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terça-feira, 28 de abril de 2020

Poesia: Masculino/ Feminino



Vera Marta Reolon

            Pode-se dizer que existe uma poesia feminina no Rio Grande do Sul? Como é essa poesia, ela se difere da masculina? Que é poesia feminina?
            O Rio Grande do Sul, à semelhança dos outros estados brasileiros e mesmo do mundo tem poetas mulheres, em número reduzido ao de homens, mas as tem, quer seja em nomes como os de poetisas ligadas à Academia Literária Feminina do Rio Grande do Sul, quer em nomes como o de Lila Ripoll.
            As componentes da Academia Literária Feminina do Rio Grande do Sul, constantes no livro Perfis de Musas, Poetas e Prosadores Brasileiros, de Alzira Freitas Tacques, são poetisas que se reuniam na casa de uma das acadêmicas, faziam uma Oração à Arte, de autoria de Alzira, uma ode parnasiana à arte, endeusando os valores clássicos gregos e o Belo e trocavam seus versos, em meio ao estilo clássico da casa e aos mitos clássicos gregos evocados na poética de suas membros. Adotando um modelo parnasiano ultrapassado, principalmente porque em 1950 os poetas já utilizavam as alterações poéticas e na arte implementadas na Semana de 22, Alzira Freitas Tacques, Lídia Moschetti, Aurora Nunes Wagner, Stela Brum, Seleneh de Medeiros,Honorina Bittencourt, Natercia Cunha Veloso, Camila Furtado Alves, Jeny Seabra de Souza, Noemy Valle Rocha, Lydia de Viveiros Leiria, Anita Gonzales, Otilia de Oliveira Chaves, Eudoxia Assumpção Almeida, Bertha Loforte Gonçalves, Déa R. de Figueiredo, Vera da Costa Vianna, Nenê Callage, Isis Freitas Tacques, Eni Taluá Tosca de Freitas, Maria Pavão Von Bassewitz César, Diva Machado Pereira Kastrup, Carmem Cunha Vianna, Consuelo Andrade Belloni, Diocólmata Berlese de Matos Dourado, Cely Dal Pai de Mello, Cora Torres Maia, Aracy Froes Peres, Lydia J.Martins, Heloiza Assumpção Plínio de Nascimento, Beatriz Regina, Leda de Aparecida Camargo, Virgínia Martins Michielin, Magda Costa, Jenny Maria Gobbi, Maria Isaura Gameiro, Suelly Isabel Luiza Rossler, Maria de Lourdes Weber de Carvalho, Eva Stein e Suely Freitas de Prunes marcam mais uma presença feminina na literatura do Rio Grande do Sul do que uma real diferença com suas escrituras.
            O poema Promessa, de Stela Brum, retrata o fazer poético das acadêmicas, onde observa-se um lirismo quase adolescente, imaturo:
           
“Eu mesma prometi, meu coração,
            que te haveria de ofertar um dia
            o presente melhor, de mais valia,
            a relíquia mais bela que existisse
            dentro da vida, esparsa no universo.
            E desde então meu pensamento triste
            Buscou, forjou, arquitetou mil cousas
            Que deveriam ser o curso presente.
            Menina e moça, em meio à faceirice.....”[1] 

            Heloiza Assumpção Plínio do Nascimento, Bacharel de Direito em Pelotas e professora de História da Arte, na Escola de Belas Artes de sua cidade, publicou o Soneto para um Raio de Sol, onde faz uma ode à natureza:

            “Com timidez entrou pálido a fresta
            do postigo cerrado da janela...
            E veio leve, com seu ar de festa,
            a face me beijar...todo cautela.

            Eu lhe sorri sem pressa, com amor,
            fiz menção de pegá-lo junto ao rosto
            como se fosse a haste de uma flor,
            esse raio de sol do mês de Agosto.

            E assim me despertou completamente
            o luminoso e mudo rouxinol,
com a fidalga expressão de antigamente... 

            Quanta gente deseja, mas não diz,
            um despertar tranqüilo..com este sol
            que dá o divino dom de ser feliz!...”[2]

            As trovas de Nenê Callage:
           
            “Enquanto esta Humanidade
            só pensa no poderio,
            humildemente rabisco
            TROVINHAS ao meu feitio...”[3]

            Outra, de Nenê Callage, sobre São João:

            “Nesta noite de São João,
            tradicional em festejos,
            eu peço com devoção
            que Ele atenda aos meus desejos...”[4]

            Diferente das acadêmicas de literatura, Lila Ripoll, nascida em 1905, falecida em 1967, de câncer, percorreu caminhos da poesia ocidental contemporânea, em temas como a morte e o amor, reminiscências da infância, perdas e na luta politicamente engajada do Partido Comunista. Inicialmente dedicada à música, Lila passa a publicar seus poemas e a lecionar no magistério estadual em Porto Alegre. Integra-se ao grupo de escritores denominado Geração de 30. Em 1939, é convidada a trabalhar na Secretaria de Educação. Com a morte de seu primo Waldemar da Silva Ripoll de forma violenta, Lila inicia sua militância política no Partido Comunista. Seu primeiro livro De Mãos Postas, editado pela Livraria do Globo, em 1938, dedicado à memória de Waldemar marca tristeza e solidão, como nos versos do poema Vim ao Mundo em Agosto:

            “..Sou triste de nascença e sem remédio.
            Vim ao mundo no triste mês de agosto: -
            O mês fatal das chuvas e do tédio, -
            E nasci quando o sol estava posto.
            ......
            Sou triste. É irremediável este mal.
            E eu não quero curar minha tristeza.
            Só ela para mim tem sido leal
            Na minha via-sacra de incerteza!.....”[5]

            Seu segundo livro Céu Vazio, com capa a cores, ganhou prêmio Olavo Bilac da Academia Brasileira de Letras, em 1943, dedicado ao pai, trata basicamente da infância e das perdas, como se observa nos versos do poema Fugiram meus olhos:

            “Fugiram meus olhos,
            sem minha vontade,
            e andaram perdidos
            por dias, nos teus...
           
            O fim dessa viagem
            não posso entender.
            Voltaram, e hoje,
            nem sei se são meus!....”

            Lila publicou mais livros: Por quê? Em 1945 (vem a público em 1947); Novos Poemas, primeiro da trilogia da Revista Horizonte, do Partido Comunista, em que se verifica um engajamento a uma poesia de caráter social; o poema Primeiro de Maio, poema extenso dividido em quatro partes Festejo, Passeata, Amanhã e Angelina; o terceiro da trilogia da Horizonte, Poemas e Canções, de 1957 que, segundo o Correio do Povo, contém a seleção dos melhores versos dos últimos anos; o último livro antes de sua morte, o melhor na opinião da crítica O Coração Descoberto e ainda, um livro póstumo Águas Móveis, em que no prefácio de Walmir Ayala consta:

            “..Lila é uma mulher rodeada de mortos, e inesquecida. É uma mulher voltada para o escuro silêncio dos bens perdidos. Uma mulher em lágrimas, em permanente pranto convulsivo, visível, nobre....”[6]

            Lila além de concertista, poetisa, trabalhadora, política engajada, ainda escreveu uma peça teatral Um Colar de Vidro, peça em três atos, encenada no Theatro São Pedro, em Porto Alegre, em 1958.
            Diferente das poetisas da Academia Literária Feminina do Rio Grande do Sul, que se mantinham isoladas em um “gueto” feminino, Lila freqüenta o mundo masculino, o grupo Geração de 30, o funcionalismo público, o mundo político, a dor.
            Mas o que é feminino, masculino? Ethel Person e Lionel Ovesey, em seu artigo sobre Teorias Psicanalíticas da Identidade de Gênero, dizem:

            “De maneira geral, definimos a identificação de gênero como composta de duas categorias: identidade de gênero nuclear e identidade da função de gênero. Neste contexto, identidade de gênero nuclear – a polaridade fêmea/macho – reflete uma auto imagem biológica e pode ser definida como a autodesignação por um indivíduo da sua qualidade de fêmea ou macho. É o senso de pertencer biologicamente a um sexo ou a outro: isto é, a convicção: “Eu sou fêmea” ou “Eu sou macho”. Em contraste, a identidade da função de gênero, a polaridade feminino/masculino reflete uma auto-imagem psicológica e pode ser definida como a auto-avaliação do indivíduo da feminilidade ou masculinidade psicológicas. É a percepção da feminilidade ou masculinidade: isto é, a crença: “Eu sou feminino” ou “Eu sou masculino”, comparativamente aos padrões sociais para o comportamento feminino ou masculino.”[7]

Na espécie humana as primeiras culturas foram as de coleta e, nelas, o primata/humano toma a posição ereta e começa o seu desenvolvimento do córtex cerebral com as suas primeiras conquistas tecnológicas. Um segundo “ponto de mutação” teria ocorrido, quando o ser humano inventa o machado e inicia-se o período de caça, criando, com isso, novas estruturas psíquicas coletivas. Há dez mil anos, a fundição de metais  e a agricultura instauram um terceiro “ponto de mutação”, com a formação de aldeias e o fim do estado nômade. Um quarto “ponto de mutação” ocorre há pouco mais de trezentos anos com o advento da civilização industrial, possibilitando avanços científicos e tecnológicos, especializando a urbanização, onde se observa uma organização social mais individualizada da consciência. Hoje vivemos um novo “ponto de mutação” com a aceleração dos processos tecnológicos, com a informatização galopante. Este processo é forte, violento, à semelhança do primeiro, em que o animal transformou-se em homem (adquirindo a forma ereta).
As relações entre os grupos, inicialmente de solidariedade, passam a ser regidas pela violência, pela caça, pela competição. Hoje também, de uma forma mais sutil, mais “tecnológica”, as relações humanas são violentas, agressivas, de competição extrema, de subjugação, em que a Dialética do Senhor e do Escravo de Hegel torna-se extremamente atual. Num momento em que vale o “matar ou morrer”, a objetivação total do humano, parece transparecer um mundo masculino, forte, trágico, de dor e solidão.
Um mundo feminino seria onde as relações fossem regidas pela vida, pela solidariedade, pelas noções de cuidado, de preservação de si e do outro, de compartilhamento de vida e dos bens da natureza, mas também de perfídia, de deslealdade, traição, infidelidade.
O masculino e o feminino puros carregam  estigmas de bem e de mal. Deveriam conviver dentro do homem (como ser) e da sociedade como tal a complementaridade  das duas estruturas, a força convivendo com a vida, o equilíbrio. Evoluir como ser é buscar este equilíbrio de forças, esta convivência pacífica consigo mesmo e com  os outros e o mundo. Isso pode ser observado na arte e na vida.
Na poesia de Lila Ripoll observa-se uma dor e uma solidão que não pedem solidariedade, que se bastam, que são absolutas. Sente-se o trágico em cada linha, como que um “gostar de sentir dor”, à semelhança de Baudelaire....., sangue,..., vinho tinto,.... É uma poesia masculina, com todas as suas características de destruição.
            Podemos encontrar mulheres fortes, com espírito masculino como Lila Ripoll e homens com “alma” feminina, dizendo na poética ou não de si ou de mulheres.
Chico Buarque de Holanda carrega as características do feminino em seu trabalho (na forma de um gênio em sua área) equilibrando a força masculina com a leveza e a independência femininas, como na belíssima canção composta em parceria com Tom Jobim, “A Violeira”:

            “Desde menina
            Caprichosa e nordestina
            Que eu sabia a minha sina
            Era no Rio vir morar

            Em Araripe
            Topei com o chofer de um jipe
            Que descia pra Sergipe
            Pro serviço militar

            Esse maluco
            Me largou em Pernambuco
            Quando um cara de trabuco
            Me pediu pra namorar
            ......
            Não tem carranca
            Nem trator nem alavanca
Quero ver quem é que arranca
Nóis aqui desse lugar!”

Na verdade, o que importa mesmo é que tenhamos poetas, homens ou mulheres, masculinos, femininos, equilibrados em suas estruturas narrativas ou não ( e talvez a arte se faça deste desequilíbrio!) e possamos, cada vez mais, lê-los e nos deliciarmos com seus escritos:

“De Um Dito

Olha o céu, azul, disseste.
Olho o céu: está grisalho
como um velho encapotado;
de azul, mal uma nesga.

E só então me dou conta,
o azul estava em tua voz:
e num milagre, eu, meus olhos
e o dia fulguram sol.”[8]

Ou ainda,

“Faço o percurso dos pássaros

O céu é imenso
e longa é a distância                                    
            entre o deserto e o mar

            Sozinho,
            migro em minha própria direção.  João Cláudio Arendt


[1] Tacques, Alzira Freitas. Antologia de Escritores Brasileiros. In: Perfis de Musas, Poetas e Prosadores Brasileiros. Porto Alegre: Thurmann, 1956. Pg 27.
[2] Idem, pg 150.
[3] Idem, pg.90.
[4] Idem, pg.98.
[5] RIPOLL, Lila. Lila Ripoll: Obra Completa. Porto Alegre: Instituto Estadual do Livro – Editora Movimento, 1998. Pg.29.
[6] Idem, pg. 250
[7] CECCARELLI, Paulo Roberto (org). Diferenças Sexuais. São Paulo: Escuta, 1999. Pg. 124.
[8] Pozenato, José Clemente. Mapa de Viagem. Caxias do Sul: Educs, 2000. Pg.22.

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