Vera Marta Reolon
Pode-se
dizer que existe uma poesia feminina no Rio Grande do Sul? Como é essa poesia,
ela se difere da masculina? Que é poesia feminina?
O Rio
Grande do Sul, à semelhança dos outros estados brasileiros e mesmo do mundo tem
poetas mulheres, em número reduzido ao de homens, mas as tem, quer seja em
nomes como os de poetisas ligadas à Academia Literária Feminina do Rio Grande
do Sul, quer em nomes como o de Lila Ripoll.
As
componentes da Academia Literária Feminina do Rio Grande do Sul, constantes no
livro Perfis de Musas, Poetas e Prosadores Brasileiros, de Alzira Freitas
Tacques, são poetisas que se reuniam na casa de uma das acadêmicas, faziam uma
Oração à Arte, de autoria de Alzira, uma ode parnasiana à arte, endeusando os
valores clássicos gregos e o Belo e trocavam seus versos, em meio ao estilo
clássico da casa e aos mitos clássicos gregos evocados na poética de suas
membros. Adotando um modelo parnasiano ultrapassado, principalmente porque em
1950 os poetas já utilizavam as alterações poéticas e na arte implementadas na
Semana de 22, Alzira Freitas Tacques, Lídia Moschetti, Aurora Nunes Wagner,
Stela Brum, Seleneh de Medeiros,Honorina Bittencourt, Natercia Cunha Veloso,
Camila Furtado Alves, Jeny Seabra de Souza, Noemy Valle Rocha, Lydia de
Viveiros Leiria, Anita Gonzales, Otilia de Oliveira Chaves, Eudoxia Assumpção
Almeida, Bertha Loforte Gonçalves, Déa R. de Figueiredo, Vera da Costa Vianna,
Nenê Callage, Isis Freitas Tacques, Eni Taluá Tosca de Freitas, Maria Pavão Von
Bassewitz César, Diva Machado Pereira Kastrup, Carmem Cunha Vianna, Consuelo
Andrade Belloni, Diocólmata Berlese de Matos Dourado, Cely Dal Pai de Mello,
Cora Torres Maia, Aracy Froes Peres, Lydia J.Martins, Heloiza Assumpção Plínio
de Nascimento, Beatriz Regina, Leda de Aparecida Camargo, Virgínia Martins
Michielin, Magda Costa, Jenny Maria Gobbi, Maria Isaura Gameiro, Suelly Isabel
Luiza Rossler, Maria de Lourdes Weber de Carvalho, Eva Stein e Suely Freitas de
Prunes marcam mais uma presença feminina na literatura do Rio Grande do Sul do
que uma real diferença com suas escrituras.
O poema
Promessa, de Stela Brum, retrata o fazer poético das acadêmicas, onde
observa-se um lirismo quase adolescente, imaturo:
“Eu mesma prometi, meu coração,
que te
haveria de ofertar um dia
o presente
melhor, de mais valia,
a relíquia
mais bela que existisse
dentro da
vida, esparsa no universo.
E desde
então meu pensamento triste
Buscou,
forjou, arquitetou mil cousas
Que deveriam
ser o curso presente.
Heloiza
Assumpção Plínio do Nascimento, Bacharel de Direito em Pelotas e professora de
História da Arte, na Escola de Belas Artes de sua cidade, publicou o Soneto
para um Raio de Sol, onde faz uma ode à natureza:
“Com
timidez entrou pálido a fresta
do postigo
cerrado da janela...
E veio leve,
com seu ar de festa,
a face me
beijar...todo cautela.
Eu lhe sorri
sem pressa, com amor,
fiz menção
de pegá-lo junto ao rosto
como se
fosse a haste de uma flor,
esse raio de
sol do mês de Agosto.
E assim me
despertou completamente
o luminoso e
mudo rouxinol,
com a fidalga expressão de
antigamente...
Quanta gente
deseja, mas não diz,
um despertar
tranqüilo..com este sol
As trovas
de Nenê Callage:
“Enquanto
esta Humanidade
só pensa no
poderio,
humildemente
rabisco
Outra, de
Nenê Callage, sobre São João:
“Nesta
noite de São João,
tradicional
em festejos,
eu peço com
devoção
Diferente
das acadêmicas de literatura, Lila Ripoll, nascida em 1905, falecida em 1967,
de câncer, percorreu caminhos da poesia ocidental contemporânea, em temas como
a morte e o amor, reminiscências da infância, perdas e na luta politicamente
engajada do Partido Comunista. Inicialmente dedicada à música, Lila passa a
publicar seus poemas e a lecionar no magistério estadual em Porto Alegre.
Integra-se ao grupo de escritores denominado Geração de 30. Em 1939, é convidada
a trabalhar na Secretaria de Educação. Com a morte de seu primo Waldemar da
Silva Ripoll de forma violenta, Lila inicia sua militância política no Partido
Comunista. Seu primeiro livro De Mãos Postas, editado pela Livraria do Globo,
em 1938, dedicado à memória de Waldemar marca tristeza e solidão, como nos
versos do poema Vim ao Mundo em Agosto:
“..Sou
triste de nascença e sem remédio.
Vim ao mundo
no triste mês de agosto: -
O mês fatal
das chuvas e do tédio, -
E nasci
quando o sol estava posto.
......
Sou triste.
É irremediável este mal.
E eu não
quero curar minha tristeza.
Só ela para
mim tem sido leal
Seu
segundo livro Céu Vazio, com capa a cores, ganhou prêmio Olavo Bilac da
Academia Brasileira de Letras, em 1943, dedicado ao pai, trata basicamente da
infância e das perdas, como se observa nos versos do poema Fugiram meus olhos:
“Fugiram
meus olhos,
sem minha
vontade,
e andaram
perdidos
por dias,
nos teus...
O fim dessa
viagem
não posso
entender.
Voltaram, e
hoje,
nem sei se
são meus!....”
Lila
publicou mais livros: Por quê? Em 1945 (vem a público em 1947); Novos Poemas,
primeiro da trilogia da Revista Horizonte, do Partido Comunista, em que se
verifica um engajamento a uma poesia de caráter social; o poema Primeiro de
Maio, poema extenso dividido em quatro partes Festejo, Passeata, Amanhã e
Angelina; o terceiro da trilogia da Horizonte, Poemas e Canções, de 1957 que,
segundo o Correio do Povo, contém a seleção dos melhores versos dos últimos
anos; o último livro antes de sua morte, o melhor na opinião da crítica O
Coração Descoberto e ainda, um livro póstumo Águas Móveis, em que no prefácio
de Walmir Ayala consta:
“..Lila é uma mulher rodeada de mortos, e inesquecida. É uma
mulher voltada para o escuro silêncio dos bens perdidos. Uma mulher em
lágrimas, em permanente pranto convulsivo, visível, nobre....”[6]
Lila além
de concertista, poetisa, trabalhadora, política engajada, ainda escreveu uma
peça teatral Um Colar de Vidro, peça em três atos, encenada no Theatro São
Pedro, em Porto Alegre, em 1958.
Diferente
das poetisas da Academia Literária Feminina do Rio Grande do Sul, que se
mantinham isoladas em um “gueto” feminino, Lila freqüenta o mundo masculino, o
grupo Geração de 30, o funcionalismo público, o mundo político, a dor.
Mas o que
é feminino, masculino? Ethel Person e Lionel Ovesey, em seu artigo sobre
Teorias Psicanalíticas da Identidade de Gênero, dizem:
“De maneira geral, definimos a identificação de gênero como
composta de duas categorias: identidade de gênero nuclear e identidade da
função de gênero. Neste contexto, identidade de gênero nuclear – a polaridade
fêmea/macho – reflete uma auto imagem biológica e pode ser definida como a
autodesignação por um indivíduo da sua qualidade de fêmea ou macho. É o senso
de pertencer biologicamente a um sexo ou a outro: isto é, a convicção: “Eu sou
fêmea” ou “Eu sou macho”. Em contraste, a identidade da função de gênero, a
polaridade feminino/masculino reflete uma auto-imagem psicológica e pode ser
definida como a auto-avaliação do indivíduo da feminilidade ou masculinidade
psicológicas. É a percepção da feminilidade ou masculinidade: isto é, a crença:
“Eu sou feminino” ou “Eu sou masculino”, comparativamente aos padrões sociais
para o comportamento feminino ou masculino.”[7]
Na espécie humana as primeiras
culturas foram as de coleta e, nelas, o primata/humano toma a posição ereta e
começa o seu desenvolvimento do córtex cerebral com as suas primeiras
conquistas tecnológicas. Um segundo “ponto de mutação” teria ocorrido, quando o
ser humano inventa o machado e inicia-se o período de caça, criando, com isso,
novas estruturas psíquicas coletivas. Há dez mil anos, a fundição de
metais e a agricultura instauram um
terceiro “ponto de mutação”, com a formação de aldeias e o fim do estado
nômade. Um quarto “ponto de mutação” ocorre há pouco mais de trezentos anos com
o advento da civilização industrial, possibilitando avanços científicos e
tecnológicos, especializando a urbanização, onde se observa uma organização
social mais individualizada da consciência. Hoje vivemos um novo “ponto de
mutação” com a aceleração dos processos tecnológicos, com a informatização
galopante. Este processo é forte, violento, à semelhança do primeiro, em que o
animal transformou-se em homem (adquirindo a forma ereta).
As relações entre os grupos,
inicialmente de solidariedade, passam a ser regidas pela violência, pela caça,
pela competição. Hoje também, de uma forma mais sutil, mais “tecnológica”, as
relações humanas são violentas, agressivas, de competição extrema, de
subjugação, em que a Dialética do Senhor e do Escravo de Hegel torna-se
extremamente atual. Num momento em que vale o “matar ou morrer”, a objetivação
total do humano, parece transparecer um mundo masculino, forte, trágico, de dor
e solidão.
Um mundo feminino seria onde as
relações fossem regidas pela vida, pela solidariedade, pelas noções de cuidado,
de preservação de si e do outro, de compartilhamento de vida e dos bens da
natureza, mas também de perfídia, de deslealdade, traição, infidelidade.
O masculino e o feminino puros
carregam estigmas de bem e de mal.
Deveriam conviver dentro do homem (como ser) e da sociedade como tal a
complementaridade das duas estruturas, a
força convivendo com a vida, o equilíbrio. Evoluir como ser é buscar este
equilíbrio de forças, esta convivência pacífica consigo mesmo e com os outros e o mundo. Isso pode ser observado
na arte e na vida.
Na poesia de Lila Ripoll
observa-se uma dor e uma solidão que não pedem solidariedade, que se bastam,
que são absolutas. Sente-se o trágico em cada linha, como que um “gostar de
sentir dor”, à semelhança de Baudelaire....., sangue,..., vinho tinto,.... É
uma poesia masculina, com todas as suas características de destruição.
Podemos
encontrar mulheres fortes, com espírito masculino como Lila Ripoll e homens com
“alma” feminina, dizendo na poética ou não de si ou de mulheres.
Chico Buarque de Holanda
carrega as características do feminino em seu trabalho (na forma de um gênio em
sua área) equilibrando a força masculina com a leveza e a independência
femininas, como na belíssima canção composta em parceria com Tom Jobim, “A
Violeira”:
“Desde
menina
Caprichosa e
nordestina
Que eu sabia
a minha sina
Era no Rio
vir morar
Em Araripe
Topei com o
chofer de um jipe
Que descia
pra Sergipe
Pro serviço
militar
Esse maluco
Me largou em
Pernambuco
Quando um
cara de trabuco
Me pediu pra
namorar
......
Não tem
carranca
Nem trator
nem alavanca
Quero ver quem é que arranca
Nóis aqui desse lugar!”
Na verdade, o que importa mesmo
é que tenhamos poetas, homens ou mulheres, masculinos, femininos, equilibrados
em suas estruturas narrativas ou não ( e talvez a arte se faça deste
desequilíbrio!) e possamos, cada vez mais, lê-los e nos deliciarmos com seus
escritos:
“De Um Dito
Olha o céu, azul, disseste.
Olho o céu: está grisalho
como um velho encapotado;
de azul, mal uma nesga.
E só então me dou conta,
o azul estava em tua voz:
e num milagre, eu, meus olhos
Ou ainda,
“Faço o percurso dos pássaros
O céu é imenso
e longa é a distância
entre o
deserto e o mar
Sozinho,
migro em
minha própria direção. João
Cláudio Arendt”
[1] Tacques, Alzira Freitas. Antologia de
Escritores Brasileiros. In: Perfis de Musas, Poetas e Prosadores
Brasileiros. Porto Alegre: Thurmann, 1956. Pg 27.
[2] Idem, pg
150.
[3] Idem,
pg.90.
[4] Idem,
pg.98.
[5]
RIPOLL, Lila. Lila Ripoll: Obra Completa. Porto Alegre: Instituto
Estadual do Livro – Editora Movimento, 1998. Pg.29.
[6] Idem,
pg. 250
[7]
CECCARELLI, Paulo Roberto (org). Diferenças Sexuais. São Paulo: Escuta,
1999. Pg. 124.
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