Seminário 14 A Lógica do
Fantasma – Lições VI a XII
O que aprendemos
com as crianças que não aprendem? – Confrontação teórico-clínica
Vera Marta
Reolon, psicanalista e professora (UFRGS)
No
seminário 14, sobre a lógica do fantasma, Lacan parte do “cogito” cartesiano; “cogito, ergo sum” – penso, logo existo –
para desenvolver seu pensamento, especificamente seu seminário. Parte ele da repetição e nos diz que na repetição o
que se repete nunca é a mesma coisa. Que quer dizer com isso?
A
partir da premissa “o inconsciente é estruturado como linguagem”, sabe-se que o
sujeito se constitui a partir do desejo do Outro, Conatus – Spinoziano?, que
institui Desejo, passando assim a Sujeito desejante, S. Este Desejo que o
sujeito porta, a partir do desejo do Outro, poderia ser em Spinoza o desejo, “apetite
com consciência de si mesmo”. Este Outro, a partir da direção de seu olhar para
um outro que não o filho, Lugar de Desejo da Mãe, barra o sujeito, instituindo
a falta, “[...] o sujeito é, por um lado, barrado daquilo que o constitui
propriamente, enquanto função do inconsciente” (LACAN, 2008, p.12), $. Assim, enquanto faltante, este $, buscará no mundo, completar esta
falta nunca passível de completude, mas busca necessária à vida. Lacan vale-se
da lógica (“[...] há sujeito a partir do momento em que fazemos lógica, i.é.,
em que temos de manejar significantes” (2008, p.14)), para nos inserir no
contexto do entendimento deste inconsciente dos diferentes sujeitos, “um
significante é o que representa um sujeito para outro significante”. Assim, não
pessoalizamos, mas criamos estruturas lógicas para entendermos o que acontece
nestas estruturações dos diferentes e muitos sujeitos. Na estrutura deste $, o Outro permanece, então, sob o
prisma lógico, como um significante, que representa o Outro, A, de Autre, para o significante $, significante que fica como marca
inconsciente, “[...] a marca é original na função da repetição” (LACAN, 2008, p.
44), que eventualmente aparece como seio, olhar, voz, “[...] é enquanto uma das
letras está ausente que as outras funcionam, mas que sem dúvida é, em sua falta
mesma que reside toda a fecundidade da operação” (LACAN, 2008, p. 45).
Lacan
utiliza-se da lógica matemática e, junto ao cogito cartesiano, onde Lacan
ironiza com o uso que fizeram desse cogito, fazendo piada com a expressão
especialista, porque o entendimento moderno (aqui moderno da Modernidade) levou
o cogito ao estatuto da ciência, ciência dita “americana”, dogmática, fechada,
compartimentada e não ao instituído pelo próprio Descartes ao enunciá-lo, mais
tarde corrigido com “dubito, ergo sum”,
pensar, enquanto operação, dúvida, que me conduz à busca, busca por respostas
diversas a minhas indagações, diferença primordial de tudo o que vemos sendo
feito com o cogito cartesiano, mesmo, e até agora, na Pós-Modernidade. Desenvolve
assim, a partir da dúvida, cogito cartesiano bem traduzido, sua BUSCA PELA
VERDADE, verdade essa do $, este que
é objeto de estudo da psicanálise. Desenvolve então o estatuto da estruturação
deste $, em sua busca pela verdade.
Diz,
Lacan, que na presença do sintoma (“eu minto”) deve-se atentar pois ele,
sintoma, é uma mentira que chama atenção para a verdade, importância
fundamental à práxis analítica, para nos
interrogarmos sobre o que é o verdadeiro
do qual se trata aí “eu, a verdade, falo” – “[...] é da característica do falso
tornar tudo verdadeiro [...]” (LACAN, 2008, p. 72). Ponto de origem este entre
o significante e a verdade. “[...] o substituto tem por efeito de sub-situar
isso ao que ele se substitui [...]” (LACAN, 2008, p. 92), o que está recalcado
no inconsciente vem se mostrar como metáfora do funcionamento do inconsciente
no sintoma. No universo do discurso do sujeito não há fechamentos, a verdade se
mostra, daí dizermos que a estrutura se dá como efeito de linguagem, efeito da
verdade. Chega Lacan no desdobramento do cogito cartesiano no “eu não sou, eu
não penso”, porque tudo o que aparece, se desloca, é da ordem do fantasma, como
defesa, “[...] e por falta de saber que tudo é deslocado, marginal, na
perspectiva que cada fantasma o que pode ser a realidade do inconsciente. Essa
alguma coisa que nos falta e que constitui o escabroso daquilo com o qual somos
confrontados, não por alguma contingência: a saber, essa nova conjunção do ser
e do saber” (LACAN, 2008, p. 110). Nos deslocamentos, lá onde “eu não sou, eu
não estou”, vem algo deslocado, marginal, mas que representa meu estatuto de
verdade, minha busca no saber para poder ser, tornar-se. É sempre mascarada na
mentira que a verdade emerge. No sintoma fazemos uma recusa em ser, escondemo-nos, mascaramo-nos. “[...] há um ser do eu
fora do discurso” (LACAN, 2008, p. 123), “eu sou”, não contém nenhum elemento,
é um lugar vazio, porque o eu argumentativo do “eu sou, eu penso” não está
senão em argumento com o Outro, não é funcionamento mental, mas funcionamento
psíquico, marca. As interrogações do ser, cujo limite é o franqueamento do
cogito, o que vem em lugar é o Outro, como alienação, alienação essa que no
lugar do Outro, é a vontade. “A verdade da alienação só se mostra na parte
perdida, que não é outra que o eu não sou”
(LACAN, 2008, p. 131). O Outro aparece
assim, como lugar da palavra.
Articulando
os confrontos teórico-clínicos propostos por Bergès, vemos múltiplos
sofrimentos, crianças que chegam aos institutos com singulares sintomas, da
escrita, da linguagem articulada, encaminhadas por escolas ainda despreparados
à escuta de suas singulares verdades, ainda aprisionadas (as escolas) em
discursos cartesianos (aqui dogmáticos, fechados, especializados) que só fazem
mascarar ainda mais a verdade, e afastá-los da resolução das charadas propostas
pelos diferentes sintomas. Sintomas esses, muitas vezes, quase sempre, trazidos
nesta impossibilidade de percepção da castração do Outro, necessária para
instituir qualquer estatuto desejante nestes pequenos seres.
S (Á) → se
articula aí toda a dialética do desejo → enquanto
ela se aprofunda com o intervalo entre o enunciado e a enunciação.
↓
tu
não és, logo eu não sou → será que não é a
linguagem o mais importuno do amor mesmo? → tu
não és senão o que eu sou
Para
que possamos encontrar a verdade é preciso que “[...] o olhar → deve
ser procurado alhures → naquilo que o
viajante quer ver → onde ele desconhece
que se trata daquilo que o imobiliza em seu olhar de viajante” (LACAN, 2008, p.
161)
O
ler e o escrever passam como sentido do aprender como castração, negação da
castração do Outro. Não aprendo porque seria reconhecer a castração do Outro se
eu aprender, seria reconhecer-me, lá onde eu faço “tamponamento” à castração do
Outro.
Nas
confrontações teórico-clínicas, confrontei-me com a clínica das toxicomanias,
onde sujeitos envolvidos, perdidos em seus dizeres, trazem sua “verdade” no não
assumir a nomeação paterna, não aceitação da lei?. Sujeitos esses que sempre me
conduziram a pensar na dobradinha: não assumir a nomeação paterna, não (ter?) a
inscrição paterna NP, não respeitar a lei social (drogas são ilícitas,
socialmente e ao meu corpo!). “A função paterna vem temperar a primitiva
repressão social, interdição da mãe, obrigação primordial, por seu efeito de
abertura do laço social sustentado por um ideal de promessa” (BERGÈS, 2008,
p.88).
Como
nos diz Françoise Dolto: “A castração, quer diga respeito às pulsões orais,
anais ou genitais, consiste em dar à criança os meios de estabelecer a
diferença entre o imaginário e a realidade autorizada pela lei, nas diferentes
etapas citadas” (DOLTO, 1985, p.43) e “Nossa atitude concerne unicamente a esse
ser simbólico. Essa é nossa castração de analistas”. (DOLTO, 1985, p. 40).
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BERGÈS, Jean; BERGÈS-BOUNES, Marika; CALMETTES-JEAN, Sandrine (org.). O
que aprendemos com as crianças que não aprendem? Porto Alegre: CMC, 2008.
DOLTO, Françoise. Seminário de psicanálise de crianças.
Rio de Janeiro: Zahar, 1985.
_______. Seminário de psicanálise de crianças: tomo 2. Rio de Janeiro:
Guanabara, 1990.
LACAN, Jacques. O seminário: livro 14: a lógica do
fantasma, 1966-1967. Recife: Centro de Estudos Freudianos do Recife, 2008.
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