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"EM TEMPOS DE M E N T I R A UNIVERSAL,

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George Orwel

terça-feira, 28 de abril de 2020

UM OLHAR PSICANALÍTICO SOBRE A LITERATURA; Estudos Culturais de Gênero


VERA MARTA REOLON

“Tu nada explicas, ó poeta, mas por ti todas as coisas se tornam explicáveis”  Claudel


Resumo: Busca, de forma interdisciplinar (psicanálise, filosofia, sociologia, letras e antropologia), investigar a questão da mulher, o feminino como e em que se diferencia do masculino na cultura, a partir do imigrante italiano da Serra Gaúcha, retratado nas obras O Quatrilho, A Cocanha e Mapa de Viagem, de José Clemente Pozenato.  Especificamente aparecem aqui as formas de comparecimento das figuras feminina e masculina, delimitando-as sob diferentes perspectivas (culturais, sexuais, sociais, religiosas, etc) e busca-se transpor as informações coletadas para a realidade da mulher e do homem da região de imigração italiana  no RS e no âmbito global.

Palavras-chave: psicanálise e conexões; gênero: feminino e masculino; cultura regional; literatura brasileira.

Este trabalho busca delimitar os modos de comparecimento das figuras masculina e feminina nas obras de José Clemente Pozenato, A Cocanha, O Quatrilho e Mapa de Viagem, além de observar as relações que estas diferentes figurações têm com a cultura, na região de colonização italiana no Rio Grande do Sul. Cultura e comunicação são interdependentes. A cultura necessita da comunicação para se fazer ouvir e ver e a comunicação retrata, ou busca retratar a cultura vigente.
Que visão de mulher tinha a sociedade da época da imigração e à época retratada nas obras literárias em questão?. As figuras masculina e feminina diferem, são singulares, mas em que contexto o são? Apresentam-se apenas na forma de vestir, de falar, de trabalhar, no social ou, além de todas as questões apresentadas, ainda diferem na forma psíquico-estrutural de cada um?
            A mulher imigrante veio da Itália, como os homens, fugindo da miséria e da morte e buscando melhores condições de vida para si e para sua família, quer esta estivesse constituída ou não. Sofrem, homens e mulheres, os mesmos transtornos na viagem, nos trens, nos navios, na imigração, nos portos e alfândegas. São roubados, espoliados em seus pertences, nas informações que tinham até então (já que o que recebem nem sempre é o prometido!), em suas convicções sociais, psíquicas, enfim, em sua capacidade física e emocional.
            As obras A Cocanha, O Quatrilho e Mapa de Viagem, de Pozenato, mostram como as relações entre homens e mulheres se davam, não só no contexto social, mas no contexto particular de suas vidas, em seus lares, no trabalho, em suas relações com a Igreja, com os padres, especificamente a Igreja Católica.
            Inicialmente esta terra não tinha dono, os que aqui habitavam eram seres livres, que transitavam igualitariamente por estas terras, viviam e se alimentavam do que aqui era processado, plantado, colhido. Os brancos, que colonizam a terra, impõem sua cultura de forma dominadora. Ignoram a cultura existente ou mesmo negam que o que existia era cultura. O diferente era extinto, massacrado. O branco se adona das terras, toma posse, instala-se, espalha-se pelo território, registra seu nome nas terras, no fazer, no plantar, no colher, na vida.
O Rio Grande do Sul é ocupado mais tardiamente que o restante do país. Inicialmente, no estado, chegam alemães e portugueses, que se instalam nas terras mais planas. O italiano que aqui chega, na falta de melhores terras nas regiões que foram povoadas antes, buscam os espaços de planalto. Instalam-se então e aqui trazem sua cultura, seu sistema de plantio, de construções, sua alimentação, enfim, seus modos e costumes.
O solo de planalto do Rio Grande do Sul é parecido com o que os imigrantes viviam na Itália, daí também suas preferências na escolha das terras e instalação. Daí também, a singularidade do imigrante, de seus descendentes, que se estabelecem nesta região. Como a terra é uma terra basáltica, dura, o homem que aqui habita é um ser embrutecido, forte, destemido, como o solo. Os habitantes, imigrantes italianos, criam desta forma, mais do que uma identidade italiana, mas uma identidade do imigrante de colonização italiana, identificado com a terra, com o solo, com as novas condições de vida.  Parece que, mais do que manterem uma identidade italiana, eles desenvolveram uma identidade do imigrante de origem italiana, na região serrana riograndense.
Região não apenas vista como divisão político-geográfica, mas como construção simbólica, constituindo uma rede de relações, como um espaço político-geográfico socialmente construído.
Nas obras de José Clemente Pozenato, o regional tem características singulares. A construção da identidade extrapola fronteiras, traz o território italiano para o contexto brasileiro, sem deixar de ter uma singularidade ímpar com a terra que habita, o solo brasileiro. As idéias de região não constituem idéias acabadas de uma realidade concreta, são realidades em construção influenciadas pelos valores simbólicos desenvolvidos em seus contextos e no decorrer da vivência do imigrante e de seus descendentes nesta terra.
Para Lacan, o “inconsciente está estruturado como linguagem” e “significante é o que representa o sujeito para outro significante”. Assim, os estudos do comparecimento do masculino e feminino, nas obras A Cocanha, O Quatrilho e Mapa de Viagem e o estudo das formações discursivas presentes nas obras, dos contactos de um e outro personagem, se dão através dos significantes lingüísticos, representantes da “coisa” no inconsciente.
Mais do que determinar o lugar feminino ou masculino num contexto histórico-antropológico, este trabalho busca ir mais além, determinando-o ou tentando determiná-lo num contexto discursivo, lingüístico-estrutural, além dos campos histórico-antropológico.
Somos herdeiros de uma ‘civilização greco-romana’, daí carregamos, estruturalmente, o lugar de inferioridade da mulher atribuído pelos gregos, além de termos a moral cristã impregnada em nossos fazeres e pensares, herdando-nos o masoquismo feminino, ao separar em termos absolutos as funções de reprodução e de gozo, presentes na experiência erótica da mulher. O cristianismo coloca o desejo feminino em um patamar de reprodução, em que o desejo é recalcado e a Igreja controla o “pecado”, através das confissões e orientações do padre.
A Revolução Francesa e suas idéias iniciais de liberdade, depois ampliadas em outras lutas na busca de liberdade, principalmente a feminina, tornam possível a construção de um novo modelo de sexualidade, centrado na diferença sexual, encontrado na modernidade.
Quando abordamos o tema se xualidade já estamos inseridos no discurso psicanalítico que, desde Freud, busca delimitar a natureza humana, sua estrutura.
A maternidade é uma marca inexorável da natureza feminina.
A psicanálise, centrada no discurso da histérica, precisa romper com o modelo essencialista da diferença sexual e se encaminhar para uma interpretação do erotismo centrada na feminilidade.
A arte retrata a sociedade que o artista está inserido, a cultura em que vive, os sentimentos que possui e que deseja passar, mas, principalmente, a arte retrata uma época, mostra e demonstra uma história, a história do artista e a história social.
Muitas são as formas de manifestação dos artistas em suas obras. E estas obras retratam a realidade em que vivemos, mostram-nos nossa história, estruturam nossas vidas.
Antônio Candido nos fala das diferenças entre a vida e a obra:

“[...] na vida tudo é praticamente possível; no romance é que a lógica da estrutura impõe limites mais apertados, resultando, paradoxalmente, que as personagens são menos livres, e que a narrativa é obrigada a ser mais coerente do que a vida.”[1]

Diz, ainda, da necessidade de que o autor construa a obra, para que esta funcione, como critério de coerência interna:

“Se nos capacitarmos disso – graças à análise literária – veremos que, embora o vínculo com a vida, o desejo de representar o real, seja a chave mestra da eficácia de um romance, a condição do seu pleno funcionamento, e portanto do funcionamento das personagens, depende dum critério estético de organização interna. Se esta funciona, aceitaremos inclusive o que é inverossímil em face das concepções correntes.”[2]

Para melhor analisar a obra de Pozenato , deve-se fazer uma pequena introdução, dizendo que o autor escreveu uma trilogia, para retratar a história de uma família de imigrantes italianos, três gerações, uma em cada obra, na Cocanha, Rosa e Aurélio, Gema e Bépi, Antônio Besana e Giuleta e o Padre Giobbe, como familiares de Ângelo; Pierina, Tereza e Máximo , respectivamente, que depois aparecem em O Quatrilho, e os filhos de Pierina, em A Babilônia (última obra da trilogia, ainda não publicada, tese de doutoramento do autor). A antologia poética de Pozenato está centrada em Mapa de Viagem. Procura analisar detalhes da vida desses personagens retratados nas obras, inicial mente em A Cocanha, centra-se a análise na figura das cinco “rondinélles”, andorinhas, cinco mulheres que emigram da Itália, com maridos arranjados para emigrar, além de alguns outros personagens que vêm desacompanhados, mas interligam-se nas relações sociais.
A obra A Cocanha retrata a vinda dos imigrantes italianos à América, fugindo da miséria e da morte, fazendo uma travessia do Velho ao Novo Mundo, em busca da terra da promissão, da terra da opulência, do paraíso terrestre.
No início da obra, há todo um simbolismo do mito fundador, a travessia marítima, as dificuldades, a calmaria, as crianças negras que se jogam ao mar e nadam livremente, sem temor ou dificuldade.
O imigrante carrega, porque também lhe é vendida esta idéia para que emigre, de que a América é esta terra da promissão, da opulência, de que, aqui chegando, ele poderá gozar a vida.
No texto literário, fica-se com a certeza de que o que foi vendido ao imigrante mostrou-se falho e falso, já que, ao chegar, ele e suas famílias enfrentaram todas as dificuldades possíveis e os problemas inimagináveis.  
            Através dos diferentes personagens apresentados pelo autor, solteiros ou casados, todos enfrentaram dificuldades em sua instalação, na aquisição das terras, no trabalho nessas terras, em manter-se e sobreviver.
No personagem Domênico, tem-se a visão do imigrante que vem com alguma posse financeira, além de trazer alguma arte. Domênico, no caso, toca em banda e é alfaiate. A figura de Domênico é singular porque ele será o pai biológico de Teresa, na obra O Quatrilho, além de que Domênico encontra-se com Giulieta, mãe de Teresa, em encontros furtivos, nas águas do rio. Teresa, também em encontros fugidios, encontra-se com Mássimo no rio. O rio, a metáfora utilizada pelo autor para retratar o amor na obra Mapa de Viagem, é a água, aqui águas de um poço.
É por Domenico também, na obra A Cocanha, que temos as noções dos esquemas políticos vigentes na época, além da presença da maçonaria, já à época da colonização, nos meios sociais.
Os personagens centrais de A Cocanha fixam-se em torno das ‘rondinèle’, as cinco amigas ‘andorinhas’ de Roncá, em Verona, na Itália. Elas moram próximas, em Santa Corona, juntamente com seus maridos. Betina, a quinta ‘rondinèle’, a única solteira do grupo, não vem ao Brasil, ficando na Itália.
Os grupos de imigrantes que se formam acabam constituindo as famílias, relações de amizade, pois suas famílias de origem ficaram na Itália, e os casais casaram-se para emigrar.
Além das ‘rondinèle’ e seus esposos, aparece uma figura singular, a de Roco, ferreiro, solteiro e dono da pensão, que se envolve na política, depois a abandona, casa-se com Marieta, uma auxiliar na pensão, e vive uma vida mais tranqüila. Roco é quem, mais tarde, em O Quatrilho, irá conversar com Teresa e apresentar-lhe uma vida diferente da vigente, mostrada pela Igreja Católica, o que propiciará que ela viva o amor com a intensidade que deseja.
Betina é a ‘rondinèle’ decidida, que não segue com os outros, não ‘vai com a maré’. Ela lança na história familiar, a marca de ser uma mulher que não se afeta com as opiniões, que não teme o futuro.
Marieta é a ‘rondinèle’ mais velha, que já tem filhos, a parteira do grupo, aquela que ‘dá o tom’ da vida das mulheres, de como elas devem ser e agir. Ela é casada com Cósimo, o líder do grupo, aquele que nomeia a localidade como Santa Corona. Marieta e Cósimo, então, fazem os papéis de mãe e pai do grupo.
Gema é a mulher forte, decidida. Gema carrega uma figura masculina em um corpo de mulher. Ela é uma mulher fálica, que nega sua feminilidade, para suprir as necessidades de um homem na família, já que Bépi, seu marido, é um homem feminino.
Giulieta é uma mulher inteligente, que não aceita ser mandada por todos na casa, que tem o desejo estrutural da busca da liberdade. Ela, como mãe de Teresa, irá levar à filha este desejo em sua busca pelo amor.
O desejo, que nos estrutura como seres humanos e nos induz à busca da  vida, no decorrer de nossa existência, nos é transmitido no desejo do Outro, desejo daquele que um dia nos desejou (antes de nossa geração, por nossos pais) e que , mais tarde, nos olhou com um olhar de possibilidades para viver e ser feliz. Esse desejo inicial, estrutural, lançado pelo Outro, é o que denominamos, em psicanálise, Amor de estrutura.
Giulieta na obra, demonstra ter amado Tereza, desejado este filho, até porque Tereza era a lembrança constante da possibilidade da vivência do amor, já que foi resultado de uma situação furtiva entre ela e Domenico, mas de uma situação de liberdade e libertadora para  ela. Daí Tereza trazer uma marca amorosa muito forte. Também não podemos deixar de observar que a vinda de Tereza lança diferença sobre o lar de Giulieta e Antônio, pois a partir da “traição” dela, os dois passam a ter uma vida familiar mais completa e pacífica. Tereza carrega a marca estrutural do amor, instituidor de desejo na estrutura.
 Rosa, a outra ‘rondinèle’, é casada com Aurélio. Os dois são os pais de Ângelo. Ambos casam-se por amor, sendo essa sua importância, apesar das dificuldades enfrentadas. Este amor dará forças a Ângelo para buscar o progresso pessoal e profissional.
A obra O Quatrilho é uma ode, um louvor ao amor, na busca pelo amor e a conciliação entre os casais. Teresa, inicialmente, é casada com Ângelo, e Pierina, com Mássimo. No decorrer da história, vemos Teresa, uma mulher feminina, aproximar-se de Mássimo, um homem masculino. Os dois se apaixonam e vão embora da localidade, para viver o seu amor.
Pierina, filha de Gema, e identificada com esta, apresenta-se uma mulher fálica, que inicialmente vive o casamento como uma imposição social. Casar para auxiliar nos trabalhos da casa e gerar filhos para o trabalho na colônia. Com a traição do marido, ela acaba descobrindo a sua força feminina, seu poder de sedução e, aparentemente, descobrindo o amor, aproxima-se de Ângelo. Pierina e Ângelo, assim, progridem numa boa  sincronia, formando uma família forte na localidade.
Os personagens de Roco e Scariot são os ‘iluminadores’, um para Teresa, outro para Mássimo, quanto à busca da liberdade e do amor. Os padre Gentile e Giobbe nos trazem, enquanto leitores, as vozes da repressão e da moral vigente na localidade: padre Gentile usa da prepotência e do poder que a Igreja Católica lhe outorga, enquanto seu representante, para ditar as normas e condutas, fazendo julgamentos nem sempre corretos e justos; padre Giobbe, ao contrário, é o padre justo, reflexivo dos acontecimentos e da vida, ele nos traz a visão do narrador, através da percepção dos fatos que ocorrem em Santa Corona.
Em Mapa de Viagem encontramos três poemas significativos: Declaração de Amor, um poema onde se abstrai que os lugares masculino e feminino, como a realidade, não são tão determinados, muitas vezes andam juntos, misturados; Quando o Amor, que parece fazer uma seqüência ao primeiro pois, após a descoberta do amor, os corpos se descobrem, se revelam, um se mostra ao outro, sabe-se do outro e de si mesmo através do olhar que lanço ao olhar do outro; e Os Retratos na Sala, que mostra o casal já mais velho revivendo sua vida nos descendentes, mostra também a visão da mulher mantida sob o jugo do marido, canalizando sua libido e sua dor na religiosidade.
Um estudo, nas palavras do professor Jayme Paviani, “é um abrir horizontes, um propor novos caminhos. O decisivo é fazer o caminho.”[3] O presente estudo, dos lugares masculino e feminino, na cultura da região de colonização italiana no Rio Grande do Sul, propõe isso, um novo olhar sobre esses lugares.
Antônio Candido nos ensina sobre a composição da estrutura do romance e sobre o sentimento de realidade que uma obra porta:

O trabalho de compor a estrutura do romance, situando adequadamente cada traço que, mal combinado, pouco ou nada sugere; e que, devidamente convencionalizado, ganha todo o seu poder sugestivo. Cada traço adquire sentido em função de outro, de tal modo que a verossimilhança, o sentimento da realidade, depende, sob este aspecto, da unificação do fragmentário pela organização do contexto. Esta organização é o elemento decisivo da verdade dos seres fictícios, o princípio que lhes infunde vida, calor e os faz parecer mais coesos, mais apreensíveis e atuantes do que os próprios seres vivos.”[4]
  
Através da análise das obras literárias, na figura de seus personagens, se chega a uma idéia de que os lugares masculino e feminino não são estanques, além de não estarem vinculados a um corpo biológico. Um homem, biologicamente masculino, pode ser emocional, psíquica e estruturalmente feminino, assim como uma mulher, biologicamente feminina, pode ser masculina no campo estrutural. Os casais se constituem e acabam se completando em suas diferenças estruturais, de tal forma que se estabilizam, formando uma família regular.
 Na região de colonização italiana, no estado do Rio Grande do Sul, a mulher não difere da mulher “universal”, sua estruturação e aspectos psíquico-emocionais que a estruturam como ser, mas esta mulher porta características singulares que fazem “marca cultural”, como comprovado pela sua apresentação nas obras estudadas. 
 Temos, tradicionalmente, pensado nas mulheres, desde a sociedade grega, fazendo chá e servindo aos homens, mesmo entre os apóstolos de Jesus, para citarmos a tradição cristã que, junto a civilização grega, nos constitui como estrutura histórico-antropológica. Quer seja apenas literatura, ou não, muitos historiadores têm dedicado suas vidas, provando que Maria Madalena era mais do que uma serva, estava ao lado de Jesus e seus apóstolos como membro efetivo do grupo. Se os evangelhos esqueceram-se dela, ou deliberadamente a ignoraram, não sabemos, não temos a certeza ainda. O que sabemos é que a mulher, enquanto membro de uma sociedade, tem crescido e buscado seu espaço na modernidade. Isso tem feito com que homens e mulheres saiam de uma visão apenas biológica de masculino e feminino para estudos mais amplos e mais corretos do que é ser um homem ou uma mulher. A cultura vigente apenas sedimenta os lugares tradicionalmente existentes. O que fica é um grande desejo de mudanças estruturais que busquem respostas mais condizentes com a realidade e com o desejo de cada um. Desejo esse estrutural, primeiro, marcadamente amoroso.
A obra literária é um tipo de conhecimento que representa aquilo que a psicanálise enquanto teoria, a sociologia, a antropologia, entre outras teorias enquanto ciências, já revelam. A leitura da obra traz uma forma de conhecimento que a realidade já traz. A obra de Pozenato consegue retratar a realidade e nos dá a impressão de seres vivos. Antônio Candido diz da importância de que:

“a personagem deve dar a impressão de que vive, de que é como um ser vivo. Para tanto, deve lembrar um ser vivo, isto é, manter certas relações com a realidade do mundo, participando de um universo de ação e de sensibilidade que se possa equiparar ao que conhecemos na vida.”[5]

Assim, as obras de Pozenato confirmam a vida das imigrantes italianos, sua dura realidade, de muita dor e trabalho, além de confirmarem o lugar da mulher na sociedade vigente, de inferioridade, de objectualização aos desejos do homem.
A constituição do feminino extrapola o regional. O feminino, enquanto especificidade de gênero, extrapola o regional e apresenta-se como universal, em suas diferentes abordagens. O que observamos, como especificidade regional, na região de imigração italiana, marcadamente vinculada ao fazer, ao trabalho, é que a mulher, enquanto esposa, enquanto lugar social feminino, se apresenta como uma “esposa/trabalho”, quero dizer, com isso, que a mulher, em sua maioria, vincula o lugar feminino, no casamento, como uma “tarefa para gerar filhos”, para auxiliar na produção, nos trabalhos nas colônias. Quando ela chega à menopausa, há um libertar-se, um viver mais espontâneo, desvinculado do “trabalho” de atender ao marido. Ela passa a ser uma mulher mais solta e, aparentemente, mais feliz, talvez mais feminina. Mas este lugar feminino é um engodo, porque ela só se apresenta mais fálica, mais “poderosa”, mais masculinizada. Observa-se esta condição “travestida” também nas viúvas, “mãezonas”, porque carregam em si o lugar de mãe e pai, poderosas.
O verdadeiro feminino, se é que há, é da ordem de um ultrapassar o falo, aceitar a castração e ultrapassá-la, viver com intensidade o seu lugar em qualquer momento.  
A análise do texto literário, também uma arte, faz os personagens ganharem vida. Tem-se a sensação, ao analisá-los, de que estão vivos, presentes entre nós, o que dá força ao texto analítico. Analisar uma obra, deixando-se levar pelas personagens, traz uma riqueza de detalhes, enriquecendo o saber teórico, aprofundando-o como nos confirma Rosenfeld:

“Somente quando o apreciador se entrega com certa inocência a todas as virtualidades da grande obra de arte, esta por sua vez lhe entregará toda a riqueza encerrada no seu contexto. Neste sentido pode-se dizer com Ernst Cassirer que afastando-se da realidade e elevando-se a um mundo simbólico o homem, ao voltar à realidade, lhe apreende melhor a riqueza e profundidade. Através da arte, disse Goethe, distanciamo-nos e ao mesmo tempo aproximamo-nos da realidade.”[6]

A palavra sexo, secare, em latim, significa cortar, separar. Masculino e feminino são divisões de um mesmo ser. Um termo só faz sentido em contraposição, em comparação ao outro. Para que haja sexuação, é necessário que o sujeito se inscreva na função fálica, independentemente de sua anatomia. A diferença sexual é um recorte simbólico, que é resultado de movimentos psíquicos que permitem ao sujeito uma referência a seu sexo anatômico, que o designará homem ou mulher.
Ricardo Timm de Souza, em seu artigo Identidade e diferença: da mera identificação ao diferencial de gênero, para a obra As Mulheres e a Filosofia, nos apresenta uma bela conclusão quando diz que gênero é uma “construção”, um “constituir” diferença, ato ético, humano por excelência:

“‘Construir’ gênero – ou seja, ‘constituir’ diferença - é um ato humano por excelência, um ato ético que supera as determinações da identidade ao assumir a contingência do “ainda não”, ao ser no tempo e apostar na construção do tempo- do novo tempo: o tempo da diferença . Mas diferença real, para além do jogo de espelhos da racionalidade tradicional e das infinitas gradações de violência que ela comporta e justifica em sua hipertrofia tautológica.”[7]


Ao término deste trabalho, não com respostas estanques, e sim com mais perguntas, mas o que importa é que a arte, novamente, nos dá uma solução parcial, porque a vida não é final, é sempre parcial. Na voz de Antônio Carlos Jobim, em seu belo poema/canção Águas de Março, sempre ouvido em não menos nome do que o de Elis Regina, tem-se o masculino e o feminino novamente simbolizados e presentes:
“É pau, é pedra, é o fim do caminho
É um resto de toco, é um pouco sozinho
É um caco de vidro, é a vida, é o sol
É a noite, é a morte, é um laço, é o anzol
É peroba do campo, é o nó da madeira
Caingá, candeia, é o Matita Pereira
É madeira de vento, tombo da ribanceira
É o mistério profundo, é o queira ou não queira
É o vento ventando, é o fim da ladeira
É a viga, é o vão, festa da cumeeira
É a chuva chovendo, é conversa ribeira
Das águas de março, é o fim da canseira
É o pé, é o chão, é a marcha estradeira
Passarinho na mão, pedra na atiradeira
É uma ave no céu, é uma ave no chão
É um regato, é uma fonte, é um pedaço de pão
É o fundo do poço, é o fim do caminho
No rosto o desgosto, é um pouco sozinho
É um estrepe, é um prego, é uma ponta, é um ponto
É um pingo , pingando ,é uma conta ,é um conto
É um peixe, é um gesto, é uma prata brilhando
É a luz da manhã, é o tijolo chegando
É a lenha, é o dia, é o fim da picada
É a garrafa de cana, o estilhaço na estrada
É o projeto da casa, é o corpo na cama
É o carro enguiçado, é a lama, é a lama
É um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã
É um resto de mato, na luz da manhã
São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração
É uma cobra, é um pau, é João, é José
É um espinho na mão, é um corte no pé
São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração
É pau, é pedra, é o fim do caminho
É um resto de toco, é um pouco sozinho
É um passo, é uma ponte, é uma sapo , uma ra
É um Belo Horizonte, é uma febre terçã
São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração
É pau, é pedra, é o fim do caminho
É um resto de toco, é um pouco sozinho
É um caco de vidro, é a vida, é o sol
É a noite, é a morte, é um laço, é o anzol
São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração”


    Apesar das pedras, dos paus, das dificuldades, chega-se ao fim do caminho, um pouco, não de todo, sozinhos, com mistérios profundos a desvendar, quer queiramos ou não.

É a luz da manhã iluminando o caminho na promessa de vida em nossos corações. [...] São as águas (amor) de março fechando o verão e fechando um “início” de trabalho.


Referências Bibliográficas

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 ARRIVÉ, Michel. Linguagem e Psicanálise – Lingüística e Inconsciente. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1999.
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[1] CANDIDO, A. et al. A personagem de ficção. São Paulo: Perspectiva, 1972. p.76.
[2] Idem. p.77.
[3] PAVIANI, Jayme. Donde se avista o caminho. Jornal Pioneiro. Almanaque. 26 e 27 de março de 2005. p. 23.
[4] CANDIDO, A. et al. A personagem de ficção. São Paulo: Perspectiva, 1972. p.79.
[5] Idem. p.64.
[6] ROSENFELD, Anatol. Literatura e Personagem. In: Idem. p.49.  
[7] SOUZA, Ricardo Timm. Identidade e diferença: da mera identificação ao diferencial de gênero. In: TIBURI, Márcia, MENEZES, Magali de, EGGERT, Edla (Org.). As Mulheres e a Filosofia. São Leopoldo: Unisinos, 2002. p.242.

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