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terça-feira, 28 de abril de 2020

INTER-TEXTO CINEMA X LITERATURA NO SÉCULO XIX

                      
                                                                                                             Vera Marta Reolon


A idéia é estabelecer um inter-texto entre a resenha de um livro MODA E ARTE NA REINVENÇÃO DO CORPO FEMININO DO SÉCULO XIX e o filme A ÉPOCA DA INOCÊNCIA, de Martin Scorcese.
A autora do texto, resultado de sua dissertação de Mestrado na Unicamp parte  Maria Ximenes da indagação: quem mais influenciou a construção da estética da forma do corpo vestido?

A questão é ampla, quiçá ampla demais para as tentativas de resposta da autora. Mas sigamos. A moda inicia no Renascimento, com o advento da burguesia emergindo financeiramente, quando estes passam a copiar as roupas da nobreza. Fenômenos cíclicos que, para Bourdieu caracteriza a pretensão e a distinção “..a dialética da pretensão e da distinção, princípio da transformação permanente de gostos. Nesse jogo de recusas recusando outras recusas, de superações superando outras superações..”. Distinguindo o que se tornaria na marca maior da moda, a efemeridade.

O século XIX tornar-se-ia singular,pois, em função da Revolução Industrial, a moda dá um salto, passando do espaço artesanal, para o industrial, de teares automáticos e assim à criação de magazines. Outra característica marcante deste período é o uso da fotografia e das pranchas de moda, extrapolando o uso dos retratos familiares, partindo para o uso de modelos e vestimentas fotografados.
Os homens portavam roupas que lhes propiciavam a mobilidade, enquanto que, para a mulher era reservado o ambiente mais restrito, de pouca mobilidade, com espartilhos, armações para dar volume às saias, depois substituídas por menores, das “crinolinas” às anquinhas, cobrindo as nádegas, dando volume às mesmas, com o intuito de dar maior forma ao corpo feminino.
Para a autora esta época se distingue por dar forma ao corpo feminino, como o de uma ampulheta, o que a instigou a desenvolver tal estudo.
A Revolução Francesa também instigou as mulheres a participarem de movimentos sociais, levando-as às ruas em reivindicações, sem distinção de  sexo.
As mulheres do século XIX prezam o decoro, a virtude da obediência e submissão, em contraposição à devassidão do século anterior, embora o XIX tenha sido conhecido como o século das infidelidades. Século também distinto pela chegada a Paris de Worth, primeiro grande costureiro da alta-costura parisiense, que monta sua “Maison”.
Na arte o corpo feminino estava em evidência, para realistas e impressionistas, contemplando as preferências da época, nos corpos femininos, as ancas e as nádegas, embora as mesmas ficassem completamente cobertas com as vestimentas, em detrimento dos colos, que ficavam mais a mostra, em generosos decotes. As saias  insinuavam o que de “sexual” há, enquanto os corpetes mostravam o que de maternal se mostrava na mulher.
Com o advento da burguesia atingindo o poder, e com ganhos financeiros significativos, os ganhos dos homens no público apareciam, inclusive, em suas mulheres, nas roupas, adornos, enfim, tudo o que pudesse mostrar sua superioridade financeira (objetos?).
Os homens neste século apresentam-se vestidos de forma sóbria, exceto os dândis. A mulher reina para o homem  e para que a sociedade veja o quanto de poder financeiro este homem dispõe. Para Berger “..a maneira como uma mulher aparece para um homem pode determinar como será tratada..”. O corpo feminino com vestes ou sem demonstra formas apreciadas pelos homens.
As roupas possuem uma segunda natureza, pertencente a um processo civilizatório => aqui pode estar uma resposta a indagação que a autora se faz na pesquisa, pois seu argumento principal foi revelar, segundo a mesma, o quanto o corpo feminino esteve esculpido pelo olhar masculino => a mulher, socialmente, vive em função desse olhar e da necessidade de mostrar-se como objeto deste olhar.
O corpo é um suporte para a arte, a roupa, um objeto de arte, agora não mais somente a nível artesanal, mas também industrial.
A marca deste século: mulher, sexualidade e corpo; homem, espírito e energia.
Neste século também as crianças já não são mais pequenos adultos nas vestimentas, inclusive com o uso de espartilhos, mas já portam vestimentas construídas e constituídas  para si.
Às mulheres era reservado o uso de bastidores, tocar piano, cantar em apresentações, saraus, ser paciente com os pequenos, tudo que evidenciasse boas características para o casamento e a maternidade. A família representa não só patrimônio, mas capital simbólico. As mulheres, inclusive, deveriam, era interessante, que se mostrassem tolas, impotentes e belas, objetos de consumo.
Predominam nas vestimentas saias que cobrem completamente as mulheres, inicialmente rodadas, depois retas na frente e com saliência nas ancas, com leve cauda, cinturas bem marcadas, o corpo delineado.
A Europa e a América do Norte eram prósperas nesta época. As roupas deveriam mostrar isso.
O uso das “crinolinas” levavam as mulheres a fadiga, a melancolia era uma marca das mulheres, estampando isso em seus rostos, o porte de olheiras, incentivando-as e/ou criando-as.
Neste século Mrs. Bloomer busca propor roupas mais confortáveis para as mulheres, estas porém não as aceitam. Apenas mais tarde,  com a participação feminina em práticas esportivas as calças de Bloomer  fazem-se presentes, possibilitando  a montaria, facilitando cavalgadas.
O corpo feminino desnudo não possui mais encantos do que o corpo vestido, as roupas transformam este corpo em um corpo idealizado. O nu na arte  se relaciona com a sexualidade vivida.
Roupas, mulheres como objeto do homem, mas também modo libertador, revelando a mulher.

O filme A ÉPOCA DA INOCÊNCIA, se passa na Nova York de 1870, a, mais ou menos, 1910,  logo um exemplo da pesquisa realizada na literatura.
O filme mostra a freqüência à ópera: homens de smoking, lapelas em flor, gravatas borboleta prata, branca, jóias, relógios de corrente. Carruagens, bailes anuais em salões imensos. Os espartilhos mantinham os corpos de todos os tamanhos acinturados e saias longas que descem quase retas, abrindo-se em godês e caudas no chão.
A arte estampa-se em todas as peças, Retorno da Primavera, de Bouguereau, como centro de comentários, o nu estampado e visível em ante-salas de salões.
A hipocrisia nas relações corre solta. Acata-se, sob “vistas grossas” traições masculinas, onde a mulher deveria aceitar calada tais confrontos, sem imitações, ao modelo masculino vigente.
Conversas privadas, em um social onde reina a tradição, não versam sobre sentimentos, mas sobre amenidades, numa continuação das relações sociais um tanto quanto superficiais.
No dia-a-dia, as gravatas borboletas dos smokings cedem lugar a lenços amarrados como gravatas. Uso de luvas, cartolas, chapéus, bengalas. Nova York é uma seqüência de Londres – desde o serviço do chá, às dezessete horas, até as convenções da tradição, em que o divórcio e a liberdade são vistos como não “familiares”.

BIBLIOGRAFIA;


BOURDIEU, Pierre. A Distinção: crítica social do julgamento. São Paulo: EDUSP; POA: ZOUK, 2008.
BERGER, John. Modos de Ver. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.
XIMENES, Maria Alice. Moda e Arte na Reinvenção do Corpo Feminino do Século XIX. São Paulo: Estação das Letras e Cores Editora Ltda, 2009.
A ÉPOCA DA INOCÊNCIA – Direção: Martin Scorcese.

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