VERA
MARTA REOLON
“Tu nada explicas, ó poeta,
mas por ti todas as coisas se tornam explicáveis” Claudel
Resumo: Busca, de forma
interdisciplinar (psicanálise, filosofia, sociologia, letras e antropologia),
investigar a questão da mulher, o feminino como e em que se diferencia do
masculino na cultura, a partir do imigrante italiano da Serra Gaúcha, retratado
nas obras O Quatrilho, A Cocanha e Mapa de Viagem, de José Clemente Pozenato. Especificamente aparecem aqui as formas de
comparecimento das figuras feminina e masculina, delimitando-as sob diferentes
perspectivas (culturais, sexuais, sociais, religiosas, etc) e busca-se transpor
as informações coletadas para a realidade da mulher e do homem da região de
imigração italiana no RS e no âmbito
global.
Palavras-chave: psicanálise e
conexões; gênero: feminino e masculino; cultura regional; literatura
brasileira.
Este trabalho
busca delimitar os modos de comparecimento das figuras masculina e feminina nas
obras de José Clemente Pozenato, A Cocanha, O Quatrilho e Mapa
de Viagem, além de observar as relações que estas diferentes figurações têm
com a cultura, na região de colonização italiana no Rio Grande do Sul. Cultura
e comunicação são interdependentes. A cultura necessita da comunicação para se
fazer ouvir e ver e a comunicação retrata, ou busca retratar a cultura vigente.
Que visão de
mulher tinha a sociedade da época da imigração e à época retratada nas obras
literárias em questão?. As figuras masculina e feminina diferem, são
singulares, mas em que contexto o são? Apresentam-se apenas na forma de vestir,
de falar, de trabalhar, no social ou, além de todas as questões apresentadas,
ainda diferem na forma psíquico-estrutural de cada um?
A
mulher imigrante veio da Itália, como os homens, fugindo da miséria e da morte
e buscando melhores condições de vida para si e para sua família, quer esta
estivesse constituída ou não. Sofrem, homens e mulheres, os mesmos transtornos
na viagem, nos trens, nos navios, na imigração, nos portos e alfândegas. São
roubados, espoliados em seus pertences, nas informações que tinham até então
(já que o que recebem nem sempre é o prometido!), em suas convicções sociais,
psíquicas, enfim, em sua capacidade física e emocional.
As
obras A Cocanha, O Quatrilho e Mapa de Viagem, de
Pozenato, mostram como as relações entre homens e mulheres se davam, não só no
contexto social, mas no contexto particular de suas vidas, em seus lares, no
trabalho, em suas relações com a Igreja, com os padres, especificamente a
Igreja Católica.
Inicialmente
esta terra não tinha dono, os que aqui habitavam eram seres livres, que
transitavam igualitariamente por estas terras, viviam e se alimentavam do que
aqui era processado, plantado, colhido. Os brancos, que colonizam a terra,
impõem sua cultura de forma dominadora. Ignoram a cultura existente ou mesmo
negam que o que existia era cultura. O diferente era extinto, massacrado. O
branco se adona das terras, toma posse, instala-se, espalha-se pelo território,
registra seu nome nas terras, no fazer, no plantar, no colher, na vida.
O Rio Grande
do Sul é ocupado mais tardiamente que o restante do país. Inicialmente, no
estado, chegam alemães e portugueses, que se instalam nas terras mais planas. O
italiano que aqui chega, na falta de melhores terras nas regiões que foram
povoadas antes, buscam os espaços de planalto. Instalam-se então e aqui trazem
sua cultura, seu sistema de plantio, de construções, sua alimentação, enfim,
seus modos e costumes.
O solo de
planalto do Rio Grande do Sul é parecido com o que os imigrantes viviam na
Itália, daí também suas preferências na escolha das terras e instalação. Daí
também, a singularidade do imigrante, de seus descendentes, que se estabelecem
nesta região. Como a terra é uma terra basáltica, dura, o homem que aqui habita
é um ser embrutecido, forte, destemido, como o solo. Os habitantes, imigrantes
italianos, criam desta forma, mais do que uma identidade italiana, mas uma
identidade do imigrante de colonização italiana, identificado com a terra, com
o solo, com as novas condições de vida. Parece
que, mais do que manterem uma identidade italiana, eles desenvolveram uma
identidade do imigrante de origem italiana, na região serrana riograndense.
Região não
apenas vista como divisão político-geográfica, mas como construção simbólica,
constituindo uma rede de relações, como um espaço político-geográfico
socialmente construído.
Nas obras de
José Clemente Pozenato, o regional tem características singulares. A construção
da identidade extrapola fronteiras, traz o território italiano para o contexto
brasileiro, sem deixar de ter uma singularidade ímpar com a terra que habita, o
solo brasileiro. As idéias de região não constituem idéias acabadas de uma
realidade concreta, são realidades em construção influenciadas pelos valores
simbólicos desenvolvidos em seus contextos e no decorrer da vivência do
imigrante e de seus descendentes nesta terra.
Para Lacan, o
“inconsciente está estruturado como linguagem” e “significante é o que
representa o sujeito para outro significante”. Assim, os estudos do
comparecimento do masculino e feminino, nas obras A Cocanha, O
Quatrilho e Mapa de Viagem e o estudo das formações discursivas
presentes nas obras, dos contactos de um e outro personagem, se dão através dos
significantes lingüísticos, representantes da “coisa” no inconsciente.
Mais do que
determinar o lugar feminino ou masculino num contexto histórico-antropológico,
este trabalho busca ir mais além, determinando-o ou tentando determiná-lo num
contexto discursivo, lingüístico-estrutural, além dos campos
histórico-antropológico.
Somos
herdeiros de uma ‘civilização greco-romana’, daí carregamos, estruturalmente, o
lugar de inferioridade da mulher atribuído pelos gregos, além de termos a moral
cristã impregnada em nossos fazeres e pensares, herdando-nos o masoquismo
feminino, ao separar em termos absolutos as funções de reprodução e de gozo,
presentes na experiência erótica da mulher. O cristianismo coloca o desejo
feminino em um patamar de reprodução, em que o desejo é recalcado e a Igreja
controla o “pecado”, através das confissões e orientações do padre.
A Revolução
Francesa e suas idéias iniciais de liberdade, depois ampliadas em outras lutas
na busca de liberdade, principalmente a feminina, tornam possível a construção
de um novo modelo de sexualidade, centrado na diferença sexual, encontrado na
modernidade.
Quando
abordamos o tema se xualidade já estamos inseridos no discurso psicanalítico
que, desde Freud, busca delimitar a natureza humana, sua estrutura.
A maternidade
é uma marca inexorável da natureza feminina.
A psicanálise,
centrada no discurso da histérica, precisa romper com o modelo essencialista da
diferença sexual e se encaminhar para uma interpretação do erotismo centrada na
feminilidade.
A arte retrata
a sociedade que o artista está inserido, a cultura em que vive, os sentimentos
que possui e que deseja passar, mas, principalmente, a arte retrata uma época,
mostra e demonstra uma história, a história do artista e a história social.
Muitas são as
formas de manifestação dos artistas em suas obras. E estas obras retratam a
realidade em que vivemos, mostram-nos nossa história, estruturam nossas vidas.
Antônio
Candido nos fala das diferenças entre a vida e a obra:
“[...] na vida tudo é praticamente possível; no
romance é que a lógica da estrutura impõe limites mais apertados, resultando,
paradoxalmente, que as personagens são menos livres, e que a narrativa é
obrigada a ser mais coerente do que a vida.”[1]
Diz, ainda, da
necessidade de que o autor construa a obra, para que esta funcione, como
critério de coerência interna:
“Se nos capacitarmos disso – graças à análise
literária – veremos que, embora o vínculo com a vida, o desejo de representar o
real, seja a chave mestra da eficácia de um romance, a condição do seu pleno
funcionamento, e portanto do funcionamento das personagens, depende dum
critério estético de organização interna. Se esta funciona, aceitaremos
inclusive o que é inverossímil em face das concepções correntes.”[2]
Para melhor
analisar a obra de Pozenato , deve-se fazer uma pequena introdução, dizendo que
o autor escreveu uma trilogia, para retratar a história de uma família de
imigrantes italianos, três gerações, uma em cada obra, na Cocanha, Rosa e
Aurélio, Gema e Bépi, Antônio Besana e Giuleta e o Padre Giobbe, como
familiares de Ângelo; Pierina, Tereza e Máximo , respectivamente, que depois
aparecem em O Quatrilho, e os filhos de Pierina, em A Babilônia (última obra da
trilogia, ainda não publicada, tese de doutoramento do autor). A antologia
poética de Pozenato está centrada em Mapa de Viagem. Procura analisar detalhes
da vida desses personagens retratados nas obras, inicial mente em A Cocanha,
centra-se a análise na figura das cinco “rondinélles”, andorinhas, cinco
mulheres que emigram da Itália, com maridos arranjados para emigrar, além de
alguns outros personagens que vêm desacompanhados, mas interligam-se nas
relações sociais.
A obra A
Cocanha retrata a vinda dos imigrantes italianos à América, fugindo da
miséria e da morte, fazendo uma travessia do Velho ao Novo Mundo, em busca da
terra da promissão, da terra da opulência, do paraíso terrestre.
No início da
obra, há todo um simbolismo do mito fundador, a travessia marítima, as
dificuldades, a calmaria, as crianças negras que se jogam ao mar e nadam
livremente, sem temor ou dificuldade.
O imigrante
carrega, porque também lhe é vendida esta idéia para que emigre, de que a
América é esta terra da promissão, da opulência, de que, aqui chegando, ele
poderá gozar a vida.
No texto
literário, fica-se com a certeza de que o que foi vendido ao imigrante
mostrou-se falho e falso, já que, ao chegar, ele e suas famílias enfrentaram
todas as dificuldades possíveis e os problemas inimagináveis.
Através
dos diferentes personagens apresentados pelo autor, solteiros ou casados, todos
enfrentaram dificuldades em sua instalação, na aquisição das terras, no
trabalho nessas terras, em manter-se e sobreviver.
No personagem
Domênico, tem-se a visão do imigrante que vem com alguma posse financeira, além
de trazer alguma arte. Domênico, no caso, toca em banda e é alfaiate. A figura
de Domênico é singular porque ele será o pai biológico de Teresa, na obra O
Quatrilho, além de que Domênico encontra-se com Giulieta, mãe de Teresa, em
encontros furtivos, nas águas do rio. Teresa, também em encontros fugidios,
encontra-se com Mássimo no rio. O rio, a metáfora utilizada pelo autor para
retratar o amor na obra Mapa de Viagem, é a água, aqui águas de um poço.
É por Domenico
também, na obra A Cocanha, que temos as noções dos esquemas políticos
vigentes na época, além da presença da maçonaria, já à época da colonização,
nos meios sociais.
Os personagens centrais de A Cocanha fixam-se em torno das
‘rondinèle’, as cinco amigas ‘andorinhas’ de Roncá, em Verona, na Itália. Elas
moram próximas, em Santa Corona, juntamente com seus maridos. Betina, a quinta
‘rondinèle’, a única solteira do grupo, não vem ao Brasil, ficando na Itália.
Os grupos de imigrantes que se formam acabam constituindo as famílias,
relações de amizade, pois suas famílias de origem ficaram na Itália, e os
casais casaram-se para emigrar.
Além das ‘rondinèle’ e seus esposos, aparece uma figura singular, a de
Roco, ferreiro, solteiro e dono da pensão, que se envolve na política, depois a
abandona, casa-se com Marieta, uma auxiliar na pensão, e vive uma vida mais
tranqüila. Roco é quem, mais tarde, em O Quatrilho, irá conversar com
Teresa e apresentar-lhe uma vida diferente da vigente, mostrada pela Igreja
Católica, o que propiciará que ela viva o amor com a intensidade que deseja.
Betina
é a ‘rondinèle’ decidida, que não segue com os outros, não ‘vai com a maré’.
Ela lança na história familiar, a marca de ser uma mulher que não se afeta com
as opiniões, que não teme o futuro.
Marieta é a ‘rondinèle’ mais velha, que já tem filhos, a parteira do
grupo, aquela que ‘dá o tom’ da vida das mulheres, de como elas devem ser e
agir. Ela é casada com Cósimo, o líder do grupo, aquele que nomeia a localidade
como Santa Corona. Marieta e Cósimo, então, fazem os papéis de mãe e pai do
grupo.
Gema é a mulher forte, decidida. Gema carrega uma figura masculina em um
corpo de mulher. Ela é uma mulher fálica, que nega sua feminilidade, para
suprir as necessidades de um homem na família, já que Bépi, seu marido, é um
homem feminino.
Giulieta é uma mulher inteligente, que não aceita ser mandada por todos
na casa, que tem o desejo estrutural da busca da liberdade. Ela, como mãe de
Teresa, irá levar à filha este desejo em sua busca pelo amor.
O desejo, que nos estrutura como seres humanos e nos induz à busca
da vida, no decorrer de nossa
existência, nos é transmitido no desejo do Outro, desejo daquele que um dia nos
desejou (antes de nossa geração, por nossos pais) e que , mais tarde, nos olhou
com um olhar de possibilidades para viver e ser feliz. Esse desejo inicial,
estrutural, lançado pelo Outro, é o que denominamos, em psicanálise, Amor de
estrutura.
Giulieta na obra, demonstra ter amado Tereza, desejado este filho, até
porque Tereza era a lembrança constante da possibilidade da vivência do amor,
já que foi resultado de uma situação furtiva entre ela e Domenico, mas de uma
situação de liberdade e libertadora para
ela. Daí Tereza trazer uma marca amorosa muito forte. Também não podemos
deixar de observar que a vinda de Tereza lança diferença sobre o lar de
Giulieta e Antônio, pois a partir da “traição” dela, os dois passam a ter uma
vida familiar mais completa e pacífica. Tereza carrega a marca estrutural do
amor, instituidor de desejo na estrutura.
Rosa, a outra ‘rondinèle’, é
casada com Aurélio. Os dois são os pais de Ângelo. Ambos casam-se por amor,
sendo essa sua importância, apesar das dificuldades enfrentadas. Este amor dará
forças a Ângelo para buscar o progresso pessoal e profissional.
A obra O Quatrilho é uma ode, um louvor ao amor, na busca pelo
amor e a conciliação entre os casais. Teresa, inicialmente, é casada com
Ângelo, e Pierina, com Mássimo. No decorrer da história, vemos Teresa, uma
mulher feminina, aproximar-se de Mássimo, um homem masculino. Os dois se
apaixonam e vão embora da localidade, para viver o seu amor.
Pierina, filha de Gema, e identificada com esta, apresenta-se uma mulher
fálica, que inicialmente vive o casamento como uma imposição social. Casar para
auxiliar nos trabalhos da casa e gerar filhos para o trabalho na colônia. Com a
traição do marido, ela acaba descobrindo a sua força feminina, seu poder de
sedução e, aparentemente, descobrindo o amor, aproxima-se de Ângelo. Pierina e
Ângelo, assim, progridem numa boa
sincronia, formando uma família forte na localidade.
Os personagens de Roco e Scariot são os ‘iluminadores’, um para Teresa,
outro para Mássimo, quanto à busca da liberdade e do amor. Os padre Gentile e
Giobbe nos trazem, enquanto leitores, as vozes da repressão e da moral vigente
na localidade: padre Gentile usa da prepotência e do poder que a Igreja
Católica lhe outorga, enquanto seu representante, para ditar as normas e
condutas, fazendo julgamentos nem sempre corretos e justos; padre Giobbe, ao contrário,
é o padre justo, reflexivo dos acontecimentos e da vida, ele nos traz a visão
do narrador, através da percepção dos fatos que ocorrem em Santa Corona.
Em Mapa de Viagem encontramos três poemas significativos: Declaração
de Amor, um poema onde se abstrai que os lugares masculino e feminino, como
a realidade, não são tão determinados, muitas vezes andam juntos, misturados; Quando
o Amor, que parece fazer uma seqüência ao primeiro pois, após a descoberta
do amor, os corpos se descobrem, se revelam, um se mostra ao outro, sabe-se do
outro e de si mesmo através do olhar que lanço ao olhar do outro; e Os
Retratos na Sala, que mostra o casal já mais velho revivendo sua vida nos
descendentes, mostra também a visão da mulher mantida sob o jugo do marido,
canalizando sua libido e sua dor na religiosidade.
Um estudo, nas palavras do professor Jayme Paviani, “é um abrir
horizontes, um propor novos caminhos. O decisivo é fazer o caminho.”[3] O
presente estudo, dos lugares masculino e feminino, na cultura da região de
colonização italiana no Rio Grande do Sul, propõe isso, um novo olhar sobre
esses lugares.
Antônio Candido nos ensina sobre a composição da estrutura do romance e
sobre o sentimento de realidade que uma obra porta:
“O trabalho de compor a
estrutura do romance, situando adequadamente cada traço que, mal combinado,
pouco ou nada sugere; e que, devidamente convencionalizado, ganha todo o
seu poder sugestivo. Cada traço adquire sentido em função de outro, de tal modo
que a verossimilhança, o sentimento da realidade, depende, sob este aspecto, da
unificação do fragmentário pela organização do contexto. Esta organização é o
elemento decisivo da verdade dos seres fictícios, o princípio que lhes infunde
vida, calor e os faz parecer mais coesos, mais apreensíveis e atuantes do que
os próprios seres vivos.”[4]
Através da análise das
obras literárias, na figura de seus personagens, se chega a uma idéia de que os
lugares masculino e feminino não são estanques, além de não estarem vinculados
a um corpo biológico. Um homem, biologicamente masculino, pode ser emocional,
psíquica e estruturalmente feminino, assim como uma mulher, biologicamente
feminina, pode ser masculina no campo estrutural. Os casais se constituem e
acabam se completando em suas diferenças estruturais, de tal forma que se
estabilizam, formando uma família regular.
Na região de colonização italiana, no estado
do Rio Grande do Sul, a mulher não difere da mulher “universal”, sua
estruturação e aspectos psíquico-emocionais que a estruturam como ser, mas esta
mulher porta características singulares que fazem “marca cultural”, como
comprovado pela sua apresentação nas obras estudadas.
Temos, tradicionalmente, pensado
nas mulheres, desde a sociedade grega, fazendo chá e servindo aos homens, mesmo
entre os apóstolos de Jesus, para citarmos a tradição cristã que, junto a
civilização grega, nos constitui como estrutura histórico-antropológica. Quer
seja apenas literatura, ou não, muitos historiadores têm dedicado suas vidas,
provando que Maria Madalena era mais do que uma serva, estava ao lado de Jesus
e seus apóstolos como membro efetivo do grupo. Se os evangelhos
esqueceram-se dela, ou deliberadamente a ignoraram, não sabemos, não temos a
certeza ainda. O que sabemos é que a mulher, enquanto membro de uma sociedade,
tem crescido e buscado seu espaço na modernidade. Isso tem feito com que homens
e mulheres saiam de uma visão apenas biológica de masculino e feminino para
estudos mais amplos e mais corretos do que é ser um homem ou uma mulher. A
cultura vigente apenas sedimenta os lugares tradicionalmente existentes. O que
fica é um grande desejo de mudanças estruturais que busquem respostas mais
condizentes com a realidade e com o desejo de cada um. Desejo esse estrutural,
primeiro, marcadamente amoroso.
A obra literária é um tipo de conhecimento que representa aquilo que a
psicanálise enquanto teoria, a sociologia, a antropologia, entre outras teorias
enquanto ciências, já revelam. A leitura da obra traz uma forma de conhecimento
que a realidade já traz. A obra de Pozenato consegue retratar a realidade e nos
dá a impressão de seres vivos. Antônio Candido diz da importância de que:
“a personagem deve dar a
impressão de que vive, de que é como um ser vivo. Para tanto, deve lembrar
um ser vivo, isto é, manter certas relações com a realidade do mundo,
participando de um universo de ação e de sensibilidade que se possa equiparar
ao que conhecemos na vida.”[5]
Assim, as obras de Pozenato confirmam a vida das imigrantes italianos,
sua dura realidade, de muita dor e trabalho, além de confirmarem o lugar da
mulher na sociedade vigente, de inferioridade, de objectualização aos desejos
do homem.
A constituição do feminino extrapola o regional. O feminino, enquanto
especificidade de gênero, extrapola o regional e apresenta-se como universal,
em suas diferentes abordagens. O que observamos, como especificidade regional,
na região de imigração italiana, marcadamente vinculada ao fazer, ao trabalho,
é que a mulher, enquanto esposa, enquanto lugar social feminino, se apresenta como
uma “esposa/trabalho”, quero dizer, com isso, que a mulher, em sua maioria,
vincula o lugar feminino, no casamento, como uma “tarefa para gerar filhos”,
para auxiliar na produção, nos trabalhos nas colônias. Quando ela chega à
menopausa, há um libertar-se, um viver mais espontâneo, desvinculado do
“trabalho” de atender ao marido. Ela passa a ser uma mulher mais solta e,
aparentemente, mais feliz, talvez mais feminina. Mas este lugar feminino é um
engodo, porque ela só se apresenta mais fálica, mais “poderosa”, mais
masculinizada. Observa-se esta condição “travestida” também nas viúvas,
“mãezonas”, porque carregam em si o lugar de mãe e pai, poderosas.
O verdadeiro feminino, se é que há, é da ordem de um ultrapassar o falo,
aceitar a castração e ultrapassá-la, viver com intensidade o seu lugar em
qualquer momento.
A análise do texto
literário, também uma arte, faz os personagens ganharem vida. Tem-se a
sensação, ao analisá-los, de que estão vivos, presentes entre nós, o que dá
força ao texto analítico. Analisar uma obra, deixando-se levar pelas
personagens, traz uma riqueza de detalhes, enriquecendo o saber teórico,
aprofundando-o como nos confirma Rosenfeld:
“Somente quando o apreciador
se entrega com certa inocência a todas as virtualidades da grande obra de arte,
esta por sua vez lhe entregará toda a riqueza encerrada no seu contexto. Neste
sentido pode-se dizer com Ernst Cassirer que afastando-se da realidade e
elevando-se a um mundo simbólico o homem, ao voltar à realidade, lhe apreende
melhor a riqueza e profundidade. Através da arte, disse Goethe, distanciamo-nos
e ao mesmo tempo aproximamo-nos da realidade.”[6]
A palavra sexo, secare, em latim, significa cortar, separar.
Masculino e feminino são divisões de um mesmo ser. Um termo só faz sentido em
contraposição, em comparação ao outro. Para que haja sexuação, é necessário que
o sujeito se inscreva na função fálica, independentemente de sua anatomia. A
diferença sexual é um recorte simbólico, que é resultado de movimentos
psíquicos que permitem ao sujeito uma referência a seu sexo anatômico, que o
designará homem ou mulher.
Ricardo Timm de Souza, em seu artigo Identidade e diferença: da mera
identificação ao diferencial de gênero, para a obra As Mulheres e a
Filosofia, nos apresenta uma bela conclusão quando diz que gênero é uma
“construção”, um “constituir” diferença, ato ético, humano por excelência:
“‘Construir’ gênero – ou
seja, ‘constituir’ diferença - é um ato humano por excelência, um ato ético que
supera as determinações da identidade ao assumir a contingência do “ainda não”,
ao ser no tempo e apostar na construção do tempo- do novo tempo:
o tempo da diferença . Mas diferença real, para além do jogo de
espelhos da racionalidade tradicional e das infinitas gradações de violência
que ela comporta e justifica em sua hipertrofia tautológica.”[7]
Ao
término deste trabalho, não com respostas estanques, e sim com mais perguntas,
mas o que importa é que a arte, novamente, nos dá uma solução parcial, porque a
vida não é final, é sempre parcial. Na voz de Antônio Carlos Jobim, em seu belo
poema/canção Águas de Março, sempre ouvido em não menos nome do que o de
Elis Regina, tem-se o masculino e o feminino novamente simbolizados e
presentes:
Referências Bibliográficas
“É
pau, é pedra, é o fim do caminho
É
um resto de toco, é um pouco sozinho
É
um caco de vidro, é a vida, é o sol
É
a noite, é a morte, é um laço, é o anzol
É
peroba do campo, é o nó da madeira
Caingá,
candeia, é o Matita Pereira
É
madeira de vento, tombo da ribanceira
É
o mistério profundo, é o queira ou não queira
É
o vento ventando, é o fim da ladeira
É
a viga, é o vão, festa da cumeeira
É
a chuva chovendo, é conversa ribeira
Das
águas de março, é o fim da canseira
É
o pé, é o chão, é a marcha estradeira
Passarinho
na mão, pedra na atiradeira
É
uma ave no céu, é uma ave no chão
É
um regato, é uma fonte, é um pedaço de pão
É
o fundo do poço, é o fim do caminho
No
rosto o desgosto, é um pouco sozinho
É
um estrepe, é um prego, é uma ponta, é um ponto
É
um pingo , pingando ,é uma conta ,é um conto
É
um peixe, é um gesto, é uma prata brilhando
É
a luz da manhã, é o tijolo chegando
É
a lenha, é o dia, é o fim da picada
É
a garrafa de cana, o estilhaço na estrada
É
o projeto da casa, é o corpo na cama
É
o carro enguiçado, é a lama, é a lama
É
um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã
É
um resto de mato, na luz da manhã
São
as águas de março fechando o verão
É
a promessa de vida no teu coração
É
uma cobra, é um pau, é João, é José
É
um espinho na mão, é um corte no pé
São
as águas de março fechando o verão
É
a promessa de vida no teu coração
É
pau, é pedra, é o fim do caminho
É
um resto de toco, é um pouco sozinho
É
um passo, é uma ponte, é uma sapo , uma ra
É
um Belo Horizonte, é uma febre terçã
São
as águas de março fechando o verão
É
a promessa de vida no teu coração
É
pau, é pedra, é o fim do caminho
É
um resto de toco, é um pouco sozinho
É
um caco de vidro, é a vida, é o sol
É
a noite, é a morte, é um laço, é o anzol
São
as águas de março fechando o verão
É
a promessa de vida no teu coração”
Apesar
das pedras, dos paus, das dificuldades, chega-se ao fim do caminho, um pouco,
não de todo, sozinhos, com mistérios profundos a desvendar, quer queiramos ou
não.
É
a luz da manhã iluminando o caminho na promessa de vida em nossos corações.
[...] São as águas (amor) de março fechando o verão e fechando um “início” de
trabalho.
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[2] Idem.
p.77.
[3] PAVIANI,
Jayme. Donde se avista o caminho. Jornal Pioneiro. Almanaque. 26 e 27 de março
de 2005. p. 23.
[5] Idem.
p.64.
[7]
SOUZA, Ricardo Timm. Identidade e diferença: da mera identificação ao
diferencial de gênero. In: TIBURI, Márcia, MENEZES, Magali de, EGGERT, Edla
(Org.). As Mulheres e a Filosofia. São Leopoldo: Unisinos, 2002. p.242.
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