nesse
sentido, há uma diferença fundamental entre apreciar arte e fazer história da
arte. Apreciar está intimamente ligado à fruição das obras, o que não requer
conhecimento prévio sobre a vida dos artistas, os manifestos de movimentos
artísticos, os escritos de artistas, as teorias da arte, as reflexões
filosóficas sobre o belo. Fazer história da arte, por sua vez, requer um
entrelaçamento de conhecimentos sobre a arte, o que engloba uma enodulação de
registros simbólicos e imaginários, no que concerne à teoria e à crítica de
arte, bem como das continuidades e descontinuidades de estilos, rupturas
paradigmáticas, invariantes estéticas, relação vida e obra de artistas. A
apreciação está para o gosto, o julgamento e a observação, um desfruto, um
tirar proveito de, assim como o fazer história da arte está para uma
sistematização acadêmica e/ou ensaística sobre o próprio fazer artístico, em
suas facetas teórica e prática, bem como em suas manifestações no tempo e no
espaço.
A
história da arte, pode-se afirmar também, se diferencia da história em si por
se preocupar com problemas artísticos. A história tem por objeto de estudo
fatos e acontecimentos que podem coincidir com objetos ou movimentos
artísticos, no entanto, enquanto disciplina ou área do conhecimento, a história
se preocupa com problemas históricos, ou seja, quais os elementos originários
que provocaram rupturas ou descontinuidades nas relações entre poder e
sociedade. A história da arte procura também na história fonte para suas
questões, mas não só; ela se ampara em uma multiplicidade de teorias e
conhecimentos, tais como a semiótica, a semiologia, a antropologia, a
arqueologia, a sociologia, a psicanálise, a psicologia, a comunicação, os
estudos de imagem, a filosofia. Os problemas da história da arte são
fundamentalmente artísticos, ou seja, os objetos e/ou não-objetos artísticos,
as obras, os manifestos, os escritos de artistas, a natureza da arte, o
processo de criação.
Pode-se
escrever história da arte a partir da vida dos artistas ou do ponto de vista do
próprio artista, da recepção de suas obras, ou mesmo do processo de concepção
destas. Pode-se escrever história da arte a partir de estilos, que marcam
períodos, épocas de produção. Pode-se fazê-lo a partir de uma linearidade
temporal, com a sucessão de obras, de acordo com o acontecimento de suas
produções. Ou, em outros termos, há modos de organizar a arte e dar-lhe uma
história, enfatizando o artista, o estilo, a região. Há, no entanto, outros
modos de organizá-la: pode-se escrever uma história da arte que leve em conta
poéticas, temáticas, modos de composição de obras, usos de cores, suportes ou
mesmo intencionalidades. É isso que a historiografia nos lega: uma pluralidade
de modos de fazer e escrever história da arte.
CONCEITO DE IDEIA NO RENASCIMENTO
Segundo Panofsky, a
compreensão fundadora do Renascimento concerne à imitação do mundo natural,
tendo Dante e Bocaccio como base para tal compreensão. Diz ele: “a arte tem por
missão ser uma imitação direta da realidade” (1994, p.45).
No
Renascimento, com a definição do desenho (Vasari), a pintura e a escultura
passam a ser entendidas como vertentes de um mesmo fundamento. O desenho é a
base originária de ambas. Há, nesse sentido, uma aproximação com o entendimento
que hoje há das artes ditas plásticas – o conceito de artes visuais, por sua
vez, engloba outros fatores – no qual pintura e escultura representam a
essência de uma relação de volumes e espaços vazios e preenchidos.
O que
é novo e define o Renascimento é, mais que isso, o pintor estar colocado frente
a um modelo. A arte, assim, acaba por triunfar sobre a natureza. Leonardo é
emblemático nesse sentido: pretende refutar os pintores que querem corrigir as
coisas da natureza. A pintura mais digna é a que apresenta maior semelhança com
a coisa pintada.
Há uma
exortação para que o artista se afastasse da verdade da natureza para
representar a beleza, para elevar a arte à representação da beleza. Assim, o
triunfo da arte sobre a natureza é possível graças à imaginação e à
inteligência do artista. Há uma dupla exigência das obras do Renascimento: ser
fiéis à natureza, mas também à beleza, ou seja, tanto imitar, quanto corrigir a
natureza.
O que
caracteriza a teoria da arte nesse período é a relação sujeito-objeto,
exemplificada, por exemplo, na perspectiva. A arte do século XV é herdeira da
arte da Antiguidade: há uma reivindicação de um lugar entre as artes liberais e
uma racionalização da atividade artística, ao mesmo tempo em que a arte deve
ter como preocupação a verdade, transcrita em imitação, e a beleza, ressignificada
em correção de “imperfeições”. A tarefa da teoria da arte acaba por ser, assim,
a formulação de critérios válidos universalmente: como estabelecer uma
normativa, já que o prazer atribuído à beleza não poderia ser o gosto individual
do artista.
Pela
primeira vez desde a Antiguidade, há um afrouxamento do vínculo entre o belo e
o bem, como uma autonomia da estética. O problema passar a ser o reconhecimento
e o julgamento da beleza visível: o credo realista renascentista reconciliado à
Idéia. Para perceber a beleza, o espírito deve possuir uma “faculdade de
perceber”, que para ser adquirido dependia da experiência, do exercício.
Destaca Panofsky: “a idéia recebe da experiência, portanto, não apenas sua
condição de possibilidade, mas precisamente sua origem” (1994, p.61). A Ideia,
assim, é produto do conhecimento humano: não está mais na alma do artista, mas
advém de uma investigação deste.
A
Idéia, por sua vez, a partir da metade do século XVI, está ligada à faculdade
de representação, bem mais do que o conteúdo da representação artística. Ela se
acha prefigurada e como que em potência nos objetos, mesmo que seja conhecida e
realizada em ato só pelo sujeito. O artista produz em seu próprio espírito e
manifesta por seu desenho. Não provém do artista, mas da natureza por
intermédio de um “julgamento universal”. A beleza, assim, é síntese interior
dos casos particulares, não é obtida pelo acordo externo das partes (Panofsky,
1994, p.64).
A
Ideia é um Ideal. É produto do espírito humano, mas exprime ao mesmo tempo as
leis que estão prefiguradas nas coisas, e isso se afasta da subjetividade e do
arbítrio. O natural é aperfeiçoado pela arte. A Beleza, assim, não está
propriamente na natureza, mas no desenho (nas regras, no sistema do desenho)
que provém da genialidade do artista.
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.