A que se presta este blog??????????...............a estabelecer notícias, comentar fatos do cotidiano no e do mundo........elaborar alguma crônica de autoria dos blogueiros responsáveis (que, é óbvio, são maiores, responsáveis, éticos, e nada crianças - embora possuir a leveza das crianças "educadas" não seja nada ruim!!!!!).......realizar críticas, como pensamos não existir nas mídias que temos e vemos..........com, cremos, sabedoria e precisão.........com intuito de buscar melhorias em nossas relações com os seres vivos........e com/para o mundo..........se possível!!!!!!................


Críticas por e pela ARTE ( ESTÉTICA COM ÉTICA - como deve ser!!!! - desde a PAIDÉIA - a BILDUNG - .......ATÉ O SEMPRE!!!!!!!)



e-mail: veramartagui@hotmail.com
"UMA FOTO É UM SEGREDO SOBRE UM SEGREDO.

QUANTO MAIS ELA DIZ, MENOS VOCÊ SABE."
D.A.



"A VIDA É UM SONHO.

TORNE-O REAL".
M.T.
"EM TEMPOS DE M E N T I R A UNIVERSAL,

DIZER A V E R D A D E É UM ATO REVOLUCIONÁRIO"

George Orwel

terça-feira, 28 de abril de 2020

HÁ UM HUMANO NO HOMEM?


Vera Marta Reolon

Resumo: O homem constituído pela marca desejante está condenado à liberdade de escolha e, com ela, deve representar todos os homens e o que de humano há neles, se é que possuímos humanidade. O desejo como diferença. A racionalidade como disfarce de humano. O amor e o Outro como funções estruturantes do sujeito. O desejo como marca de liberdade. O desejo e a escolha. O homem e a liberdade. O homem e o desejo. O homem e a escolha.
Palavras-chave: homem; humanidade; humano; desejo; escolha; liberdade.
Abstract: The human constituted for the desires mark are condemned to liberty of choice and, with its, need represent all the human and what the human have him, if we have humanity. The desire as difference. The racionality as mask of the human. The love and the Other as structurant functions of the subject. The desire as mark of liberty. Desire and  choice. Human and liberty. Human and desire. Human and choice.
 Key words: human; humanity; desire; choice; liberty.

Buscamos constantemente responder a grande questão: O que é o humano?
Através do estudo de diferentes autores propostos buscamos este referencial: que faz com que nos tornemos humanos, o que nos diferencia como humanos? Chegamos ao final de estudos diversos e as questões permanecem, porque o homem, em alguns momentos, diz-se humano por possuir racionalidade, porque possui espírito, enfim diferentes conceitos, construções teóricas que, na verdade, nada dizem, são apenas palavras que não trazem respostas às nossas inquietações.
O homem, sua humanidade, é diferente dos animais, os outros animais não racionais? O quê ou quem tem autoridade para dizer que os animais (não humanos) não têm racionalidade?
Basta que eduquemos, que adestremos os animais, mesmo que selvagens, para observarmos neles amorosidade, carinho, dedicação. Se os tratarmos com amor, recebemos amor e dedicação para sempre. O ser humano também precisa desta “amarragem” amorosa, sem esta estruturação, sem esta dedicação ele fica perdido, como um objeto do Outro, este que o gerou. É preciso que o ser humano, ao nascer, ou antes disso, seja desejado, seja marcado com a insígnia do desejo por alguém, que ele tenha sido esperado, querido por alguém, mas não desejado para completar este alguém, e sim que ele seja desejado para viver, ser feliz, progredir, fazer-se. É um processo, e um projeto, de humanização constante, que se inicia com este Outro.     
Para que sejamos marcados como desejantes, tenhamos “voz plena de valor”, precisamos da marca primordial de instituição narcísica, que denominamos Amor do Outro. Outro este que faz para nós um papel materno, de mãe instituidora da marca amorosa que levaremos em nossas vidas. Sem esta marca inicial não somos considerados estruturalmente sujeitos, donos de uma identidade, estaremos sempre presos a alguém que nos deve conduzir pela vida, pois esta marca é primordial, necessária em nossa frenética luta pela libertação. Com a marca podemos nos libertar e seguir. Sem a marca estamos presos ao desejo do Outro, às suas imposições.
                       
Freud via nos primórdios da experiência psíquica uma identificação primária que consistiria na “transferência direta e imediata” do ego em formação para o “pai da pré-história individual”, o qual possuiria as características sexuais de pai e mãe e seria um conglomerado de suas funções. (KRISTEVA, 1987, p.36).
           
            A literatura tenta nos ajudar neste processo de entendimento da formação humana e estrutural de nossa identidade narcísica. A história de Ana Terra, retratada em O Tempo e o Vento, de Érico Veríssimo, faz-nos pensar sobre esta questão. Ana, enquanto sujeito, libertou-se, viveu seu desejo, foi em busca de algo com força e coragem, assumiu as conseqüências de seus atos, mesmo que isso tenha implicado a dor extrema da rejeição paterna, da afiliação. Assumiu seu filho, viveu, apesar de tudo, até mesmo do sofrimento pela morte de Pedro Missioneiro.
Todo povo precisa de um mito onde se espelhar (que me diga quem sou!), de um lugar a que posso recorrer quando nada mais me resta e devo (preciso!) recriar-me. Surge, então, O Tempo e o Vento (1961) A obra começa determinando a epopéia, partindo de O Continente e nos mostrando quem são os homens e as mulheres gaúchos. O homem aqui representado pelo Capitão Rodrigo Cambará, portador do falo para a guerra, para a disputa, à luta. A mulher: Ana Terra, aquela que sabe ouvir o vento, que adquire nele sua força, força vital para a vida, para agüentar as intempéries que a vida oferece. Rodrigo Cambará, marca masculina; Ana Terra, marca feminina. O Tempo e o Vento narra a saga da família Terra-Cambará, em cem anos de história, principiando na figura de Ana Terra, sua filha Bibiana, que se casa com Rodrigo Cambará e assim sucessivamente, até o século XX e a derrocada da família.
            As mulheres gaúchas estão em Ana Terra, e ela nelas. Ana é aquela que sabe ouvir o vento. Vento diferenciado, vento que traz história, dor e prazer. Vento de vida, vento de morte. Vento que também faz marca mítica, pois ouvi-lo implica ter dons premonitórios, dons superiores aos demais, implica ser sobre-humano para o bem e para a dor. A alguém que é semi-deus é exigido mais, geralmente acompanhado de mais dor e não mais prazer, pois à semelhança de Jesus Cristo, homem-Deus “porque mais te foi dado, mais te será exigido”.
            O Vento Minuano é que dá força a Ana, é dele que ela extrai vida, ele funciona como falo simbólico, força vital para agüentar as intempéries e viver (“sempre que me acontece alguma coisa importante, está ventando” (VERÍSSIMO, 1995, p.07)).

[...] se a palavra pênis fica reservada ao membro real, a palavra falo, derivada do latim, designa esse órgão mais no sentido simbólico [...] o adjetivo “fálico” ocupa um grande lugar na teoria freudiana da libido única (de essência masculina), na doutrina da sexualidade feminina e da diferença sexual e, por fim, na concepção dos diferentes estádios [...] o falo é um atributo divino [...] Lacan faz do falo o próprio significante do desejo. (ROUDINESCO; PLON, 1998, p.221).

            À semelhança das vozes polifônicas de Dostoievski, no olhar de Bakhtin, Érico Veríssimo, transpõe diálogos e pensamentos de Ana com o vento que dizem do não-dito, dizem e dão vida.

a multiplicidade de vozes e consciências independentes e imiscíveis e a autêntica polifonia de vozes plenivalentes [...] a multiplicidade de consciências eqüipolentes e seus mundos que aqui se combinam numa unidade de acontecimento, mantendo a sua imiscibilidade. (BAKHTIN, 1997, p.05).
           
A força de Ana, e sua relação com o vento, não se desfaz nem com as agressões e afastamentos do pai. Ana só se dobra ao amor, em sua relação com “Pedro Missioneiro”, índio/marido, morto pelo pai e irmãos de Ana, porque este a engravida sem casar (embora a pureza dos costumes e da sinceridade amorosa de Pedro para com Ana). Ana ouve além do que era dito. Ana ouve com o coração.
À semelhança de Ana, encontramos Teresa, em O Quatrilho (1996), de José Clemente Pozenato. Teresa é a mulher que busca as respostas, que deseja saber mais sobre a vida, que não se satisfaz com a vida sofrida das mulheres da localidade que aceitam a estrutura do trabalho, da dor, da condição de inferioridade e de insatisfação. Teresa não quer a vida do calar-se e aceitar o que vem. Teresa quer amar, quer conhecer o amor, vivê-lo, vivenciá-lo, quer ser feliz. Ela se casa, é alegre, brinca, resolve os problemas que surgem, é inteligente, luta por melhorias de vida, independente dos ditames sociais, das imposições da lei social hipócrita e mentirosa.
Teresa é aquela que escancara a verdade e a assume com todas as suas conseqüências. Teresa personifica a pessoa que todos desejamos ser: verdadeiros, assumidos em nossas verdades, sem nada esconder, vivendo nosso desejo e sendo aceitos por ele. Daí a obra, e Teresa em especial, serem sempre atuais porque mostram como o amor (quer seja pessoal, dual ou social) deveria ser, enquanto constituinte do próprio ser, de cada um de nós.
Teresa nos apresenta o lugar feminino da cultura de colonização italiana, forte, que sabe o que quer e vai em busca deste querer, carinhoso, sedutor:

Lacan afirma que, na dialética falocêntrica, a mulher representa o Outro absoluto. Há uma divisão do gozo feminino em uma parte que a do homem encarnando o falo para a mulher e uma parte de gozo relativa ao próprio sexo feminino como aquilo que falta no Outro como significante. A mulher é o Outro absoluto, é Deus, para ela e para o homem. Porém, para adorar a si mesma, ela se vale do homem como conector. (MAIA, 1999, p.33).

Ana e Teresa, assim como Antígona (que vai contra a lei moral e segue a sua ética, o seu desejo), representada nas obras de Sófocles, são portadoras de desejo. Desejo enquanto marca instituidora de diferença, enquanto singularidade do sujeito. Desejo que provém do amor transmitido pelo Outro, que é energia vital, pulsão de vida.
Amar é ver no outro o desejo por mim que me constitui. Mas é um engodo, porque o que efetivamente vejo é, na verdade, reflexo do meu desejo pelo outro. Sócrates, na voz de Platão, em O Banquete, usando Diotima como interlocutora, diz que amar é desejar o que ainda não se tem, o de que se é carente, o que se quer conservar consigo. Amor é amor de algo. Amar é o desejo do que é bom e de ser feliz, é o desejo da imortalidade.
            Diferentemente de Platão, que concebe o amor como movimento, pulsão, vida, desejo de algo, busca por algo, Schopenhauer encontrou o a priori manifestando-se na Vontade. Como coloca  Dumoulié (2005), o nosso conhecimento se acha encerrado no mundo dos fenômenos, portanto de representação, mas nós temos a intuição imediata através do nosso corpo, da essência íntima dos seres e do mundo. Para Schopenhauer, que sofreu influências de Platão e Kant, o mundo é fenômeno, é representação. A Vontade estaria em um mundo de idéias – platônico -, num mundo idealizado, superior, inalcançável, que pode apenas ser simbolizado. A Vontade, entretanto, não é externa, para Schopenhauer, ela está em nós:

A coisa em si, que não podemos conhecer do lado de fora, nós a alcançamos diretamente por dentro, pois ela está em nós. Esta Vontade, da qual a vontade humana é apenas uma manifestação, é um princípio metafísico, sustentáculo de tudo aquilo que é. [...] A expressão “coisa em si” deve ser entendida da maneira mais concreta, como uma Coisa toda-poderosa que habita em cada um de nós, que nos faz viver e nos vai devorando ao mesmo tempo. Por essência é um desejo bruto, cego e insaciável. (DUMOULIÉ, 2005,p.101).
           
            Schopenhauer estabelece uma dupla lei relativa ao desejo: os contrários se atraem e cada um procura no outro aquilo que lhe falta. Desta forma, procura-se um amado que possua aquilo de que se é carente. Aqui há uma conexão com Platão e com Lacan.
            Embora Lacan tenha aparentado uma grande distância em relação a Schopenhauer, que ele quase não cita, seu pensamento apresenta inúmeros pontos de contato com o filósofo. A noção de Coisa, tão essencial à teoria lacaniana, cujas nobres origens kantianas e heideggerianas são abertamente reconhecidas, tem ocultas e profundas ligações com a Coisa em si de Schopenhauer, a Vontade de gozo cega e mortal.
            Alain Juranville (1987) faz uma diferenciação das estruturas neurose, psicose e perversão, no que concerne ao desejo e ao amor de estrutura:

O psicótico não dá, não quer a relação com o Outro, que suporia que ele entrasse na castração. “A psicose”, diz Lacan, “é uma espécie de falência no que concerne à realização do que é chamado ‘amor’”. Nela, o sujeito quer o gozo absoluto, o que ele efetivamente conhece ao nível de seu corpo. Daí seu narcisismo. [...] [Na perversão] dá-se apenas ao Outro simbólico, essencialmente ausente do mundo. Todos os “outros” humanos, inclusive o próprio sujeito, são para esse Outro instrumentos de gozo. [...] O neurótico precisa, pois, de um simbólico suplementar, ou seja, do sintoma, onde o desejo se mantém como recalcado. (JURANVILLE, 1987, p.363-365).
           
            O que nos torna humanos então, para a psicanálise, não nos deixando objetivar, ou sermos objetivados, é este amor de estrutura, que nos diferencia perante os demais, que nos torna desejantes, desejantes de vida, de felicidade, de busca.
            Sartre vai além deste conceito, ele fala do existir humano, do processo da existência humana, como uma construção, construção essa que parte da própria liberdade de ser humano. O homem vai construindo sua existência, a partir da liberdade que possui, liberdade de escolher, conforme seu desejo: “toda verdade e toda ação implicam um meio e uma subjetividade humana” (SARTRE, 1970, p.01).
            O humano é constituído pelo Outro. A partir desta marcação estrutural, amorosa, ele pode nomear-se, determinar-se, decidir por si. Inicialmente ele não é nada, é o resultado do desejo deste Outro. Mas é somente através deste desejo que ele poderá desejar, para si, para o mundo.
            Sartre, em seu texto O existencialismo é um humanismo (1970), fala desta condição existencial do homem, deste “princípio” que o “abarca” e o constitui:

Em primeira instância, o homem existe, encontra a si mesmo, surge no mundo e só posteriormente, se define. O homem, tal como o existencialista o concebe, só não é passível de uma definição porque, de início, não é nada: só posteriormente será alguma coisa e será aquilo que ele fizer de si mesmo. [...] O homem é tão-somente, não apenas como ele se concebe, mas também como ele se quer; como ele se concebe após a existência, como ele se quer após esse impulso para a existência. O homem nada mais é do que aquilo que ele faz de si mesmo: é esse o primeiro princípio do existencialismo.(SARTRE, 1970, p.3).
           
O homem escolhe, a partir de sua vontade, escolha essa original e espontânea, mas também o homem é responsável por suas escolhas. Ele escolhe livre e espontaneamente, e será responsável por seus atos livres. Responsável consigo mesmo e com os demais:

o primeiro passo do existencialismo é o de por todo homem na posse do que ele é de submetê-lo à responsabilidade total de sua existência, [...] não queremos dizer que o homem é apenas responsável pela sua estrita individualidade, mas que ele é responsável por todos os homens. (SARTRE, 1970, p.03).

            No texto sartriano, há uma noção de humanidade que extrapola toda a individualidade, todo egoísmo ou todo egocentrismo narcisista que o homem possa carregar, pois ele expõe a liberdade existencial humana como uma responsabilidade que inclui a humanidade inteira: “a nossa responsabilidade é muito maior do que poderíamos supor, pois ela engaja a humanidade inteira” (SARTRE, 1970, p.03).
            Logo, em Sartre, toda nossa ação é livre, a partir de nossas escolhas, toda nossa ação é uma construção livre de nossa individualidade, uma marca individual de nossa existência, mas ela também é uma responsabilidade sobre a marca que transmitimos como retrato da humanidade toda e “sobre” toda essa humanidade. Essa responsabilidade carrega muita angústia, e daí a afirmação de Sartre de que o “homem é angústia” (SARTRE, 1970, p.04). Não há disfarces para a angústia, pois ela faz parte deste existir humano, de escolhas e de responsabilidade.
            O homem precisa recriar-se a cada instante, reconstruir-se, a partir de sua liberdade de escolha, sem apoio, sem ajuda, só e pleno de responsabilidades. Ele precisa inventar-se a todo instante, mas esse “invento” de si deve abarcar, conter toda a humanidade, responder por toda a história humana. Daí que esse homem sente desamparo, ele fica desamparado frente a tudo o que se lhe apresenta: “desamparo e angústia caminham juntos” (SARTRE, 1970, p.07). O desamparo e a angústia o desesperam, e a solidão o acompanha:

O desamparo implica que somos nós mesmos que escolhemos o nosso ser. [...] Quanto ao desespero, trata-se de um conceito extremamente simples. Ele significa que só podemos contar com o que depende de nossa vontade ou com o conjunto de probabilidades que torna a nossa ação possível. (SARTRE, 1970, p.07).
           
O desespero não deve ser um inibidor de minha ação. Ao contrário, deve me engajar na ação: “não é preciso ter esperança para empreender [...] não deverei ter ilusões e que farei o melhor que puder” (SARTRE, 1970, p.08). 
            A realidade só existe a partir da ação, o homem só existe à medida que se realiza na ação, o homem é o conjunto de seus atos. No texto Entre quatro paredes (2005), Sartre mostra  a condição humana enjaulada, mas nunca isenta da totalidade de seus atos. Inês é o retrato desta condição, já que verbaliza que ali está não por sua condição, mas sim pelo que ocasionou, na totalidade, no decorrer de sua existência com Florence e seu primo. Seduziu, inicialmente, Florence para depois lançá-la com seu olhar perverso sobre o marido, levando o relacionamento de ambos, Florence e o marido, a um desfecho trágico. Diz Inês, entre as quatro paredes do inferno criado por Sartre: “eu sou má: isso quer dizer eu preciso do sofrimento dos outros para existir. Uma tocha. Uma fogueira nos corações. Quando estou completamente sozinha, eu me apago”. (SARTRE, 2005, p.82)
            Inês é o carrasco do homem, é o resultado do que o homem faz consigo mesmo, com sua liberdade sem responsabilidade pela humanidade inteira (ou este seria o humano em nós todos?). O que fazemos de nós, de nossas vidas traduz o que somos, de onde viemos, para onde vamos, mas, principalmente, traduz o humano em nós, o “espelho do homem”. No inferno, não havia espelhos, o olhar do outro era o espelho que retratava o ser.
            Que fazer de nossas vidas, quem somos, para onde vamos, o que nos diferencia dos animais, se é que algo nos diferencia verdadeiramente, tudo depende de nós: “o destino do homem está em suas próprias mãos” (SARTRE, 1970, p.09).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
BAKHTIN, Mikhail. Problemas da poética de Dostoievski. São Paulo: Forense, 1997.

DUMOULIÉ, Camille. O desejo. Petrópolis: Vozes, 2005.

FREUD, Sigmund. Edição stantart brasileira das obras psicológicas completas. Rio de Janeiro: Imago, 1976.

JURANVILLE, Alain. Lacan e a filosofia. Rio de Janeiro: Zahar, 1987.

KRISTEVA, Júlia. No princípio era o amor. São Paulo: Brasiliense, 1987.

LACAN, Jacques. Seminário 7: a ética da psicanálise. 2 ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1991.

_______. Écrits. Seuil, 1966.

MAIA, Ana Martha Wilson. As máscaras d’A Mulher: a feminilidade entre Freud e Lacan. Rio de Janeiro: Rios Ambiciosos, 1999.

PLATÃO. O Banquete (Coleção Os Pensadores). São Paulo: Nova Cultural, 1991.

POZENATO, José Clemente. O Quatrilho. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1996.

ROUDINESCO, Elisabeth; PLON, Michel. Dicionário de psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.

SARTRE, Jean-Paul. Entre quatro paredes. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005.

_______. O existencialismo é um humanismoIn: www.odialetico.hpg.ig.com.br/filosofia/livros/ exhuman.htm.
 Consulta em: 20 de agosto de 2006. Fonte: L’Existentialisme est un Humanisme, Les Éditions Nagel, Paris, 1970. 

SCHOPENHAUER, Arthur. Dores do mundo. Rio de Janeiro: Tecnoprint, s.d..

_______. O mundo como vontade e representação. Rio de Janeiro: Contraponto, 2004.

VERÍSSIMO, Érico. Ana Terra. São Paulo: Globo, 1995.

_______. O Tempo e o Vento. Porto Alegre: Globo, 1961.

A música, a água e o Outro: ensaio sobre a psicose em “Shine”


Longe de ser a loucura o fato contingente das fragilidades de um organismo, ela é a virtualidade permanente de uma falta aberta na sua essência. Longe de ser para liberdade ‘um insulto’, ela é sua mais fiel companheira, ele segue seu movimento como uma sombra. E o ser do homem não pode ser compreendido sem sua loucura, assim como não seria o ser do homem se não trouxesse em si a loucura como limite de sua liberdade.
Jacques Lacan
Guilherme Reolon de Oliveira 

                A psicose, para a psicanálise, é uma falha no que concerne à realização do “amor”, amor de estrutura, que incute desejo e, portanto, diferencial, constituição de sujeito. Na psicose, o que se observa é uma relação simbiótica entre o sujeito e o Outro, função materna, campo da linguagem e inscrição de significantes. O sujeito se introjeta ao Outro, para não deixar que se abra um espaço por sua falta.
O sujeito, ao permanecer com o Outro, não subjetiva, não se estrutura enquanto ser singular, único, diferencial, uma vez que não tem desejo, não lhe é permitido desejar, já que este Outro não o amou, não o desejou. E mais: a lei não é inscrita, e o sujeito não consegue se internalizar, pois o Outro não incluiu na relação o terceiro, o Lugar de Desejo da Mãe. Isso, pois, é a foraclusão, o mecanismo do psicótico. Mecanismo através do qual se produz a rejeição, provocada pelo Outro, de um significante fundamental (o Nome-do-Pai) para fora do universo do sujeito. Quando essa rejeição se produz, o significante é foracluído. Não é integrado no inconsciente, como no recalque, e retorna sob forma alucinatória no real do sujeito.
Na psicose, o sujeito está ligado, habita o Outro e introjeta uma estrutura semelhante à linguagem. Mas esse lugar tem um suporte: o Nome-do-Pai. É exatamente este significante que tem como função representar o Outro, sob a forma da lei, que falta. Justamente por isso Lacan fala que o que caracteriza a estrutura psicótica é a foraclusão do Nome-do-Pai.
Por conseqüência, os delírios e as alucinações tornam-se realidade, mundo vivido. As buscas por uma exterioridade são representações, sintomas desse sujeito que não se volta e não constitui para o dentro-de-si, mas que não inclui, ou seja, foraclui toda e qualquer possibilidade de simbólico. O que se percebe, no psicótico, é uma triplicação de real, simbólico e imaginário, ou melhor, uma sobreposição de registros que se confundem. Na psicose, não há simbólico, não há linguagem, não há representação lingüística, tudo está contido nos registros Real e Imaginário.
“O que não veio à luz do simbólico, aparece no real”, afirmava Lacan. O psicótico quer o gozo absoluto. Para ele, o desejo é violência (é assim que ele interpreta, mas não violência enquanto ato, ação propriamente dita). Nele, o Real, o Simbólico e o Imaginário se confundem. Ele produz um outro “real” – a alucinação – e um outro “imaginário” – o delírio – para acreditar-se sem falha. Os objetos do delírio não passam das faces objetais dele. O psicótico funciona como falo do Outro.
O psicótico fica no nível do Outro, duplo de Outro não castrado, relação SA. Há pai severo, que impede qualquer possibilidade desejante. No lugar do desejo, há hostilidade. Assim, no psicótico não há inconsciente, não há recalque, não há metáfora, tudo é transformado em alucinação ou delírio, pois não há marcas, principalmente a amorosa, a constituidora de desejo. Ele não simboliza, pois não foi marcado pela falta, não houve separação. Ele personifica o Outro, ele se transforma em Outro. Desta forma, ele ignora a diferença, ele tem o saber absoluto, o saber da certeza.
            O filme Shine dirigido por Scott Hicks e estrelado por Geoffrey Rush, nos apresenta a história de David Helfgott, pianista e filho de Peter Helfgott, pai neurótico obsessivo, tirano, severo e “sugador”. Peter é o Outro de David. Em “Shine”, percebe-se, claramente, o mecanismo da estruturação do sujeito psicótico. É Peter quem representa o campo da linguagem e das significações a David. Por ser um Outro que não incute Lugar de Desejo da Mãe e, posteriormente, inscrição do Nome-do-Pai, Peter foraclui este significante primordial na estruturação de David.
            A história real apresentada em “Shine, na qual o Concerto nº 3 de Rachmaninoff poderia ser interpretado como objeto a da relação SA entre David e Peter, escancara uma psicose desencadeada quando da apresentação do concerto em questão. É no momento da interpretação do concerto, que David é acometido pelo surto psicótico que, posteriormente, lhe desintegra a personalidade. Outros momentos do filme deixam clara essa relação “psicotizante” entre David e Peter, quando este queima a carta de admissão de David, símbolo de libertação e possível saída do discurso do Outro.
            “Ninguém vai amá-lo como eu” e “Animal asqueroso: defecar na banheira, que nojento” são expressões que evidenciam uma sucção de vida por parte de Peter. É esta sucção, prisão, colagem, demonstrada por uma intensa demonstração dicotômica entre amor e ódio, que estrutura e inscreverá David no campo psicótico. Uma relação em que só há Outro e não há função paterna determina o destino do pianista. Cabe ressaltar o desejo de Peter em formar David a partir de uma constituição não tida por ele de seu pai: “Meu pai nunca permitiu a música. Você é um menino de sorte.” Ora, seria a música o desejo de David, ou de Peter?
            A música e a água têm também um caráter constituinte em David. Ao mesmo tempo em que a música representa um alicerce, ainda que imposto pelo Outro como desejo (?) – aqui cabe bem a célebre expressão de Lacan, “O desejo é o desejo do Outro” –, esta prende David na infância e não permite um seguir, um não não-ceder de seu desejo – cabe ressaltar a frase de David, “papai escolheu a música”. A água, por sua vez, simboliza um retorno ao útero, retorno ao acolhido, confortável e seguro, que, para David, seria a saída do Outro, uma vez que é sua mãe a acolhedora – ainda que à distância – quando da rejeição de David por parte de Peter. 
            David, à semelhança de outros artistas, tais como Vincent Van Gogh, Salvador Dalí, Franz Kafka, Fiódor Dostoievski, faz de sua arte “a expressão do inexpressível”, como mencionado por uma das personagens. A arte, para estes, funcionaria como uma “válvula de escape”, sintoma, já que são manifestações, expressadas no delírio, com suas características de desvario bem construído e sistematizado, mostrando a mescla de registros em funcionamento na psicose. Em Shine, especificamente em David, presencia-se o que de singular há na psicose: o eu não constituído como imagem unificada do corpo próprio e o Outro reduzido ao outro como semelhante: “No ponto em que, veremos como, o Nome-do-Pai é invocado, pode então responder no Outro um puro e simples buraco, o qual, pela carência do efeito metafórico, provoca um buraco correspondente no lugar da significação fálica” (LACAN apud Waelhens, 1990, 95).
            A arte, enquanto sintoma, é linguagem em David. A arte é a única linguagem do psicótico, uma vez que este tem imaginário e real sobrepostos ao simbólico, ao registro da linguagem. É a arte o delírio e (por que não?) a alucinação de David, uma vez que ele não tem simbólico:

[...] uma dupla transcendência da fala: transcendência da fala perante ela mesma e transcendência da fala perante o mundo. [...] no psicótico essas duas funções de transcendência deixam de funcionar ou passam a funcionar apenas no vazio e sem o controle de uma sobre a outra. Ora, ambas são necessárias para que se assegure “a emergência do mundo simbólico no mundo da realidade. (WAELHENS, 1990, p. 180). 

            “Nunca cresci, eu diminuí, eu sou um inútil”, diz David em um momento, após o surto desencadeante da psicose. Essa expressão evidencia um “ficar à mercê”, como sombra do Outro, em que pensamento, conduta e afetividade são determinados por este Outro que permanece colado, unido ao sujeito. Rabinovitch expressa, poeticamente, como as funções mentais se situam no psicótico, a partir da foraclusão:

A foraclusão é o nome da fratura que os encerrou fora de toda inscrição, fora das pegadas na rota dos nossos sonhos, do céu dos nossos pensamentos, da casa da nossa dor ou da nossa alegria [...] A foraclusão não atingiu apenas os significantes fundadores do inconsciente, ela jogou fora a sua chave para sempre; expulsou-os para longe, muito longe dos presos nesse estranho exterior [...] O exílio fratura a memória; as fotografias da família desapareceram, os objetos do lar foram dispersados, não há mais marcas. Mais radical ainda que a supressão das marcas, a ausência de palavras para dizer a supressão das marcas, a ausência de palavras para dizer a supressão abole uma não-marca. (RABINOVITCH, 2001, p. 8).

Pensamento, conduta e afetividade, assim como o próprio viver do sujeito, sua posição e papel enquanto ser-no-mundo, estão em desarmonia, porque é o significante do Nome-do-Pai, foracluído em David, que organiza o mundo para o sujeito, que confere sua realidade ao mundo da percepção.  É o significante Nome-do-Pai, faltante em David, que entrelaça os três registros – Real, Simbólico e Imaginário – e que dá sustentação, estruturação ao sujeito. A estrutura psicótica de David expressa essa falta, esse descentramento, esse estado fora-de-si, manifestação em delírio e/ou alucinação, representadas no personagem pela “busca” incessante da perfeição musical, o Concerto nº 3 de Rachmaninoff, determinada por Peter, enquanto gozo absoluto, gozo do Outro, JA. A psicose, portanto, nada mais é que uma psico-ose, uma psiquê-ose: uma infecção, uma inflamação, uma alteração patológica do psiquismo, da alma. 

REFERÊNCIAS
JORGE, Marco Antonio Coutinho; FERREIRA, Nadiá Paulo. Lacan: o grande freudiano. Rio de Janeiro: Zahar, 2005.
JURANVILLE, Alain. Lacan e a filosofia. Rio de Janeiro: Zahar, 1987.
LACAN, Jacques. O Seminário 3: as psicoses. Rio de Janeiro: Zahar, 1985.
RABINOVITCH, Solal. A foraclusão: presos do lado de fora. Rio de Janeiro: Zahar, 2001
WAELHENS, Alphonse De. A psicose: ensaio de interpretação analítica e existencial. Rio de Janeiro: Zahar, 1990.

ANA – Amor Narcísico Ancestral – Marca Primordial

VERA MARTA REOLON

Resumo: Homens e Mulheres  sul-riograndenses, formação do mito gaúcho, identificatório do lugar masculino/feminino de nosso povo. Relação de Ana Terra com o vento.
Palavras-chave: Homem, mulher, vento, amor.

            Para que sejamos marcados como desejantes, tenhamos “voz plena de valor”, precisamos da marca primordial de instituição narcísica, que denominamos Amor do Outro, Outro este que faz para nós um papel materno, materno de mãe instituidora da marca amorosa que levaremos em nossas vidas. Sem esta marca inicial não somos considerados estruturalmente sujeitos, donos de uma identidade, estaremos sempre presos a alguém que nos deve conduzir pela vida, pois esta marca é primordial, necessária em nossa frenética luta pela libertação. Com a marca podemos nos libertar e seguir, sem a marca estamos presos ao desejo do Outro, inclusive clones que seguem a copiar o “preso”, ao invés de buscar identidades próprias.
  “Freud via nos primórdios da experiência psíquica uma identificação primária que consistiria na “transferência direta e imediata” do ego em formação para o “pai da pré-história individual”, o qual possuiria as características sexuais de pai e mãe e seria um conglomerado de suas funções.”- PAI DA HORDA PRIMITIVA[1]

            A história de Ana Terra faz-nos pensar sobre esta questão. Ana, enquanto sujeito, libertou-se, viveu seu desejo, foi em busca de algo com força e coragem e assumiu as conseqüências de seus atos (responsabilidade, INCLUSIVE SOBRE ROUBOS E TORTURAS – se as idéias não são minhas cito de quem as são – depois de autorizadas e assinadas, assumidas como verdadeiras) , mesmo que isso tenha implicado a dor extrema da rejeição paterna, da afiliação. Assumiu seu filho, viveu, apesar de tudo, até mesmo do sofrimento pela morte de Pedro.
            Ana também é modelo para Érico Veríssimo da mulher regional.  A mulher gaúcha, desde os primórdios é uma mulher forte, longe de ser a prenda enfeitada dos Centros Tradicionalistas, a gaúcha é uma alma forte, lutadora, trabalhadora em todas as tarefas que lhe impõem, ao lado do homem em todas as “lidas” e mesmo na falta dele, quando vai guerrear ou se ausenta para a caça ou para as saídas da estância para a cidade ela assume um lugar duplo, de identidade masculina e feminina, e batalha para que a vida se dê.
  “..conforme os estatutos do MTG e CTGs não há nenhum cargo de importância reservado à mulher. ..São raras as intervenções de mulheres em congressos tradicionalistas, conforme seus anais. As atividades femininas se restringem, quase sempre, à escolha da primeira prenda,etc...Por diversos fatores, a arte tradicionalista não reflete o peão em sua forma real, como ele realmente se estrutura socialmente, mas sim como o patrão gostaria que fosse...”[2]
  
            Rio Grande do Sul, estado desabitado, fronteira do país, clima diferente, terra diferente,...,o vento – o Minuano.
            O Rio Grande do Sul, um estado tardiamente habitado, pelas dificuldades de aqui chegar, pela distância do mar e impossibilidade de portos navegáveis,.., mas também porque o colonizador preferiu estabelecer-se mais ao norte, em terras mais paradisíacas, com praias, sol, calor. Assim, não sabendo bem se era espanhol, português, o RS, sendo um pouco dos dois, mantinha-se perdido entre esses grupos culturais tão distintos. Quando o país Brasil passa a se preocupar com as fronteiras, precisando delimita-las para formar uma base ao sul, começa a povoar estas terras. As dificuldades com o clima, a terra “generosa” (boa e voluntariosa), singular,  basalto (pedra resultante da lava de vulcão “esfriado”) terra roxa (ao centro) e terra batida, arenada ao sul,  faz com que o povo que aqui permanece seja visto como um povo de “raça”, raça distinta, forte, audaz (“faca na bota”). Mas para o povo, misto de índios, negros, imigrantes, mestiços, falta uma identidade. Era preciso achar uma identidade. Identidade de terra: a própria terra, o vento característico. Mas também era preciso achar uma identidade de raça: como são seus homens, e suas mulheres?.
            Os homens, sabe-se, sempre foram audazes guerreiros, “peleando” na defesa de suas terras, de suas fronteiras, para si e para o país. As mulheres, bem essas submetem-se a seus maridos, submetem-se àqueles que amam (quando os casamentos eram arranjados a submissão não se dá, o que autentica essa “passividade” é o amor), porque aqui é RESPEITO. Mas, quando eles partem para seus “jogos de guerra”, elas assumem a casa, a plantação, a fazenda, a família, suas vidas e suas dores,... e esperam.
            Érico Veríssimo, gaúcho, escritor/poeta vai em busca da criação de mito, mito de origem desse povo. Povo que, pertencendo ou não a esta nação brasileira, queria e quer uma identidade própria -  mulher correta – homem correto, mulher ética – homem ético, mulher honrada- homem honrado,  que o identifique e diferencie dos demais. Todo povo precisa de um mito onde se espelhar (que me diga quem sou!), de um lugar a que posso recorrer quando nada mais me resta e devo (preciso!) recriar-me. Surge então, O Tempo e O Vento. A obra começa determinando a epopéia, partindo do O Continente e nos mostrando quem são os homens e as mulheres gaúchos. O homem aqui representado pelo Capitão Rodrigo Cambará, portador do falo para a guerra, para a disputa, à luta. A mulher: Ana Terra, aquela que sabe ouvir o vento, que adquire nele sua força, força vital para a vida, para agüentar as intempéries que a vida oferece.Rodrigo Cambará, marca masculina, Ana Terra, marca feminina. O Tempo e o Vento narra a saga da família Terra-Cambará, em cem anos de história, principiando na figura de Ana Terra, sua filha Bibiana, que se casa com Rodrigo Cambará e assim  sucessivamente, até o século XX e a derrocada da família.
            As mulheres gaúchas estão em Ana Terra, e ela nelas. Ana é aquela que sabe ouvir o vento. Vento diferenciado, vento que traz história, tempo, dor e prazer, amor COM O ÍNDIO, COM O ÚNICO QUE AMOU. Vento de vida, vento de morte. Vento que também faz marca mítica, pois ouvi-lo implica ter dons premonitórios, dons superiores aos demais, implica ser sobre-humano para o bem e para a dor. A alguém que é semi-deus é exigido mais, geralmente acompanhado de mais dor e não mais prazer, pois à semelhança de Jesus Cristo, homem-Deus “porque mais te foi dado, mais te será exigido”.
Se assim procedem, seriam elas suas mulheres? . Não! Homens fortes – Mulheres fortes, senão não é casamento.
            O Vento Minuano é que dá força a Ana, é dele que ela extrai vida, falo, força vital para agüentar as intempéries e viver. Vento caracterísitco, vento com som, grito, sunido, um choro, vento dolorido, que diz de toda dor que há.
“..se a palavra pênis fica reservada ao membro real, a palavra falo, derivada do latim, designa esse órgão mais no sentido simbólico.... o adjetivo “fálico” ocupa um grande lugar na teoria freudiana da libido única (de essência masculina), na doutrina da sexualidade feminina e da diferença sexual e, por fim, na concepção dos diferentes estádios... o falo é um atributo divino, ..Lacan faz do falo o próprio significante do desejo, ..”[3] 

..sempre que me acontece alguma coisa importante, está ventando...”[4]

               Às mulheres era relegado um segundo plano nas estâncias, pelos que detinham o poder, sem falo (líder tem falo, é reconhecido, valorizado), sempre à mercê dos anseios do dono da casa, ora trabalhando com eles na “lida” da terra, ora cuidando da casa, das roupas, da vida. Em casa de Ana não era diferente, sua vida era o trabalho, não havia diversão, alegrias, trocas. Na falta de pessoas com quem se comunicar Ana comunica-se com o vento. O Vento aqui é uma presença/ausência, polifônico, Bakhtin,  que preenche os vazios de comunicação, de tristeza, de solidão.
            À semelhança das vozes polifônicas de Dostoievski, no olhar de Bakhtin, Érico Veríssimo, transpõe diálogos e pensamentos de Ana com o vento que dizem do não-dito, dizem e dão vida. Não há possibilidade de miscibilidade do que é singular, particular. O que pode haver é apenas trocas, só assim haverá plenitude.
a multiplicidade de vozes e consciências independentes e imiscíveis e a autêntica polifonia de vozes plenivalentes ... a multiplicidade de consciências eqüipolentes e seus mundos que aqui se combinam numa unidade de acontecimento, mantendo a sua imiscibilidade.”[5] 

            A força de Ana, e sua relação com o vento, não se desfaz nem com as agressões e afastamentos do pai. Ana só se  dobra ao amor, em sua relação com “Pedro Missioneiro”, índio/marido, morto pelo pai e irmãos de Ana, porque a engravida sem casar (embora a pureza dos costumes e da sinceridade amorosa de Pedro para com Ana).
            Pedro, desde o primeiro momento, abala Ana com sua simplicidade, sagacidade, força e maciez.
tinha uma voz que não se esperava daquele corpo tão vigoroso, macio e doce.”[6]

            Ana ouvia além do que era dito. Ana ouvia com o coração. Alma, singular e única, não transferível, não miscível, ligada ao corpo e ao espírito.
            Pedro, à semelhança de outros guaranis, aprendera a cultura do branco, aprendera a língua, os costumes e foi enviado pelo governo brasileiro a defender as fronteiras do RS, como soldado da “pátria”. Conseguiu progredir até o cargo de tenente. Sabia latim, castelhano, música, instrumentos, entre outros, ensinados pelos jesuítas nas missões jesuíticas do RS.

“A quem interessar possa. Declaro que o portador da presente, o Ten. Pedro Missioneiro, durante mais de um ano serviu num dos meus esquadrões de cavalaria, tomando parte em vários combates contra os castelhanos e revelando-se um companheiro leal e valoroso. Rafael Pinto Bandeira.”[7]

            A vida para Ana e Dona Henriqueta, para as mulheres então, na estância era triste, sem atrativos, solitária, trabalhosa, no atendimento da casa, do trabalho, sem distrações, vida para o trabalho, sem contatos sociais, fora o da família, que também se mantinha à distância. Daí a relação de Ana com o vento, mística, de escuta. Ana, quando passava alguém pela estância se extasiava (era moça, com os hormônios a funcionar, a pedir vida!). Daí a chegada de Pedro mexer tanto com Ana, mobiliza-la na direção da vida.
            Pedro trabalha na estância, junto aos Terra. Pedro reproduz o sistema aprendido nas missões jesuíticas no trabalho com a terra.
            A vida na estância transcorria dentro da normalidade, levar a produção, trazer materiais necessários à vida diária, rezar, mas era uma reza desvinculada da religião.
            Pedro traz a história do Natal e outras à família Terra. Ana escuta Pedro e a paixão se instala.
            A mulher representada em Ana era mítica, sabia o que iria acontecer, o que devia acontecer, antecipava dor e  vida.
            Pedro, como os demais guaranis, viviam o sexo livremente, sem as imposições religiosas ou familiares. Deita-se com Ana. Mas para ela, ter-se deitado com Pedro, viver este amor só a faz refletir depois: pensa, pensa muito e antecipa também o destino de Pedro.
            Ana engravida, é execrada pelos homens da casa, a mãe a auxilia, mas ela se mantém, mesmo quando os irmãos levam Pedro à morte e o enterram.
            Nasce Pedrinho, a vida na estância continua como sempre. Ana agora tem um companheiro para sua solidão?. Por quê sempre dor?
            Aos poucos, a família (o pai e os irmãos) passa a re-incluir Ana, a conversar com ela. A dor cicatriza, ferida, Ana continua a escutar o vento.
            Após a morte da mãe, o barulho da roca de fiar traz a alma da mãe, a escuta dessa situação Ana divide com o filho, a relação dela com Pedrinho é intensa.
            Ana e sua força, Ana e sua garra, Ana...a mulher, mulher de bravura, mulher que não teme, que faz qualquer coisa para salvar os seus, mesmo que isso demande dor extrema e selvagem como o ataque dos castelhanos, ataque à sua casa, à sua honra, à sua vida. Defende a todos, sujeita-se a dor para que os demais não sofram. Castelhanos saqueadores, ladrões, assassinos, maus cruéis.
            A força volta-lhe e ela decide viver, levar a família, sai em busca de novos horizontes, inclui a família (que restou) em uma caravana, aí sua profissão de “parteira” se instala, quando ela auxilia as mulheres a dar a luz aos filhos que trazem em seus ventres. E a Ana mística, que dá luz onde passa se instala para sempre na alma de todas as mulheres rio-grandenses. Naquelas que têm alma própria.
            Nenhum como Érico soube estabelecer raízes identificatórias em nosso povo, raízes estas que permanecem e são a base de nossa história. 


[1] KRISTEVA, Júlia. No Princípio era o Amor. São Paulo: Brasiliense, 1987. pg.36
[2] GOLIN, Tau. A Ideologia do Gauchismo. Porto Alegre: Tchê Editora, 1983. pg.92 e 93.
[3] ROUDINESCO, Elisabeth, PLON, Michel. Dicionário de Psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998. pg.221. 
[4] VERÍSSIMO, Érico. Ana Terra. São Paulo: Globo, 1995. pg 7.
[5] BAKHTIN, Mikhail. Problemas da Poética de Dostoievski. São Paulo: Editora Forense, 1997. pg 5.
[6] VERÍSSIMO, Érico. Ana Terra. São Paulo: Globo, 1995. pg 21
[7] Idem. pg.23

domingo, 4 de agosto de 2019

TURISMO E IDENTIDADE?!!!!!

        Espantei-me com a afirmação da Secretária Municipal de Turismo, para justificar seu desejo de Caxias pertencer à Região das Hortências, que "turismo não está relacionado com a identidade" (sic). Nada mais equivocado. Como bem se sabe, o turismo se constrói pela identidade cultural, por isso seus desafios na pós-modernidade, em que convivem a globalização (com homogeneização de culturas) e anseio pelas origens (representada no modismo retrô e na valorização do local).

        Espantou-me também todo esse imbróglio, justamente na cidade sede da UCS,  cujo programa de pós-graduação em turismo foi um dos primeiros mestrados criados na instituição, ainda é um dos únicos do tipo no país e referência. Parece-me que este sequer foi consultado (e não se manifesta, por quê?). Até mesmo contraditório, já que a prefeitura é membro do conselho da FUCS, que se orgulha,  e alardeia, em ser comunitária. O PPG não foi consultado. Os inúmeros pesquisadores e professores aí formados e instalados, muito menos. Um contrassenso. 

       Não há turismo que não se alicerce na identidade. Poderia recorrer a diferentes exemplos: na Europa, cuja economia é basicamente vinculada ao turismo (com uma população envelhecida, que sofria muito de desemprego - situação semelhante a atual no Brasil), nas diversificadas matizes identitárias dos estados nordestinos (lembremos da baiana), nos nossos vizinhos (Bento e Garibaldi, que muito sabiamente criaram o Vale dos Vinhedos). Poderia recorrer a teóricos, de diferentes correntes metodológicas, mesmo ideológicas, de internacionais a locais, de  Stuart-Hall a Pozenato. Mas não é preciso, a situação economico-financeira exige (leia o artigo "Investimentos -onde?", de Vera Marta Reolon, publicado aqui em 06.06.2019).

       A identidade cultural se constitui de religiosidade, do trabalho (da produção, dos serviços), da arte, da arquitetura, dos costumes, da tradição (ainda que reinterpretada), da língua, da história de um povo. Elementos que, por sua vez, fortalecem e propiciam o turismo.

        Poderia falar das diferentes manifestações artísticas locais cujo potencial turístico é inestimável (leia-se, inclusive, uma das primeiras Cias. de Dança do Brasil, o IBS, o Mississipi Delta Blues, entre outros), mas já o fiz neste espaço em artigos ignorados pela administração municipal. Recorro, então, ao trabalho que, me parece, é valorizado em consenso pela população. O potencial de nossas vinícolas é imenso, Caxias é campeã em número de cervejarias, mas não há incentivos, não há investimentos, o marketing é escasso,  não há criação de roteiros turísticos nessas áreas. Conversando com proprietários de vinícolas locais, observa-se o desânimo, enquanto o governo não houve seus anseios e Caxias perde o pouco que tinha: ao menos um potencial latente na Região da Uva e do Vinho. 

Note-se que as verbas para fazer parte da região de produção e colheita de uva e vinho foi perdida na "brincadeira" do governo!. Uma lástima e uma vergonha!!!!.


GUILHERME REOLON DE OLIVEIRA
MTb 15.241

domingo, 28 de outubro de 2018

Psico-oncologia: a psicologia como prevenção e tratamento do câncer


Bem....escrevemos o artigo abaixo pelos idos de 2007...ou algo assim....para ser publicado em um LIVRO SOBRE ONCOLOGIA..... 

não é que tanto não publicaram (ou vai-se saber!!!!) o tal livro....sem nos dar qualquer informação....mas também.....SEM QUALQUER ÉTICA.......USARAM NOSSO ARTIGO EM SALA DE AULA..............SEM NOS PEDIR QUALQUER AUTORIZAÇÃO.............SEQUER NOS INFORMAR DO QUE FAZIAM..........


na ACADEMIA (a de PLATÃO!!!!- coitado, se remexe no túmulo!!!)......

e ficamos sabendo por alunos.......disso aí!!!!

professores?????.....realmente!!!!!!!!!

Mais interessante é descobrir que tais (fofocas!!) estão em Brasília.....e nós........



Psico-oncologia: a psicologia como prevenção e tratamento do câncer

Vera Marta Reolon
Guilherme Reolon de Oliveira

Nada lhe posso dar que já não exista em você mesmo. Não posso abrir-lhe outro mundo de imagens, além daquele que há em sua própria alma. Nada lhe posso dar a não ser a oportunidade, o impulso, a chave. Eu o ajudarei a tornar visível o seu próprio mundo, e isso é tudo.
Hermann Hesse

           
Psico-oncologia é a ciência que visa utilizar o saber psicológico em questões relativas ao câncer, sejam elas de ordem teórica ou prática, preventiva ou de tratamento. Desta forma, é um aporte à Oncologia, uma vez que, parte deste estudo, contribui essencialmente à clínica do câncer.
            A psico-oncologia surge como solução à separação mente-corpo, originada com René Descartes, à medida que pensa e analisa o sujeito holisticamente, ou seja, como um todo, de forma que a saúde é resultado de um equilíbrio. Assim, a psico-oncologia é derivada dos estudos da psicossomática, pois entende que fenômenos físicos possam ser conseqüências de traumas emocionais e vice-versa.
A inserção do psicólogo na equipe multidisciplinar, que trata do paciente com câncer, passa a ser oficial a partir da Portaria 2.535, do Ministério da Saúde, de 14 de outubro de 1998. Essa portaria determina a presença obrigatória de psicólogos nos serviços de suporte, como um dos critérios para cadastro de clínicas de oncologia no Serviço Único de Saúde. 
            O psicólogo, contudo, começou a estar presente nessas equipes na década de 70. Na época, atuava como intermediador, uma vez que tinha o objetivo de auxiliar o médico a informar pacientes e familiares quanto ao diagnóstico do câncer, uma dificuldade ainda constante na rotina dos profissionais da saúde. Entendida, algumas vezes, como uma especialidade da Oncologia, a Psico-oncologia estuda as dimensões psicológicas presentes no diagnóstico do câncer. Segundo Holland (1990), ela procura analisar
                       
1) o impacto do câncer no funcionamento emocional do paciente, sua família e profissionais de saúde envolvidos em seu tratamento; 2) o papel das variáveis psicológicas e comportamentais na incidência e na sobrevivência ao câncer (p.11)
           
            Gimenes (1995), levando em conta a realidade brasileira, formulou uma definição da Psico-oncologia, quando da fundação da Sociedade Brasileira de Psico-oncologia. Segundo ele, a Psico-oncologia representa a área de interface entre a Psicologia e a Oncologia e utiliza conhecimentos educacionais, profissionais e metodológicos provenientes da Psicologia da Saúde para aplicá-los:

1º) Na assistência ao paciente oncológico, sua família e profissionais de Saúde envolvidos com a prevenção, o tratamento, a reabilitação e a fase terminal da doença;
2º) Na pesquisa e no estudo de variáveis psicológicas e sociais relevantes para a compreensão da incidência, da recuperação e do tempo de sobrevida após o diagnóstico do câncer;
3º) Na organização de serviços oncológicos que visem ao atendimento integral do paciente, enfatizando de modo especial a formação e o aprimoramento dos profissionais da Saúde envolvidos nas diferentes etapas do tratamento (p.46)

Como suporte à oncologia, o psico-oncologista atua no tratamento do paciente com câncer, com vistas à melhora de sua qualidade de vida, ao prolongamento desta, ao aumento de sua auto-estima. O psicólogo atuante na equipe oncológica tem por principal finalidade ajudar o paciente em sua auto-compreensão, no entendimento de sua patologia e num prolongamento de sua vida saudável.
            O psico-oncologista pretende também ser o profissional que escutará os anseios dos familiares do paciente, já que por receio ou compaixão, não expõem a este suas dúvidas, suas particularidades e seu sofrimento em toda a situação vivenciada. É nos grupos de apoio e nos atendimentos individuais que, muitas vezes, os familiares se sentem mais bem acolhidos e, com isso, propiciam ao paciente um melhor andamento do tratamento e uma melhor qualidade de vida.
            Nas equipes de oncologia, o psicólogo desempenha um importante papel quando serve de apoio também aos profissionais que ali trabalham. Médicos, enfermeiros, nutricionistas e terapeutas ocupacionais que convivem com o paciente com câncer estão em constante relação com a morte – embora esta seja uma realidade que vem mudando, à medida que a área de Ciências da Saúde avança em seus estudos. A morte, não se pode negar, é um tabu e um fator desconfortável, desconhecido, na vida humana e, por ser um “buraco negro” na psiquê humana, mobiliza sentimentos múltiplos em todos: pacientes, familiares e também, naturalmente, os  técnicos envolvidos no processo.    
           

Psicologia e Câncer


Toda palavra tem sempre um mais além, sustenta muitas funções, envolve muitos sentidos. Atrás do que diz um discurso, há o que ele quer dizer e, atrás do que quer dizer, há ainda um outro querer dizer, e nada será nunca esgotado.
Jacques Lacan

            Estudos recentes demonstram que o câncer e as enfermidades oncológicas, caracterizadas pela anormalidade das células e sua divisão excessiva, têm causa multifatorial. Assim, predisposição genética, exposição ambiental de risco, contágio por vírus, uso de cigarro, ingestão excessiva de álcool e outras substâncias psico-ativas ou alimentícias cancerígenas ( os tais estabilizantes, edulcolorantes e tais!- isso aí já se estudava nos anos 70, em aulas de química!), dentre outros, são fatores que contribuem para o desenvolvimento do câncer. Atualizando para os dias de hoje (2018) pensamos inclusive no uso de Lítio e Silício, ligados especialmente ao uso de celulares e computadores. Cuidado, isso já era fonte de pesquisa nos idos de 1950!!!!!!  
            Pesquisadores também vêm demonstrando que determinados estados emocionais, traumas e situações psiquicamente não resolvidas causam modificações nas taxas hormonais e no sistema imunológico. Cientistas acreditam que a depressão e o estresse são fatores amplamente relacionados ao câncer, pois contribuem para a formação de tumores. Pensa-se hoje que muitos pacientes como que “desejam” um câncer, “fazem“ esta “ferida” no corpo, para dar conta de uma dor maior que carregam em suas almas.
            Desta forma, a presença do psicólogo é indispensável na clínica oncológica. Grupos de apoio e psicoterapia com pacientes e familiares são importantes antes, durante e após o diagnóstico de câncer. O psicólogo propicia que o paciente e os que o rodeiam possam lidar melhor com a situação-problema, compreendam o funcionamento da doença e atuem de forma que o tratamento se desenvolva satisfatoriamente.
            Sabe-se, hoje, que cerca de 60% das formas de câncer são passíveis de prevenção, o que torna importante uma política social de saúde, no sentido de orientar a população na busca de uma vida mais saudável, de realização pessoal, profissional, familiar, de ambientes sociais agradáveis, de uma leveza maior na condução da vida. A atuação do psicólogo, em suas diferentes modalidades – grupos de apoio, psicoterapia individual, aconselhamento, reabilitação – tem se mostrado relevante e essencial na clínica oncológica. A transmissão do diagnóstico, a aceitação do tratamento, a obtenção de uma melhor qualidade de vida são aspectos que incidem sobre a psicologia. A aceitação da morte, por parte dos pacientes terminais e de seus familiares, é outro fator que requer a figura do psicólogo.
            Pesquisas da área mostram também que a ajuda psicológica às famílias de pacientes com câncer, sofredoras, com suas particularidades, suas angústias e seus medos, tem sido considerada essencial, uma vez que as auxiliam no despreparo frente à doença. O apoio familiar é de extrema importância para o paciente.
            Os profissionais das Ciências da Saúde, por sua vez, quando exercem determinada função na clínica oncológica, responsáveis por tratamentos invasivos, que infringem grande sofrimento e nem sempre levam à cura e/ou à recuperação, também necessitam de apoio psicológico. Esses profissionais lidam, constantemente com situações de morte e apresentam, na maioria das vezes, um alto nível de estresse.

Psico-oncologia e a atualidade

            A psico-oncologia ainda é encarada, por certos profissionais, como uma especialidade sem fins, inútil. Os seguidores do modelo biomédico não a aceitam, pois entendem que o câncer e suas origens não têm relação com o emocional e o psíquico do paciente. A psico-oncologia, nestes casos, é contestada através de pesquisas sobre mutações genéticas e alterações moleculares. Quando psicopatologias estão presentes no paciente oncológico, os seguidores desse modelo as tratam com psico-fármacos, desvalorizando o tratamento psicoterápico e psicológico, que poderia auxiliar, e muito, nessas enfermidades.
            Carvalho (2002) questiona e põe em xeque o modelo biomédico que desconsidera a Psiquiatria Psicodinâmica e a Psicologia como ciências importantes na clínica oncológica:

por que uma determinada célula, em determinado momento, sofre uma mutação que a leva a uma proliferação inadequada e descontrolada? Por que em situações de exposição a elementos químicos altamente cancerígenos algumas pessoas desenvolvem um câncer e outras não? Por que nem todos os fumantes desenvolvem um câncer, sendo o cigarro comprovadamente cancerígeno? Através exatamente de que processo ocorre a interferência do sistema imunológico no câncer? O que explica o efeito placebo? E as remissões espontâneas, conhecidas por todos os médicos? Qual o papel da fé nas curas inexplicáveis?

            O autor acrescenta, ainda, que estas e outras perguntas só serão respondidas através de uma compreensão ampla do ser humano. Isso porque o diagnóstico de câncer tem inúmeras implicações. Ele traz a idéia de morte, ainda que, atualmente, a cura tem acontecido mais. A perda de cabelo, quando da quimio e da radioterapia, a figuração abatida, os efeitos colaterais, os estigmas, a depressão, a ansiedade, o medo, a revolta, a insegurança, as alterações de humor, a perda da autonomia, entre outros aspectos, são importantes fatores que conduzem ao sofrimento, desencadeiam processos emocionais, com problemáticas psíquicas e que, logo, exigem a presença do psicólogo na clínica oncológica.
            Carvalho aponta também as diferenças de abordagens e linhas teóricas dos psicólogos, uma vez que psicanalistas, psicoterapeutas cognitivos, existencialistas, humanistas, comportamentais, transpessoais, dentre outros, todos, podem atuar e atuam na Psico-oncologia. Isso, contudo, leva a questões:

deve-se focalizar o câncer e suas conseqüências, em uma terapia breve focal, ou buscar nas origens da personalidade do paciente, explicações para o próprio desenvolvimento do câncer? (CARVALHO, 2002).    

            O autor questiona, ainda, a possibilidade de haver uma determinada personalidade típica do paciente oncológico. Vamos mais além e perguntamos se  há uma estrutura clínica particular deste tipo de paciente. Será que existem fatores emocionais infantis que incidem sobre esta patologia? Ou determinados traumas que levam ao seu surgimento? Seu desenvolvimento seria desencadeado por outras psicopatologias, muitas vezes encobertas por sintomas físicos? Ainda, a abordagem do profissional de psicologia, sua linha teórica, importa menos do que efetivamente escutar o paciente e atendê-lo, ouvi-lo até onde ele quiser falar, escutá-lo com o amor necessário a levá-lo a conhecer-se, respeitar-se e, por conseqüência, viver melhor consigo mesmo e com os que o rodeiam.
            Ainda não se tem pesquisas e conhecimentos que co-relacionem processos psicológicos com o câncer. Grande dificuldade de auto-afirmação, raiva não expressa, ansiedade e sentimentos reprimidos, profunda desesperança e infâncias marcadas por negligência, abandono e isolamento, com fortes sentimentos de perdas são elementos apontados por diferentes autores (Le Shan, 1997; MacDougall, 1991; Marty, 1993; Temoshok, 1992; e outros) para o aparecimento e o desenvolvimento do câncer.
            A motivação emocional tem sido o fator mais citado e lembrado como essencial pelos pacientes sobreviventes do câncer para a sua cura. Pouco conhecimento se tem, contudo, do papel da psique na clínica oncológica. Este e outros desafios estimulam a criação e o desenvolvimento de pesquisas em Psico-oncologia.
            Siegel, em seu artigo “O que os médicos devem saber” (1997), descreve a importância de se perguntar ao paciente o que ele está sentindo. E o mais importante: ouvir a sua resposta, escutá-la realmente. Não podemos desvincular o físico, o psíquico, o emocional e o espiritual, uma vez que o ser humano é um só, a integração das partes. Segundo Siegel, as doenças que ameaçam a vida são necessariamente transformadoras. Devemos, assim, compreender o paciente como um todo, apoiando-o nas transformações que surgirem com o câncer, bem como ouvi-lo, aprender com ele. É essencial que lembremos que estamos cuidando e tratando de um ser humano e não apenas da enfermidade que ele, neste momento, carrega e suporta, com sofrimento. Eis a principal contribuição da Psico-oncologia para a clínica do câncer.

Referências bibliográficas
CARVALHO, M.M. Psico-oncologia: história, características e desafios. Psicologia USP, 13 (1), 151-166, 2002.
GIMENES, M.G. Definição, foco de estudo e intervenção. In: CARVALHO, M.M. Introdução à psicooncologia. Campinas: Psy, 1994.    
GUIMARÃES, J.R.Q. (Org.). Manual de Oncologia - Libbs. 2 ed. São Paulo: BBS, 2006.
HOLLAND, J. Historical overview. In: HOLLAND, J.; ROWLAND, J. (Eds.). Handbook of psychooncology. New York: Oxford Press, 1990.
LE SHAN, L. You can fight for your life: emotional factors in the causation of cancer. New York: Evans, 1997.
MARTY, P. A psicossomática do adulto. São Paulo: Artes Médicas, 1993.
MCDOUGALL, J. Teatros do corpo: o psicossoma em psicanálise. São Paulo: Martins Fontes, 1991.
SIEGEL, B. O que os médicos precisam saber. Advances, 13 (1), 1997.
TEMOSHOK, L. The type C connection: the behavior links to câncer and your health. Nwe York: Ramdom House, 1992.
UICC – União Internacional Contra o Câncer. Manual de Oncologia Clínica. 8 ed. São Paulo: Fundação Oncocentro de São Paulo, 2006.