Vera
Marta Reolon
A idéia é estabelecer um inter-texto entre a resenha de um
livro MODA E ARTE NA REINVENÇÃO DO CORPO FEMININO DO SÉCULO XIX e o filme A
ÉPOCA DA INOCÊNCIA, de Martin Scorcese.
A autora do texto, resultado de sua dissertação de Mestrado
na Unicamp parte Maria Ximenes da indagação: quem mais influenciou a
construção da estética da forma do corpo vestido?
A questão é ampla, quiçá ampla demais para as tentativas de
resposta da autora. Mas sigamos. A moda inicia no Renascimento, com o advento
da burguesia emergindo financeiramente, quando estes passam a copiar as roupas
da nobreza. Fenômenos cíclicos que, para Bourdieu caracteriza a pretensão e a
distinção “..a dialética da pretensão e da distinção, princípio da
transformação permanente de gostos. Nesse jogo de recusas recusando outras
recusas, de superações superando outras superações..”. Distinguindo o que se
tornaria na marca maior da moda, a efemeridade.
O século XIX tornar-se-ia singular,pois, em função da
Revolução Industrial, a moda dá um salto, passando do espaço artesanal, para o
industrial, de teares automáticos e assim à criação de magazines. Outra
característica marcante deste período é o uso da fotografia e das pranchas de
moda, extrapolando o uso dos retratos familiares, partindo para o uso de
modelos e vestimentas fotografados.
Os homens portavam roupas que lhes propiciavam a
mobilidade, enquanto que, para a mulher era reservado o ambiente mais restrito,
de pouca mobilidade, com espartilhos, armações para dar volume às saias, depois
substituídas por menores, das “crinolinas” às anquinhas, cobrindo as nádegas,
dando volume às mesmas, com o intuito de dar maior forma ao corpo feminino.
Para a autora esta época se distingue por dar forma ao
corpo feminino, como o de uma ampulheta, o que a instigou a desenvolver tal
estudo.
A Revolução Francesa também instigou as mulheres a
participarem de movimentos sociais, levando-as às ruas em reivindicações, sem
distinção de sexo.
As mulheres do século XIX prezam o decoro, a virtude da
obediência e submissão, em contraposição à devassidão do século anterior,
embora o XIX tenha sido conhecido como o século das infidelidades. Século
também distinto pela chegada a Paris de Worth, primeiro grande costureiro da
alta-costura parisiense, que monta sua “Maison”.
Na arte o corpo feminino estava em evidência, para
realistas e impressionistas, contemplando as preferências da época, nos corpos
femininos, as ancas e as nádegas, embora as mesmas ficassem completamente
cobertas com as vestimentas, em detrimento dos colos, que ficavam mais a
mostra, em generosos decotes. As saias insinuavam o que de “sexual”
há, enquanto os corpetes mostravam o que de maternal se mostrava na mulher.
Com o advento da burguesia atingindo o poder, e com ganhos
financeiros significativos, os ganhos dos homens no público apareciam,
inclusive, em suas mulheres, nas roupas, adornos, enfim, tudo o que pudesse
mostrar sua superioridade financeira (objetos?).
Os homens neste século apresentam-se vestidos de forma
sóbria, exceto os dândis. A mulher reina para o homem e para que a
sociedade veja o quanto de poder financeiro este homem dispõe. Para Berger “..a
maneira como uma mulher aparece para um homem pode determinar como será
tratada..”. O corpo feminino com vestes ou sem demonstra formas apreciadas
pelos homens.
As roupas possuem uma segunda natureza, pertencente a um
processo civilizatório => aqui pode estar uma resposta a indagação que a autora
se faz na pesquisa, pois seu argumento principal foi revelar, segundo a mesma,
o quanto o corpo feminino esteve esculpido pelo olhar masculino => a mulher,
socialmente, vive em função desse olhar e da necessidade de mostrar-se como
objeto deste olhar.
O corpo é um suporte para a arte, a roupa, um objeto de
arte, agora não mais somente a nível artesanal, mas também industrial.
A marca deste século: mulher, sexualidade e corpo; homem,
espírito e energia.
Neste século também as crianças já não são mais pequenos
adultos nas vestimentas, inclusive com o uso de espartilhos, mas já portam
vestimentas construídas e constituídas para si.
Às mulheres era reservado o uso de bastidores, tocar piano,
cantar em apresentações, saraus, ser paciente com os pequenos, tudo que
evidenciasse boas características para o casamento e a maternidade. A família
representa não só patrimônio, mas capital simbólico. As mulheres, inclusive,
deveriam, era interessante, que se mostrassem tolas, impotentes e belas,
objetos de consumo.
Predominam nas vestimentas saias que cobrem completamente
as mulheres, inicialmente rodadas, depois retas na frente e com saliência nas
ancas, com leve cauda, cinturas bem marcadas, o corpo delineado.
A Europa e a América do Norte eram prósperas nesta época.
As roupas deveriam mostrar isso.
O uso das “crinolinas” levavam as mulheres a fadiga, a
melancolia era uma marca das mulheres, estampando isso em seus rostos, o porte
de olheiras, incentivando-as e/ou criando-as.
Neste século Mrs. Bloomer busca propor roupas mais
confortáveis para as mulheres, estas porém não as aceitam. Apenas mais tarde, com
a participação feminina em práticas esportivas as calças de Bloomer fazem-se
presentes, possibilitando a montaria, facilitando cavalgadas.
O corpo feminino desnudo não possui mais encantos do que o
corpo vestido, as roupas transformam este corpo em um corpo idealizado. O nu na
arte se relaciona com a sexualidade vivida.
Roupas, mulheres como objeto do homem, mas também modo
libertador, revelando a mulher.
O filme A ÉPOCA DA INOCÊNCIA, se passa na Nova York de
1870, a, mais ou menos, 1910, logo um exemplo da pesquisa realizada
na literatura.
O filme mostra a freqüência à ópera: homens de smoking,
lapelas em flor, gravatas borboleta prata, branca, jóias, relógios de corrente.
Carruagens, bailes anuais em salões imensos. Os espartilhos mantinham os corpos
de todos os tamanhos acinturados e saias longas que descem quase retas,
abrindo-se em godês e caudas no chão.
A arte estampa-se em todas as peças, Retorno da Primavera,
de Bouguereau, como centro de comentários, o nu estampado e visível em
ante-salas de salões.
A hipocrisia nas relações corre solta. Acata-se, sob
“vistas grossas” traições masculinas, onde a mulher deveria aceitar calada tais
confrontos, sem imitações, ao modelo masculino vigente.
Conversas privadas, em um social onde reina a tradição, não
versam sobre sentimentos, mas sobre amenidades, numa continuação das relações
sociais um tanto quanto superficiais.
No dia-a-dia, as gravatas borboletas dos smokings cedem
lugar a lenços amarrados como gravatas. Uso de luvas, cartolas, chapéus,
bengalas. Nova York é uma seqüência de Londres – desde o serviço do chá, às
dezessete horas, até as convenções da tradição, em que o divórcio e a liberdade
são vistos como não “familiares”.
BIBLIOGRAFIA;
BOURDIEU,
Pierre. A
Distinção: crítica social do julgamento. São Paulo: EDUSP; POA: ZOUK, 2008.
BERGER,
John. Modos
de Ver. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.
XIMENES,
Maria Alice. Moda
e Arte na Reinvenção do Corpo Feminino do Século XIX. São Paulo: Estação
das Letras e Cores Editora Ltda, 2009.
A
ÉPOCA DA INOCÊNCIA – Direção: Martin Scorcese.
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.