A que se presta este blog??????????...............a estabelecer notícias, comentar fatos do cotidiano no e do mundo........elaborar alguma crônica de autoria dos blogueiros responsáveis (que, é óbvio, são maiores, responsáveis, éticos, e nada crianças - embora possuir a leveza das crianças "educadas" não seja nada ruim!!!!!).......realizar críticas, como pensamos não existir nas mídias que temos e vemos..........com, cremos, sabedoria e precisão.........com intuito de buscar melhorias em nossas relações com os seres vivos........e com/para o mundo..........se possível!!!!!!................


Críticas por e pela ARTE ( ESTÉTICA COM ÉTICA - como deve ser!!!! - desde a PAIDÉIA - a BILDUNG - .......ATÉ O SEMPRE!!!!!!!)



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"UMA FOTO É UM SEGREDO SOBRE UM SEGREDO.

QUANTO MAIS ELA DIZ, MENOS VOCÊ SABE."
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"A VIDA É UM SONHO.

TORNE-O REAL".
M.T.
"EM TEMPOS DE M E N T I R A UNIVERSAL,

DIZER A V E R D A D E É UM ATO REVOLUCIONÁRIO"

George Orwel

terça-feira, 28 de abril de 2020

FILOSOFIA CONTEMPORÂNEA – SÉCULO XX


Vera Marta Reolon

FILOSOFIA CONTEMPORÂNEA – SÉCULO XX

1ª Grande Ruptura – Teoria Heliocêntrica
-          Revolução Copernicana (1543) – “Alívio” – de Montaigne a Descartes – Tentativa de recuperar a estabilidade perdida
-          Abalo quanto ao lugar central do homem nessa ordem universal
-          Subjetivismo, concepção de “eu” (razão)

+

2ª Grande Ruptura – Revolução Darwiniana
-          Teoria da Evolução (1859) – “o homem não é o ‘rei’ da criação”

+

3ª Grande Ruptura – Revolução Freudiana – Sigmund Freud (1856-1939)
-          Interpretação dos Sonhos (1900)
-          “Cogito” cartesiano não é mais lugar de acesso privilegiado

SÉCULO XX

Revolução da Informática e Inteligência Artificial: Pensamento – lugar privilegiado do homem?
+
Revolução Biológica – Manipulação Genética – Bioética

SÉCULO XIX

Projeto Moderno – Análise da Subjetividade – Indivíduo como sujeito pensante

-          CRISE:
Hegel: necessidade de levar em conta o processo histórico e cultural de formação da consciência
Marx: o que questiona os pressupostos idealistas – enfatiza o trabalho e as relações de produção

+

-          CRÍTICA:
Leibniz: valorização da linguagem e da lógica
Kant
Algumas teorias da linguagem do século XIX
Mach (1838-1916): físico, filósofo e teórico – “Não há salvação para o sujeito”

Necessidade de explicar como a mente pode ter acesso ao real – Quanto às Idéias e Representações
          *
Linguagem – 2 Direções:
-          Processos mentais dependessem da linguagem, de um sistema simbólico (significados)
-          Ponto de vista lógico, enquanto estruturas formais independentes da subjetividade , da consciência individual

*

-          Alemanha, depois na Inglaterra
Lógica – matemática – Leibniz
Filosofia Analítica da Linguagem – Frege
Russell e Wittgenstein
-          A semiótica de Peirce - no EUA
-          O Positivismo Lógico – Círculo de Viena
Carnap e Schlick
-          A Filosofia das formas simbólicas – neokantiano
Cassirer
-          A Hermenêutica na Alemanha
Schleiermacher – Gadamer
-          O Estruturalismo Lingüístico – Saussure (1916)
Antropologia de Levi-Strauss (1958)
Contexto cultural francês – Pós-estruturalismo com Louis Althusser, Jacques Lacan, Michel Foucault e Roland Barthes
-          A Antropologia Lingüística na Inglaterra
Malinowski
EUA – Sapir e Benjamin Lee Whorf
-          A teoria lingüística de Noam Chomsky

Período Contemporâneo:
  1. Herdeiros diretos da Modernidade
  2. Críticos da Modernidade – Nova forma de Filosofar

  1. Herdeiros da Modernidade
a) Fenomenologia – Husserl (França e Alemanha)
Século XVIII – Lambert (“ciência das aparências)
Hegel (“ciência da experiência da consciência”)
-          Husserl (1859-1938) inspira-se na idéia de Hegel
-          Moravia-Império Austro-Húngaro – Professor Freiburg (Alemanha) – Influenciou Heidegger
Lema: “de volta às coisas mesmas”
Teoria do Conhecimento
Seguidores: Schutz (1899-1959) e Scheler (1874-1928)
-          França: Merleau-Ponty (1908-1961) – Fenomenologia da Percepção

b) Existencialismo – França – influenciou pensamento francês do pós-guerra (50-60) – Filosofia, Teatro, Cinema, Literatura
Sartre (1905-1980)
-          mâitre à penser” – anos 60)0
-          professor de Liceus – França – anos 40; fundou a revista “Les Temps Modernes”
-          discípulo Fenomenologia – A Imaginação (1936) – Esboço Teoria das Emoções (1939)
-          Literatura: A Náusea (1938) – Caminhos da Liberdade (1944-49)
-          Teatro: As Moscas (1943) – Entre Quatro Paredes (1945)
-          Filosofia (Filosofia Existencial): O Ser e o Nada (1943) – O existencialismo é um humanismo (1946)
Primeiros lemas do pensamento de Sartre: “Nós somos o que fazemos do que fazem de nós”
Crítica da Razão Dialética (1960) – afasta-se do existencialismo e das raízes fenomenológicas – adota perspectiva marxista
Marxismo: “Filosofia é inevitável de nosso tempo”
1970 – novo “mâitre à penser” francês: Foucault (1926-1984)
Existencialismo também em:
-          Camus (1913-1960): A peste, O estrangeiro. – Mito de Sísifo: “símbolo da inutilidade da ação humana”
-          Jaspers, Marcell, Chestov, Buber

c) Filosofia Analítica e Positivismo Lógico: Inglaterra, EUA e Austrália; vertentes na Alemanha, Áustria e Polônia
               *
Leibniz
                *
a solução de pensamentos filosóficos: análise lógica da linguagem
                 *
Frege, Rusell e Wittgenstein e o Círculo de Viena: Schlick, Neurath e Carnap
                 *
em 1935: EUA – Universidade Chicago – Quine e Goodman = Skinner

d) Escola de Frankfurt
Adorno, Horkheimer e Benjamin
Teoria Crítica da Cultura e da Sociedade – Retomando a Filosofia de Marx.
                  *
Luta contra o controle e a dominação nos processos naturais e sociais
-          2ª geração da Escola: Habermas – Análise Crítica da Ideologia


  1. Críticos da Modernidade (Ruptura)
a) Filosofia de Heidegger (1889-1976)
Retomada da ontologia – superação do “esquecimento do Ser”

b) Filosofia de Wittgenstein:
-          1º Wittgenstein: Fundamentar o conhecimento da realidade na lógica, na epistemologia
-          2º Wittgenstein: linguagem – jogos de linguagem – “O significado de uma palavra é seu uso na linguagem”.

c) O pensamento pós-moderno
-          Estruturalismo de Saussure (1857-1913)
Noções de Estrutura + Noções de Diferença
Toda estrutura é de certo modo lingüística e estabelece relações de significação
-          Pós-estruturalistas:
* Lacan (1901-1981) – psicanalista
* Althusser (1918-1990) – teórico marxista
* R. Barthes (1915-1980) – semiólogo e teórico da literatura
* M. Foucault (1926-1984) - filósofo
-          Deleuze (1925-1995) – Anti-Édipo – “liberar o desejo”
-          Lyotard (1924-) – noção de pós-moderno; novos rumos para o pensamento
          *
            Polêmica com Habermas: “modernidade: um projeto inacabado”.
-          Rorty (americano) (1931-) – A filosofia e o espelho da natureza (1979)
          *
Filosofia deve abandonar sua pretensão a fundamentar o conhecimento e a legitimar práticas éticas e políticas, transformando-se em uma espécie de narrativa, de conversação ou discussão => busca de significado e de esclarecimento, sempre em aberto, sem estabelecer teoria ou sistema.

Sobre Linguística

Vera Marta Reolon

1) Disserte sobre as (possíveis) relações existentes entre os conceitos de “campo” (Bourdieu) e de “região”, levando em consideração as noções de espaço social e espaço político-geográfico.
             A sociologia de P.Bourdieu está centrada no conceito de “habitus” construído sobre a história individual e coletiva para fundamentar as práticas individuais e coletivas. Ele atrela os conceitos de campo e de capital ao de “habitus”, os quais constituem o núcleo de sua sociologia. Para Bourdieu o campo social, diferente do que apregoa Marx, não se restringe ao campo econômico. Formação social para ele é um “sistema de relações de forças e de sentido entre grupos ou classes”.[1] “Objeto social encerra um conjunto de relações internas, um sistema de relações cujo funcionamento a análise permitirá explicar”[2] E, campo social como “espaços estruturados de posições (ou postos), cujas propriedades dependem de sua posição nestes espaços e que  podem ser analisados independentemente das características de seus ocupantes (em parte determinados por elos).”[3] “O “espaço social” assinala uma ruptura com as representações tradicionais da hierarquia social fundadas sobre uma visão piramidal da sociedade. Esta atribui a cada classe uma posição na escala social em função de suas condições materiais de existência.”[4]
         Bourdieu diz então do mundo social: 
         “Assim, pode-se representar o mundo social sob a forma de um espaço (com várias dimensões) construído sobre a base de princípios de diferenciação ou de distribuição constituídos pelo conjunto das propriedades que agem no universo social considerado. [...] Os agentes e os grupos de agentes são assim definidos por suas posições relativas neste espaço. Cada um deles está situado numa posição ou numa classe precisa de posições vizinhas (isto é, numa região determinada do espaço) e não se pode ocupar realmente, mesmo que  seja possível fazê-lo em pensamento, duas regiões opostas do espaço. [...]  Pode-se descrever o espaço social como um espaço multidimensional de posições tal que toda posição atual pode ser definida em função de um sistema multidimensional de coordenadas, cujos valores correspondem aos valores de diferentes variáveis pertinentes. Assim, os agentes se distribuem nele, na primeira dimensão, segundo o volume global do capital que possuem e, na segunda, segundo a composição do seu capital- isto é, segundo o peso relativo das diferentes espécies no conjunto de suas possessões.”[5]
         Assim, sociedade, para Bourdieu é um conjunto de campos sociais, atravessados por lutas de classes, diferenciados progressivamente. Na evolução das sociedades surgem campos sociais produzidos pela divisão de trabalho nesta sociedade. Estes espaços socialmente construídos, que constituem um campo social determinam rede de relações objetivas entre as posições, estas posições são diferenciadas por relações de poder definidas conforme a capacidade dos agentes ou instituições de domínio sobre os objetos de interesse que dão forma ao campo, bem como sobre o capital envolvido nestas relações.
         Campos sociais são espaços sociais constituídos de agentes, capital e status. A sociedade é constituída de diferentes campos interseccionados. Os campos têm leis de funcionamento e tem suas especificidades. O interesse sobre o campo define sua especificidade. Os campos não são espaços com fronteiras rígidas nem são independentes. Articulam-se entre si, cada um se interliga conforme determinados elementos para conhecimento um do outro e da estrutura do espaço social. Um campo articula-se com o outro e com o “geral” social numa relação de conhecimento inter e intra subjetivo.
         A sociologia bourdieusiana constitui as idéias de campo social, sociedade, espaço social com a idéia de “habitus”. A análise do indivíduo e da sociedade passa pelo conceito central de Bourdieu: o “habitus”. O “habitus” é composto por “ethus” (designa os princípios ou valores em estado prático) e “hexis” (corresponde às posturas interiorizadas inconscientemente pelo indivíduo ao longo de sua história). Nesse sentido, o “habitus” é a forma pela qual a realidade é percebida como produto da posição e da trajetória social do indivíduo e está em constante reestruturação. O “habitus” estrutura a sociedade segundo o perfil individual e sua relação com o grupo e o campo social. A relação entre o “habitus” e o campo é antes de tudo uma relação de condicionamento, mas é também uma relação de conhecimento ou construção cognitiva, o “habitus” contribui para constituir o campo como mundo significante, dotado de sentido e de valor, no qual vale a pena investir energia.
         Bourdieu estuda o sujeito enquanto sujeito socializado, seu papel nesta convivência socializada. O “habitus” seria um conjunto de elementos comportamentais incorporados pelo sujeito para viver determinadas situações sociais e para manter-se socialmente inserido a este mundo social. Os indivíduos que constituem um campo social determinado compartilham interesses comuns que garantem a existência deste campo. Os diferentes campos assumem uma identidade própria que permite o funcionamento do campo com suas regras e intercâmbio simbólico e material.Aqui entra a idéia de capital, que diz de um valor que mantém o campo articulado, definido. O possuidor do capital, de acordo com as regras estruturais de funcionamento do campo social, estabelece sua posição no campo, conforme a quantidade e a qualidade do capital que possui. Campo, “habitus” e capital representam expressões específicas de uma cultura, que constitui conjunto de indivíduos, grupos ou instituições que assumem uma posição em um espaço social e que compartilham interesses comuns.
         O conceito de região, desenvolvido no Programa de Mestrado em Letras e Cultura Regional constitui que a idéia de região é uma construção. “Uma região é constituída de acordo com o tipo, o número e extensão das relações adotadas para defini-la, de onde ser possível que as fronteiras se desloquem conforme seja utilizado, com maior ou menor ênfase, um ou outro critério para a sua delimitação.”[6]
         Região, neste programa de Mestrado, portanto, não é vista apenas como divisão político-geográfica, mas como uma construção simbólica, constituindo uma rede de relações, como um espaço político-geográfico socialmente construído, é um espaço periférico em relação ao centro.
         Pierre Bourdieu anuncia sobre a idéia de região: 
         “A “régio” e suas fronteiras não passam do vestígio apagado do ato de autoridade que consiste em circunscrever a região, o território, em impor a definição legítima, conhecida e reconhecida, das fronteiras e do território, em suma, o princípio de divisão legítima do mundo social. Este ato de direito que consiste em afirmar com autoridade uma verdade que tem força de lei é um ato de conhecimento, o qual, por estar firmado, como todo poder simbólico, no reconhecimento, produz a existência daquilo que enuncia..”[7]        
         As idéias de região, tanto de Pozenato, quanto de Bourdieu, desenvolvidas neste programa de Mestrado, não constituem idéias acabadas de uma realidade concreta, são realidades em construção, influenciadas pelos valores simbólicos desenvolvidos em seus contextos.
         Assim, penso que as idéias de região, propostas no programa de Mestrado e as idéias de campo social, conforme desenvolvidas por Bourdieu em sua sociologia se interligam. Ambos, campo e região são construções sociais determinadas a partir das relações que se desenvolvem em seu interior e produzem maior ou menor peso, em relação ao centro, conforme o capital, “valor” que possuem em suas características próprias, determinadas pelos outros campos ou regiões, por um outro que a observa ou determina. Região é hoje um feixe de relações em uma rede sem fronteiras. 

2) Disserte sobre as relações existentes entre Língua e Identidade Social e (ou) Cultural.
         Diversos são os aparatos ideológicos que tornam um sujeito pertencente a determinado grupo 
pelos processos de socialização: família, escola, religião, partidos políticos, exército, etc. Estes aparatos ideológicos estão relacionados às formações ideológicas vinculadas a diferentes formações discursivas, estas reportam-se a um discurso específico, que está inserido em uma linguagem vinculada a uma ideologia.
         A partir do enunciado se depreendem as noções do discurso. O sujeito da enunciação é um sujeito instituído na Análise do Discurso, a partir da linguagem, como ele, através do signo, se apresenta, o modo como o discurso marca o sujeito. O sujeito da Análise de Discurso está constituído na linguagem. No livro Cinq Leçons sur la Théorie[8] de Jacques Lacan, de Nasio, Saussure é uma vítima, quando ele reconhece “a ordem lingüística do significante” (p.24). Mas logo acrescenta que este só é determinado por “três critérios não lingüísticos” (ibid). Atribui a Lacan, post mortem, afirmações surpreendentes sobre Saussure (p.93), e diz que “Lacan respeita a diferença estabelecida por Saussure entre língua e linguagem: a língua é a linguagem falada” (p.73).  Saussure nunca fez esta afirmação.
         Em psicanálise, o “inconsciente está estruturado como linguagem”, segundo Lacan e “significante é o que representa o sujeito para outro significante”. Logo, as formações discursivas, os contactos de uns com os outros, se dão através de significantes lingüísticos, representantes da “coisa” no inconsciente. Kant diz que “a coisa é incognosível em si mesma”. Lacan, leitor de Freud coloca que a coisa é representada, simbolizada. O inconsciente é da ordem do Real, registro que não diz de si mesmo, só é representado no registro do Simbólico. O inconsciente está no registro do Real, a língua, segundo meu entendimento seria uma das formas que o Simbólico utiliza para fazer as representações inconscientes, transformadas na linguagem.  
         A língua falada seria o conjunto dos signos utilizados por determinado grupo para que possam se compreender, interagir. Mas a língua, neste contexto, não seria só uma forma de comunicação. Além de transformação do inconsciente em símbolos, ela passa a ser uma marca distintiva de um povo, de um grupo, uma marca identitária, que identifica este grupo para outro, que o diferencia dos demais. Quando passagem de representação simbólica do inconsciente, para marca identificadora de um grupo, a língua a meu ver, muda de registro, ela passa do registro Simbólico (representação significante), para registro Real (marca primordial de um sujeito, no caso, o grupo ao qual pertence). Torna-se então uma marca primordial de identidade social, cultural.
         Pensando desta forma, e provando-se desta teoria, seria extremamente complicado para um imigrante, portanto, deixar seu país, um grupo, com suas marcas, Reais e Simbólicas, e inserir-se em outro grupo, formando novas marcas, seria em psicanálise, nascer de novo, ser um outro sujeito, com outras marcações. Daí as formações dialéticas, talvez, as transposições de letras, a tentativa de juntar duas representações lingüísticas e criar uma nova, sua, à semelhança do bebê que aprende a caminhar, a viver, experimentando novas situações, conforme vai aprendendo-as (pensando na teoria da assimilação, acomodação, equilibração de Piaget) vai sabendo de si, vai se constituindo.
         Daí talvez, as muitas dificuldades em “traduzir” uma palavra para outra língua, pois carrega muitas outras representações, Simbólicas, mas também constitui marcas Reais, não passíveis de serem ditas, só representadas.
         Falar outra língua, ter uma língua é constituir uma identidade social e (ou) cultural, é ter um sentido de pertencimento a determinado grupo, é uma marca identificatória pessoal e grupal. 

3) Disserte sobre o conceito de língua funcional em Coseriu, conforme a obra “Noções de Lingüística Geral”. 
         A obra Noções de Lingüística Geral[9], de Eugenio Coseriu, procura relacionar signo com fatores exteriores, ou melhor, extralingüísticos, afirmando que o sistema lingüístico não é fechado. Isso ocorre quando o sujeito não utiliza apenas a língua, em si, mas também outros artifícios expressivos da linguagem, como os gestos, as diferentes entonações, o uso de sinais ou mímicas.
         Coseriu afirma, com convicção, que para entender ou determinar o funcionamento de uma determinada língua, o pesquisador deve levar em conta esses contextos e fatores extralingüísticos, tanto na fala, como na escrita. O autor também coloca que é necessário analisar o uso de fatores culturais e sociais extralingüísticos.
         Além disso, Coseriu, em sua obra, estabelece relações entre o estruturalismo – doutrina defendida por Sausurre que considera qualquer sistema como um conjunto de elementos solitários entre si de modo a formar uma estrutura – e a sociolingüística. Para Eugenio, entretanto, a língua histórica é mais que um sistema lingüístico, ela é um “diassistema”, ou seja, um sistema constituído de outros subsistemas (das variedades lingüísticas) – um conjunto complexo de dialetos, níveis e estilos de língua. Coseriu conclui, a partir dessas observações, que a língua histórica não é homogênea e apresenta sempre variedade interna.
         Estas variedades lingüísticas não são geradas pelo sistema, são geradas pela relação com os fatores extralingüísticos. Segundo o autor, elas, as variedades, são chamadas de línguas funcionais. As diferenças que compõem a língua histórica pertencem a três tipos de fatores extralingüísticos: “diatópicas”, diferenças geradas por fatores geográficos; “diastráticas”, diferenças entre os estratos sócio-culturais da comunidade lingüística, tais como idade, sexo, profissão, escolaridade, classe; e “diafásicas”, diferenças entre as situações do dia-a-dia, as quais o indivíduo se força a adequar a linguagem. O sistema, conforme Eugenio, é afetado pelo exterior.
         Portanto, para Coseriu, não é possível, e viável, descrever uma língua histórica, estruturalmente, como um sistema lingüístico, homogêneo, pois ela contém subsistemas lingüísticos, extremamente, diferenciados.
         O autor estabelece, com isso, uma distinção entre língua funcional língua histórica. A língua histórica é uma língua constituída como unidade ideal e identificada como tal por seus “falantes” e pelos “falantes” de outras línguas,nunca é homogênea. É um conjunto complexo de tradições lingüísticas, historicamente conexas, mas diferentes entre si e, somente em partes, concordantes. A língua funcional, por sua vez, é uma técnica lingüística inteiramente determinada, unitária e homogênea, em três aspectos: um só dialeto em um só nível e em um estilo único de língua, ou seja, uma língua sintópica, sinstrática e sinfásica.
         A língua histórica é, portanto, de acordo com Coseriu, um sistema de línguas funcionais. Cada língua funcional tem uma norma, constituída a partir de regularidades. Entretanto, essa norma não se relaciona com a norma culta.
         Para Coseriu, a norma é normal. A norma é procurada pela abstração, num conjunto de regularidades. A norma é regular, não é imposta. 
         Cada língua falada é um idioleto, por cada sujeito; o dialeto é uma abstração. A língua funcional é uma abstração, ela não vê a particularidade dos idioletos. Para descrever uma língua histórica, por outro lado, seria necessário descrever todas as línguas funcionais integrantes dela.
         A língua funcional, na perspectiva de Coseriu, é vantajosa por ser homogênea e por ser realizada nos discursos ou textos. Entretanto, apresenta um inconveniente: não pode ser facilmente deduzida dos textos, nem do falar de um só indivíduo, pois todo falante conhece e utiliza mais de uma língua funcional.

         Tendo em vista as conclusões do autor, ao fazer-se o estudo de uma determinada língua, devemos realizar um corte sincrônico que atravesse os diferentes subsistemas gerados por fatores geográficos, por diferenças entre os estratos sociais e pela adequação da linguagem às diferentes situações do cotidiano. (Vide esquema abaixo). Portanto, a descrição estrutural da língua, que é uma variedade de fatores, não pode ser apenas sincrônica, mas deve ser também sintópica, sinstrática e sinfásica.   
    

                                          
  



[1] BONNEWITZ, Patrice. Primeiras Lições sobre a Sociologia de Pierre Bourdieu. Petrópolis: Vozes, 2003. p. 22.
[2] Idem. p.38.
[3] idem. p.38.
[4] idem. p.52.
[5] BOURDIEU, Pierre. Espace Social et Genèse des “Classes”.Op.cit.,p.3.
[6] POZENATO, José Clemente. Universidade e Região: A regionalização como... Dissertação de Mestrado.S.Paulo: Universidade Federal de São Carlos, 1995. p.19.
[7] BOURDIEU, Pierre. O Poder Simbólico. São Paulo: Ditel, 1989. p.114.
[8] NASIO, Juan-David. Cinq Leçons sur la théorie de Jacques Lacan. Rivages-Psychanalyse,1992.
[9] COSERIU, Eugenio. Noções de lingüística geral. Rio de Janeiro: Ao livro técnico, 1980.

Deontologia e Justificação Epistêmica: Ética e Epistemologia


Vera Marta Reolon

            A noção deontológica de justificação epistêmica surge de um paralelo traçado entre ética e epistemologia mediante a utilização de um vocabulário deontológico para a avaliação de um status epistêmico de nossas crenças. John Locke surge como um de seus representantes mais ilustres. Relação entre justificação e normatividade.
             Deontologia vem de deontos = dever, logos= tratado, daí deontologia seria tratado do dever. Estudo da ética que orienta cada profissão. Na epistemologia, duas teorias de justificação: as deontológicas e as não deontológicas. 

Justificação epistêmica
Teorias da justificação, dois grupos: deontológicas, que usam termos deônticos, semelhantes àqueles utilizados na Ética, para mostrar o caráter normativo dos conceitos epistêmicos; e as não-deontológicas.
Numa linha de pensamento, ‘deveres epistêmicos’ para explicar o conceito de ‘justificação epistêmica’. Conceitos epistêmicos não são redutíveis a conceitos éticos. Após esse debate, a conexão estabelecida entre Ética e Epistemologia tem sido meramente analógica.

Normatividade epistêmica
            Ter conhecimento é uma questão de se o mundo coopera a ponto de retribuir crença justificada com verdade. Se Smith pode estar justificado em crer em uma preposição falsa, e não houve algo errado no modo como Smith adquiriu sua crença Ψ, parece plausível supor que o sentido de justificação epistêmica que Gettier estava pensando, ao apresentar seus contra-exemplos, era o de ser epistemicamente irrepreesível ao crer.
            Justificação epistêmica possui um componente deontológico inerradicável. A explicação usual do conceito de justificação epistêmica está associada a algum elemento deontológico.
            Alvin Goldman afirmou que: “[d]eontologistas epistêmicos comumente mantêm que estar justificado em crer em uma preposição p consiste em estar (intelectualmente) obrigado ou autorizado em crer que p; e estar injustificado em crer que p consiste em não estar permitido, ou estar proibido, em crer que p” (2001, p.116).
            A noção de justificação epistêmica invocada por Gettier vai ao encontro da noção deontológica.

A origem da justificação epistêmica baseada em dever
            Chisholm e Ayer utilizam termos normativos importados da Ética para explicar o conceito de justificação epistêmica. Jonh Yolton comenta que “distinguir as boas das más bases para a crença constitui o que foi chamada a ‘ética da crença’ de Locke” (1996, p.67). Essa visão recorre à noção de deveres epistêmicos para explicar o conceito de “justificação epistêmica”. O rótulo dado, muito recentemente, a essa visão é o de Deontologismo Epistêmico. Para Locke, a noção de dever tem um papel central no empreendimento epistêmico. Ele está garantindo a normatividade do seu discurso sobre as bases da crença.
            Violar um dever significa negligenciar uma importante qualidade epistêmica. Não violar um dever epistêmico significa não estar sujeito à culpa ou reprovação epistêmica.
Crer que p, quando p não lhe parece provável => epistemicamente culpável.
            Alvin Plantinga argumenta nos seguintes termos:
                                  
Agir de acordo com estes deveres ou obrigações é estar dentro daquilo que é correto; é fazer somente aquilo que é permitido; é não estar sujeito a alguma culpa ou desaprovação; é não ter desprezado qualquer dever; é ser aprovável deontologicamente; é, em uma palavra, estar justificado. [...] justificação epistêmica é justificação deontológica; justificação deontológica com respeito à norma da crença. (1993a, p.13-14)

            Não basta alcançar a verdade acidentalmente. Adquirir crença verdadeira não é suficiente para tornar alguém epistemicamente irrepreensível. Alguém pode estar justificado em crer, mesmo que a maioria de suas crenças seja falsa.
Justificação epistêmica, nessa perspectiva, não depende de nenhum fator externo ou agente doxástico. Tudo o que o sujeito necessita para estar justificado pertence a sua vida mental.
            O que alcança o mérito ao agente doxástico e, portanto, o torna irrepreensível não é o crer verdadeiramente, mas crer ou deixar de crer segundo o comando da sua razão. O destino epistêmico de um sujeito deveria sempre encontrar-se em suas mãos. Estaria dentro do poder do sujeito sempre fazer o seu melhor e estar longe da censura.
            Locke está pensado claramente em dever ou obrigação subjetiva, visto que ele está pensando em inocência e culpa, responsabilidade e irrepreensibilidade. Estar justificado depende daquilo que é acessível ao agente. Mas além do subjetivo, ele também está falando de um dever objetivo. Para Locke, alguém deve crer naquilo que é epistemicamente provável em relação a sua evidência total. Alguém deve crer somente em preposições para as quais tem boas razões.
            Dever objetivo para Locke seria regular suas crenças. Alguém que não faz assim, ele diz: “vai contra sua própria luz e usa de maneira errada aquelas faculdades que lhe foram dadas”.
            Como seres intelectuais, nós temos, o que podemos chamar, um fim epistêmico, a verdade. A perseguição deste fim nos impõe certos deveres: deveres epistêmicos objetivos e subjetivos.

O uso de termos normativos
            Na Epistemologia, as pessoas fazem julgamentos comparáveis entre opiniões e outros atos cognitivos, usando, às vezes, a mesma linguagem normativa. Roderick Firth e Roderick Chisholm alegaram que existem componentes de natureza deontológica na base dos conceitos epistemológicos. Pode-se pensar exigência, proibição e permissão como os termos deontológicos básicos, em obrigação e dever como espécies de requerimento, e em responsabilidade, culpabilidade e outros termos semelhantes como derivados. Conceitos epistêmicos não são redutíveis a conceitos éticos. A utilização do vocabulário deontológico, para fazer juízos epistêmicos, é apenas analógica. A conexão entre justificação epistêmica e justificação ética é, também, analógica.
            O conceito de ‘justificação’ pode estar analisado utilizando termos deontológicos em um sentido especificamente relevante para a perseguição do conhecimento.
            Se justificação está em função de cumprir deveres, então ela possui um caráter normativo. Ter um dever é estar sujeito a uma exigência normativa. Deveres fornecem alguma razão justificada para a ação. De forma semelhante, ter um dever epistêmico significa estar sujeito a uma exigência normativa. Se S é capaz de explicar por que tomou A, alegando que era seu dever, então oferece uma justificação para sua ação doxástica. Chisholm afirma que nós temos um dever epistêmico formal como seres intelectuais de tentar fazer o melhor possível para alcançar o fim epistêmico de crer em verdades e não crer em falsidades, a fim de crer em proposições se e somente se elas forem verdadeiras.

Normatividade teleológica
            Paralelos entre o discurso ético e o discurso epistemológico em relação ao caráter avaliativo dos conceitos de justificação, racionalidade e garantia. O conceito de justificação epistêmica é, em algum sentido, um conceito normativo. A preocupação é descrever normas que não podem ser violadas por um agente. Há dois pontos de vista quanto à normatividade dos juízos morais: o teleológico e o deontológico. Juízos epistêmicos são mais naturalmente entendidos em linhas teleológicas.
            Para um teleologista, o valor epistêmico das atitudes doxásticas depende de um valor não epistêmico que faz surgir ou que busca fazer surgir. As teorias teleológicas colocam o obrigatório e o epistemicamente bom na dependência do não epistemicamente bom. Para saber qual a atitude doxástica correta, deve-se primeiro averiguar o que é bom, no sentido não epistêmico, e depois indagar se a atitude doxástica em questão promove ou se destina a promover o bom naquele sentido.
            De acordo com Richard Feldman, parece razoável interpretarmos o termo “lei” não como “dever”, mas como “objetivo” ou “fim”, uma vez que ele apenas nos diz o que devemos obter, mas não os meios e os modos como obter tais fins ou objetivos.
            Frente a duas posições extremas, crer em tudo, a fim de crer em muitas ou todas as verdades; e crer em pouca coisa, a fim de crer em menos falsidades possíveis, faz-se necessário achar uma mescla adequada, a fim de atingir a excelência epistêmica.

Deontologismo epistêmico
            Richard Feldman argumentou que nem sempre o mérito prudencial, moral e epistêmico coincidem. Por outro lado, é possível imaginar uma situação em que alguém, ao fazer x, cumpre ao mesmo tempo com seu dever ou obrigação prudencial, epistêmica e moral. Se cumprir seu dever epistêmico é, em um dado momento, incompatível com cumprir naquele mesmo momento seu dever moral, então qual deles deve ser cumprido? Deveres morais sempre superam deveres epistêmicos? Para Feldman, não há qualquer problema com a idéia de que deveres do mesmo tipo podem ter igual importância. O ponto relevante é que pode existir alguma escala de valores. Cumprir com um dever contribui mais que cumprir com o outro para alcançar o que possui valor intrínseco. O problema, segundo Feldman, é que não há clareza em como conduzir uma avaliação com uma escala valorativa de deveres de vários tipos.
            Os fatores epistêmicos podem conduzir em alguns casos a resultados diferentes daqueles atingidos pelos deveres morais ou prudenciais. A visão de que o conceito de justificação é definido em termos de deveres doxásticos epistêmicos é denominada deontologismo epistêmico. A diferença entre dever epistêmico e moral é que alguém deve crer, descrer, ou suspender o juízo frente a uma proposição, em quanto alguém pode licitamente realizar ou não realizar uma ação.
            O Deontologismo Epistêmico trata propriamente dos deveres epistêmicos em relação a crenças. Ele explica a justificação epistêmica por meio de deveres epistêmicos doxásticos. Portanto, os deveres não exigem do sujeito buscar ou considerar mais evidências, apenas tomar atitudes doxásticas de acordo com alguma regra epistêmica.
            O resultado da fenomenologia da crença colocou em dúvida que pessoas tenham habilidade para controlar suas crenças como a têm para controlar suas ações. Raramente, pessoas têm controle voluntário sobre suas crenças.
            Há dessemelhança com a Ética. Há distinção entre justificação objetiva e subjetiva. Ter justificação epistêmico subjetiva parece não ser suficiente para alcançar a desejada excelência epistêmica. Alguns tentam identifica a noção deontológica com justificação epistêmica objetiva, mas isso parece colocar de lado a característica fundamental dessa noção, a saber, a irrepreensibilidade epistêmica.

REFERÊNCIAS
CHISHOLM, R. Theory of Knowledge. Englewood Cliffs: Prestice-Hall, 2. ed., 1966.
FELDMAN, R. Epistemic Obligation. Philosophical Perspectives 2, 1988, p.235-256.
_______. Epistemology and Ethics. In: CRAIG, E., 1998.
_______. The Ethics of Belief. Philosophy and Phenomenological Research 3, 2000, p.667-695.
GOLDMAN, A. Epistemology and Cognition. Cambridge: Harvard University Press, 1986.
_______. Internalism Exposed. Reprinted. In: STEUP, M. 2001, p.115-133.
LOCKE, J. An Essay concerning Human Understanding. New York: DOVER, 1959.
PLANTINGA, A. Warrant: The Current Debate. Oxford: Oxford University Press, 1993a.
YOLTON, J.W. Dicionário Locke. Rio de Janeiro: Zahar, 1996.

CURADORIA!



VERA MARTA REOLON
GUILHERME REOLON DE OLIVEIRA

  
CURADORIA!

Qualquer um pode ser Curador?

O que é curadoria?

Pois bem!


Curador é cuidar, zelar pela obra do artista, dar visibilidade ao trabalho dele. Cuida do negócio da arte, em contraposição à criação em arte.

Curadoria é um campo interdisciplinar (valor da obra, patrocínio, logística, aluguel de espaço, iluminação, contacto com  imprensa, contextualização (histórica, cultural e teórica) do trabalho ). De onde e para onde a obra quer ir. Levantar características que dêem visibilidade à obra.

Trabalho do curador abre um acontecimento, apresenta o trabalho como matrizes para novas seqüências: raízes e ramos que podem surgir da obra.  Acrescenta marketing e outras linguagens à obra. Abre um sentido, dá sentido ou dá um espaço para que outros sentidos possam surgir. O curador deve ter sensibilidade para apresentar o objeto curado para que não haja prejuízo de percepção. Não deformar o trabalho nem para mais, nem para menos. Tem uma função social e de educação não formal. – a partir de texto de Cauê Alves, intitulado Curadoria como historicidade viva.


A exposição fotográfico-performática  A fotografia como corpo performatizado: a autoridade de imagem  construída, que está acontecendo no Espaço Cultural ESPM-SUL, sob curadoria de Niura Legramante Ribeiro, certamente atinge os objetivos de uma curadoria como o autor propõe.
A curadora apresenta a idéia de fotografias com corpos-modelos, apresentando movimentos, vinculados ou não à natureza, aos objetos, à vida que se desenvolve e se desenrola no decorrer do tempo fotografado.
A curadora apresenta as fotografias, como momento do modelo fotografado – o performer, o fotógrafo está aí para registrar este momento.
Diversos são os fotógrafos, como diversos são também os modelos fotografados, os ambientes, as nuances de cor, sugestão de movimentos, luz, imagem.
Segundo a curadoria a fotografia selou um pacto com a representatividade, para formar uma noção de imagem.


Para mim, a fotografia, em seu início, buscava registrar e reter um momento, uma imagem que se quisesse perpetuar na lembrança. Esta era a função da fotografia.

Em nossos dias, a manipulação das imagens, em todos os contextos, mesmo para retocar uma fotografia mal-feita, ou sem os resultados esperados, para manipular a imagem de uma modelo com distorções, imperfeições, tudo se tornou uma outra busca, uma busca performática que faz, tanto do modelo retratado, quanto do fotógrafo, um possível “artista”.
Esta acaba sendo a idéia proposta pela curadoria no caso, penso eu, com os artistas presentes na apresentação (fotógrafos e modelos).

A curadoria preparou fotografias performáticas, aliando movimentos, simulados ou não, a manipulações das imagens, propondo novas (ou velhas leituras).

Em fotografias de inserções de modelos na natureza, a cor, a luz, a sombra, o aparecer-desaparecer.

Registros de sombras, de movimentos, a sombra => seqüências de fotos e/ou manipulação de imagens, seqüências como cinema, dando a sensação do movimento através do tempo.


Selecionamos, de início, duas fotografias da mesma fotógrafa, Danny Bittencourt.


1

DANNY BITTENCOURT

Superfície

Impressão em papel Fine Art
A fotografia mostra uma modelo deitada sobre a água com perna e braço esquerdo erguidos. Aqui o movimento é o correr da água, a modelo está imóvel no momento da tomada, mantendo um braço e uma perna fora da água. Estes membros não estariam sob o efeito do movimento da água?

2

DANNY BITTENCOURT

Resistência

Impressão em papel Fine Art
A fotografia retrata uma modelo na beira do rio, prestes a cair (ou dá a idéia de que está a cair dentro do rio) e o fotógrafo registra este ínterim anterior à queda.

Aqui o movimento é o da modelo. Ela está em movimento no ar, na “cena”.

3

CLÓVIS DARIANO

Do sagrado ao profano, 2014

Fotografia digital, 60x80
Uma imagem, circundada por diversas imagens, se contrapõe àquelas. A primeira, centralizada, em tamanho maior, parece estática. As demais, menores, por estarem “desfocadas”, remetem ao movimento. Mas a diferença é enganosa. O conjunto lembra uma obra fílmica, na qual se desenrola uma ação: o estar no quarto, o despir-se, culminando no ato masturbatório. A agilidade das primeiras ações parece quebrar-se num momento quase estático do último ato, representado na imagem central. O estático do êxtase remete à idéia metafísica de que o orgasmo é um “breve morrer” – aqui poderíamos dizer que há um paralelo do conjunto de imagens com a escultura “O êxtase de Santa Tresa “ de Bernini: um movimento estático, um êxtase em ação. E “do sagrado ao profano” pode, neste sentido, també configurar-se em “do profano ao sagrado”. Basta uma outra perspectiva hermenêutica.

4

NATÁLIA SCHULL

Movimento, 2015

Fotografia em papel fotográfico, 90x60
Uma série de imagens, colocadas lado-a-lado, enfileiradas, pode muito bem ser “lida” como um texto: da esquerda para a direita, de cima para baixo, tal como uma narrativa. Mas imagens correspondem a palavras? Há uma sintaxe que ligaria uma imagem a outra, formando um texto? Diversas imagens formam um conjunto narrativo? O cinema afirmará que sim. Mas a dúvida permanece. A artista-fotógrafa parece concordar, ao nomear sua obra “Movimento”. O conjunto de “Movimento”, assim, parece uma dança, uma obra coreográfica, uma “escrita de movimento”. A obra em questão, fotográfica, transfigura-se, neste sentido, em uma partitura de dança. Muito bem elaborada.

Fundação Iberê Camargo
A curadoria preparou uma exposição da obra de Iberê, denominada Diálogos no Tempo.

Curadora: Angélica de Moraes
A proposta é apresentar ao público uma investigação sobre o “DNA” da obra de Iberê. A curadora estabeleceu o período em que conheceu o artista, por volta de 1980, momento em que Iberê empreendeu um movimento de retorno ao corpo humano, à figura humana, aos reflexos que deformam o que espelham, com fartas camadas de tinta, as linhas em seu elemento natural.

5

IBERÊ CAMARGO

Estudos para a pintura Fantasmagoria IV, 1987

Tinta de esferográfica sobre papel, 32x17cm, 31,8x21,2cm

Col. Maria Coussirat Camargo/Fun dação Iberê Camargo, Porto Alegre.
Tracejados em preparação para uma possível pintura, um corpo feminino, um corpo masculino, anotações. O traçado dos corpos e a provável idéia de uso em serigrafias, sua mostra das obras nesta modalidade evidencia o uso do corpos e riscos coloridos sobre estes, como o proposto neste esboço (os riscos sobre os corpos!).

6

IBERÊ CAMARGO

Iberê, 1987

Óleo sobre tela/78x55cm

Col. Maria Coussirat Camargo/Fundação Iberê Camargo, Porto Alegre
Auto-retrato do artista. Tela escura, uso de cores escuras, excessos de tinta. O “retrato” se faz com sulcos profundos realizados com algum objeto pontiagudo que determina o traçado.

Esta tela, aparentemente, remete a outra do começo do artista em um auto-retrato, lá bem mais delineado e claro, quase uma fotografia mesmo, de sua juventude. Digo que a tela proposta remete  à segunda (que é anterior) pois ambas foram expostas juntas.
Na proposta da curadora as telas realmente foram colocadas, na exposição, lado a lado para que o visitante possa compará-las em momentos distintos da obra do artista.
Importante dizer que Iberê nasceu em 1914, em 18.11, em Restinga Seca (RS) e morreu em 09 de agosto de 1994, em Porto Alegre (RS).

7

IBERÊ CAMARGO

Diálogo, 1987

Óleo sobre tela

42x30cm

col. Maria Coussirat Camargo / Fundação Iberê Camargo, Porto Alegre
A figuração, retomada por Iberê na década de 1980, está presente, com traçados e pinceladas que remetem ao cubismo, com noção de perspectiva modificada, ora parecendo figuras “chapadas”, como nas pinturas bizantinas. O uso das cores escuras dominantes é contrastado com o branco que preenche os corpos. O estilo de Iberê se faz presente. Quanto ao conteúdo: o “diálogo” que dá nome à obra parece não-dialógico, muito mais impositivo, com um dos retratados com “dedo em riste”. O outro retratado, no entanto, ri. Que diálogo resta quando as línguas (os idiomas/as intenções) não conversam? Figura-se a “diferença” na obra, mas os diferentes, impondo-se, excluem-se. Fica a intolerância. 


Exposição de Sérgio Camargo – Fundação Iberê Camargo      
Exposição sob o título: Luz e Matéria

Curadoria Paulo Sérgio Dutra e Cauê Alves
Segundo os curadores a obra do artista se confunde com seu método de trabalho.Sérgio Camargo (1930-1990). Criação como processo íntimo da forma. São obras que se confundem “tela” com escultura, trabalhos em granito branco (mármore) e preto , além de peças em madeira (colagens).

8

Sem título, edição 82, 1965

Relevo, madeira pintada

42x62,4cm

Coleção particular
A “tela” está exposta como um quadro. São “caninhos” – “tocos”, como os chamou o artista – aparentemente “colados” a uma superfície de madeira e pintados por cima com uma cor ocre. Deixou um vão entre os “tocos”, como um “caminho” ,  entre pedras?.
Na verdade observar um trabalho em exposição, ou uma obra de arte em qualquer lugar é de uma fruição absolutamente individual, particular e da subjetividade de cada um. O observador dá valor à peça, que pode ou não ser igual a que o artista se propôs quando da elaboração da obra.

 Bibliografia
ALVES, Cauê. Curadoria como Historicidade Viva.