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terça-feira, 28 de abril de 2020

O QUE APRENDEMOS COM AS CRIANÇAS QUE NÃO APRENDEM?


Seminário 14 A Lógica do Fantasma – Lições VI a XII
O que aprendemos com as crianças que não aprendem? – Confrontação teórico-clínica
Vera Marta Reolon, psicanalista e professora (UFRGS)

No seminário 14, sobre a lógica do fantasma, Lacan parte do “cogito” cartesiano; “cogito, ergo sum” – penso, logo existo – para desenvolver seu pensamento, especificamente seu seminário. Parte ele da repetição e nos diz que na repetição o que se repete nunca é a mesma coisa. Que quer dizer com isso?
A partir da premissa “o inconsciente é estruturado como linguagem”, sabe-se que o sujeito se constitui a partir do desejo do Outro, Conatus – Spinoziano?, que institui Desejo, passando assim a Sujeito desejante, S. Este Desejo que o sujeito porta, a partir do desejo do Outro, poderia ser em Spinoza o desejo, “apetite com consciência de si mesmo”. Este Outro, a partir da direção de seu olhar para um outro que não o filho, Lugar de Desejo da Mãe, barra o sujeito, instituindo a falta, “[...] o sujeito é, por um lado, barrado daquilo que o constitui propriamente, enquanto função do inconsciente” (LACAN, 2008, p.12), $. Assim, enquanto faltante, este $, buscará no mundo, completar esta falta nunca passível de completude, mas busca necessária à vida. Lacan vale-se da lógica (“[...] há sujeito a partir do momento em que fazemos lógica, i.é., em que temos de manejar significantes” (2008, p.14)), para nos inserir no contexto do entendimento deste inconsciente dos diferentes sujeitos, “um significante é o que representa um sujeito para outro significante”. Assim, não pessoalizamos, mas criamos estruturas lógicas para entendermos o que acontece nestas estruturações dos diferentes e muitos sujeitos. Na estrutura deste $, o Outro permanece, então, sob o prisma lógico, como um significante, que representa o Outro, A, de Autre, para o significante $, significante que fica como marca inconsciente, “[...] a marca é original na função da repetição” (LACAN, 2008, p. 44), que eventualmente aparece como seio, olhar, voz, “[...] é enquanto uma das letras está ausente que as outras funcionam, mas que sem dúvida é, em sua falta mesma que reside toda a fecundidade da operação” (LACAN, 2008, p. 45). 
Lacan utiliza-se da lógica matemática e, junto ao cogito cartesiano, onde Lacan ironiza com o uso que fizeram desse cogito, fazendo piada com a expressão especialista, porque o entendimento moderno (aqui moderno da Modernidade) levou o cogito ao estatuto da ciência, ciência dita “americana”, dogmática, fechada, compartimentada e não ao instituído pelo próprio Descartes ao enunciá-lo, mais tarde corrigido com “dubito, ergo sum”, pensar, enquanto operação, dúvida, que me conduz à busca, busca por respostas diversas a minhas indagações, diferença primordial de tudo o que vemos sendo feito com o cogito cartesiano, mesmo, e até agora, na Pós-Modernidade. Desenvolve assim, a partir da dúvida, cogito cartesiano bem traduzido, sua BUSCA PELA VERDADE, verdade essa do $, este que é objeto de estudo da psicanálise. Desenvolve então o estatuto da estruturação deste $, em sua busca pela verdade.
Diz, Lacan, que na presença do sintoma (“eu minto”) deve-se atentar pois ele, sintoma, é uma mentira que chama atenção para a verdade, importância fundamental à práxis analítica, para  nos interrogarmos  sobre o que é o verdadeiro do qual se trata aí “eu, a verdade, falo” – “[...] é da característica do falso tornar tudo verdadeiro [...]” (LACAN, 2008, p. 72). Ponto de origem este entre o significante e a verdade. “[...] o substituto tem por efeito de sub-situar isso ao que ele se substitui [...]” (LACAN, 2008, p. 92), o que está recalcado no inconsciente vem se mostrar como metáfora do funcionamento do inconsciente no sintoma. No universo do discurso do sujeito não há fechamentos, a verdade se mostra, daí dizermos que a estrutura se dá como efeito de linguagem, efeito da verdade. Chega Lacan no desdobramento do cogito cartesiano no “eu não sou, eu não penso”, porque tudo o que aparece, se desloca, é da ordem do fantasma, como defesa, “[...] e por falta de saber que tudo é deslocado, marginal, na perspectiva que cada fantasma o que pode ser a realidade do inconsciente. Essa alguma coisa que nos falta e que constitui o escabroso daquilo com o qual somos confrontados, não por alguma contingência: a saber, essa nova conjunção do ser e do saber” (LACAN, 2008, p. 110). Nos deslocamentos, lá onde “eu não sou, eu não estou”, vem algo deslocado, marginal, mas que representa meu estatuto de verdade, minha busca no saber para poder ser, tornar-se. É sempre mascarada na mentira que a verdade emerge. No sintoma fazemos uma recusa em ser, escondemo-nos, mascaramo-nos. “[...] há um ser do eu fora do discurso” (LACAN, 2008, p. 123), “eu sou”, não contém nenhum elemento, é um lugar vazio, porque o eu argumentativo do “eu sou, eu penso” não está senão em argumento com o Outro, não é funcionamento mental, mas funcionamento psíquico, marca. As interrogações do ser, cujo limite é o franqueamento do cogito, o que vem em lugar é o Outro, como alienação, alienação essa que no lugar do Outro, é a vontade. “A verdade da alienação só se mostra na parte perdida, que não é outra que o eu não sou”  (LACAN, 2008, p. 131). O Outro aparece assim, como lugar da palavra.
Articulando os confrontos teórico-clínicos propostos por Bergès, vemos múltiplos sofrimentos, crianças que chegam aos institutos com singulares sintomas, da escrita, da linguagem articulada, encaminhadas por escolas ainda despreparados à escuta de suas singulares verdades, ainda aprisionadas (as escolas) em discursos cartesianos (aqui dogmáticos, fechados, especializados) que só fazem mascarar ainda mais a verdade, e afastá-los da resolução das charadas propostas pelos diferentes sintomas. Sintomas esses, muitas vezes, quase sempre, trazidos nesta impossibilidade de percepção da castração do Outro, necessária para instituir qualquer estatuto desejante nestes pequenos seres.
 S (Á) se articula aí toda a dialética do desejo enquanto ela se aprofunda com o intervalo entre o enunciado e a enunciação.
         
tu não és, logo eu não sou será que não é a linguagem o mais importuno do amor mesmo? tu não és senão o que eu sou

Para que possamos encontrar a verdade é preciso que “[...] o olhar deve ser procurado alhures naquilo que o viajante quer ver onde ele desconhece que se trata daquilo que o imobiliza em seu olhar de viajante” (LACAN, 2008, p. 161)

O ler e o escrever passam como sentido do aprender como castração, negação da castração do Outro. Não aprendo porque seria reconhecer a castração do Outro se eu aprender, seria reconhecer-me, lá onde eu faço “tamponamento” à castração do Outro.
Nas confrontações teórico-clínicas, confrontei-me com a clínica das toxicomanias, onde sujeitos envolvidos, perdidos em seus dizeres, trazem sua “verdade” no não assumir a nomeação paterna, não aceitação da lei?. Sujeitos esses que sempre me conduziram a pensar na dobradinha: não assumir a nomeação paterna, não (ter?) a inscrição paterna NP, não respeitar a lei social (drogas são ilícitas, socialmente e ao meu corpo!). “A função paterna vem temperar a primitiva repressão social, interdição da mãe, obrigação primordial, por seu efeito de abertura do laço social sustentado por um ideal de promessa” (BERGÈS, 2008, p.88).
Como nos diz Françoise Dolto: “A castração, quer diga respeito às pulsões orais, anais ou genitais, consiste em dar à criança os meios de estabelecer a diferença entre o imaginário e a realidade autorizada pela lei, nas diferentes etapas citadas” (DOLTO, 1985, p.43) e “Nossa atitude concerne unicamente a esse ser simbólico. Essa é nossa castração de analistas”. (DOLTO, 1985, p. 40).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BERGÈS, Jean; BERGÈS-BOUNES, Marika; CALMETTES-JEAN, Sandrine (org.). O que aprendemos com as crianças que não aprendem? Porto Alegre: CMC, 2008.
DOLTO, Françoise. Seminário de psicanálise de crianças. Rio de Janeiro: Zahar, 1985.
_______. Seminário de psicanálise de crianças: tomo 2. Rio de Janeiro: Guanabara, 1990.
LACAN, Jacques. O seminário: livro 14: a lógica do fantasma, 1966-1967. Recife: Centro de Estudos Freudianos do Recife, 2008.

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