VERA MARTA REOLON
Resumo: Homens e
Mulheres sul-riograndenses, formação do
mito gaúcho, identificatório do lugar masculino/feminino de nosso povo. Relação
de Ana Terra com o vento.
Palavras-chave:
Homem, mulher, vento, amor.
Para que
sejamos marcados como desejantes, tenhamos “voz plena de valor”, precisamos da
marca primordial de instituição narcísica, que denominamos Amor do Outro, Outro
este que faz para nós um papel materno, materno de mãe instituidora da marca
amorosa que levaremos em nossas vidas. Sem esta marca inicial não somos
considerados estruturalmente sujeitos, donos de uma identidade, estaremos
sempre presos a alguém que nos deve conduzir pela vida, pois esta marca é
primordial, necessária em nossa frenética luta pela libertação. Com a marca
podemos nos libertar e seguir, sem a marca estamos presos ao desejo do Outro, inclusive
clones que seguem a copiar o “preso”, ao invés de buscar identidades próprias.
“Freud via nos primórdios da experiência psíquica uma
identificação primária que consistiria na “transferência direta e imediata” do
ego em formação para o “pai da pré-história individual”, o qual possuiria as
características sexuais de pai e mãe e seria um conglomerado de suas funções.”-
PAI DA HORDA PRIMITIVA[1]
A história de Ana Terra faz-nos
pensar sobre esta questão. Ana, enquanto sujeito, libertou-se, viveu seu
desejo, foi em busca de algo com força e coragem e assumiu as conseqüências de
seus atos (responsabilidade, INCLUSIVE SOBRE ROUBOS E TORTURAS – se as idéias
não são minhas cito de quem as são – depois de autorizadas e assinadas,
assumidas como verdadeiras) , mesmo que isso tenha implicado a dor extrema da
rejeição paterna, da afiliação. Assumiu seu filho, viveu, apesar de tudo, até
mesmo do sofrimento pela morte de Pedro.
Ana também é modelo para Érico
Veríssimo da mulher regional. A mulher
gaúcha, desde os primórdios é uma mulher forte, longe de ser a prenda enfeitada
dos Centros Tradicionalistas, a gaúcha é uma alma forte, lutadora, trabalhadora
em todas as tarefas que lhe impõem, ao lado do homem em todas as “lidas” e
mesmo na falta dele, quando vai guerrear ou se ausenta para a caça ou para as
saídas da estância para a cidade ela assume um lugar duplo, de identidade
masculina e feminina, e batalha para que a vida se dê.
“..conforme os estatutos do MTG e
CTGs não há nenhum cargo de importância reservado à mulher. ..São raras as
intervenções de mulheres em congressos tradicionalistas, conforme seus anais.
As atividades femininas se restringem, quase sempre, à escolha da primeira
prenda,etc...Por diversos fatores, a arte tradicionalista não reflete o peão em
sua forma real, como ele realmente se estrutura socialmente, mas sim como o
patrão gostaria que fosse...”[2]
Rio Grande do Sul, estado
desabitado, fronteira do país, clima diferente, terra diferente,...,o vento – o
Minuano.
O Rio Grande do Sul, um estado
tardiamente habitado, pelas dificuldades de aqui chegar, pela distância do mar
e impossibilidade de portos navegáveis,.., mas também porque o colonizador
preferiu estabelecer-se mais ao norte, em terras mais paradisíacas, com praias,
sol, calor. Assim, não sabendo bem se era espanhol, português, o RS, sendo um
pouco dos dois, mantinha-se perdido entre esses grupos culturais tão distintos.
Quando o país Brasil passa a se preocupar com as fronteiras, precisando
delimita-las para formar uma base ao sul, começa a povoar estas terras. As
dificuldades com o clima, a terra “generosa” (boa e voluntariosa),
singular, basalto (pedra resultante da lava
de vulcão “esfriado”) terra roxa (ao centro) e terra batida, arenada ao sul, faz com que o povo que aqui permanece seja
visto como um povo de “raça”, raça distinta, forte, audaz (“faca na bota”). Mas
para o povo, misto de índios, negros, imigrantes, mestiços, falta uma
identidade. Era preciso achar uma identidade. Identidade de terra: a própria
terra, o vento característico. Mas também era preciso achar uma identidade de
raça: como são seus homens, e suas mulheres?.
Os homens, sabe-se, sempre foram audazes
guerreiros, “peleando” na defesa de suas terras, de suas fronteiras, para si e
para o país. As mulheres, bem essas submetem-se a seus maridos, submetem-se
àqueles que amam (quando os casamentos eram arranjados a submissão não se dá, o
que autentica essa “passividade” é o amor), porque aqui é RESPEITO. Mas, quando
eles partem para seus “jogos de guerra”, elas assumem a casa, a plantação, a
fazenda, a família, suas vidas e suas dores,... e esperam.
Érico Veríssimo, gaúcho,
escritor/poeta vai em busca da criação de mito, mito de origem desse povo. Povo
que, pertencendo ou não a esta nação brasileira, queria e quer uma identidade
própria - mulher correta – homem correto,
mulher ética – homem ético, mulher honrada- homem honrado, que o identifique e diferencie dos demais.
Todo povo precisa de um mito onde se espelhar (que me diga quem sou!), de um
lugar a que posso recorrer quando nada mais me resta e devo (preciso!)
recriar-me. Surge então, O Tempo e O Vento. A obra começa determinando a
epopéia, partindo do O Continente e nos mostrando quem são os homens e as
mulheres gaúchos. O homem aqui representado pelo Capitão Rodrigo Cambará,
portador do falo para a guerra, para a disputa, à luta. A mulher: Ana Terra,
aquela que sabe ouvir o vento, que adquire nele sua força, força vital para a
vida, para agüentar as intempéries que a vida oferece.Rodrigo Cambará, marca
masculina, Ana Terra, marca feminina. O Tempo e o Vento narra a saga da família
Terra-Cambará, em cem anos de história, principiando na figura de Ana Terra,
sua filha Bibiana, que se casa com Rodrigo Cambará e assim sucessivamente, até o século XX e a derrocada
da família.
As mulheres gaúchas estão em Ana
Terra, e ela nelas. Ana é aquela que sabe ouvir o vento. Vento diferenciado,
vento que traz história, tempo, dor e prazer, amor COM O ÍNDIO, COM O ÚNICO QUE
AMOU. Vento de vida, vento de morte. Vento que também faz marca mítica, pois
ouvi-lo implica ter dons premonitórios, dons superiores aos demais, implica ser
sobre-humano para o bem e para a dor. A alguém que é semi-deus é exigido mais,
geralmente acompanhado de mais dor e não mais prazer, pois à semelhança de
Jesus Cristo, homem-Deus “porque mais te foi dado, mais te será exigido”.
Se assim procedem, seriam elas suas mulheres? . Não! Homens fortes –
Mulheres fortes, senão não é casamento.
O Vento Minuano é que dá força a
Ana, é dele que ela extrai vida, falo, força vital para agüentar as intempéries
e viver. Vento caracterísitco, vento com som, grito, sunido, um choro, vento
dolorido, que diz de toda dor que há.
“..se
a palavra pênis fica reservada ao membro real, a palavra falo, derivada do
latim, designa esse órgão mais no sentido simbólico.... o adjetivo “fálico”
ocupa um grande lugar na teoria freudiana da libido única (de essência
masculina), na doutrina da sexualidade feminina e da diferença sexual e, por
fim, na concepção dos diferentes estádios... o falo é um atributo divino,
..Lacan faz do falo o próprio significante do desejo, ..”[3]
“..sempre que me acontece alguma coisa importante, está ventando...”[4]
Às mulheres era relegado um segundo plano nas
estâncias, pelos que detinham o poder, sem falo (líder tem falo, é reconhecido,
valorizado), sempre à mercê dos anseios do dono da casa, ora trabalhando com
eles na “lida” da terra, ora cuidando da casa, das roupas, da vida. Em casa de
Ana não era diferente, sua vida era o trabalho, não havia diversão, alegrias,
trocas. Na falta de pessoas com quem se comunicar Ana comunica-se com o vento.
O Vento aqui é uma presença/ausência, polifônico, Bakhtin, que preenche os vazios de comunicação, de
tristeza, de solidão.
À semelhança das vozes polifônicas
de Dostoievski, no olhar de Bakhtin, Érico Veríssimo, transpõe diálogos e
pensamentos de Ana com o vento que dizem do não-dito, dizem e dão vida. Não há
possibilidade de miscibilidade do que é singular, particular. O que pode haver
é apenas trocas, só assim haverá plenitude.
“a multiplicidade de vozes e consciências independentes e imiscíveis e a
autêntica polifonia de vozes plenivalentes ... a multiplicidade de consciências
eqüipolentes e seus mundos que aqui se combinam numa unidade de acontecimento,
mantendo a sua imiscibilidade.”[5]
A força
de Ana, e sua relação com o vento, não se desfaz nem com as agressões e
afastamentos do pai. Ana só se dobra ao
amor, em sua relação com “Pedro Missioneiro”, índio/marido, morto pelo pai e
irmãos de Ana, porque a engravida sem casar (embora a pureza dos costumes e da
sinceridade amorosa de Pedro para com Ana).
Pedro, desde o primeiro momento,
abala Ana com sua simplicidade, sagacidade, força e maciez.
Ana ouvia
além do que era dito. Ana ouvia com o coração. Alma, singular e única, não
transferível, não miscível, ligada ao corpo e ao espírito.
Pedro, à semelhança de outros
guaranis, aprendera a cultura do branco, aprendera a língua, os costumes e foi
enviado pelo governo brasileiro a defender as fronteiras do RS, como soldado da
“pátria”. Conseguiu progredir até o cargo de tenente. Sabia latim, castelhano,
música, instrumentos, entre outros, ensinados pelos jesuítas nas missões
jesuíticas do RS.
“A quem interessar possa. Declaro que o portador da
presente, o Ten. Pedro Missioneiro, durante mais de um ano serviu num dos meus
esquadrões de cavalaria, tomando parte em vários combates contra os castelhanos
e revelando-se um companheiro leal e valoroso. Rafael Pinto Bandeira.”[7]
A
vida para Ana e Dona Henriqueta, para as mulheres então, na estância era
triste, sem atrativos, solitária, trabalhosa, no atendimento da casa, do
trabalho, sem distrações, vida para o trabalho, sem contatos sociais, fora o da
família, que também se mantinha à distância. Daí a relação de Ana com o vento,
mística, de escuta. Ana, quando passava alguém pela estância se extasiava (era
moça, com os hormônios a funcionar, a pedir vida!). Daí a chegada de Pedro
mexer tanto com Ana, mobiliza-la na direção da vida.
Pedro trabalha na estância, junto
aos Terra. Pedro reproduz o sistema aprendido nas missões jesuíticas no
trabalho com a terra.
A vida na estância transcorria
dentro da normalidade, levar a produção, trazer materiais necessários à vida
diária, rezar, mas era uma reza desvinculada da religião.
Pedro traz a história do Natal e
outras à família Terra. Ana escuta Pedro e a paixão se instala.
A mulher representada em Ana era
mítica, sabia o que iria acontecer, o que devia acontecer, antecipava
dor e vida.
Pedro, como os demais guaranis,
viviam o sexo livremente, sem as imposições religiosas ou familiares. Deita-se
com Ana. Mas para ela, ter-se deitado com Pedro, viver este amor só a faz
refletir depois: pensa, pensa muito e antecipa também o destino de Pedro.
Ana engravida, é execrada pelos
homens da casa, a mãe a auxilia, mas ela se mantém, mesmo quando os irmãos
levam Pedro à morte e o enterram.
Nasce Pedrinho, a vida na estância
continua como sempre. Ana agora tem um companheiro para sua solidão?. Por quê
sempre dor?
Aos poucos, a família (o pai e os
irmãos) passa a re-incluir Ana, a conversar com ela. A dor cicatriza, ferida, Ana
continua a escutar o vento.
Após a morte da mãe, o barulho da
roca de fiar traz a alma da mãe, a escuta dessa situação Ana divide com o
filho, a relação dela com Pedrinho é intensa.
Ana e sua força, Ana e sua garra,
Ana...a mulher, mulher de bravura, mulher que não teme, que faz qualquer coisa
para salvar os seus, mesmo que isso demande dor extrema e selvagem como o
ataque dos castelhanos, ataque à sua casa, à sua honra, à sua vida. Defende a
todos, sujeita-se a dor para que os demais não sofram. Castelhanos saqueadores,
ladrões, assassinos, maus cruéis.
A força volta-lhe e ela decide
viver, levar a família, sai em busca de novos horizontes, inclui a família (que
restou) em uma caravana, aí sua profissão de “parteira” se instala, quando ela
auxilia as mulheres a dar a luz aos filhos que trazem em seus ventres. E a Ana
mística, que dá luz onde passa se instala para sempre na alma de todas as
mulheres rio-grandenses. Naquelas que têm alma própria.
Nenhum como Érico soube estabelecer
raízes identificatórias em nosso povo, raízes estas que permanecem e são a base
de nossa história.
[1] KRISTEVA, Júlia. No
Princípio era o Amor. São Paulo: Brasiliense, 1987. pg.36
[2] GOLIN, Tau. A Ideologia
do Gauchismo. Porto Alegre: Tchê Editora, 1983. pg.92 e 93.
[3] ROUDINESCO, Elisabeth, PLON,
Michel. Dicionário
de Psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998. pg.221.
[4] VERÍSSIMO, Érico. Ana
Terra. São Paulo: Globo, 1995. pg 7.
[5] BAKHTIN, Mikhail. Problemas
da Poética de Dostoievski. São Paulo: Editora Forense, 1997. pg 5.
[6] VERÍSSIMO, Érico. Ana
Terra. São Paulo: Globo, 1995. pg 21
[7] Idem. pg.23
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