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terça-feira, 28 de abril de 2020

Sobre Linguística

Vera Marta Reolon

1) Disserte sobre as (possíveis) relações existentes entre os conceitos de “campo” (Bourdieu) e de “região”, levando em consideração as noções de espaço social e espaço político-geográfico.
             A sociologia de P.Bourdieu está centrada no conceito de “habitus” construído sobre a história individual e coletiva para fundamentar as práticas individuais e coletivas. Ele atrela os conceitos de campo e de capital ao de “habitus”, os quais constituem o núcleo de sua sociologia. Para Bourdieu o campo social, diferente do que apregoa Marx, não se restringe ao campo econômico. Formação social para ele é um “sistema de relações de forças e de sentido entre grupos ou classes”.[1] “Objeto social encerra um conjunto de relações internas, um sistema de relações cujo funcionamento a análise permitirá explicar”[2] E, campo social como “espaços estruturados de posições (ou postos), cujas propriedades dependem de sua posição nestes espaços e que  podem ser analisados independentemente das características de seus ocupantes (em parte determinados por elos).”[3] “O “espaço social” assinala uma ruptura com as representações tradicionais da hierarquia social fundadas sobre uma visão piramidal da sociedade. Esta atribui a cada classe uma posição na escala social em função de suas condições materiais de existência.”[4]
         Bourdieu diz então do mundo social: 
         “Assim, pode-se representar o mundo social sob a forma de um espaço (com várias dimensões) construído sobre a base de princípios de diferenciação ou de distribuição constituídos pelo conjunto das propriedades que agem no universo social considerado. [...] Os agentes e os grupos de agentes são assim definidos por suas posições relativas neste espaço. Cada um deles está situado numa posição ou numa classe precisa de posições vizinhas (isto é, numa região determinada do espaço) e não se pode ocupar realmente, mesmo que  seja possível fazê-lo em pensamento, duas regiões opostas do espaço. [...]  Pode-se descrever o espaço social como um espaço multidimensional de posições tal que toda posição atual pode ser definida em função de um sistema multidimensional de coordenadas, cujos valores correspondem aos valores de diferentes variáveis pertinentes. Assim, os agentes se distribuem nele, na primeira dimensão, segundo o volume global do capital que possuem e, na segunda, segundo a composição do seu capital- isto é, segundo o peso relativo das diferentes espécies no conjunto de suas possessões.”[5]
         Assim, sociedade, para Bourdieu é um conjunto de campos sociais, atravessados por lutas de classes, diferenciados progressivamente. Na evolução das sociedades surgem campos sociais produzidos pela divisão de trabalho nesta sociedade. Estes espaços socialmente construídos, que constituem um campo social determinam rede de relações objetivas entre as posições, estas posições são diferenciadas por relações de poder definidas conforme a capacidade dos agentes ou instituições de domínio sobre os objetos de interesse que dão forma ao campo, bem como sobre o capital envolvido nestas relações.
         Campos sociais são espaços sociais constituídos de agentes, capital e status. A sociedade é constituída de diferentes campos interseccionados. Os campos têm leis de funcionamento e tem suas especificidades. O interesse sobre o campo define sua especificidade. Os campos não são espaços com fronteiras rígidas nem são independentes. Articulam-se entre si, cada um se interliga conforme determinados elementos para conhecimento um do outro e da estrutura do espaço social. Um campo articula-se com o outro e com o “geral” social numa relação de conhecimento inter e intra subjetivo.
         A sociologia bourdieusiana constitui as idéias de campo social, sociedade, espaço social com a idéia de “habitus”. A análise do indivíduo e da sociedade passa pelo conceito central de Bourdieu: o “habitus”. O “habitus” é composto por “ethus” (designa os princípios ou valores em estado prático) e “hexis” (corresponde às posturas interiorizadas inconscientemente pelo indivíduo ao longo de sua história). Nesse sentido, o “habitus” é a forma pela qual a realidade é percebida como produto da posição e da trajetória social do indivíduo e está em constante reestruturação. O “habitus” estrutura a sociedade segundo o perfil individual e sua relação com o grupo e o campo social. A relação entre o “habitus” e o campo é antes de tudo uma relação de condicionamento, mas é também uma relação de conhecimento ou construção cognitiva, o “habitus” contribui para constituir o campo como mundo significante, dotado de sentido e de valor, no qual vale a pena investir energia.
         Bourdieu estuda o sujeito enquanto sujeito socializado, seu papel nesta convivência socializada. O “habitus” seria um conjunto de elementos comportamentais incorporados pelo sujeito para viver determinadas situações sociais e para manter-se socialmente inserido a este mundo social. Os indivíduos que constituem um campo social determinado compartilham interesses comuns que garantem a existência deste campo. Os diferentes campos assumem uma identidade própria que permite o funcionamento do campo com suas regras e intercâmbio simbólico e material.Aqui entra a idéia de capital, que diz de um valor que mantém o campo articulado, definido. O possuidor do capital, de acordo com as regras estruturais de funcionamento do campo social, estabelece sua posição no campo, conforme a quantidade e a qualidade do capital que possui. Campo, “habitus” e capital representam expressões específicas de uma cultura, que constitui conjunto de indivíduos, grupos ou instituições que assumem uma posição em um espaço social e que compartilham interesses comuns.
         O conceito de região, desenvolvido no Programa de Mestrado em Letras e Cultura Regional constitui que a idéia de região é uma construção. “Uma região é constituída de acordo com o tipo, o número e extensão das relações adotadas para defini-la, de onde ser possível que as fronteiras se desloquem conforme seja utilizado, com maior ou menor ênfase, um ou outro critério para a sua delimitação.”[6]
         Região, neste programa de Mestrado, portanto, não é vista apenas como divisão político-geográfica, mas como uma construção simbólica, constituindo uma rede de relações, como um espaço político-geográfico socialmente construído, é um espaço periférico em relação ao centro.
         Pierre Bourdieu anuncia sobre a idéia de região: 
         “A “régio” e suas fronteiras não passam do vestígio apagado do ato de autoridade que consiste em circunscrever a região, o território, em impor a definição legítima, conhecida e reconhecida, das fronteiras e do território, em suma, o princípio de divisão legítima do mundo social. Este ato de direito que consiste em afirmar com autoridade uma verdade que tem força de lei é um ato de conhecimento, o qual, por estar firmado, como todo poder simbólico, no reconhecimento, produz a existência daquilo que enuncia..”[7]        
         As idéias de região, tanto de Pozenato, quanto de Bourdieu, desenvolvidas neste programa de Mestrado, não constituem idéias acabadas de uma realidade concreta, são realidades em construção, influenciadas pelos valores simbólicos desenvolvidos em seus contextos.
         Assim, penso que as idéias de região, propostas no programa de Mestrado e as idéias de campo social, conforme desenvolvidas por Bourdieu em sua sociologia se interligam. Ambos, campo e região são construções sociais determinadas a partir das relações que se desenvolvem em seu interior e produzem maior ou menor peso, em relação ao centro, conforme o capital, “valor” que possuem em suas características próprias, determinadas pelos outros campos ou regiões, por um outro que a observa ou determina. Região é hoje um feixe de relações em uma rede sem fronteiras. 

2) Disserte sobre as relações existentes entre Língua e Identidade Social e (ou) Cultural.
         Diversos são os aparatos ideológicos que tornam um sujeito pertencente a determinado grupo 
pelos processos de socialização: família, escola, religião, partidos políticos, exército, etc. Estes aparatos ideológicos estão relacionados às formações ideológicas vinculadas a diferentes formações discursivas, estas reportam-se a um discurso específico, que está inserido em uma linguagem vinculada a uma ideologia.
         A partir do enunciado se depreendem as noções do discurso. O sujeito da enunciação é um sujeito instituído na Análise do Discurso, a partir da linguagem, como ele, através do signo, se apresenta, o modo como o discurso marca o sujeito. O sujeito da Análise de Discurso está constituído na linguagem. No livro Cinq Leçons sur la Théorie[8] de Jacques Lacan, de Nasio, Saussure é uma vítima, quando ele reconhece “a ordem lingüística do significante” (p.24). Mas logo acrescenta que este só é determinado por “três critérios não lingüísticos” (ibid). Atribui a Lacan, post mortem, afirmações surpreendentes sobre Saussure (p.93), e diz que “Lacan respeita a diferença estabelecida por Saussure entre língua e linguagem: a língua é a linguagem falada” (p.73).  Saussure nunca fez esta afirmação.
         Em psicanálise, o “inconsciente está estruturado como linguagem”, segundo Lacan e “significante é o que representa o sujeito para outro significante”. Logo, as formações discursivas, os contactos de uns com os outros, se dão através de significantes lingüísticos, representantes da “coisa” no inconsciente. Kant diz que “a coisa é incognosível em si mesma”. Lacan, leitor de Freud coloca que a coisa é representada, simbolizada. O inconsciente é da ordem do Real, registro que não diz de si mesmo, só é representado no registro do Simbólico. O inconsciente está no registro do Real, a língua, segundo meu entendimento seria uma das formas que o Simbólico utiliza para fazer as representações inconscientes, transformadas na linguagem.  
         A língua falada seria o conjunto dos signos utilizados por determinado grupo para que possam se compreender, interagir. Mas a língua, neste contexto, não seria só uma forma de comunicação. Além de transformação do inconsciente em símbolos, ela passa a ser uma marca distintiva de um povo, de um grupo, uma marca identitária, que identifica este grupo para outro, que o diferencia dos demais. Quando passagem de representação simbólica do inconsciente, para marca identificadora de um grupo, a língua a meu ver, muda de registro, ela passa do registro Simbólico (representação significante), para registro Real (marca primordial de um sujeito, no caso, o grupo ao qual pertence). Torna-se então uma marca primordial de identidade social, cultural.
         Pensando desta forma, e provando-se desta teoria, seria extremamente complicado para um imigrante, portanto, deixar seu país, um grupo, com suas marcas, Reais e Simbólicas, e inserir-se em outro grupo, formando novas marcas, seria em psicanálise, nascer de novo, ser um outro sujeito, com outras marcações. Daí as formações dialéticas, talvez, as transposições de letras, a tentativa de juntar duas representações lingüísticas e criar uma nova, sua, à semelhança do bebê que aprende a caminhar, a viver, experimentando novas situações, conforme vai aprendendo-as (pensando na teoria da assimilação, acomodação, equilibração de Piaget) vai sabendo de si, vai se constituindo.
         Daí talvez, as muitas dificuldades em “traduzir” uma palavra para outra língua, pois carrega muitas outras representações, Simbólicas, mas também constitui marcas Reais, não passíveis de serem ditas, só representadas.
         Falar outra língua, ter uma língua é constituir uma identidade social e (ou) cultural, é ter um sentido de pertencimento a determinado grupo, é uma marca identificatória pessoal e grupal. 

3) Disserte sobre o conceito de língua funcional em Coseriu, conforme a obra “Noções de Lingüística Geral”. 
         A obra Noções de Lingüística Geral[9], de Eugenio Coseriu, procura relacionar signo com fatores exteriores, ou melhor, extralingüísticos, afirmando que o sistema lingüístico não é fechado. Isso ocorre quando o sujeito não utiliza apenas a língua, em si, mas também outros artifícios expressivos da linguagem, como os gestos, as diferentes entonações, o uso de sinais ou mímicas.
         Coseriu afirma, com convicção, que para entender ou determinar o funcionamento de uma determinada língua, o pesquisador deve levar em conta esses contextos e fatores extralingüísticos, tanto na fala, como na escrita. O autor também coloca que é necessário analisar o uso de fatores culturais e sociais extralingüísticos.
         Além disso, Coseriu, em sua obra, estabelece relações entre o estruturalismo – doutrina defendida por Sausurre que considera qualquer sistema como um conjunto de elementos solitários entre si de modo a formar uma estrutura – e a sociolingüística. Para Eugenio, entretanto, a língua histórica é mais que um sistema lingüístico, ela é um “diassistema”, ou seja, um sistema constituído de outros subsistemas (das variedades lingüísticas) – um conjunto complexo de dialetos, níveis e estilos de língua. Coseriu conclui, a partir dessas observações, que a língua histórica não é homogênea e apresenta sempre variedade interna.
         Estas variedades lingüísticas não são geradas pelo sistema, são geradas pela relação com os fatores extralingüísticos. Segundo o autor, elas, as variedades, são chamadas de línguas funcionais. As diferenças que compõem a língua histórica pertencem a três tipos de fatores extralingüísticos: “diatópicas”, diferenças geradas por fatores geográficos; “diastráticas”, diferenças entre os estratos sócio-culturais da comunidade lingüística, tais como idade, sexo, profissão, escolaridade, classe; e “diafásicas”, diferenças entre as situações do dia-a-dia, as quais o indivíduo se força a adequar a linguagem. O sistema, conforme Eugenio, é afetado pelo exterior.
         Portanto, para Coseriu, não é possível, e viável, descrever uma língua histórica, estruturalmente, como um sistema lingüístico, homogêneo, pois ela contém subsistemas lingüísticos, extremamente, diferenciados.
         O autor estabelece, com isso, uma distinção entre língua funcional língua histórica. A língua histórica é uma língua constituída como unidade ideal e identificada como tal por seus “falantes” e pelos “falantes” de outras línguas,nunca é homogênea. É um conjunto complexo de tradições lingüísticas, historicamente conexas, mas diferentes entre si e, somente em partes, concordantes. A língua funcional, por sua vez, é uma técnica lingüística inteiramente determinada, unitária e homogênea, em três aspectos: um só dialeto em um só nível e em um estilo único de língua, ou seja, uma língua sintópica, sinstrática e sinfásica.
         A língua histórica é, portanto, de acordo com Coseriu, um sistema de línguas funcionais. Cada língua funcional tem uma norma, constituída a partir de regularidades. Entretanto, essa norma não se relaciona com a norma culta.
         Para Coseriu, a norma é normal. A norma é procurada pela abstração, num conjunto de regularidades. A norma é regular, não é imposta. 
         Cada língua falada é um idioleto, por cada sujeito; o dialeto é uma abstração. A língua funcional é uma abstração, ela não vê a particularidade dos idioletos. Para descrever uma língua histórica, por outro lado, seria necessário descrever todas as línguas funcionais integrantes dela.
         A língua funcional, na perspectiva de Coseriu, é vantajosa por ser homogênea e por ser realizada nos discursos ou textos. Entretanto, apresenta um inconveniente: não pode ser facilmente deduzida dos textos, nem do falar de um só indivíduo, pois todo falante conhece e utiliza mais de uma língua funcional.

         Tendo em vista as conclusões do autor, ao fazer-se o estudo de uma determinada língua, devemos realizar um corte sincrônico que atravesse os diferentes subsistemas gerados por fatores geográficos, por diferenças entre os estratos sociais e pela adequação da linguagem às diferentes situações do cotidiano. (Vide esquema abaixo). Portanto, a descrição estrutural da língua, que é uma variedade de fatores, não pode ser apenas sincrônica, mas deve ser também sintópica, sinstrática e sinfásica.   
    

                                          
  



[1] BONNEWITZ, Patrice. Primeiras Lições sobre a Sociologia de Pierre Bourdieu. Petrópolis: Vozes, 2003. p. 22.
[2] Idem. p.38.
[3] idem. p.38.
[4] idem. p.52.
[5] BOURDIEU, Pierre. Espace Social et Genèse des “Classes”.Op.cit.,p.3.
[6] POZENATO, José Clemente. Universidade e Região: A regionalização como... Dissertação de Mestrado.S.Paulo: Universidade Federal de São Carlos, 1995. p.19.
[7] BOURDIEU, Pierre. O Poder Simbólico. São Paulo: Ditel, 1989. p.114.
[8] NASIO, Juan-David. Cinq Leçons sur la théorie de Jacques Lacan. Rivages-Psychanalyse,1992.
[9] COSERIU, Eugenio. Noções de lingüística geral. Rio de Janeiro: Ao livro técnico, 1980.

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