VERA MARTA
REOLON
GUILHERME REOLON DE
OLIVEIRA
CURADORIA!
Qualquer um pode
ser Curador?
O que é
curadoria?
Pois bem!
Curador
é cuidar, zelar pela obra do artista, dar visibilidade ao trabalho dele. Cuida
do negócio da arte, em contraposição à criação em arte.
Curadoria
é um campo interdisciplinar (valor da obra, patrocínio, logística, aluguel de
espaço, iluminação, contacto com imprensa, contextualização (histórica,
cultural e teórica) do trabalho ). De onde e para onde a obra quer ir. Levantar
características que dêem visibilidade à obra.
Trabalho
do curador abre um acontecimento, apresenta o trabalho como matrizes para novas
seqüências: raízes e ramos que podem surgir da obra. Acrescenta marketing e
outras linguagens à obra. Abre um sentido, dá sentido ou dá um espaço para que
outros sentidos possam surgir. O curador deve ter sensibilidade para apresentar
o objeto curado para que não haja prejuízo de percepção. Não deformar o
trabalho nem para mais, nem para menos. Tem uma função social e de educação não
formal. – a partir de texto de Cauê Alves, intitulado Curadoria como
historicidade viva.
A
exposição fotográfico-performática A fotografia como
corpo performatizado: a autoridade de imagem construída, que está
acontecendo no Espaço Cultural ESPM-SUL, sob curadoria de Niura Legramante
Ribeiro, certamente atinge os objetivos de uma curadoria como o autor propõe.
A
curadora apresenta a idéia de fotografias com corpos-modelos, apresentando
movimentos, vinculados ou não à natureza, aos objetos, à vida que se desenvolve
e se desenrola no decorrer do tempo fotografado.
A
curadora apresenta as fotografias, como momento do modelo fotografado – o performer, o
fotógrafo está aí para registrar este momento.
Diversos
são os fotógrafos, como diversos são também os modelos fotografados, os
ambientes, as nuances de cor, sugestão de movimentos, luz, imagem.
Segundo
a curadoria a fotografia selou um pacto com a representatividade, para formar
uma noção de imagem.
Para
mim, a fotografia, em seu início, buscava registrar e reter um momento, uma
imagem que se quisesse perpetuar na lembrança. Esta era a função da fotografia.
Em
nossos dias, a manipulação das imagens, em todos os contextos, mesmo para
retocar uma fotografia mal-feita, ou sem os resultados esperados, para
manipular a imagem de uma modelo com distorções, imperfeições, tudo se tornou
uma outra busca, uma busca performática que faz, tanto do modelo retratado,
quanto do fotógrafo, um possível “artista”.
Esta
acaba sendo a idéia proposta pela curadoria no caso, penso eu, com os artistas
presentes na apresentação (fotógrafos e modelos).
A
curadoria preparou fotografias performáticas, aliando movimentos, simulados ou
não, a manipulações das imagens, propondo novas (ou velhas leituras).
Em
fotografias de inserções de modelos na natureza, a cor, a luz, a sombra, o
aparecer-desaparecer.
Registros
de sombras, de movimentos, a sombra => seqüências de fotos e/ou manipulação
de imagens, seqüências como cinema, dando a sensação do movimento através do
tempo.
Selecionamos,
de início, duas fotografias da mesma fotógrafa, Danny Bittencourt.
1
DANNY BITTENCOURT
Superfície
Impressão em papel
Fine Art
A
fotografia mostra uma modelo deitada sobre a água com perna e braço esquerdo
erguidos. Aqui o movimento é o correr da água, a modelo está imóvel no momento
da tomada, mantendo um braço e uma perna fora da água. Estes membros não estariam
sob o efeito do movimento da água?
2
DANNY BITTENCOURT
Resistência
Impressão em papel
Fine Art
A
fotografia retrata uma modelo na beira do rio, prestes a cair (ou dá a idéia de
que está a cair dentro do rio) e o fotógrafo registra este ínterim anterior à
queda.
Aqui
o movimento é o da modelo. Ela está em movimento no ar, na “cena”.
3
CLÓVIS DARIANO
Do sagrado ao profano,
2014
Fotografia digital,
60x80
Uma
imagem, circundada por diversas imagens, se contrapõe àquelas. A primeira,
centralizada, em tamanho maior, parece estática. As demais, menores, por
estarem “desfocadas”, remetem ao movimento. Mas a diferença é enganosa. O
conjunto lembra uma obra fílmica, na qual se desenrola uma ação: o estar no
quarto, o despir-se, culminando no ato masturbatório. A agilidade das primeiras
ações parece quebrar-se num momento quase estático do último ato, representado
na imagem central. O estático do êxtase remete à idéia metafísica de que o
orgasmo é um “breve morrer” – aqui poderíamos dizer que há um paralelo do
conjunto de imagens com a escultura “O êxtase de Santa Tresa “ de Bernini: um
movimento estático, um êxtase em ação. E “do sagrado ao profano” pode, neste
sentido, també configurar-se em “do profano ao sagrado”. Basta uma outra
perspectiva hermenêutica.
4
NATÁLIA SCHULL
Movimento, 2015
Fotografia em papel
fotográfico, 90x60
Uma
série de imagens, colocadas lado-a-lado, enfileiradas, pode muito bem ser
“lida” como um texto: da esquerda para a direita, de cima para baixo, tal como
uma narrativa. Mas imagens correspondem a palavras? Há uma sintaxe que ligaria
uma imagem a outra, formando um texto? Diversas imagens formam um conjunto
narrativo? O cinema afirmará que sim. Mas a dúvida permanece. A
artista-fotógrafa parece concordar, ao nomear sua obra “Movimento”. O conjunto
de “Movimento”, assim, parece uma dança, uma obra coreográfica, uma “escrita de
movimento”. A obra em questão, fotográfica, transfigura-se, neste sentido, em
uma partitura de dança. Muito bem elaborada.
Fundação Iberê
Camargo
A
curadoria preparou uma exposição da obra de Iberê, denominada Diálogos no Tempo.
Curadora:
Angélica de Moraes
A
proposta é apresentar ao público uma investigação sobre o “DNA” da obra de
Iberê. A curadora estabeleceu o período em que conheceu o artista, por volta de
1980, momento em que Iberê empreendeu um movimento de retorno ao corpo humano,
à figura humana, aos reflexos que deformam o que espelham, com fartas camadas
de tinta, as linhas em seu elemento natural.
5
IBERÊ CAMARGO
Estudos para a
pintura Fantasmagoria IV, 1987
Tinta de
esferográfica sobre papel, 32x17cm, 31,8x21,2cm
Col. Maria Coussirat
Camargo/Fun dação Iberê Camargo, Porto Alegre.
Tracejados
em preparação para uma possível pintura, um corpo feminino, um corpo masculino,
anotações. O traçado dos corpos e a provável idéia de uso em serigrafias, sua
mostra das obras nesta modalidade evidencia o uso do corpos e riscos coloridos
sobre estes, como o proposto neste esboço (os riscos sobre os corpos!).
6
IBERÊ CAMARGO
Iberê, 1987
Óleo sobre
tela/78x55cm
Col. Maria Coussirat
Camargo/Fundação Iberê Camargo, Porto Alegre
Auto-retrato
do artista. Tela escura, uso de cores escuras, excessos de tinta. O “retrato”
se faz com sulcos profundos realizados com algum objeto pontiagudo que
determina o traçado.
Esta
tela, aparentemente, remete a outra do começo do artista em um auto-retrato, lá
bem mais delineado e claro, quase uma fotografia mesmo, de sua juventude. Digo
que a tela proposta remete à segunda (que é anterior) pois ambas
foram expostas juntas.
Na
proposta da curadora as telas realmente foram colocadas, na exposição, lado a
lado para que o visitante possa compará-las em momentos distintos da obra do
artista.
Importante
dizer que Iberê nasceu em 1914, em 18.11, em Restinga Seca (RS) e morreu em 09
de agosto de 1994, em Porto Alegre (RS).
7
IBERÊ CAMARGO
Diálogo, 1987
Óleo sobre tela
42x30cm
col.
Maria Coussirat Camargo / Fundação Iberê Camargo, Porto Alegre
A
figuração, retomada por Iberê na década de 1980, está presente, com traçados e
pinceladas que remetem ao cubismo, com noção de perspectiva modificada, ora
parecendo figuras “chapadas”, como nas pinturas bizantinas. O uso das cores
escuras dominantes é contrastado com o branco que preenche os corpos. O estilo
de Iberê se faz presente. Quanto ao conteúdo: o “diálogo” que dá nome à obra
parece não-dialógico, muito mais impositivo, com um dos retratados com “dedo em
riste”. O outro retratado, no entanto, ri. Que diálogo resta quando as línguas
(os idiomas/as intenções) não conversam? Figura-se a “diferença” na obra, mas
os diferentes, impondo-se, excluem-se. Fica a intolerância.
Exposição de
Sérgio Camargo – Fundação Iberê Camargo
Exposição
sob o título: Luz e Matéria
Curadoria
Paulo Sérgio Dutra e Cauê Alves
Segundo
os curadores a obra do artista se confunde com seu método de trabalho.Sérgio Camargo
(1930-1990). Criação como processo íntimo da forma. São obras que se confundem
“tela” com escultura, trabalhos em granito branco (mármore) e preto , além de
peças em madeira (colagens).
8
Sem título,
edição 82, 1965
Relevo, madeira
pintada
42x62,4cm
Coleção particular
A
“tela” está exposta como um quadro. São “caninhos” – “tocos”, como os chamou o
artista – aparentemente “colados” a uma superfície de madeira e pintados por
cima com uma cor ocre. Deixou um vão entre os “tocos”, como um “caminho” , entre
pedras?.
Na
verdade observar um trabalho em exposição, ou uma obra de arte em qualquer
lugar é de uma fruição absolutamente individual, particular e da subjetividade
de cada um. O observador dá valor à peça, que pode ou não ser igual a que o artista
se propôs quando da elaboração da obra.
ALVES,
Cauê. Curadoria
como Historicidade Viva.
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