Vera Marta Reolon
1) Disserte sobre as (possíveis) relações
existentes entre os conceitos de “campo” (Bourdieu) e de “região”, levando em
consideração as noções de espaço social e espaço político-geográfico.
A sociologia de P.Bourdieu está
centrada no conceito de “habitus” construído sobre a história individual e
coletiva para fundamentar as práticas individuais e coletivas. Ele atrela os
conceitos de campo e de capital ao de “habitus”, os quais constituem o núcleo
de sua sociologia. Para Bourdieu o campo social, diferente do que apregoa Marx,
não se restringe ao campo econômico. Formação social para ele é um “sistema de
relações de forças e de sentido entre grupos ou classes”.[1] “Objeto
social encerra um conjunto de relações internas, um sistema de relações cujo
funcionamento a análise permitirá explicar”[2] E,
campo social como “espaços estruturados de posições (ou postos), cujas
propriedades dependem de sua posição nestes espaços e que podem ser
analisados independentemente das características de seus ocupantes (em parte
determinados por elos).”[3] “O “espaço social”
assinala uma ruptura com as representações tradicionais da hierarquia social
fundadas sobre uma visão piramidal da sociedade. Esta atribui a cada classe uma
posição na escala social em função de suas condições materiais de existência.”[4]
Bourdieu
diz então do mundo social:
“Assim,
pode-se representar o mundo social sob a forma de um espaço (com várias
dimensões) construído sobre a base de princípios de diferenciação ou de
distribuição constituídos pelo conjunto das propriedades que agem no universo
social considerado. [...] Os agentes e os grupos de agentes são assim definidos
por suas posições relativas neste espaço. Cada um deles está situado numa
posição ou numa classe precisa de posições vizinhas (isto é, numa região
determinada do espaço) e não se pode ocupar realmente, mesmo
que seja possível fazê-lo em pensamento, duas regiões opostas do
espaço. [...] Pode-se descrever o espaço social como um espaço
multidimensional de posições tal que toda posição atual pode ser definida em
função de um sistema multidimensional de coordenadas, cujos valores
correspondem aos valores de diferentes variáveis pertinentes. Assim, os agentes
se distribuem nele, na primeira dimensão, segundo o volume global do capital
que possuem e, na segunda, segundo a composição do seu capital- isto é, segundo
o peso relativo das diferentes espécies no conjunto de suas possessões.”[5]
Assim,
sociedade, para Bourdieu é um conjunto de campos sociais, atravessados por
lutas de classes, diferenciados progressivamente. Na evolução das sociedades
surgem campos sociais produzidos pela divisão de trabalho nesta sociedade.
Estes espaços socialmente construídos, que constituem um campo social
determinam rede de relações objetivas entre as posições, estas posições são
diferenciadas por relações de poder definidas conforme a capacidade dos agentes
ou instituições de domínio sobre os objetos de interesse que dão forma ao
campo, bem como sobre o capital envolvido nestas relações.
Campos
sociais são espaços sociais constituídos de agentes, capital e status. A
sociedade é constituída de diferentes campos interseccionados. Os campos têm
leis de funcionamento e tem suas especificidades. O interesse sobre o campo
define sua especificidade. Os campos não são espaços com fronteiras rígidas nem
são independentes. Articulam-se entre si, cada um se interliga conforme
determinados elementos para conhecimento um do outro e da estrutura do espaço
social. Um campo articula-se com o outro e com o “geral” social numa relação de
conhecimento inter e intra subjetivo.
A
sociologia bourdieusiana constitui as idéias de campo social, sociedade, espaço
social com a idéia de “habitus”. A análise do indivíduo e da sociedade passa
pelo conceito central de Bourdieu: o “habitus”. O “habitus” é composto por
“ethus” (designa os princípios ou valores em estado prático) e “hexis”
(corresponde às posturas interiorizadas inconscientemente pelo indivíduo ao
longo de sua história). Nesse sentido, o “habitus” é a forma pela qual a
realidade é percebida como produto da posição e da trajetória social do
indivíduo e está em constante reestruturação. O “habitus” estrutura a sociedade
segundo o perfil individual e sua relação com o grupo e o campo social. A
relação entre o “habitus” e o campo é antes de tudo uma relação de
condicionamento, mas é também uma relação de conhecimento ou construção
cognitiva, o “habitus” contribui para constituir o campo como mundo
significante, dotado de sentido e de valor, no qual vale a pena investir
energia.
Bourdieu
estuda o sujeito enquanto sujeito socializado, seu papel nesta convivência
socializada. O “habitus” seria um conjunto de elementos comportamentais
incorporados pelo sujeito para viver determinadas situações sociais e para
manter-se socialmente inserido a este mundo social. Os indivíduos que
constituem um campo social determinado compartilham interesses
comuns que garantem a existência deste campo. Os diferentes campos assumem uma
identidade própria que permite o funcionamento do campo com suas regras e
intercâmbio simbólico e material.Aqui entra a idéia de capital, que
diz de um valor que mantém o campo articulado, definido. O possuidor do capital,
de acordo com as regras estruturais de funcionamento do campo social,
estabelece sua posição no campo, conforme a quantidade e a qualidade do capital
que possui. Campo, “habitus” e capital representam expressões específicas de
uma cultura, que constitui conjunto de indivíduos, grupos ou instituições que
assumem uma posição em um espaço social e que compartilham interesses comuns.
O
conceito de região, desenvolvido no Programa de Mestrado em Letras e Cultura
Regional constitui que a idéia de região é uma construção. “Uma região é
constituída de acordo com o tipo, o número e extensão das relações adotadas
para defini-la, de onde ser possível que as fronteiras se desloquem conforme
seja utilizado, com maior ou menor ênfase, um ou outro critério para a sua
delimitação.”[6]
Região,
neste programa de Mestrado, portanto, não é vista apenas como divisão
político-geográfica, mas como uma construção simbólica, constituindo uma rede
de relações, como um espaço político-geográfico socialmente construído, é um
espaço periférico em relação ao centro.
Pierre
Bourdieu anuncia sobre a idéia de região:
“A
“régio” e suas fronteiras não passam do vestígio apagado do ato de autoridade
que consiste em circunscrever a região, o território, em impor a definição
legítima, conhecida e reconhecida, das fronteiras e do território, em suma, o
princípio de divisão legítima do mundo social. Este ato de direito que consiste
em afirmar com autoridade uma verdade que tem força de lei é um ato de conhecimento,
o qual, por estar firmado, como todo poder simbólico, no reconhecimento, produz
a existência daquilo que enuncia..”[7]
As
idéias de região, tanto de Pozenato, quanto de Bourdieu, desenvolvidas neste
programa de Mestrado, não constituem idéias acabadas de uma realidade concreta,
são realidades em construção, influenciadas pelos valores simbólicos
desenvolvidos em seus contextos.
Assim,
penso que as idéias de região, propostas no programa de Mestrado e as idéias de
campo social, conforme desenvolvidas por Bourdieu em sua sociologia se
interligam. Ambos, campo e região são construções sociais determinadas a partir
das relações que se desenvolvem em seu interior e produzem maior ou menor peso,
em relação ao centro, conforme o capital, “valor” que possuem em suas
características próprias, determinadas pelos outros campos ou regiões, por um
outro que a observa ou determina. Região é hoje um feixe de relações em uma
rede sem fronteiras.
2) Disserte sobre as relações existentes entre
Língua e Identidade Social e (ou) Cultural.
Diversos
são os aparatos ideológicos que tornam um sujeito pertencente a determinado
grupo
pelos processos de socialização: família, escola,
religião, partidos políticos, exército, etc. Estes aparatos ideológicos estão
relacionados às formações ideológicas vinculadas a diferentes formações
discursivas, estas reportam-se a um discurso específico, que está inserido em
uma linguagem vinculada a uma ideologia.
A
partir do enunciado se depreendem as noções do discurso. O sujeito da
enunciação é um sujeito instituído na Análise do Discurso, a partir da
linguagem, como ele, através do signo, se apresenta, o modo como o discurso
marca o sujeito. O sujeito da Análise de Discurso está constituído na
linguagem. No livro Cinq Leçons sur la Théorie[8] de
Jacques Lacan, de Nasio, Saussure é uma vítima, quando ele reconhece “a
ordem lingüística do significante” (p.24). Mas logo acrescenta que este só é
determinado por “três critérios não lingüísticos” (ibid). Atribui a
Lacan, post mortem, afirmações surpreendentes sobre Saussure
(p.93), e diz que “Lacan respeita a diferença estabelecida por Saussure entre
língua e linguagem: a língua é a linguagem falada” (p.73). Saussure
nunca fez esta afirmação.
Em
psicanálise, o “inconsciente está estruturado como linguagem”, segundo Lacan e
“significante é o que representa o sujeito para outro significante”. Logo, as
formações discursivas, os contactos de uns com os outros, se dão através de
significantes lingüísticos, representantes da “coisa” no inconsciente. Kant diz
que “a coisa é incognosível em si mesma”. Lacan, leitor de Freud coloca que a
coisa é representada, simbolizada. O inconsciente é da ordem do Real, registro
que não diz de si mesmo, só é representado no registro do Simbólico. O
inconsciente está no registro do Real, a língua, segundo meu entendimento seria
uma das formas que o Simbólico utiliza para fazer as representações
inconscientes, transformadas na linguagem.
A
língua falada seria o conjunto dos signos utilizados por determinado grupo para
que possam se compreender, interagir. Mas a língua, neste contexto, não seria
só uma forma de comunicação. Além de transformação do inconsciente em símbolos,
ela passa a ser uma marca distintiva de um povo, de um grupo, uma marca
identitária, que identifica este grupo para outro, que o diferencia dos demais.
Quando passagem de representação simbólica do inconsciente, para marca
identificadora de um grupo, a língua a meu ver, muda de registro, ela passa do
registro Simbólico (representação significante), para registro Real (marca
primordial de um sujeito, no caso, o grupo ao qual pertence). Torna-se então
uma marca primordial de identidade social, cultural.
Pensando
desta forma, e provando-se desta teoria, seria extremamente complicado para um
imigrante, portanto, deixar seu país, um grupo, com suas marcas, Reais e
Simbólicas, e inserir-se em outro grupo, formando novas marcas, seria em
psicanálise, nascer de novo, ser um outro sujeito, com outras marcações. Daí as
formações dialéticas, talvez, as transposições de letras, a tentativa de juntar
duas representações lingüísticas e criar uma nova, sua, à semelhança do bebê
que aprende a caminhar, a viver, experimentando novas situações, conforme vai
aprendendo-as (pensando na teoria da assimilação, acomodação, equilibração de
Piaget) vai sabendo de si, vai se constituindo.
Daí
talvez, as muitas dificuldades em “traduzir” uma palavra para outra língua,
pois carrega muitas outras representações, Simbólicas, mas também constitui
marcas Reais, não passíveis de serem ditas, só representadas.
Falar
outra língua, ter uma língua é constituir uma identidade social e (ou)
cultural, é ter um sentido de pertencimento a determinado grupo, é uma marca
identificatória pessoal e grupal.
3) Disserte sobre o conceito de língua funcional em
Coseriu, conforme a obra “Noções de Lingüística Geral”.
A
obra Noções de Lingüística Geral[9], de Eugenio Coseriu, procura relacionar
signo com fatores exteriores, ou melhor, extralingüísticos, afirmando que o
sistema lingüístico não é fechado. Isso ocorre quando o sujeito não utiliza
apenas a língua, em si, mas também outros artifícios expressivos da linguagem,
como os gestos, as diferentes entonações, o uso de sinais ou mímicas.
Coseriu
afirma, com convicção, que para entender ou determinar o funcionamento de uma
determinada língua, o pesquisador deve levar em conta esses contextos e fatores
extralingüísticos, tanto na fala, como na escrita. O autor também coloca que é
necessário analisar o uso de fatores culturais e sociais extralingüísticos.
Além
disso, Coseriu, em sua obra, estabelece relações entre o estruturalismo –
doutrina defendida por Sausurre que considera qualquer sistema como um conjunto
de elementos solitários entre si de modo a formar uma estrutura – e a
sociolingüística. Para Eugenio, entretanto, a língua histórica é mais que um
sistema lingüístico, ela é um “diassistema”, ou seja, um sistema constituído de
outros subsistemas (das variedades lingüísticas) – um conjunto complexo de
dialetos, níveis e estilos de língua. Coseriu conclui, a partir dessas
observações, que a língua histórica não é homogênea e apresenta sempre
variedade interna.
Estas
variedades lingüísticas não são geradas pelo sistema, são geradas pela relação
com os fatores extralingüísticos. Segundo o autor, elas, as variedades, são
chamadas de línguas funcionais. As diferenças que compõem a língua histórica
pertencem a três tipos de fatores extralingüísticos: “diatópicas”, diferenças
geradas por fatores geográficos; “diastráticas”, diferenças entre os estratos
sócio-culturais da comunidade lingüística, tais como idade, sexo, profissão,
escolaridade, classe; e “diafásicas”, diferenças entre as situações do
dia-a-dia, as quais o indivíduo se força a adequar a linguagem. O sistema,
conforme Eugenio, é afetado pelo exterior.
Portanto,
para Coseriu, não é possível, e viável, descrever uma língua histórica,
estruturalmente, como um sistema lingüístico, homogêneo, pois ela contém
subsistemas lingüísticos, extremamente, diferenciados.
O
autor estabelece, com isso, uma distinção entre língua funcional e língua
histórica. A língua histórica é uma língua constituída
como unidade ideal e identificada como tal por seus “falantes” e pelos
“falantes” de outras línguas,nunca é homogênea. É um conjunto complexo de
tradições lingüísticas, historicamente conexas, mas diferentes entre si e,
somente em partes, concordantes. A língua funcional, por sua vez, é
uma técnica lingüística inteiramente determinada, unitária e homogênea, em três
aspectos: um só dialeto em um só nível e em um estilo único de língua, ou seja,
uma língua sintópica, sinstrática e sinfásica.
A
língua histórica é, portanto, de acordo com Coseriu, um sistema de línguas
funcionais. Cada língua funcional tem uma norma, constituída a partir de
regularidades. Entretanto, essa norma não se relaciona com a norma culta.
Para
Coseriu, a norma é normal. A norma é procurada pela abstração, num
conjunto de regularidades. A norma é regular, não é imposta.
Cada
língua falada é um idioleto, por cada sujeito; o dialeto é uma
abstração. A língua funcional é uma abstração, ela não vê a particularidade
dos idioletos. Para descrever uma língua histórica, por outro lado,
seria necessário descrever todas as línguas funcionais integrantes dela.
A
língua funcional, na perspectiva de Coseriu, é vantajosa por ser homogênea e
por ser realizada nos discursos ou textos. Entretanto, apresenta um
inconveniente: não pode ser facilmente deduzida dos textos, nem do falar de um
só indivíduo, pois todo falante conhece e utiliza mais de uma língua funcional.
Tendo
em vista as conclusões do autor, ao fazer-se o estudo de uma determinada
língua, devemos realizar um corte sincrônico que atravesse os diferentes
subsistemas gerados por fatores geográficos, por diferenças entre os estratos
sociais e pela adequação da linguagem às diferentes situações do cotidiano. (Vide
esquema abaixo). Portanto, a descrição estrutural da língua, que é uma
variedade de fatores, não pode ser apenas sincrônica, mas deve ser também sintópica,
sinstrática e sinfásica.